Tudo pela catuaba

Por Marina Moura

Carnaval depois das 19h na região de Pinheiros. Ânimos exaltados, álcool exalado. Gritos histéricos aumentando de volume muito rapidamente, mesclados com batidas eletrônicas e “meu pau te ama” comendo solto, entoado por grupo-sim-grupo-não passante na Pedroso de Morais.

Eu falei pra você que ia dar merda, eu falei! Grita o homem forte sem camisa do carro branco. O caminhão de lixo logo atrás, impaciente. Seu filho da puta! e não sei o que mais, responde o homem forte de regata do carro preto.

Meu pau te ama. Uma amiga disse que isso é verdadeira poesia. Mas vamos voltar à briga a fim de não causar outra, de dimensões teórico-literárias.

À medida que as agressões aumentam, os carros emparelham-se. Os alegres lixeiros já perderam a paciência; desceram da caçamba para olhar a treta, as mãos em luvas laranja látex colocadas na cintura. Agora fecham a cara, enquanto o caminhãozão fedido de preservativo e garrafa buzina mais energicamente, assim como todos os outros 476 carros.

Lado a lado, enfim, os três ou quatro integrantes dos dois carros arrebentam-se em insultos. Invocar as partes íntimas das respectivas mães e ameaçar porrada não foi suficiente. Os homens precisavam se tocar, sentir suas peles brutas rasgando e jorrando sangue.

Foi o que fizeram nos minutos seguintes. Todos saíram do carro, umas quatro pessoas de cada veículo. Folia da violência, sem direito a camisinha ou spray de espuma. Rolaram no calçamento entre socos histriônicos, mordidas histéricas e catarros ensanguentados.

Abriram maxilares, estouraram pulsos, acertaram as bolas.

Quando a namorada do cara forte do carro branco tentou apartar a briga, também levou porrada – e do próprio namorado.

Os lixeiros assistiam a tudo, agora com calma. A vizinhança pedia misto, uns mais paz, outros mais cólera. O pau continuava amando nos carros que passavam e na dança dos meninos e meninas que quebravam até alcançarem o chão de lixo, porra, confete, mijo, vidro e resto de amor.

O grupo que mais apanhava conseguiu alcançar o carro preto e fugir a toda pela Rebouças, quase levando junto o careca da CET, o vendedor de 3 Skols por 10 e a novinha terrorista que abalava por ali.

Os valentões abandonados, solitários, sem ninguém para descer a mão, levantaram-se do chão, desamassaram a roupa abarrotada de pancada e dirigiram-se ao carro.

No caminho a mulher que apanhou parece chateada. Volta ao ambiente da confusão, acocora-se, triste mesmo. Olha para os lados com olhar perdido, desolado. Enfim encontra a garrafa verde com a catuaba, que já vai perto do fim. Entra no carro, dá um gole, beija o namorado e vai continuar seu carnaval.

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Reprodução da desenho criado pelo ilustrador José Luiz Benicio (www.benicioilustrador.com.br) para o rótulo da Catuaba Selvagem

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Não julgai os que botam a mão na massa

oleiroPor Marina Moura*

À exceção dos que colocam a mão numa massa chamada “dinheiro alheio”, não julgai os erros daqueles que são da ação, que fazem. Quem lava pratos um dia os quebra, quem usa carro um dia o bate ou o tem batido, quem manuseia afiadas lâminas um dia se corta. O destino do poeta é, um dia, ser chantageado pelas próprias palavras. Quem trabalha, quem faz, erra. E não errar é inumano, sentença inversamente proporcional ao dito.

Os que apenas mandam ou coordenam e depois julgam com ferocidade o desvio do operador, que não compreendeu seus desejos, não merecem o reino dos céus. Folgados, bufões. Valem-se da execução do outro e empacam tal mulas em sua preguiça mandona. Se bem-feito, bem, obra e louros do mandante. Se não saiu como o esperado: cortem a cabeça! Do operador, é claro.

