Um fardo a menos

Nem ele sabia por que corria tanto, desassossego sem fim.

Anos e anos de terapia – sejamos francos – não lhe serviram para nada, como quase sempre acontece com todo mundo. Gastou fortuna, as frustrações ganharam corpo.

Alfredo continua o mesmo: inseguro, ansioso, certo de que o mundo acabará amanhã, ou a qualquer momento, como sempre dizia sua mãe. Obsessão de vida inteira: amanhã não haverá mais mundo.

Daí, a necessidade de querer fazer já, para ontem, tudo, não importa o quê.

Anos e anos de sofrimento e despesas. À toa.

Um dia, muito tempo depois, de bolsa cheia, a terapeuta abriu o jogo:

— Alfredo: se você acha que o mundo vai acabar a qualquer momento – e não há quem tire essa bobagem de sua cabeça –, por que correr tanto, para que fazer isso ou aquilo, se amanhã aquilo e isso não terão sentido algum, já que não haverá mais mundo?

Caiu a ficha.

— Por que a senhora levou tanto tempo para me dizer o óbvio?

— Você não estava preparado para ouvir a verdade.

Alfredo pensou em muitas coisas: exigir o dinheiro (de anos, pequena fortuna) de volta, matar a terapeuta e família, exumar o corpo da mãe e queimar seus ossos…

Achou melhor continuar correndo, sempre apressado, sem saber para onde nem por quê. Só que agora sem ter que pagar a conta da terapeuta.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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