Peça da Cia. Artehúmus aborda individualismo e isolamento

Foto: Bob Souza

Foto: Bob Souza

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

maurofmello@yahoo.com.br

 

O pesquisador teatral Alexandre Mate comenta o texto O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário no nº 2 (março de 2014) da Ateliê Compartilhado, publicação da Cia. Artehúmus. A peça, segundo Mate, “apresenta-se prenhe de significados, provoca diversas interpretações: trata-se de um título-metáfora”. “Apesar de o título ser absolutamente provocante e instigante, a obra, dentre outras questões, denuncia o reificado (como coisificação) das comunicações e relações humanas”, conclui. A montagem reestreou nesta terça-feira (11/11), no Teatro do Incêndio, em São Paulo.

Uma das questões que O Desvio do Peixe aborda é a solidão relacionada ao individualismo exagerado, em um processo que engloba movimentos de isolamento e tentativas de aproximação. “A peça fala das ausências de nossos dias, das negligências com nós mesmos. Somos engolidos diariamente por necessidades ditadas por um sistema e não percebemos nossas esquizofrenias, nossas pequenas loucuras invisíveis para realizar o que o sistema dita”, sintetiza Evill Rebouças, responsável por dramaturgia e direção.

Cristiano Sales, Daniel Ortega, Edu Silva, Natália Guimarães e Solange Moreno compõem o elenco. Cinco personagens convivem em um condomínio. Um porteiro precisou ler o filósofo Michel Foucault para ser admitido no emprego. Um pai procura o significado da palavra “ausência” para um trabalho acadêmico. Uma mãe tenta ser ecologicamente correta. Uma jovem espera pelo namorado que viajou. E um garoto anuncia, logo no início do espetáculo, que está morto.

O Projeto Teatro de Condomínio – Cartografia Pública e Privada, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, deu origem à montagem. Um ano de pesquisa de campo, conta Rebouças. “Em albergues, todos estão juntos, mas pouco espaço existe para falarem de suas aflições mais íntimas. Nos cdhus, ocorre o contrário: geralmente, cada um socorre o outro diante das aflições diárias. Nos condomínios de luxo, os moradores nem se conhecem direito, já que possuem elevadores privados. Foi desse painel de relações que construímos a ficção de O Desvio do Peixe.”

Trata-se de espetáculo delicado e pungente. “A delicadeza impressa na cena foi uma necessidade em relação ao tema, pois se há isolamentos entre as figuras da ficção, o mesmo não ocorre entre essas figuras e o espectador. Para atingir esse estado de aproximação e cumplicidade, tivemos de jogar fora praticamente todo o repertório teatral convencional que trata o espectador como sujeito que especta apenas. Por outro lado, são figuras que se mostram doces, mas ao mesmo tempo, parecem querer explodir. Esse trabalho de retenção é talvez o que há de mais cruel na encenação”, explica.

Os atores narram cenas e conversam com o público, entre outros recursos que negam o ramerrão teatral. “O enredo é descortinado para que o espectador não desvie seu olhar para aquilo que ainda precisa ser descoberto”, assinala Rebouças. “Por meio desse tipo de estrutura, conseguimos potencializar o olhar do espectador para a reflexão dos assuntos discutidos e ainda tratá-lo como confidente das personagens. Em busca da autonomia do espectador em relação à história, desenhamos trajetórias fragmentadas, de modo que ele monte o trajeto de cada um.”

 

SERVIÇO

O DESVIO DO PEIXE NO FLUXO CONTÍNUO DO AQUÁRIO. Dramaturgia e direção de Evill Rebouças. Com a Cia. Artehúmus. No Teatro do Incêndio. Rua da Consolação, 1.219, São Paulo, SP. Fone (11) 2609-8561. Terças e quartas, às 20h (em novembro), e terças a quintas, às 20h (em dezembro). R$ 30. Até 17/12.

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