Mas não generalizemos. O bom chefe, ao contrário do explorador, é aquele que, se agora não faz, já fez, e por isso sabe demandar. “Assina” as ações junto do operador de sua ideia, é coautor. Este sim, verdadeiro professor, passa conhecimento adiante e merece reconhecimento – que sua existência seja perpetuada e prolifere!

Massa: todos poderiam botar as mãos nela. O processo do fazer, talvez, seja mais admirável e prazeroso do que a realização, que é a coisa pronta, sem revelação de seu interior e da artesania que levou à materialização.

Age quod agis

O dicionário explica que esta expressão é utilizada para designar “alguém que se deixa distrair por algo estranho à sua ocupação”, quando deveria prestar mais atenção ao que faz.

Mas ora, se a distração é a alegria do viver, como e por que pouparmo-nos? Deixar de olhar os hábitos das pessoas, as cores e os cheiros da cidade, porque o dever é, num processo automático cotidiano, dirigir-se disciplinadamente ao trabalho com a gola da camisa perfeitamente ensolarada, fisiológico desafiando o sol que alcança os 30ºC logo pela manhã?

Inexpressão das criaturas perfeitas

Outro dia pasmei. Estava no banco o qual carinhosamente chamo de Brades-cão quando ao meu lado para uma criatura perfeita. Era alta, escultural-proporcional, tinha as unhas 100% esmaltadas de roxo vivaz, nem um canto esgarçadinho. Cheirosa, frutosa, voz de veludo e sincronia ao piscar os cílios envoltos em rímel perfeitamente pincelados.

Que saco! Que visão comum, que obviedade para o olhar que procura rasuras, marcas de vida, um abraço mais apertado dado num amigo no meio do caminho, um andar meio torto causado pela pressa, fones de ouvido caindo bolsa afora, o zíper meio aberto da miúda bolsa desnudando pedaços de intimidade em frestas. Tive medo daquela criatura lindamente alienígena. Toda hermética, conduzia-se pelo espaço com passos de lady. Bela como uma replicante do Blade Runner ou como uma boneca inflável.

Sem moralismos, trata-se de preferência de um lugar pro olhar olhar. Os meus olhos ficam vidrados quando conduzem-se ao não esperado, captam sorrisos repentinos ou gritos de dor de quem não pode evitá-los.

E por fim: vivenciemos as experiências em sua totalidade. Deixar-se sujar, borrar, ferrar, lascar, encrencar, perder, ferir – errar! –, é como provar da liberdade de ser, de forma mais integral, dentro das oportunidades disponíveis. Acertar é apenas uma das possibilidades. E tudo isso é humano, talvez demasiadamente humano. E belo.

(imagem: reprodução You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VYw-HKti2OU)
Marina Moura2*Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário. Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478
 

O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

paradoxo

Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

Metáfora do casamento blindado ou pósludio do dia dos namorados

casamento

Por Marina Moura

Deparei-me com o livro “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio” pela primeira quando zanzava pela livraria FNAC da avenida Paulista. Outros encontros viriam, em outras livrarias. Fiquei quase chocada com a capa. Sem querer ou precisar folhear o livro, porque o tempo de vida é muito raro para gastarmos assim, comecei a pensar apenas sobre a capa do produto. Como se fosse possível blindar algo, surge nas estantes das livrarias esta obra que considerei obscena e que certamente tem como objetivo, travestido de boas intenções, apenas a blindagem do bolso dos autores – quem nem precisariam empreender tal esforço, pois trata-se da filha do riquíssimo bispo Edir Macedo e seu par.

Um homem dentro de um carro blindado está seguro, mas não foi para isso que os homens foram construídos”, parafraseando o autor William Shedd, que diz que “um navio ancorado no porto está seguro, mas não foi para isso que os navios foram construídos”.

