Poesia é protagonista em peça sobre Sylvia Plath

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

maurofmello@yahoo.com.br

A dramaturga Gabriela Mellão se debruçou sobre a obra e a vida da poeta estadunidense Sylvia Plath (1932-1963). “Acho Sylvia uma mulher infinita e muito próxima de todos nós. Sua escrita extremamente autobiográfica expõe potências e fragilidades comuns a todo ser humano de alma inquieta, em busca de um entendimento mais profundo de si e da vida. Ela demonstra plena consciência de que não utiliza plenamente toda sua capacidade. Não se contenta, quer sempre mais, caminhar, avançar, desenvolver-se”, conta a dramaturga. Desse mergulho nasceu a peça Ilhada em Mim – Sylvia Plath, que estreia no Sesc Pinheiros, na capital paulista, na quinta-feira (dia 18).

“Minha intenção foi revelar a complexidade do universo interior de Sylvia Plath, a potência de sua loucura e ao mesmo tempo de sua sensibilidade e extrema consciência”, explica. E esse universo embaralha obra e vida da poeta, que “evidencia seu compromisso de alma com uma arte vanguardista e verdadeiramente revolucionária, sua obsessão pelo esvair do tempo, seu desejo profundo e nunca plenamente atingido de ser mulher, amante, artista, filha e mãe”.

Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)

Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)

Dirigido por André Guerreiro Lopes, o espetáculo ainda investiga a conexão entre Sylvia e o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), com quem foi casada. “A tentativa foi revelar a relação de um amor intenso, tão vital como desestabilizador e destrutivo. Expor uma Sylvia movida pela paixão por Ted que definiu sua vida e obra, uma paixão que representa redenção e condenação na mesma medida, ou seja, vida e morte. A intenção foi revelar as emoções descontroladas da personagem, sua infinita capacidade de amar e sofrer, de entregar-se ao melhor e ao pior de sua paixão”, relata Gabriela. Djin Sganzerla interpreta Sylvia e Lopes, Hughes.

Inexiste a preocupação de fazer com que a narrativa transcorra de maneira linear, observa a dramaturga. “A peça não busca retratar a vida de Sylvia de forma didática, contar sua história. A intenção foi alcançar sua essência, jogar no palco as forças que se digladiavam dentro dela, que elevaram-na como mulher e artista e que também destruíram-na. Busquei o cheiro de Sylvia, seu odor mais perfumado e fétido. O texto é um vômito de amor, de sofrer, loucura, lirismo, vida, morte.”

A montagem foge da concepção realista, aponta. “A ideia do texto e da encenação foi se aproximar do lírico e do simbólico. No texto, a palavra poética é protagonista, busquei ultrapassar o discurso lógico criando imagens e estados que despertassem nos espectadores viagens sensoriais, além de mentais. O diretor traduz o texto em cena usando a água como metáfora para expor a inquietude sufocante de Sylvia, sua busca incessante por ar e paz interior. Os sinais do seu desajuste interior são conotados por uma simbologia visual que usa a água como signo de afogamento. Seu universo se esvai em cena, debaixo de água, elemento libertário tanto quanto asfixiante.”

É lícito entender, na peça, que a literatura é uma linguagem que sintetiza a própria arte. “Em Sylvia, literatura e poesia transformam cotidiano em arte. Seus sentimentos e questionamentos partem do cotidiano da existência humana, mas se afastam do pequeno revelando um entendimento das grandes questões da vida.” Ilhada em Mim – Sylvia Plath é mais uma expedição de Gabriela pelo universo da criação artística. Ela está em cartaz, como autora e codiretora (ao lado de João Paulo Lorenzon), no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o espetáculo Nijinski – Minha Loucura É o Amor da Humanidade até o dia 21, com ingressos esgotados.

 

Serviço

ILHADA EM MIM – SYLVIA PLATH. Dramaturgia de Gabriela Mellão. Direção de André Guerreiro Lopes. Com Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes. No Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, São Paulo, SP. Fone (11) 3095-9400. Quinta a sábado, às 20h30. Sessões extras nos dias 10, 17 e 24/10, às 17h. Até 1º/11. R$ 5 a R$ 25. Recomendação: 14 anos.

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