O fim da Guerra Fria

Fernando Morais – Acesso a documentos da Rede Vespa (foto: divulgação)

Fernando Morais – Acesso a documentos da Rede Vespa (foto: divulgação)

Na quinta-feira (18), um dia depois do histórico anúncio da retomada de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, os cubanos dividiam-se quanto às perspectivas do ato político anunciado por Raúl Castro e Barack Obama, mas eram unânimes em comemorar a volta para casa de seus três heróis nacionais. Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero ganharam liberdade horas antes do anúncio oficial do acordo.

Enquanto isso, pelo lado cubano era libertado o norte-americano Alan Phillip Gross, preso em 2009, acusado de burlar a lei ao levar à ilha equipamentos de comunicação por satélite, que seriam usados por uma comunidade judaica em Havana para acesso à internet, e também por trabalhar como agente de espionagem para o governo norte-americano.

Os cubanos, por sua vez, tinham sido condenados pela justiça no país vizinho por terem se infiltrado na Flórida nos anos 90 para investigar a ação de 47 grupos anticastristas, de extrema direita, que operavam ataques terroristas em solo cubano. A trajetória dos espiões cubanos, que foi organizada pelo governo e se chamava Rede Vespa, pode ser conhecida no livro-reportagem ‘Os últimos soldados da Guerra Fria’, do jornalista e escritor Fernando Morais, que foi lançado em 2011.

Morais teve acesso a mais de 30 mil documentos produzidos pela Rede para a inteligência cubana e realizou 40 entrevistas. Um dos fatos curiosos nessa história é que enquanto o governo de Cuba abriu todas as informações e personagens para o escritor, nos EUA algumas entrevistas foram em ‘off’, porque a legislação proíbe os agentes da CIA de darem declarações públicas.

“Na prática, acaba sendo o fim do conflito como ele existiu durante toda a Guerra Fria. Conforme o título do livro do Fernando Morais são os últimos soldados da Guerra Fria esses cubanos que agora voltaram para o país e aquela Guerra Fria terminaria aí”, afirmou em entrevista, também na quinta-feira, o sociólogo Emir Sader, ao analisar o fato histórico que acabara de se desdobrar, concluindo que o embargo foi um tiro no pé para os Estados Unidos.

A expressão ‘o fim da Guerra Fria’ não é só recurso retórico mas o fim, de fato, de uma era que se instalou em 1961, após a revolução que levou Fidel Castro ao poder, e foi marcada por invasões do espaço aéreo cubano, ataques terroristas, lançamento de pragas em lavouras, entre outras ações resultantes de grupos conservadores.

Essa tentativa de acabar com a “ameaça comunista” é sustentada por uma arrogância típica de extremistas, como se fosse possível a um povo não escolher o seu destino “porque são os norte-americanos que detêm a liberdade”. A resistência aos Estados Unidos, em Cuba, com o embargo econômico se tornou mais que uma questão política, se tornou uma questão de honra e o desfecho dessa história mostra os cubanos como um povo que sabe defender sua identidade.

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