Um homem dentro de um carro blindado está protegido, mas em algum momento terá de sair do veículo. Quando um casamento é blindado, colete a prova de balas, vidros escuros e todas as outras armaduras do amor, certamente o impulso de liberdade de algum dos que ocupam o opressivo veículo quererá saltar fora.

O que sobra fica sozinho e trancafiado – seu coração também fica blindado. Uma das principais prisões do amor é a falta de liberdade.

Veja o casal da capa do livro tentando transmitir a imagem de uma relação segura. Mas uma coisa é fato, meu amigo: há que se considerar a volatilidade dos sentimentos humanos. Não somos coisas inertes, ainda bem.

Casamento_BlindadoAdmitir a palavra blindagem aplicada a uma relação dita amorosa é desconsiderar a possibilidade da contradição, ou seja, do ser atingido, o que neste caso se traduziria na insegurança do casamento.

Prefiro viver a realidade ao idolatrar a imagem do ideal. Mas, se for eleger uma imagem para retratar um relacionamento, prefiro pensar em cena que remeta ao amor livre, leve e solto – não falo aqui de relacionamentos abertos, aos quais tenho muita consideração e respeito, mas faço um recorte.

Minha visão é a do amor: livre no sentido de poder escolher a quem amar; leve simplesmente porque creio que o amor tem que ser constituído de matéria alegre e boa; solto porque não se pode ambicionar querer prender nem aquele a quem se ama e nem o próprio sentimento.

Assim, talvez meu retrato amoroso seja composto por um casal não que fica com olhos cruéis bem abertos um sobre o outro, mas sim que fecha os olhos para melhor sentir os suspiros de com ele estar, e, de mãos trançadas, saem voando sobre planícies abertas e não desvendadas, cultivando sonhos acima da maldade pequenina e desejos vãos.

Símbolos trocados ou a dificuldade de gostar da coisa em si

Woman Practicing Yoga by the Sea

Por Marina Moura

Quando comecei a fazer yoga, várias pessoas não pouparam suas linguinhas e pensamentos afiados e logo deram um jeitinho de me dizer quão bom era eu estar fazendo algo para desestressar. Se fossem pessoas chegadas eu poderia fazer menção de preocupação. Aquele “Oh! Serei eu criatura estressada? Será que dei uma patada recente ou antiga naquele que me avisa e quem avisa amigo é?”.

Fato é que tais pessoas quase nada sabiam a respeito de minha vida. Tinham em comum serem para mim apenas criaturas com quem me relaciono muito esporadicamente e apenas para resolver questões de trabalho. Tinham em comum o hábito de dizerem que responderiam um importante e-mail dali a alguns instantes e respondiam em três dias, quando respondiam, o que para mim é tremenda falta de educação, mas não causa de estresse. Como acredito que a comunicação virtual é apenas mais um meio de se comunicar, não significando ser natural que o outro responda apenas o que e quando achar conveniente, como tenho essas malditas considerações na minha cabeça, eu delicadamente pedia respostas e era a chata estressada, o que justificaria meu yoga.

Por que é tão recorrente entre alguns o hábito de atrelar uma ação, coisa ou símbolo a um motivo ou meta, geralmente os mais banais e fáceis que vêm na cabeça dos afirmadores de plantão? Chega a parecer até arrogância, como se “soubessem para você” o que “é melhor para você”.

Lembro de um professor de filosofia que falou da bobagem de se embriagar por algum motivo. O melhor, dizia, era o vinho em si. Tal pensamento transformou-se de fato em filosofia para mim e alastrou-se além-vinho, vida afora.

Um dia decidi alargar o prato da salada. No mesmo dia, coincidentemente, não queria refrigerante até mais da metade do copo. Está querendo emagrecer, Marina? Foi a primeira sentença que escutei. Sorte que não foi da minha mãe. Como disse, as bobagens que já escutei vieram de quase estranhos. Minha mãe ao menos mantém suas convicções e acredita que eu decididamente me alimento mal, independentemente da minha saudabilidade e várias refeições diárias que incluem igualitariamente bobagens e saladas, mas ela vê apenas o colorido das jujubas.

