Espertos & Espertos

— Ananias, eu vou lhe dizer uma coisa: durante muito tempo, rejeitei aquela falação dos políticos, segundo a qual o Congresso é a cara do povo, espelho da sociedade.  Sempre achei que aquilo era uma forma que encontraram para justificar suas lambanças. Hoje, tenho minhas dúvidas. Não sei se eles estão de todo errados. O povo também não é lá essas coisas, não, Ananias.

— Mas eles roubam demais, Velho Marinheiro, só pensam em fazer negócios, em seus próprios interesses. E o povo que se dane.

— Eu sei, não precisa me dizer o óbvio, Ananias. Acompanho o noticiário. Mas também vejo o que se passa nas ruas. O dono do posto vende combustível adulterado. O sujeito, se puder, fica com o troco que não lhe pertence, surrupia o isqueiro do colega, afana o alicate do vizinho, adultera os relógios da água e da luz…

— Perto do que eles fazem isso é pinto!

— Pinto uma ova! Caráter é uma coisa que você tem ou não, Ananias. Quando eu digo o “povo”, eu estou querendo dizer que a maioria das pessoas, independentemente da classe econômica a que pertencem, quer, sim, levar vantagem em tudo. Neste país, todo mundo se acha esperto. Se puder engabelar o compadre, engabela. O problema é que uns poucos sempre serão muito mais espertos que a imensa maioria.

— O senhor está justificando as bandalheiras dos políticos?

— Não se faça de besta, Ananias. Pouco me importa se o cara é de esquerda, direita ou centro; se o liga é católico, evangélico ou espírita; se rouba para si ou para o partido; se é milionário, remediado ou pobre… Lugar de ladrão é na cadeia. O que não suporto é essa mania de idolatrar o povo, de querer transformá-lo num bando de beatos. Fie-se nisso, pra ver…

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

 

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Um pensamento sobre “Espertos & Espertos

  1. Lendo essa história do Velho Marinheiro é impossível não lembrar do comercial da Lei de Gerson, no início dos anos 70. ‘Esperteza’ é um conceito arraigado na cultura do brasileiro desde muito antes do Gerson, mas ele revestiu esse traço cultural de uma legalidade com a força de uma ‘dose nos canos’, como diz a malandragem, em termos de ideologia individualista. Essa ideologia está ai até hoje, e todo dia temos de experimentá-la nos espaços públicos, institucionais e outra praças cheias de merda de cachorro. Basta colocar o pé da porta pra fora:

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