Como somos diplomáticos

Manifestação reacionária na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Manifestação na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

As questões sociais do presente parecem dividir as pessoas em conservadoras e pacientes, desconsiderando as nuances. Quando não tenho coragem ou paciência para ir contra a opinião daqueles que consideram a melhor saída para o país metralhar jovens infratores “pivetes delinquentes”, pessoas em situação de rua, “filhas da puta craqueiros”, gays, “veados”, então eu me sinto, sinto muito, parte do grupo dos diplomáticos.

Estou falando de conivência, que segundo um verbete de dicionário significa “acordo pecaminoso entre superior e inferior em prejuízo alheio”. Para sermos diplomáticos é necessário muitas vezes sermos coniventes.

Se o seu vizinho sempre diz que a solução para o avanço do Brasil é botar meio mundo no paredão e descer bala e você faz que sim com a cabeça, como se ele estivesse te dando bom dia, então você está sendo conivente. Se na tentativa de cessar uma briga você não reprova aquele familiar que exaltado fala sobre a extinção dos gays, então você é, você é, você é pateticamente é uma diplomática criatura conivente e está reforçando o coro dos arrogantes e preconceituosos que abafam seu silêncio com o peso grosseiro de suas vozes.

Hoje amanheci pesarosa tentando refletir sobre estes dois grupos, o dos que falam bobagens e o dos que não contestam as bobagens, deixando que elas contaminem outros por aí. Durante o dia juntaram-se ao meu pesar várias outras mensagens que mostram a proliferação do discurso conservador-violento.

Na maioria dos casos a pessoa que cospe seu preconceito faz questão de antes anunciar: “eu não sou preconceituoso”. Vou perguntar ao psicanalista mais próximo sobre a necessidade de tal negativa antes da afirmativa. É como se assumir-se preconceituoso não pegasse bem, mas ter um discurso preconceituoso fosse aceitável, quase “cool” pela moda “família, saúde, direita etc.”; quase imponente e imperativo porque provavelmente não será discutido mesmo por quem reconhece o grau desrespeitoso daquela esbravejação e dela discorda.

Propaganda do Boticário: Uma sujeita “não preconceituosa” entrou no site Reclame Aqui dizendo que ela, cristã, não queria que seus filhos vissem a propaganda de dia dos namorados da loja, que mostra casais héteros e gays arrumando-se para comemorar a data.

Carta do leitor do Zero Hora: O jornal publicou a opinião de um leitor que “não é racista”, mas não conseguia entender como certo colunista do jornal pode aprovar a vinda de haitianos, senegaleses e “similares”, pois teriam comprovada “tendência natural de caírem para o lado do crime”.

O vizinho: Em um belo fim de tarde queixei-me ao vizinho do cheiro de urina na escada ao lado do nosso prédio. Veio o arrependimento. Tive que ouvir do sujeito que “a solução é botar tudo os mendigo num paredão e metralhar” [sic]. Inclusive, cansei da expressão clichê “metralhar no paredão”, que hoje parece mais apropriada a letras de funk do que a uma proposta séria para resolução de nossos problemas sociais.

Sem mais, um dia antes de ser devastada por essa série de desinformações, assisti “Outra história americana”, filme cujo personagem principal é preso e desiste de ser nazista quando é estuprado… Por outro nazista.

A questão: até onde é saudável sermos diplomáticos, pacientes, coniventes…?

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478

 

2 pensamentos sobre “Como somos diplomáticos

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