Recordo de um dia ter visto um quadro que mostrava um quadrado branco no meio de um quadrado branco. Era visível aos olhos apenas porque um dos quadrados era um pouquinho mais claro ou mais escuro, sei lá eu, do que o outro. Aquela composição não me remetia a nada, não me causava nenhuma lembrança nem permitia associações. Fiquei arrepiada e quase chorei porque passava por uma fase de intenso fluxo de ideias, de ações e de sentimentos que forçavam conexões entre si, embolando-se até causar em mim um caos tremendo. Então aquele silêncio do quadro significou nada mais do que conforto.

Nossa espécie parece viver demasiadamente de compensações, apresentando séria dificuldade de admirar, olhar, fazer a coisa por si mesma. Beber pelo gosto do vinho e não porque a vida é difícil. Comer menos porque está com vontade de menos, não por estar se achando gordo. Ler porque pinçou instintivamente um livro qualquer na estante, não para se tornar o intelectual do ano. Dar um beijo no parceiro porque beijo é bom, não porque ama-o mais naquele momento ou está fazendo algum tipo de jogo.

O perigo nesta história toda é começarmos a agir motivados por esse tanto de lugares-comuns que norteiam as escolhas que os outros fazem por nós. Só em pensar na questão, quando estou fazendo algo por fazer, fico com preguiça de algumas pessoas ou até com medo, pois estarão possuindo a condução que escolhi para mim e talvez até me possuindo sem que eu dê permissão.

(foto: divulgação)

As horas que sobram

Por Marina Moura

Eu sei, sei que o tempo é curto, que no cômputo cotidiano as horas que sobram são menores do que as gastas. Mas realmente sinto falta de pessoas com interesses interessantes.

Um de meus escritores favoritos, o jornalista João Antônio, além de fazer textos fenomenais, costumava fazer alguns cálculos. Humanos gastam: oito horas diárias trabalhando, três horas se locomovendo, duas horas se alimentando, duas horas com as necessidades básicas, mais oito horas dormindo (duvido!) e por aí vai.

horas que sobram

Olha que ele não calculou o tempo gasto com idas ao banco, com ligações para atendentes de telemarketing e com o tal do Netflix. Não tenho certeza das atividades que compunham os cálculos do João, mas sempre que faço os meus próprios, com direito a reajustes de acordo com nossas novas tarefas do século 21, sobram umas 4 horinhas livres só.

Expus estes cálculos na cozinha de uma das empresas onde trabalhei e um funcionário que estava lá me questionou, perplexo: “ué, e 4 horas não está bom demais?!”. Está aí, certamente é uma pessoa com interesses desinteressantes, para espremer a própria vida assim, em espaço tão curto de tempo.

Porque quando largo o trabalho desejo ler um bocado de páginas de um bocado de livros, fazer alguma das várias danças que gosto, treinar alguma das línguas estrangeiras que um dia hei de aprender, cantar alguns sons dos anos 20 aos 2015 e (claaaaro!) beber algum álcool ao lado de amigos que têm interesses interessantes.

De preferência fazer uma poesia antes de dormir e, quem sabe, até uma oração? Entre as preces certamente constará o desejo que norteou as palavras todas desse texto: “Meu senhorzinho do céu, por favor. Esticai as horas que sobram. Aproximai-me das atividades e amigos que amo. Livrai-me daqueles que têm interesses desinteressantes. Amém”.

