Metáfora do casamento blindado ou pósludio do dia dos namorados

casamento

Por Marina Moura

Deparei-me com o livro “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio” pela primeira quando zanzava pela livraria FNAC da avenida Paulista. Outros encontros viriam, em outras livrarias. Fiquei quase chocada com a capa. Sem querer ou precisar folhear o livro, porque o tempo de vida é muito raro para gastarmos assim, comecei a pensar apenas sobre a capa do produto. Como se fosse possível blindar algo, surge nas estantes das livrarias esta obra que considerei obscena e que certamente tem como objetivo, travestido de boas intenções, apenas a blindagem do bolso dos autores – quem nem precisariam empreender tal esforço, pois trata-se da filha do riquíssimo bispo Edir Macedo e seu par.

Um homem dentro de um carro blindado está seguro, mas não foi para isso que os homens foram construídos”, parafraseando o autor William Shedd, que diz que “um navio ancorado no porto está seguro, mas não foi para isso que os navios foram construídos”.

Um homem dentro de um carro blindado está protegido, mas em algum momento terá de sair do veículo. Quando um casamento é blindado, colete a prova de balas, vidros escuros e todas as outras armaduras do amor, certamente o impulso de liberdade de algum dos que ocupam o opressivo veículo quererá saltar fora.

O que sobra fica sozinho e trancafiado – seu coração também fica blindado. Uma das principais prisões do amor é a falta de liberdade.

Veja o casal da capa do livro tentando transmitir a imagem de uma relação segura. Mas uma coisa é fato, meu amigo: há que se considerar a volatilidade dos sentimentos humanos. Não somos coisas inertes, ainda bem.

Casamento_BlindadoAdmitir a palavra blindagem aplicada a uma relação dita amorosa é desconsiderar a possibilidade da contradição, ou seja, do ser atingido, o que neste caso se traduziria na insegurança do casamento.

Prefiro viver a realidade ao idolatrar a imagem do ideal. Mas, se for eleger uma imagem para retratar um relacionamento, prefiro pensar em cena que remeta ao amor livre, leve e solto – não falo aqui de relacionamentos abertos, aos quais tenho muita consideração e respeito, mas faço um recorte.

Minha visão é a do amor: livre no sentido de poder escolher a quem amar; leve simplesmente porque creio que o amor tem que ser constituído de matéria alegre e boa; solto porque não se pode ambicionar querer prender nem aquele a quem se ama e nem o próprio sentimento.

Assim, talvez meu retrato amoroso seja composto por um casal não que fica com olhos cruéis bem abertos um sobre o outro, mas sim que fecha os olhos para melhor sentir os suspiros de com ele estar, e, de mãos trançadas, saem voando sobre planícies abertas e não desvendadas, cultivando sonhos acima da maldade pequenina e desejos vãos.

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As horas que sobram

Por Marina Moura

Eu sei, sei que o tempo é curto, que no cômputo cotidiano as horas que sobram são menores do que as gastas. Mas realmente sinto falta de pessoas com interesses interessantes.

Um de meus escritores favoritos, o jornalista João Antônio, além de fazer textos fenomenais, costumava fazer alguns cálculos. Humanos gastam: oito horas diárias trabalhando, três horas se locomovendo, duas horas se alimentando, duas horas com as necessidades básicas, mais oito horas dormindo (duvido!) e por aí vai.

horas que sobram

Olha que ele não calculou o tempo gasto com idas ao banco, com ligações para atendentes de telemarketing e com o tal do Netflix. Não tenho certeza das atividades que compunham os cálculos do João, mas sempre que faço os meus próprios, com direito a reajustes de acordo com nossas novas tarefas do século 21, sobram umas 4 horinhas livres só.

Expus estes cálculos na cozinha de uma das empresas onde trabalhei e um funcionário que estava lá me questionou, perplexo: “ué, e 4 horas não está bom demais?!”. Está aí, certamente é uma pessoa com interesses desinteressantes, para espremer a própria vida assim, em espaço tão curto de tempo.

Porque quando largo o trabalho desejo ler um bocado de páginas de um bocado de livros, fazer alguma das várias danças que gosto, treinar alguma das línguas estrangeiras que um dia hei de aprender, cantar alguns sons dos anos 20 aos 2015 e (claaaaro!) beber algum álcool ao lado de amigos que têm interesses interessantes.

De preferência fazer uma poesia antes de dormir e, quem sabe, até uma oração? Entre as preces certamente constará o desejo que norteou as palavras todas desse texto: “Meu senhorzinho do céu, por favor. Esticai as horas que sobram. Aproximai-me das atividades e amigos que amo. Livrai-me daqueles que têm interesses desinteressantes. Amém”.

Como somos diplomáticos

Manifestação reacionária na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Manifestação na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

As questões sociais do presente parecem dividir as pessoas em conservadoras e pacientes, desconsiderando as nuances. Quando não tenho coragem ou paciência para ir contra a opinião daqueles que consideram a melhor saída para o país metralhar jovens infratores “pivetes delinquentes”, pessoas em situação de rua, “filhas da puta craqueiros”, gays, “veados”, então eu me sinto, sinto muito, parte do grupo dos diplomáticos.

Estou falando de conivência, que segundo um verbete de dicionário significa “acordo pecaminoso entre superior e inferior em prejuízo alheio”. Para sermos diplomáticos é necessário muitas vezes sermos coniventes.

