Histórias das ruas

João Antônio – Narrativa pelo viés dos excluídos (foto: divulgação)

João Antônio – Narrativa pelo viés dos excluídos da vida social  (foto: divulgação)

A vida marginal, o imenso fosso que a discriminação abre entre ricos e pobres na cidade de São Paulo ou as palavras que brotam nas ruas para expressar a alma da malandragem são temas abordados na obra do escritor e jornalista João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), mestre da literatura urbana, para a qual chega a ser considerado tão importante quanto Guimarães Rosa (1908-1967) ao retratar a vida no sertão.

João Antônio trabalhou na revista Realidade, referência no jornalismo literário nos anos 1960, escreveu também textos teóricos, mas são os contos que representam sua genialidade, em período marcado pela ação repressora da Ditadura Militar, sob a qual sua obra despontou como literatura de resistência.

A produção de João Antônio continua viva e pulsante. O leitor encontra novas edições de seus textos, publicados pela Cosac Naify, com destaque para os contos em formato digital ePub, cujos preços são bem acessíveis.

Sempre com uma abordagem social, as histórias de João Antônio são peças de ficção que impactam pelo retrato da realidade. O universo de prostitutas, boêmios, malandros, drogados, batedores de carteira, garotos de rua e toda a sorte de excluídos é retratado por quem conheceu de perto esse mundo, e soube contar as histórias pelo viés do explorado e não do explorador, como vemos muitas vezes hoje na mídia.

O embate da realidade de gente pobre da cidade, na zona conhecida como Boca do Lixo, em seus primórdios durante os anos 1950, com a mídia de propriedade das elites é um dos eixos que conduz um dos mais importantes contos de João Antônio, chamado ‘Paulinho Perna Torna’. No texto, o leitor descobre que o próprio título encerra a tensão entre a realidade e o mundo apresentado na mídia, visto que seu verdadeiro nome, ‘Paulinho duma Perna Torta’, ganha versão curta nos jornais.

Com a trajetória de anti-herói de Perna Torta, João Antônio mostra a decadência da malandragem naquele período, graças à opressão policial, fenômeno que se repete com o famoso malandro Madame Satã, na Lapa do Rio de Janeiro.  O conto adquire também um valor histórico, digamos, pelo modo como apresenta os fatos de uma realidade que se mantém até hoje. João Antônio mostra a ação truculenta da polícia na Boca do Lixo, em uma narrativa que ainda encontra paralelos no cotidiano, como na ação violenta do mês passado, quando 250 famílias foram despejadas de um hotel abandonado na av. São João, com respaldo de uma reintegração de posse.

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