A Laranja Mecânica e o andaime

Holanda – Torcedores concentram-se no Centro de Porto Alegre (foto: Claudio Medaglia – Portal da Copa)

Holanda – Torcedores em Porto Alegre (foto: Claudio Medaglia – Portal da Copa)

 

A Copa do Mundo 2014 é uma celebração. Para mim, a imagem emblemática dessa primeira fase dos jogos é a da torcida da seleção da Holanda ocupando com a cor laranja a avenida Borges de Medeiros e outros locais da área central de Porto Alegre, antes do confronto com a Austrália, do qual a Laranja Mecânica se saiu vitoriosa.

Cerca de 2 mil torcedores reproduziram a tradicional mobilização “Orange Square”, dando uma demonstração da alegria que veio para o País com o evento esportivo. Não bastasse isso, um dos gols mais bonitos desta Copa até o momento pertence ao atacante holandês Robben, ao driblar o goleiro Casillas na histórica goleada contra a Espanha.

E não param por aí as demonstrações de que o País está produzindo uma Copa memorável. A empolgação da seleção alemã com os brasileiros e a repercussão da Copa na imprensa internacional dão conta de que foi acertada a escolha do Brasil para palco do evento.

Neste momento em que jogos históricos são realizados a cada dia, uma nova consciência também emerge na sociedade. As ruas trazem as manifestações dos metroviários, do Movimento Passe Livre, dos sem-teto. Do ponto de vista político, falta muito ainda para o País avançar; as conquistas sociais precisam ser ampliadas, ainda são muitas as forças reprimidas pelo histórico modelo de uma economia excludente e elitista.

Mas da janela do meu escritório vejo que não basta a política para o Brasil se modernizar e ser uma nação à frente de seu tempo. Ali onde ninguém imagina, ninguém vê, dois operários da construção civil equilibram-se em um andaime improvisado para rebocar a parede externa de uma construção. Estão na segunda laje, a cerca de dez metros de altura, e cada vez que os observo tenho dúvida se estarão íntegros para assistir ao embate entre Brasil e Camarões nesta segunda-feira.

As relações de trabalho no Brasil são arcaicas. No mínimo, o patrão que mandou seus funcionários improvisarem um andaime com pedaços de madeira acredita, mesmo inconscientemente, que sua construção é mais importante do que a vida dos trabalhadores. A construção civil é o segundo setor em mortes por acidente de trabalho no País. Perde apenas para o setor rodoviário de carga. E isso a despeito da explosão de preços no mercado imobiliário nos últimos anos, que nem mesmo tem servido para modernizar as relações de trabalho, mas apenas reforça o modelo excludente de sempre.

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