Baú de miudezas (II)

DESSINTONIA

Nunca foi homem de farra, nunca teve muitos amigos. Gostava mesmo era de ler e reler seus muitos livros. E de fazer planos, ainda que já não tivesse mais condições de colocá-los em prática. Sempre foi um homem afável, mas sem tempo para, como se diz, jogar conversa fora.

— Por que o senhor não desce e vai conversar com outras pessoas lá embaixo, no jardim? Fica tão só…

Era o que sempre lhe perguntavam.

E ele sempre dizia:

— Não tenho nada contra ninguém, não. Tenho uma relação cordial com todos os que moram no prédio. Também não me sinto melhor ou pior que ninguém. Mas o que tenho para lhes falar não é do interesse deles. A recíproca é verdadeira. E a vida é curta.

 

CÚMPLICES

— Tudo bem, Argemiro (8.6, hipertenso, cardíaco): não vou dizer aos meninos que você, hoje, tomou uma cachaça escondida e duas latas de cerveja também.

— Esmeralda (8.7, diabética das brabas): você jura por Deus que não vai contar aos meninos? Eles estão loucos pra nos internar…

— Juro. Mas só se você não contar pra eles que eu bati uma lata de leite condensado. Quer uma balinha de coco?

— Obrigado. Vou tomar mais um gole.

— Tim-tim.

 

GALOS

O dia é manhoso, teimoso: não falha nunca.

Pode vir com sol, pode vir sem sol.

Chuva? Qual o quê! Está difícil de vir.

Por mais que você peça pra que o dia não chegue, ele chega.

Malditos galos.

Que o anunciam.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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