No tempo da ditadura

Ruffato: narrativa realista e fragmentada, com personagens anônimos

Ruffato: antologia focada nos anos 1970

Nestes dias decisivos para o destino do País, que encara as eleições de segundo turno no próximo domingo, minha leitura tem ficado um pouco por conta do encontro entre política e literatura, proporcionado pelo livro ‘Nos idos de Março’, uma antologia de contos de 18 autores, organizada pelo escritor Luiz Ruffato, com foco na ditadura militar no País, principalmente durante os anos 1970.

O trabalho de Ruffato tem sido pautado pela denúncia da miséria e exclusão, que persiste na sociedade brasileira. Um de seus livros é ‘Eles eram muitos cavalos’, que apresenta fragmentos da vida em São Paulo, por meio de suas personagens marcadas pela banalidade, miséria e desejos primitivos, como o egoísmo.

Nesse novo livro, o leitor tem um panorama, em forma de mosaico, do que foi a produção literária na época do regime militar, quando a expressão e a liberdade de pensamento foram tolhidas pela suspensão de garantias constitucionais, promovida pelo Ato Institucional Número Cinco, de 1968.

No texto de apresentação, Ruffato faz um relato do que foi o golpe de 1964 e também uma retrospectiva histórica da presença dos militares no poder, desde que, em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca liderou o golpe militar que colocou fim ao império. O texto de Ruffato relaciona os fatos históricos com os autores e obras literárias que testemunham esses fatos.

Um aspecto interessante da produção literária sob o regime de exceção é que muitas vezes a linguagem se desloca da narrativa puramente realista para explorar outras possibilidades de expressão, como no conto ‘O homem que descobriu o dia da negação’, de Ignácio de Loyola Brandão. Com a narrativa a princípio absurda, o leitor acompanha um personagem que um dia sai de casa e não encontra mais o sentido das coisas.

Já no conto ‘O homem cordial’, de Antonio Callado (1917-1997), o leitor vai encontrar o conflito que se forma entre diferentes realidades de um professor de história e sociologia que enfrenta a cassação de seus direitos pelo regime militar, enquanto escreve um livro sobre a identidade brasileira, inspirado no mito do homem cordial.

Vale também destacar o conto ‘Documentário’, do escritor mineiro Ivan Ângelo, que traz a história de um nordestino que lidera um grupo de retirantes fugindo da seca. O autor constrói a narrativa por meio de fragmentos de textos de fontes diferentes, como depoimentos à polícia, reportagens de jornais e obras literárias. Imperdível também é o conto ‘A morte de D.J. em Paris’, de Roberto Drummond (1939-2002), que na época (1975) criou polêmica por incorporar ícones da cultura pop ao texto literário.

 

Nos-idos-de-março2Nos idos de março, a ditadura militar na voz de 18 autores brasileiros,

organização de Luiz Ruffato, Geração Editorial, SP, 288 págs.

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