O girassol é sempre doce quando bate n’água

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Por Marina Moura

A escrita de repente ficou muda, mas deve ser porque há tanto grito dentro de mim.
A língua não sabe falar objetivamente o que toca nas cordas invisíveis dessa pele sensível que gostamos de chamar de alma.
Música desesperada. Música aflita ou muito calma. 
Cabem em mim todas as melodias desde que estremeçam, causando rupturas e dilacerações controláveis.
O meu exagero é uma espécie de muitos gerúndios:
Ando tendo fazendo tresloucando.
E ainda assim me invade violenta fúria.

( O que me move? )
( Remove )
( Lo (u) co )
( Move )
( Co move? )

Os parênteses que cortam minha história do começo ao fim
São incontáveis como as partículas de cor
Que formam os arcos
Que invadem as íris

Sou um grande trocadilho de mim.

Penso que os poetas são arquitetos secretos da linguagem, da vida e das coisas de esferas profundas e absolutas.

Provocam males secretos. Furtos secretos. Gozos secretos.

E todo mundo queria viver a vida do poeta sem viver sua aflição.

A tendência das pessoas normais é secar as lágrimas com lenços de seda.

O poeta as seca com areia, deixa o vento bater e leva a mão à face.
Acompanha o esfarelamento do choro, traz a água porosa à boca, mistura com a saliva e engole, pensando em naufragar no mar enquanto tocam os batuques e entoam-se cantos pra ela, Yemanjá, tornar doce o caldo da vida do poeta.

Ilustração: Pixabay
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