O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

paradoxo

Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

Sentido figurado está no DNA da linguagem

Humanoide do filme ‘2001’ – Especulações sobre a linguagem (foto: divulgação)

Humanoide do filme ‘2001’ – Especulações sobre a linguagem (foto: divulgação)

As figuras de linguagem, como as metáforas, são manifestações da linguagem falada e escrita que permeiam o tempo todo as nossas expressões. Se pudéssemos fazer uma retrospectiva do surgimento da linguagem, como fez o diretor Stanley Kubrick (1928-1999) no filme ‘2001 – Uma odisseia no Espaço’ (1968), verificaríamos que o sentido figurado, manifesto pelas figuras de linguagem, está presente na cultura desde os tempos mais remotos, como expressão da subjetividade e criatividade humanas.

O sentido figurado é uma espécie de DNA da linguagem. Somente com sonho, poesia ou licenciosidade foi possível ao humanoide criado por Kubrick vislumbrar que um osso animal poderia ser tomado por arma, por instrumento de dominação, colocando-o em vantagem de força frente a seus inimigos.

Para que o homem pudesse lutar pelo desejo de ter o mundo a seus pés foi preciso que a linguagem não apenas permitisse referenciar tudo o que está ao nosso redor, mas também permitisse sonhar e projetar a realidade que se almejava alcançar.

Desse modo, a figura de linguagem não é apenas expressão que resulta da articulação engenhosa da língua, mas identifica as estruturas de pensamento. Em outras palavras, é a expressão da nossa própria humanidade que está em jogo com as figuras de linguagem. Dois livros podem ajudar o leitor a criar referências nesse universo: ‘As figuras de linguagem’, de Roberto de Oliveira Brandão (editora Ática), e ‘As figuras de linguagem na linguagem do cordel’, de Janduhi Dantas (editora Vozes).

O linguista russo Roman Jakobson (1896-1982) considerava as figuras de linguagem essenciais para a representação da realidade por meio do discurso: “O desenvolvimento de um discurso pode ocorrer segundo duas linhas semânticas diferentes: um tema (topic) pode levar a outro quer por similaridade, quer por contiguidade. O mais acertado seria talvez falar de processo metafórico no primeiro caso, e de processo metonímico no segundo, de vez que eles encontram sua expressão mais condensada na metáfora e na metonímia respectivamente”, afirma.

Em ‘A Interpretação dos Sonhos’, Sigmund Freud (1856-1939) desvenda a relação do sonho com o inconsciente por meio de dois processos que ele identifica como ‘condensação’ e ‘deslocamento’, que são correlatos da metáfora e metonímia, respectivamente. Tudo se passa como se as imagens e símbolos dos sonhos fossem criados a partir desses processos, cujas manifestações substituem ou disfarçam os conteúdos reais, guardados nas profundezas do inconsciente. A metáfora e a metonímia seriam instrumentos para furar o bloqueio da consciência, e permitir ao ser humano acesso às suas realidades profundas e desconhecidas.

Adeus a Chico de Assis

Chico de Assis – Mais que um dramaturgo, um pensador do teatro (foto: arquivo pessoal/Facebook)

Chico de Assis – Mais que um dramaturgo, um pensador do teatro (foto: arquivo pessoal/Facebook)

O teatro brasileiro perdeu neste sábado, 3, o ator e dramaturgo Francisco de Assis Pereira, conhecido como Chico de Assis. Em sua carreira, Chico foi também diretor teatral e compositor. Sua história está ligada ao grupo Teatro de Arena, para o qual entrou em 1958 e teve participações em espetáculos como ‘A mulher do outro’, de Sydney Howard (direção de Augusto Boal), ‘Eles não usam black-tie’, de Gianfrancesco Guarnieri (dirigido por José Renato), ‘Chapetuba Futebol Clube’, de Oduvaldo Vianna Filho, e ‘Gente como a gente’, de Roberto Freire.

Atualmente, a memória dos trabalhos do grupo, que existiu de 1953 a 1972, é mantida pelo espaço físico onde as peças eram encenadas, o Teatro de Arena Eugênio Kusnet, com 90 lugares, mantido pela Fundação Nacional das Artes (Funarte), do Ministério da Cultura, na rua Dr. Teodoro Baima, 94 – Consolação.

