Humor abaixo de zero

Nossa grande sociedade satírica casa com o politicamente correto e juntos geram uma filha chamada intolerância. Na casa deles, o humor não entra, se janta patê de ética e limpa-se a boca com a moral

Nos causa enorme confusão mental vivermos em uma época em que muitos veículos de comunicação, principalmente os televisivos, são movidos por um fazer-humor fajuto, sem-graça e este sim preconceituoso. Numa parada do ônibus que ia a Belo Horizonte, tive três minutos para assistir Faustão — a não ser que você esteja na casa de alguém que deixa o Faustão falando sozinho enquanto a família se reúne em torno da TV para falar de qualquer outro assunto, alguém ainda se presta a assistir este programa bisonho?

Bem, voltemos ao conteúdo assistido na parada do ônibus. Um cara peludo vestido de Iemanjá ridicularizava as prendas de fim de ano recebidas por ela, entidade, falando que iria filtrar as entregas vagabundas daquelas que interessavam — ficaria apenas com os artigos “de rico”. A interpretação era sem graça, o personagem sem consistência e a maneira de dizer tudo isso, ridicularizando no palco religião e pobres, era para lá de chula.

Comparei o pseudo-humor do programa de domingo a um fato ocorrido há algum tempo com a Loja Pernambucana, que teve que cessar a venda de camisetas masculinas que mostravam uma menina numa forca e embaixo a palavra “gi_lfri_n_”, coisa assim.

Ora, daqui a pouco vamos ser obrigados a formular eufemismos para usarmos todas as vezes em que proferirmos uma expressão exagerada. No lugar de “eu quero mataaaar minha mãe quando ela fala no Facebook que eu sou sua florzinha”, vamos ter que usar “eu fico deveras chateada com mamãe quando ela, blabla, mas eu a perdoo, blabla”.

Consequências

Sabe o que a falta de tolerância ao humor unida ao politicamente correto gera? Gera linchamentos — a torcedora gremista que chama o jogador Aranha de macaco no calor de um jogo de futebol, quanto animalismo, é cercada pela imprensa e por pessoas que a lincham por meses. Gera preconceitos que vão além, muito além, daquele que parece ter sido usado na piada do negro, do feio, do gay, do português etc. — o senhorzinho que contava piadas no bar deixa de ser engraçado aos olhos dos amigos; o tio que conta uma piada sobre loucos é olhado com desconfiança pelos sobrinhos. E gera até as mortes dos cartunistas parisienses do jornal satírico Charlie Hebdo, mortos na última quarta-feira (7) por terroristas que entraram na redação disparando 50 tiros. O motivo seriam as “provocações a Alá” feitas pelos jornalistas via cartoons. O último trabalho realizado pelo diretor da publicação, conhecido como Charb, mostra um personagem fardado dizendo “Ainda não houve atentados em França. Esperem. Temos até o fim de janeiro para nossos desejos [de Ano Novo]”.

Profeticamente, a charge deu em morte. E não precisamos ser profetas para saber que, se continuarmos assim, presos aos pilares religiosos – some-se agora a eles à religião do politicamente correto –, estaremos rumando ao obscurantismo, tão contrário aos ideais que foram da Revolução Francesa, mas que deveriam ser universalmente desejados: liberté, egalité, fraternité; liberdade, igualdade e fraternidade.

charlie

Este atentado não é apenas um atentado contra a humanidade, contra os 12 inocentes atingidos. É um atentado contra a liberdade de expressão, é uma mensagem mórbida emitida por pessoas tão covardes que tiram do caminho com bala, e não com argumentos, aqueles com quem não concorda. Tão arrogantes que se acham certas a ponto de calar quem pensa diferente delas. Uma mensagem que indica um ano-novo sem tréguas para a paz, a liberdade de expressão, oh, passando longe. É assim que vamos ficar? Calados e amedrontados? Reformulo aqui minha resolução de fim de ano, que tem ares de utopia: quero uma reação mundial, um grito, em uníssono, pela vinda do bom-senso e da paz.

 

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478

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