Beiju e tapioca

Urariano – Escritor em defesa da sabedoria popular (foto: andradetalis.wordpress.com)

Urariano – Escritor em defesa da sabedoria popular (foto: andradetalis.wordpress.com)

Tudo começou com uma citação do livro ‘Casa-Grande & Senzala’, de Gilberto Freyre (1900-1987), no blog Livros & Ideias: “Não é só em relação ao beiju (tapioca), mas a tudo quanto é comida indígena, a Amazônia é a área da cultura brasileira mais impregnada de influência cabocla: o que aí se come tem ainda gosto de mato”.

Na perspectiva de facilitar a compreensão desse texto para o leitor, cometi o pecado de colocar por minha conta e risco, entre parênteses, a palavra ‘tapioca’ ao lado de ‘beiju’, afinal, os dicionários apresentam ambas como sinônimas. No Houaiss, tapioca é uma “fécula comestível, extraída da raiz da mandioca” ou “beiju feito dessa fécula e recheado de coco ralado”. O Michaelis também aproxima as duas palavras ao definir tapioca: “Espécie de beiju, feito de goma de mandioca meio seca, com uma porção de coco ralado por cima, coberto com uma camada fina da mesma goma”.

Leitor atento, e conhecedor das tradições nordestinas, o escritor pernambucano Urariano Mota, autor dos livros ‘Dicionário Amoroso do Recife’ (editora Casarão do Verbo) e ‘O filho renegado de Deus’ (editora Bertrand Brasil), chamou minha atenção: “Caro, beiju não é tapioca. Ambos vêm da mandioca, mas param por aí na semelhança. Os dicionários, como desconhecem palavras e cultura do povo (porque os definem mal) é que fazem a confusão. De modo precário, pelo sabor, digo que beiju é mais duro, seco, e se come depois de assado. Já tapioca é macia, de grãos mais finos, um pozinho úmido de mandioca, que na sua melhor expressão recebe um recheio de coco ralado.”

Depois do pedagógico e oportuno puxão de orelha, passei a dar mais atenção ao assunto. Descobri uma coisa óbvia, mas que para mim soou como grande novidade: o mercado perto de casa vende a massa para tapioca ou o beiju, dependendo do tratamento. Adotei a iguaria, principalmente como sobremesa, recheada com banana e calda de chocolate, esboçando uma interpretação paulistana para o versátil prato nordestino.

A confusão entre tapioca e beiju, segundo Urariano, que também enviou um e-mail sobre o assunto, ocorre por conta da dificuldade dos autores dos dicionários em definir termos da sabedoria popular. “Os pobres não estão dicionarizados. Os miseráveis e excluídos de toda sorte estão aquém do mundo dos livros, ainda que possuam uma vida plena e robusta de arrebentar veias de sentidos. Há todo um mundo de palavras que não estão nas páginas dos melhores dicionários. Não se trata de gíria, que dá e passa, às vezes. Trata-se de palavras seculares, seladas pela tradição oral, mas que se falam como se não fossem bom português”, afirmou.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s