Segundo o jornalista e crítico de teatro Mauro Fernando, editor do blog Rotunda (http://rotunda.zip.net), Chico de Assis é representado principalmente pela autoria de peças como ‘O Testamento do Cangaceiro’, ‘As Aventuras de Ripió Lacraia’ (início dos anos 1960) e ‘Missa Leiga’ (dos 1970). “Esses trabalhos indicam a consciência crítica e o engajamento político que acompanham sua obra inquieta; a construção da síntese do homem brasileiro emoldurado pela estética popular – com humor, com inspiração no cordel, em chave épica – e a organização dos seminários de dramaturgia do Teatro de Arena fizeram dele mais que um autor, fizeram dele um pensador do teatro”, afirma.

Uma edição em dois volumes com os principais trabalhos de sua obra, com o título ‘Textos Seletos’, foi lançada em setembro de 2014 pela Funarte. No lançamento, com o Teatro de Arena lotado, Chico recebeu homenagens de amigos e companheiros de profissão, como o humorista Ary Toledo, entre outros. Em novembro, ele também foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, sob responsabilidade dos ministérios da Cultura, Relações Exteriores, Educação, Desporto e Ciência, Tecnologia e Inovação.

Chico de Assis nasceu em São Paulo em 1933, e iniciou sua carreira como ator de rádio em 1953. Dois anos depois, quis conhecer o novo meio de comunicação, a televisão, que chegava ao Brasil, e tornou-se ‘cameraman’ na Tupi e Record. Em 60 anos de trabalho, ele foi também formador de novos autores teatrais, por meio dos Seminários de Dramaturgia do Arena (Semda), que criou em 1989. “Chico de Assis tem a elaboração artística e o sentimento do mundo sempre ao alcance das mãos”, disse o presidente da Funarte, Guti Fraga, quando ‘Textos Seletos’ foi lançado.

O fim da Guerra Fria

Fernando Morais – Acesso a documentos da Rede Vespa (foto: divulgação)

Fernando Morais – Acesso a documentos da Rede Vespa (foto: divulgação)

Na quinta-feira (18), um dia depois do histórico anúncio da retomada de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, os cubanos dividiam-se quanto às perspectivas do ato político anunciado por Raúl Castro e Barack Obama, mas eram unânimes em comemorar a volta para casa de seus três heróis nacionais. Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero ganharam liberdade horas antes do anúncio oficial do acordo.

Enquanto isso, pelo lado cubano era libertado o norte-americano Alan Phillip Gross, preso em 2009, acusado de burlar a lei ao levar à ilha equipamentos de comunicação por satélite, que seriam usados por uma comunidade judaica em Havana para acesso à internet, e também por trabalhar como agente de espionagem para o governo norte-americano.

Os cubanos, por sua vez, tinham sido condenados pela justiça no país vizinho por terem se infiltrado na Flórida nos anos 90 para investigar a ação de 47 grupos anticastristas, de extrema direita, que operavam ataques terroristas em solo cubano. A trajetória dos espiões cubanos, que foi organizada pelo governo e se chamava Rede Vespa, pode ser conhecida no livro-reportagem ‘Os últimos soldados da Guerra Fria’, do jornalista e escritor Fernando Morais, que foi lançado em 2011.

Morais teve acesso a mais de 30 mil documentos produzidos pela Rede para a inteligência cubana e realizou 40 entrevistas. Um dos fatos curiosos nessa história é que enquanto o governo de Cuba abriu todas as informações e personagens para o escritor, nos EUA algumas entrevistas foram em ‘off’, porque a legislação proíbe os agentes da CIA de darem declarações públicas.

“Na prática, acaba sendo o fim do conflito como ele existiu durante toda a Guerra Fria. Conforme o título do livro do Fernando Morais são os últimos soldados da Guerra Fria esses cubanos que agora voltaram para o país e aquela Guerra Fria terminaria aí”, afirmou em entrevista, também na quinta-feira, o sociólogo Emir Sader, ao analisar o fato histórico que acabara de se desdobrar, concluindo que o embargo foi um tiro no pé para os Estados Unidos.

A expressão ‘o fim da Guerra Fria’ não é só recurso retórico mas o fim, de fato, de uma era que se instalou em 1961, após a revolução que levou Fidel Castro ao poder, e foi marcada por invasões do espaço aéreo cubano, ataques terroristas, lançamento de pragas em lavouras, entre outras ações resultantes de grupos conservadores.

