Sentido figurado está no DNA da linguagem

Humanoide do filme ‘2001’ – Especulações sobre a linguagem (foto: divulgação)

Humanoide do filme ‘2001’ – Especulações sobre a linguagem (foto: divulgação)

As figuras de linguagem, como as metáforas, são manifestações da linguagem falada e escrita que permeiam o tempo todo as nossas expressões. Se pudéssemos fazer uma retrospectiva do surgimento da linguagem, como fez o diretor Stanley Kubrick (1928-1999) no filme ‘2001 – Uma odisseia no Espaço’ (1968), verificaríamos que o sentido figurado, manifesto pelas figuras de linguagem, está presente na cultura desde os tempos mais remotos, como expressão da subjetividade e criatividade humanas.

O sentido figurado é uma espécie de DNA da linguagem. Somente com sonho, poesia ou licenciosidade foi possível ao humanoide criado por Kubrick vislumbrar que um osso animal poderia ser tomado por arma, por instrumento de dominação, colocando-o em vantagem de força frente a seus inimigos.

Para que o homem pudesse lutar pelo desejo de ter o mundo a seus pés foi preciso que a linguagem não apenas permitisse referenciar tudo o que está ao nosso redor, mas também permitisse sonhar e projetar a realidade que se almejava alcançar.

Desse modo, a figura de linguagem não é apenas expressão que resulta da articulação engenhosa da língua, mas identifica as estruturas de pensamento. Em outras palavras, é a expressão da nossa própria humanidade que está em jogo com as figuras de linguagem. Dois livros podem ajudar o leitor a criar referências nesse universo: ‘As figuras de linguagem’, de Roberto de Oliveira Brandão (editora Ática), e ‘As figuras de linguagem na linguagem do cordel’, de Janduhi Dantas (editora Vozes).

O linguista russo Roman Jakobson (1896-1982) considerava as figuras de linguagem essenciais para a representação da realidade por meio do discurso: “O desenvolvimento de um discurso pode ocorrer segundo duas linhas semânticas diferentes: um tema (topic) pode levar a outro quer por similaridade, quer por contiguidade. O mais acertado seria talvez falar de processo metafórico no primeiro caso, e de processo metonímico no segundo, de vez que eles encontram sua expressão mais condensada na metáfora e na metonímia respectivamente”, afirma.

Em ‘A Interpretação dos Sonhos’, Sigmund Freud (1856-1939) desvenda a relação do sonho com o inconsciente por meio de dois processos que ele identifica como ‘condensação’ e ‘deslocamento’, que são correlatos da metáfora e metonímia, respectivamente. Tudo se passa como se as imagens e símbolos dos sonhos fossem criados a partir desses processos, cujas manifestações substituem ou disfarçam os conteúdos reais, guardados nas profundezas do inconsciente. A metáfora e a metonímia seriam instrumentos para furar o bloqueio da consciência, e permitir ao ser humano acesso às suas realidades profundas e desconhecidas.

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