Luxúria

A verdade sobre o amor não é o que está no Facebook, em milhares de fotos de casais aparentemente felizes, mas o que acontece dentro de quatro paredes, com o combustível do desejo ardente, que flui pelos laços amorosos ou simplesmente por uma disposição franca de ter prazer com o corpo do outro.

No passado, principalmente antes da revolução cultural dos anos 1960 e do surgimento dos movimentos feministas, deixar a sensualidade cruzar fronteiras e ampliar o território do prazer era considerado luxúria, um dos sete pecados capitais adotados pelo discurso do cristianismo para civilizar a trajetória histórica do homem.

Hoje, no entanto, a luxúria e suas transgressões se inserem em um contexto social, político e cultural diferente, de uma sociedade que não mais oprime a sexualidade, mas exige do indivíduo que tenha uma vida sexual intensa, plena, como que instaurando uma nova forma de ditadura.

Ubaldo – Manuscrito verídico teria sido a base do livro (Foto: Nerivaldo Góes/ASCOM/FPC)

Ubaldo – Manuscrito verídico teria sido a base do livro (Foto: Nerivaldo Góes/ASCOM/FPC)

Essa transformação que ocorreu ao longo do século 20 é o pano de fundo do livro ‘A Casa dos Budas Ditosos’, do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, falecido no mês passado.  Uma narrativa irônica, divertida e transgressora traz o depoimento em primeira pessoa de uma mulher aos 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, que relata sem meias palavras as memórias de uma vida voltada à libertinagem.

O texto, repleto de referências históricas e literárias sobre a questão, convida o leitor a driblar a hipocrisia que reina nas relações humanas e partir para o impensável, para o que está fora do domínio do senso, mas ocupa sua mente e dá significado à vida. Na introdução, o autor conta que o livro foi concebido a partir de um relato verídico entregue a ele por uma pessoa identificada pela sigla CLB, depois que foi noticiado que Ubaldo fora convidado pela editora Objetiva para escrever um título sobre a luxúria, que é um dos sete volumes da coleção ‘Plenos Pecados’.

Ubaldo dedica o livro “para as mulheres” na perspectiva de que a narrativa seja mais uma contribuição para a liberação feminina.  A história muitas vezes chocante de uma vida dedicada ao gozo é também referenciada por Norma Lúcia, amiga da narradora, um modelo de comportamento no que se refere à luxúria, já que para ser transgressor também é preciso ter um código de referência: “Ela era diferente, era realmente completa, sempre tive uma certa inveja dela. Inveja sadia, eu não queria tirar o que ela tinha, queria somente ter também o que ela tinha, ou melhor, ser como ela era. Tudo o que ela fez, fez num tempo em que tudo era bem mais difícil para as mulheres”.

 

A Casa dos Budas Ditosos – Luxúria,

João Ubaldo Ribeiro, editora Objetiva, RJ, 1999, 164 págs.

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