Essa tentativa de acabar com a “ameaça comunista” é sustentada por uma arrogância típica de extremistas, como se fosse possível a um povo não escolher o seu destino “porque são os norte-americanos que detêm a liberdade”. A resistência aos Estados Unidos, em Cuba, com o embargo econômico se tornou mais que uma questão política, se tornou uma questão de honra e o desfecho dessa história mostra os cubanos como um povo que sabe defender sua identidade.

Desafio aos deuses

Ciclope – Polifemo gosta de se alimentar de carne humana

Ciclope – Polifemo gosta de se alimentar de carne humana (foto: divulgação)

Uma história que é lida e relida, em diferentes linguagens como prosa, poesia, quadrinhos ou cinema, precisa ter algo diferente a dizer a cada vez que estabelece uma conexão com o leitor-espectador. Se o tempo passa e a obra perde a capacidade de participar da realidade do público, ela cai no esquecimento.

As obras “clássicas” são assim chamadas porque guardam a vocação de sempre trazer novos significados e pensamentos a cada leitura. ‘A Odisseia’, de Homero, poeta da Grécia Antiga, que compõe com ‘A Ilíada’ a matriz épica da literatura ocidental, influenciando toda a produção artística que veio depois, mostra-se de uma incrível atualidade se o leitor tiver interesse em enxergar além do enredo.

Esses livros são formadores da nossa humanidade e referências para o universo da mitologia grega. E não há desculpa para não ler: as livrarias têm diversas edições, algumas delas em quadrinhos; uma delas é uma versão para o público jovem, enfim, há várias alternativas para ter acesso a essas narrativas que vão dar um banho de conhecimento no leitor. Enquanto ‘A Ilíada’ valoriza o caráter militar da Guerra de Troia, ‘A Odisseia’, de caráter social, conta os desafios da volta do rei de Ítaca, Ulisses, para casa depois de participar da guerra.

Ulisses é um ardiloso lutador que ousa desafiar os deuses. Em um de seus enfrentamentos, ele cega o ciclope Polifemo, filho de Poseidon, deus do mar, que furioso dificulta seu retorno por dez anos. Ao vencer suas batalhas, Ulisses conquista um lugar entre deus e homem. “O céu e a terra, os homens e os deuses se confundem ou se aproximam grandemente: o Olimpo não é uma região abstrata, colocada simplesmente no alto, no céu, mas uma real montanha da Tessália, posta entre a terra e o céu, porque os deuses deviam estar próximos dos homens e estes daqueles, de tal modo que as qualidades e até os defeitos se comunicassem de uns para os outros”, escreve Silveira Bueno, em prefácio de 1954, para a edição em verso português, assinada por Manoel Odorico Mendes.

Ao ler ‘A Odisseia’, o desafio aos deuses é um aspecto substantivo que desponta da narrativa. Esse desafio se repete na obra máxima da literatura moderna no século 20, ‘Ulisses’ (1922), do irlandês James Joyce (1882-1941), que remonta o mito por meio de conexões com o passado do mundo helênico para interpretar a condição humana no presente. As ironias de Joyce com as religiões e valores estabelecidos também representam desafios aos deuses. E hoje, quando as religiões já não têm a mesma importância, fica para o leitor a pergunta: o que significa tal desafio num mundo em que os deuses são o capitalismo, o mercado, a meritocracia, a bolsa de valores, os antidepressivos…

 

Inspiração no simbolismo

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Julgar um livro pela facilidade com que o texto é capaz de prender o leitor é muito pouco. A boa literatura está em instigar a inteligência e imaginação, como também em permitir sair da tábula rasa de supostas verdades e convicções da nossa zona de conforto para alçar outros pensamentos, sejam eles nobres, inspiradores, poéticos ou até mesmo insuportáveis.

No livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, que marca a estreia de Matheus Arcaro, escritor, professor e artista plástico de Ribeirão Preto, o leitor experimentará todos esses movimentos e poderá revisitar escritores clássicos da literatura por meio das referências ou da forma com que as 22 histórias dessa coletânea são escritas.

A primeira característica a notar nas narrativas de Arcaro são as aproximações com o simbolismo, movimento literário do século 19 que se originou na França, representado por nomes como Charles Baudelaire e Paul Verlaine, entre outros, e que no Brasil teve expressões como Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa.