A simbologia das cidades

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Tédio urbano, sufoco cotidiano. Ando pelas ruas da cidade de Belo Horizonte distraída para o movimento típico da rotina de qualquer capital e muito atenta a detalhes que aos olhos apressados de quem quer ganhar o dia são irrelevantes. Estas pessoas tropeçam em mim, me dizem murmúrios que prefiro não traduzir. Não ligo. Continuo olhando as fachadas de caquéticos prédios que passaram dos 50 anos sem ninguém para lhes assistir, construções desconstruídas pelos descuidados do tempo e pela pressa, sempre ela.

Estes prédios geralmente são os que servem, junto aos muros de imóveis comerciais vazios ou com cara de vazios, a desabafos que gritam coloridos por meio do grafite e do “pixo”, como escrevem os autênticos pichadores, expondo uma questão de ‘x’ ou ‘ch’ para lá da gramática. A voz das ruas ecoando vozes abafadas dentro de nós ou vozes desconhecidas, que só sabemos nos possuir quando são expelidas por uivo desesperado ou que fazemos sair diluídas por antidepressivos, o docinho compensatório do brasileiro moderno que passa mais de metade do dia pensando para os outros. E depois há os que falam mal das prostitutas.

“Tédio urbano, sufoco cotidiano” é a inscrição feita em letras coloridas e de tipografia quase animada num muro meio sem graça da avenida Professor Morais, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus, ao lado de um pub que une rock e futebol. Embora a mensagem seja triste, é um suspiro feito de forma alegre, em tons azul celeste contrastando com o muro laranja queimado sob o qual foi inscrita, como se fosse reinterpretação do avacalhado e conformado clichê que busca o riso a partir da percepção cruel: “a gente se fode mais se diverte”; porque a gente faz arte, porque ao menos tornamos nossos dias menos sufocantes pintando muros alegres por aí – poderia ser o complemento.

Diferente e mais grave é a inscrição feita nas alturas do bairro Funcionários. Na Getúlio Vargas com Gonçalves Dias há um prédio comercial com janelas pequeniníssimas, abafadas mesmo, envolvidas por grades cinzas-chumbo. Servem para proteger? São grades às quais devemos nos prender sob pena de ficarmos soltos demais. O recado pichado em uma das laterais do edifício não poderia ser mais elucidativo: “Suicídio cotidiano”.

Os prédios grandes da cidade, com suas vidraças espelhadas, leem as mensagens com desdém. Os edifícios Piazza Navona, no bairro nobre Belvedere ou o Cinecittà, na Serra, nada têm a ver com mensagens de tédio. Pregam a vida que o mortal pediu a Deus com suas promessas de felicidade familiar representadas por piscinas trilométricas e saunas mais suadérrimas e mias eucaliptadas do que as comuns saunas mais populares. Estes prédios não ouvem gritos arrebatados escritos pelos corpos cansados da estirpe proletária. Os ecos das mensagens não alcançam seus habitantes. Não conseguem ultrapassar calçadas ladrilhadas, jardins de todas as estações, amplas portarias e subir pelos elevadores. Alguém da sacada poderia ver alguns rabiscos no muro. O que seria? Mais algum político insistindo em pintar seus slogans premonitórios sobre o que pode fazer pelo Brasil seguidos pelos números de seu bilhete lotérico? Mas assim, tão fora dos tempos de eleições? Preferirá ficar a bater panelas, cozinhando o futuro do Brasil.

A vantagem da formiga pequenina, que vive no chão, comendo fuligem e carregando objetos bem maiores que seu próprio tamanho, é poder subir as paredes e ver as coisas bem de perto e com vista panorâmica e multifacetada. Só quem está na calçada pode olhar no muro a mensagem de tédio e atribuir-lhe sentido, conjugando o lido a reflexões sobre momentos montanhosos e labirínticos de que a vida de qualquer um se compõe. Porque notar momentos de sufoco e tédio e (con)viver com estes sentimentos é encarar de frente a realidade, ou seja, mirar a própria existência, ao invés de isolar-se numa torre de marfim e depois, apenas muito depois, perceber que as nuances são puras sedas ou cetim. Belos e completamente frágeis.

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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