Tia Ufa

Liga, não liga? Liga, não liga? O inferno de sempre, falsa dúvida. Sabia que teria que ligar, pra saber do pai, da mãe, sobrinhos, família e do cachorro há muito sepultado. Convenções. (Atire pedras quem vive sem essas pragas domésticas: as convenções.) Ligou, sabedora do que a esperava:

— Oi, mana, tudo bem?

— Oi, Arlete. Bem nada, menina. Ando tão cansada, tão cansada. Tudo tão difícil. Como é custoso viver. Tenho muitas dores nas pernas, nos ombros. Calos nos pés me assombram. Sem falar da falta de ar, das rachaduras nos bicos dos seios… Ando tão cansada… Esporão. Aftas. O pai teima demais, a mãe está pior que ele, Juninho não quer saber de estudar, Isolda dá pra todo mundo, é o que dizem. Se ainda desse pra rapaz de futuro… Estou tão cansada, Arlete, minha irmã. Rezo pro dia não amanhecer, imploro pra noite chegar. Estou tão cansada. Minha vida é fazer comida, limpar a casa, lavar e passar roupa… Arlete, alô, alô?

— Tia, não é Arlete, é Marilda, sua sobrinha.

— Cadê sua mãe?

— Sua prosa a levou a nocaute. Caiu de cansaço. Até loguinho.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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