O caráter ‘simbolista’ se manifesta em textos que sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente. “O prazer para o leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, fechar o círculo dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura, para mim, é mais erotismo que pornografia”, afirma Arcaro.

O escritor tece ainda uma prosa contaminada de figuras fonéticas, como as aliterações e assonâncias, que são repetições de sons, como na frase “…disseminando os instintos e dissipando os instantes…” ou em “Helena permanecia calada, colada à lateral do carro…”. Essa, aliás, também é uma marca do simbolismo que Arcaro retoma.

Segundo ele, “emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético”.

Mas o simbolismo não circunscreve a experiência de ler ‘Violeta velha e outras flores’. Ao mergulhar na obra, o leitor encontrará também marcas do modernismo, como o fluxo de consciência que atravessa o conto ‘Maquinando’, no qual Matheus busca expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista por e-mail com Matheus Arcaro:

A primeira coisa que me chamou a atenção no seu livro foi o caráter simbolista comum às narrativas. Digo ‘simbolista’ no sentido de que os textos sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente para o leitor. O efeito disso é que o leitor agrega sua imaginação ao conto por meio de uma dinâmica específica com o texto, em que é ele, o leitor, quem reconhece essas identidades. Ao mesmo tempo, a constância dessa característica nos contos revela que essa é uma marca da composição do livro e um recurso que você adota para não perder de vista o leitor. É isso mesmo?

Matheus Arcaro 6

‘Literatura para mim é mais erotismo que pornografia’ (foto: arquivo pessoal)

Um dos pontos que diferencia a grande literatura da literatura de consumo é que a primeira não subestima a inteligência do leitor. Se aproximarmos a lupa dos livros de ficção que constam nas listas de mais vendidos, veremos que eles têm características semelhantes: “entregam” demais a história, trabalham pouco a linguagem, mantêm-se em pé basicamente pelo enredo. Sartre dizia que escrever literatura é afastar-se da linguagem instrumento. Seguindo esse raciocínio, é lícito distinguir a linguagem em cotidiana (como “instituída”) e a do escritor (como “instituinte”). O prazer para o bom leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, “fechar o círculo” dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura para mim é mais erotismo que pornografia. Em relação à “unidade” da obra, creio que o título seja uma espécie de metonímia: a violeta traz beleza em si e a aliteração em V contribui para acentuar foneticamente tal beleza. No entanto, trata-se de uma flor perpassada pelo tempo: beleza e perecimento interseccionados. De modo geral, essa contradição (material com o qual a vida se faz) é a tessitura do livro.

A atmosfera densa e carregada de subjetividades e questões existenciais das personagens não indicaria também a proximidade com o simbolismo? O próprio título ‘Violeta velha e outras flores’ não estaria olhando de algum modo para ‘Flores do Mal’, de Baudelaire, ou outra obra? Quais são as obras e autores que contaminaram esses contos?

Evidentemente todo escritor tem seus “fantasmas”, como diria Ernesto Sabato em um de seus livros de ensaios. Baudelaire vincou minha vida desde a primeira vez que o li, na adolescência. Anos mais tarde reli “As flores do mal” e a obra me bateu com mais violência. Violência no sentido de força de deslocamento. Aliás, Roland Barthes diz que a arte tem esse poder: deslocar o sujeito, tirá-lo de uma zona cômoda. É bem provável que quem se propuser a ler meus contos não se sinta muito confortável. Sob esse aspecto podemos aproximar meu livro da obra de Baudelaire, Rimbaud, Augusto dos Anjos e do simbolismo em geral. Do ponto de vista linguístico, também há semelhanças, principalmente em relação à musicalidade. Contudo, ainda na esfera da linguagem, o livro se aproxima dos modernistas, sobretudo em relação à não-linearidade de algumas narrativas e ao fluxo de consciência. Destaco, nesse quesito, Joyce, Woolf e Beckett. Em terras tupiniquins, Clarice Lispector é minha maior influência.

Outra marca simbolista é que as figuras fonéticas, como as aliterações, também percorrem os textos e representam o recurso com o qual você agrega uma estética poética à prosa. Mas ao trabalhar com as palavras desse modo, não seriam agregados ao texto outras qualidades também, como por exemplo a ironia? O que essa marca de composição representa para você?

