Não julgai os que botam a mão na massa

oleiroPor Marina Moura*

À exceção dos que colocam a mão numa massa chamada “dinheiro alheio”, não julgai os erros daqueles que são da ação, que fazem. Quem lava pratos um dia os quebra, quem usa carro um dia o bate ou o tem batido, quem manuseia afiadas lâminas um dia se corta. O destino do poeta é, um dia, ser chantageado pelas próprias palavras. Quem trabalha, quem faz, erra. E não errar é inumano, sentença inversamente proporcional ao dito.

Os que apenas mandam ou coordenam e depois julgam com ferocidade o desvio do operador, que não compreendeu seus desejos, não merecem o reino dos céus. Folgados, bufões. Valem-se da execução do outro e empacam tal mulas em sua preguiça mandona. Se bem-feito, bem, obra e louros do mandante. Se não saiu como o esperado: cortem a cabeça! Do operador, é claro.

Mas não generalizemos. O bom chefe, ao contrário do explorador, é aquele que, se agora não faz, já fez, e por isso sabe demandar. “Assina” as ações junto do operador de sua ideia, é coautor. Este sim, verdadeiro professor, passa conhecimento adiante e merece reconhecimento – que sua existência seja perpetuada e prolifere!

Massa: todos poderiam botar as mãos nela. O processo do fazer, talvez, seja mais admirável e prazeroso do que a realização, que é a coisa pronta, sem revelação de seu interior e da artesania que levou à materialização.

Age quod agis

O dicionário explica que esta expressão é utilizada para designar “alguém que se deixa distrair por algo estranho à sua ocupação”, quando deveria prestar mais atenção ao que faz.

Mas ora, se a distração é a alegria do viver, como e por que pouparmo-nos? Deixar de olhar os hábitos das pessoas, as cores e os cheiros da cidade, porque o dever é, num processo automático cotidiano, dirigir-se disciplinadamente ao trabalho com a gola da camisa perfeitamente ensolarada, fisiológico desafiando o sol que alcança os 30ºC logo pela manhã?

Inexpressão das criaturas perfeitas

Outro dia pasmei. Estava no banco o qual carinhosamente chamo de Brades-cão quando ao meu lado para uma criatura perfeita. Era alta, escultural-proporcional, tinha as unhas 100% esmaltadas de roxo vivaz, nem um canto esgarçadinho. Cheirosa, frutosa, voz de veludo e sincronia ao piscar os cílios envoltos em rímel perfeitamente pincelados.

Que saco! Que visão comum, que obviedade para o olhar que procura rasuras, marcas de vida, um abraço mais apertado dado num amigo no meio do caminho, um andar meio torto causado pela pressa, fones de ouvido caindo bolsa afora, o zíper meio aberto da miúda bolsa desnudando pedaços de intimidade em frestas. Tive medo daquela criatura lindamente alienígena. Toda hermética, conduzia-se pelo espaço com passos de lady. Bela como uma replicante do Blade Runner ou como uma boneca inflável.

Sem moralismos, trata-se de preferência de um lugar pro olhar olhar. Os meus olhos ficam vidrados quando conduzem-se ao não esperado, captam sorrisos repentinos ou gritos de dor de quem não pode evitá-los.

E por fim: vivenciemos as experiências em sua totalidade. Deixar-se sujar, borrar, ferrar, lascar, encrencar, perder, ferir – errar! –, é como provar da liberdade de ser, de forma mais integral, dentro das oportunidades disponíveis. Acertar é apenas uma das possibilidades. E tudo isso é humano, talvez demasiadamente humano. E belo.

(imagem: reprodução You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VYw-HKti2OU)
Marina Moura2*Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário. Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478
 
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