Histórias do cotidiano

Silveira – Espírito de observação e um retrato das pessoas na cidade

Silveira – Espírito de observação sobre a vida na cidade (foto: divulgação)

Noite fria em São Paulo, um homem toma um trago no balcão da padaria e atenta para um rapaz, sentado em um degrau ao lado da entrada, enrolado em uma manta suja, acompanhado de seu cão. O homem ordena ao balconista um bauru para viagem e ao sair o oferece ao outro, junto com fósforos e cigarros.

O rapaz agradece, dá uma mordida no sanduíche, mastiga, mastiga, mas por fim confessa dificuldade: “Está muito gostoso, mas não consigo comer. Posso dar o restante para o cachorro, o senhor não me leva a mal? Ele tem mais fome que eu. Muito obrigado. Vá com Deus.”

Essa história aparentemente banal e que nos remete à clássica imagem de Charles Chaplin ao lado de seu cãozinho, é narrada na crônica ‘Beiçola’, do escritor e jornalista Orlando Silveira, que vive no bairro do Tatuapé. Ela diz muito sobre a condição humana e o fosso que existe entre ricos, ou nem tão ricos, e as pessoas que habitam a miséria na cidade. É um retrato da exclusão, para a qual preferimos fechar os olhos, como se fosse uma realidade inexistente.

Mas as histórias de Silveira trazem também um lado irônico, caricato, que sempre conduz o leitor a cenas e fatos do cotidiano, seja em família, no boteco, entre vizinhos. Silveira escreve sobre as coisas que estão debaixo do nariz, mas não somos capazes de contar por falta de espírito de observação.

Velho Marinheiro, entre outros, é um dos personagens que se repetem em suas histórias. E a postura do Velho, que sofre de um bicho de pé imaginário, têm muito a ver com os percalços e atitudes da terceira idade.

Sempre debochado, o personagem é alguém que “deu um pontapé na compostura” e prefere ser mais honesto consigo próprio, como no conto ‘As namoradas do Velho Marinheiro’, em que ele pede à neta para escrever um e-mail a uma paquera, apesar de ser casado: “Deolinda, Deolinda: coisa linda demais, eu faço minhas as poucas – mas sábias – palavras de Mário Quintana: ‘Eu queria trazer-te uns versos lindos…/Trago-te estas mãos vazias/Que vão tomando a forma das tuas nádegas’”.

Nesse texto, o Velho debocha até mesmo do verso de Quintana e a neta, indignada, chama sua atenção: “Não bastasse sua canalhice, o senhor errou feio: Quintana não falou em nádegas. Ele falou em seios”, esbraveja a neta.

O blog Livros & Ideias publica os textos de Silveira aos sábados. Para conhecer o trabalho de Silveira, o leitor pode também visitar o blog do escritor, que está completando um ano: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br. O blog ‘Jornal da Besta Fubana’ (http://www.luizberto.com/), editado pelo escritor pernambucano Luiz Berto, também apresenta textos do autor.

* Texto publicado nos jornais Metrô News e Folha Metropolitana.

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5 pensamentos sobre “Histórias do cotidiano

  1. Parabéns Hélder Lima pelo excelente comentário homenageando este excelente cronista/jornalista Orlando Silveira!

  2. Mais uma belíssima crônica do querido escritor Orlando Silveira! Os elogios que lhe foram feitos são mais do que merecidos!

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