Menalton Braff disse, certa vez, que a prosa, para sobreviver, tende a se aproximar da poesia. Concordo. Literatura para mim é predominantemente forma. Borges afirmava que há cinco ou seis temas literários universais; a diferença entre um escritor bom e um razoável está na maneira com que o primeiro conta sua história. Em relação à ironia, muitos dos contos são perpassados por essa figura de linguagem (“Está tudo escrito” é um dos exemplos). Mas vou além: emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético.

Lendo seu livro, não pude deixar de lembrar uma palestra que vi outro dia da professora de filosofia Marilena Chauí, em que ela dizia que nos dias de hoje vivemos uma crise de valores simbólicos na cultura. Segundo o raciocínio da professora, as pessoas hoje preferem os ‘sinais’ de riqueza, dados pelos bens de consumo, aos valores simbólicos. Você concorda com isso? E, no caso de concordar, acredita que o seu livro pode ser um antídoto para essa crise, ou não há nenhuma relação?

Concordo em termos com Marilena Chauí. Uso com cautela a palavra “crise” e a expressão “nos dias de hoje” porque vejo, em ambas, um teor moral. É como se houvesse um tempo áureo e, nosso papel, fosse resgatar as virtudes desse período. Mas é evidente que as sociedades contemporâneas capitalistas prezam muito mais o que é imediato e de fácil assimilação do que aquilo que precisa ser “ruminado”, como diria Nietzsche. Isso é notório em sala de aula: a dificuldade interpretativa prevalece entre os alunos de ensino médio. É inequívoco que os meios de comunicação de massa contribuem para tal problema, principalmente a televisão. Isso porque, além de criar necessidades desnecessárias no que diz respeito ao consumo, a TV bombardeia o expectador com movimentos e cores, o que prejudica a capacidade de imaginação. Basta pensarmos que imaginar é colocar imagens em ação, ou seja, atividade. Mas como a televisão cumpre esse papel para o expectador, essa aptidão, aos poucos, vai se atrofiando. É por esse motivo que sempre me posicionei contrariamente aos livros infantis que ilustram seus enredos. Nesse sentido, a boa literatura pode ser um antídoto à passividade, já que é o estimulante por excelência da imaginação.

Qual a importância do narrador em terceira pessoa e do discurso indireto livre para a sua composição? Seria um contraponto à carga subjetiva das personagens? Enfim, o que você pensa sobre isso?

Sob o ponto de vista estritamente formal, o discurso indireto livre empresta dinamismo ao texto, além de suscitar a todo instante a participação do leitor, pois não há marcações nítidas entre enredo e diálogo. Sobre o narrador, concordo com a sua colocação: como a maioria das minhas personagens são densas subjetivamente, o narrador em terceira pessoa contribui para que os estados de experiência interiores estabeleçam relações tanto com o enredo, quanto com o leitor. Todavia, por outro lado, acredito que o próprio conto “exige” ser narrado em primeira ou terceira pessoa. “Condenado à liberdade”, por exemplo, que conta a história de um homem que só encontra a liberdade na prisão, só podia ser narrado em primeira pessoa. Um caso ilustrativo é o conto “Maquinando”, todo ele um fluxo de consciência (sem pontuação alguma) para expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

Agora, falando um pouco do contexto atual, do cenário social em que os escritores produzem literatura: o realismo está em crise? Quer dizer, a partir do momento em que ligamos a TV e somos bombardeados com enredos reais de violência nos noticiários seria preciso pensar a literatura em função disso? Seria preciso buscar na literatura o elo com sentidos e sentimentos que estão fora desse mundo imediato, banal e palatável? O que você pensa sobre literatura e meios de comunicação?

