Democracia do eBook

O livro eletrônico, o eBook, é a mudança mais radical de que se tem notícia no mercado editorial nos últimos tempos, uma transformação que surge no bojo da revolução digital. O livro em formato eletrônico seduz o consumidor em primeiro lugar porque tem um custo 20 a 30% menor do que o livro tradicional. “No mundo de papel, temos que considerar os custos de impressão, distribuição e armazenamento. Esses são os únicos custos que desaparecem na publicação de um livro eletrônico”, afirma Fernando César Quaglia, da Capítulo Sete, empresa que produz livros eletrônicos para editoras.

Do ponto de vista comercial, 2013 é considerado o primeiro ano no Brasil em que efetivamente esse segmento do mercado operou com capacitação consolidada, depois de investimentos feitos por livrarias para oferecer o formato ao consumidor. Segundo o relatório ‘Global eBook Report’, o País vendeu no ano passado 2,5 milhões de cópias eletrônicas, o que é perto de 2,5% das vendas do mercado tradicional.

Quaglia – Formatos digitais ampliam acesso a livros (foto: divulgação)

Quaglia – Formatos digitais ampliam acesso do leitor a livros (foto: divulgação)

Assim, como tudo ainda é começo, as vendas no País seguem tendência de crescimento e no futuro poderão conquistar parcela maior do mercado, como já acontece em países nos quais o consumidor tem mais poder aquisitivo e acesso à tecnologia. Nos Estados Unidos e Reino Unido, o eBook já representa 21 e 25% das vendas de livros, respectivamente.

Além da vantagem do preço, o eBook atrai o consumidor pelas possibilidades de interação. O leitor pode navegar pelas páginas buscando as palavras que deseja para localizar rapidamente as partes do texto que interessam, entre outras alternativas. Mas é no segmento do livro infantil que as transformações são mais profundas: os recursos de interação, aprendizado e brincadeiras são incomparavelmente maiores e indicam que a produção desse livro pode ser mais sofisticada do que no papel.

Para os escritores, os custos mais baixos do formato, o crescimento das editoras independentes, que só trabalham com linguagens digitais, e os grandes canais de produção e distribuição também significam a possibilidade de ter um retorno maior do que os 10% tradicionais com as editoras. “Essa realidade vem mudando. Empresas como Amazon permitem que o autor realize a edição de seu livro, escolha em que território pode ser vendido e repassa até 70% do valor de venda da obra. Apple, Barnes & Noble, a livraria Saraiva e outros oferecem esse serviço”, afirma Quaglia. O eBook representa assim um avanço na possibilidade técnica de realização de uma obra que pode colocar o talento de mais escritores e pesquisadores ao alcance do público.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista cedida por Fernando César Quaglia ao Livros & Ideias:

Quais são as principais mudanças no mercado editorial decorrentes do eBook na sua avaliação?

O mercado editorial vem atravessando numerosas mudanças, e os livros eletrônicos, na minha visão, são apenas uma delas. No mundo, podemos ver como algumas tendências se consolidam. Por exemplo, a compra de livros através da internet é uma realidade que tem colocado em xeque as livrarias tradicionais.

Os autores também vêm encontrando novos espaços graças às novas tecnologias; através delas eles conseguem publicar por conta própria as suas obras e às vezes sem nenhum custo, já que consideram que as editoras convencionais nem sempre fazem bem o seu trabalho.

Os leitores também participam ativamente dessa mudança, podemos ver que hoje alguns hábitos de leitura estão mudando graças às mídias sociais, pois elas possibilitam a interação com o autor, a troca de opiniões entre os leitores de um mesmo título ou a possibilidade de rescrever trechos de uma obra.

Mas focando na questão dos eBooks, podemos observar que o mercado editorial no Brasil, e principalmente o público leitor, vem incorporando essa nova realidade. Com a chegada dos grandes players do mercado como Apple, Amazon e Google, somados às empresas tradicionais, como a Livraria Saraiva e a Livraria Cultura, tem-se registrado um grande aumento na edição e comercializarão de livros eletrônicos. Ainda ocupam, porém, uma pequena fatia no total de vendas de livros.

O livro de papel e o formato eletrônico atualmente convivem no mercado, e seria ingenuidade nossa pensar que o formato eletrônico vai engolir o papel, até porque o livro de papel também ganha vida nova no mundo digital, por meio das livrarias virtuais e também os sebos, que nos permitem acesso a exemplares inimagináveis. Assim, considerando a sua experiência com marketing, gostaria que você nos dissesse: com a consolidação do mercado do livro digital no futuro (afinal, hoje ele é pouco mais que uma promessa), a tendência é que o preço do livro de um modo geral ser torne mais acessível? O livro digital vai colaborar para baratear o custo do livro no Brasil?

Uma edição de qualidade sempre implica em custos de produção. Além do trabalho do autor, temos que considerar os custos de revisão de texto, de criação de capa, de diagramação, de publicação e assim por diante.