Se o seu vizinho sempre diz que a solução para o avanço do Brasil é botar meio mundo no paredão e descer bala e você faz que sim com a cabeça, como se ele estivesse te dando bom dia, então você está sendo conivente. Se na tentativa de cessar uma briga você não reprova aquele familiar que exaltado fala sobre a extinção dos gays, então você é, você é, você é pateticamente é uma diplomática criatura conivente e está reforçando o coro dos arrogantes e preconceituosos que abafam seu silêncio com o peso grosseiro de suas vozes.

Hoje amanheci pesarosa tentando refletir sobre estes dois grupos, o dos que falam bobagens e o dos que não contestam as bobagens, deixando que elas contaminem outros por aí. Durante o dia juntaram-se ao meu pesar várias outras mensagens que mostram a proliferação do discurso conservador-violento.

Na maioria dos casos a pessoa que cospe seu preconceito faz questão de antes anunciar: “eu não sou preconceituoso”. Vou perguntar ao psicanalista mais próximo sobre a necessidade de tal negativa antes da afirmativa. É como se assumir-se preconceituoso não pegasse bem, mas ter um discurso preconceituoso fosse aceitável, quase “cool” pela moda “família, saúde, direita etc.”; quase imponente e imperativo porque provavelmente não será discutido mesmo por quem reconhece o grau desrespeitoso daquela esbravejação e dela discorda.

Propaganda do Boticário: Uma sujeita “não preconceituosa” entrou no site Reclame Aqui dizendo que ela, cristã, não queria que seus filhos vissem a propaganda de dia dos namorados da loja, que mostra casais héteros e gays arrumando-se para comemorar a data.

Carta do leitor do Zero Hora: O jornal publicou a opinião de um leitor que “não é racista”, mas não conseguia entender como certo colunista do jornal pode aprovar a vinda de haitianos, senegaleses e “similares”, pois teriam comprovada “tendência natural de caírem para o lado do crime”.

O vizinho: Em um belo fim de tarde queixei-me ao vizinho do cheiro de urina na escada ao lado do nosso prédio. Veio o arrependimento. Tive que ouvir do sujeito que “a solução é botar tudo os mendigo num paredão e metralhar” [sic]. Inclusive, cansei da expressão clichê “metralhar no paredão”, que hoje parece mais apropriada a letras de funk do que a uma proposta séria para resolução de nossos problemas sociais.

Sem mais, um dia antes de ser devastada por essa série de desinformações, assisti “Outra história americana”, filme cujo personagem principal é preso e desiste de ser nazista quando é estuprado… Por outro nazista.

A questão: até onde é saudável sermos diplomáticos, pacientes, coniventes…?

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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Uvas Verdes

Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

— Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

— Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, Teleco levantou a dúvida:

— Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Meritocracia

Naquela manhã de sábado, no bar e mercearia do Carneiro, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, era a própria candura. Também pudera. Deolinda – a “Fabulosa”, único símbolo sexual digno do nome da Vila Invernada – sentou-se à sua mesa, aceitou um copo de cerveja e começou a prosear, sem se preocupar em esconder o que o decote avantajado e o sutiã três números menor insistiam em exibir:

— Passei um susto danado, esta semana. Meu chefe me chamou e foi direto ao ponto: “Você não tem se saído bem como secretária. Alguns clientes reclamam que você nem sempre anota os recados, fica impaciente quando a conversa se estende etc. Assim, fica difícil”.

— E então? – quis saber o Velho Marinheiro.

— Quase surtei, dependo do meu trabalho, o senhor sabe. Custei tanto a arrumar um emprego de secretária! Estava com medo, mas lhe perguntei: “O senhor vai me demitir?”. Para minha surpresa, ele me disse: “Não. Vou promovê-la.” Quase cai da cadeira. E ele concluiu assim: “Seu corpo roliço na medida certa, suas nádegas e seus seios fartos botam esse coração velho afogueado, são verdadeiro colírio para minhas vistas fatigadas.” O que o senhor, Velho Marinheiro, acha disso?

— Seu chefe é homem de bom senso. Logo se vê. Sabe que é impossível agradar a todos e que clientes são chatos, acham que têm sempre razão. Parabéns pela promoção merecida. Vamos comemorar: “Carneiro: traga mais uma cerveja e uma porção de croquetes. Dona Deolinda precisa se alimentar, para manter essa forma exuberante.”

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Luz e sombra

— Cara: fui muito mal? Seja sincero, por favor, me fale a verdade. Comecei o trabalho ontem, não deu nem tempo de esquentar a cadeira e me vejo ao lado do deputado e da cúpula do partido tendo que dar opinião sobre isso e aquilo. Quase surtei. Não gosto de falar em reuniões, prefiro escrever. Sou tímido, falo muito em boteco, depois da terceira. Entende?

— Você foi bem demais, Ananias. Bem demais.

— Jura?

— Por que mentiria para você?

— Que bom! Fernandinho: fico feliz.

— Não deveria.

— Como assim?

— Luz projeta sombra. Dois assessores do deputado, Ananias, já querem vê-lo pelas costas. Um deles sou eu.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Uma selfie com o Velho Marinheiro

Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos a câmara digital nova que acabara de comprar, das mais modernas. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:

— Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo…

— Fazer o quê?

— Uma sel-fi-e.

— Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.

— Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?

— Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.

Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:

— Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.

— Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!

— Todo mundo faz – tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.

— Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.

E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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