O contexto no qual o autor está inserido influencia, mas não condiciona ou determina sua criação. É natural que alguns artistas se aproveitem do que os circunda para criar (a literatura dita “engajada” é um dos exemplos”). Mas colocar a literatura em função de qualquer coisa é, no mínimo, duvidoso: passa-se da arte ao panfleto em um piscar de olhos. Sobre a literatura como “válvula de escape” da banalidade: é interessante notarmos como a Indústria Cultural faz uso de alguns rótulos como argumento de venda. Um exemplo claro em relação a livros e filmes é o famoso “baseado em fatos reais”. É como se isso fosse um selo de qualidade quando demonstra, justamente, o oposto. Mas por que se usa isso? Os teóricos da Escola de Frankfurt trataram desse tema exaustivamente, mas só destaco um ponto em relação à literatura: o que escapa à expectativa do leitor médio é potencialmente pouco vendável e, por isso, relegado. Tal leitor (que se identifica com os livros de autoajuda precisamente porque estes não abalam seu ponto de vista), tem a necessidade do que é estável, do que tem correspondente na realidade. Mas, afinal, o que chamamos de realidade? Este conceito, no século XX, foi colocado em xeque: há mesmo algo em si? Se sim, ele é captável pelo intelecto ou pela sensibilidade? Depois da física quântica, que nos mostrou que o simples ato de observar influencia o objeto observado, é difícil falar em “realidade”. Tenho um verso que brinca com isso: “realidade é a imaginação de terno e gravata”. Outro ponto importante: mesmo inconscientemente, grande parte das pessoas é cientificista. Basta pensarmos o quão crível é o jargão “cientificamente comprovado”. Na literatura, essa pretensão foi levada às últimas consequências por Zola, no final do século XIX. Influenciado pelo positivismo e pelas descobertas científicas, ele lutou para que o romance fosse “naturalizado”. Escreveu ele em “Romance experimental”: “O naturalismo consiste unicamente no método experimental, na observação e na experiência aplicados à literatura. A retórica não tem lugar nela. Se a medicina deve ser uma ciência, porque seria de outra forma com a literatura?” Lendo essa declaração, penso: quanta pretensão!

 

Violeta Velha - capaVioleta velha e outras flores,

Matheus Arcaro, editora Patuá, SP, 2014, 162 págs.

 

 

A voz dos Black Blocs

Mascarados_black_blockDesde que os jovens ocuparam as ruas da cidade nas manifestações de junho de 2013, tornou-se rotina para a mídia e para boa parte da população reproduzir o discurso que classifica os ativistas mascarados da tática Black Blocs como vândalos, baderneiros e outras qualificações semelhantes. Todas elas parecem guardar em comum a reprovação incondicional à violência, mas também são rótulos que encobrem o que esses ativistas têm a dizer.

A falta de capacidade de ouvir o outro é um dos males do País hoje, é o que esteve por trás das manifestações de ódio durante o processo eleitoral no mês passado. As 2,5 mil pessoas que há poucos dias foram à avenida Paulista pedir a volta dos militares ao poder também mostram-se movidas por esse ódio, já que se dispõem a atropelar a democracia, porque não é possível suportar aquilo que é diferente ou as mudanças que o País conquistou.

Para os mais radicais e insensíveis, a triste notícia é que a realidade é multifacetada e se compõem da visão de todas as pessoas, inclusive, os Black Blocs, cuja voz pode ser conhecida no livro ‘Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc’, de autoria da socióloga da Unifesp Esther Solano e dos jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes.

Desde agosto do ano passado, Esther pesquisou o grupo, acompanhando as manifestações. Ouviu dezenas de jovens e se concentrou na produção do livro para ajudar o leitor a entender um pouco mais sobre as razões da violência. Desde o princípio, os ataques aos bancos e ao patrimônio público na avenida Paulista, bem como os enfrentamentos com a Polícia Militar, mostram um caráter simbólico.

“A mensagem talvez seja que a sociedade não está pronta para assumir, por exemplo, que a raiva do Black Bloc é um sintoma, que os problemas estruturais da polícia são sintomas que estão explicitando as úlceras do atual modelo social brasileiro”, afirma Esther no livro, enfatizando que a realidade está além das verdades absolutas e que os jovens, a maioria de classe média baixa, buscam ser ouvidos.

O jornalista Bruno Paes Manso cobriu as manifestações dos Black Blocs como repórter do jornal ‘O Estado de S. Paulo’. Seu relato na segunda parte do livro mostra como o jornalista mudou sua visão do movimento ao longo da cobertura, não se resumindo simplesmente a classificar os ativistas como vândalos. Na parte final, o jornalista Willian Novaes reúne depoimentos dos jovens que protagonizaram os atos e traz também uma entrevista com o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi, que foi ferido em uma das manifestações.

 

Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc,

Esther Solano, Bruno Paes Manso e Willian Novaes, Geração Editorial, SP, 2014, 336 págs.