No mundo de papel, além desses custos, temos que considerar os custos de impressão, distribuição e armazenamento. Esses são os únicos custos que desaparecem na publicação de um livro eletrônico. Esses custos, no Brasil, representam em torno de 20% a 30% do preço de um livro. É por isso que a maioria das editoras realiza esse desconto no preço dos seus eBooks. O usuário não compra um objeto tangível e considera lógico que custe menos que uma edição impressa.

Ainda insistindo na questão anterior: em vista da possibilidade de cópias de títulos em PDF, sem custo, na internet, por acaso não estaríamos caminhando para um mercado em que o livro será praticamente de graça ou de custo muito baixo?

Os PDF’s na internet não oferecem uma experiência de leitura agradável nos dispositivos de leitura. É por isso que o formato ePub tem se consolidado no mercado editorial como sinônimo de livro eletrônico.

Por outra parte, quem garante que o PDF que achei na internet é o livro original? Existe um certo pensamento de que tudo o que é digital não tem custo, mas a realidade nos mostra que não é assim. Se queremos conteúdo de qualidade devemos pagar por eles. Uma editora investe muito dinheiro para publicar um título e é justo que cobre por isso.

O Brasil hoje é um mercado editorial que vende perto de 500 milhões de exemplares por ano, lança 62 mil títulos e tem faturamento de R$ 5,4 bilhões, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Sabemos que as compras de governos e os livros didáticos são a parte mais significativa desse universo, no entanto, você tem ideia da dimensão dos produtores independentes? Quanto desse mercado é formal e tradicional e quanto é independente, ainda que seja uma fração mínima?

Existe no Brasil um grande número de pequenas editoras, a maioria delas familiares, que publicam poucos títulos por ano. Em outros casos, são editoras criadas por autores que não encontraram espaço para suas obras nas editoras convencionais.

Além disso, o surgimento de novas tecnologias tem produzido o crescimento de um grande número de editoras completamente digitais: essas editoras não imprimem suas obras e, como enfrentam menores custos, publicam grande quantidade de títulos.

É difícil saber exatamente quantas destas editoras existem no mercado, geralmente não estão inscritas nem na Câmara Brasileira do Livro, nem no Sindicato Nacional de Editores de Livros.

O autor tradicionalmente recebe 10% do preço do exemplar na livraria. Como é que essa remuneração fica no caso de edições independentes?

O autor costumava receber em torno de 10% do valor de venda do livro. Com a edição independente essa realidade vem mudando. Empresas como Amazon permitem que o autor realize a edição de seu livro, escolha em que território pode ser vendido e repassa até 70% do valor de venda da obra. Apple, Barnes & Noble, a livraria Saraiva e outros oferecem esse serviço. Considero que esse tipo de solução serve para alguns títulos. Ainda são muitos os que preferem ver suas obras publicadas por uma editora consolidada.

Veja este caso: acabo de escrever um livro, digamos, uma novela, e devido a repercussões positivas do texto entre meus amigos leitores julgo que devo publicar minha obra. Quanto vou gastar para isso em um formato digital? E quais os serviços que serão incluídos nesse custo, enfim, o que envolve a produção de um livro digital?

Como já mencionamos, a produção de um livro de qualidade, seja em papel ou em digital, implica nos mesmos custos. Temos que considerar a revisão do texto, a criação de uma capa atrativa, que gere vendas, a formatação profissional do livro, a solicitação de números ISBN, a ficha catalográfica e assim por diante. Por último, realizaremos a versão eletrônica do livro. Até hoje, a produção de livros eletrônicos de qualidade requer de profissionais competentes. Existem algumas ferramentas automáticas, mas o resultado é muito pobre e se queremos trabalhar com profissionais competentes e de qualidade teremos que pagar por isso. As plataformas digitais permitem criar livros utilizando templates, o que diminui os custos de produção. Eu costumo utilizar uma analogia para explicar melhor: é como escolher entre um restaurante de comidas rápidas e um outro à la carte.

Como proceder para assegurar a oferta da minha obra no mundo digital?

Muitas pessoas pensam que por colocar um livro na Amazon ou na Apple já está tudo feito. As grandes lojas possuem milhares de títulos disponíveis e se não carregarmos bem os metadados da obra e não realizarmos algum tipo de promoção, seguramente não acontecerá nada com o nosso eBook. As mídias sociais são muito importantes na divulgação, mas não podem ser os únicos recursos para divulgar um título.

O curso virtual que você está ministrando (“Virando a página: compreendendo o livro eletrônico e as mudanças no negócio editorial”) é voltado a quem? Pode nos dar uma dimensão do que seja o curso?

O curso está voltado para os profissionais da cadeia produtiva do livro, são eles: editores, produtores editoriais, publicitários, jornalistas, professores, designers, bibliotecários, estudantes de comunicação, editoração, letras, jornalismo, empresários das áreas editoriais. O curso tem sido desenvolvido ao longo de um ano e meio de trabalho e temos entrevistado os principais protagonistas do mundo do livro digital.

Através do curso, os alunos poderão compreender melhor as realidades que o mercado editorial vem enfrentando, oferecendo subsídios para entender a realidade dos livros eletrônicos. Por ser um fenômeno recente, ainda são muitas as pessoas que buscam aprofundar seus conhecimentos nesse assunto.

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