O girassol é sempre doce quando bate n’água

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Por Marina Moura

A escrita de repente ficou muda, mas deve ser porque há tanto grito dentro de mim.
A língua não sabe falar objetivamente o que toca nas cordas invisíveis dessa pele sensível que gostamos de chamar de alma.
Música desesperada. Música aflita ou muito calma. 
Cabem em mim todas as melodias desde que estremeçam, causando rupturas e dilacerações controláveis.
O meu exagero é uma espécie de muitos gerúndios:
Ando tendo fazendo tresloucando.
E ainda assim me invade violenta fúria.

( O que me move? )
( Remove )
( Lo (u) co )
( Move )
( Co move? )

Os parênteses que cortam minha história do começo ao fim
São incontáveis como as partículas de cor
Que formam os arcos
Que invadem as íris

Sou um grande trocadilho de mim.

Penso que os poetas são arquitetos secretos da linguagem, da vida e das coisas de esferas profundas e absolutas.

Provocam males secretos. Furtos secretos. Gozos secretos.

E todo mundo queria viver a vida do poeta sem viver sua aflição.

A tendência das pessoas normais é secar as lágrimas com lenços de seda.

O poeta as seca com areia, deixa o vento bater e leva a mão à face.
Acompanha o esfarelamento do choro, traz a água porosa à boca, mistura com a saliva e engole, pensando em naufragar no mar enquanto tocam os batuques e entoam-se cantos pra ela, Yemanjá, tornar doce o caldo da vida do poeta.

Ilustração: Pixabay
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Tudo pela catuaba

Por Marina Moura

Carnaval depois das 19h na região de Pinheiros. Ânimos exaltados, álcool exalado. Gritos histéricos aumentando de volume muito rapidamente, mesclados com batidas eletrônicas e “meu pau te ama” comendo solto, entoado por grupo-sim-grupo-não passante na Pedroso de Morais.

Eu falei pra você que ia dar merda, eu falei! Grita o homem forte sem camisa do carro branco. O caminhão de lixo logo atrás, impaciente. Seu filho da puta! e não sei o que mais, responde o homem forte de regata do carro preto.

Meu pau te ama. Uma amiga disse que isso é verdadeira poesia. Mas vamos voltar à briga a fim de não causar outra, de dimensões teórico-literárias.

À medida que as agressões aumentam, os carros emparelham-se. Os alegres lixeiros já perderam a paciência; desceram da caçamba para olhar a treta, as mãos em luvas laranja látex colocadas na cintura. Agora fecham a cara, enquanto o caminhãozão fedido de preservativo e garrafa buzina mais energicamente, assim como todos os outros 476 carros.

Lado a lado, enfim, os três ou quatro integrantes dos dois carros arrebentam-se em insultos. Invocar as partes íntimas das respectivas mães e ameaçar porrada não foi suficiente. Os homens precisavam se tocar, sentir suas peles brutas rasgando e jorrando sangue.

Foi o que fizeram nos minutos seguintes. Todos saíram do carro, umas quatro pessoas de cada veículo. Folia da violência, sem direito a camisinha ou spray de espuma. Rolaram no calçamento entre socos histriônicos, mordidas histéricas e catarros ensanguentados.

Abriram maxilares, estouraram pulsos, acertaram as bolas.

Quando a namorada do cara forte do carro branco tentou apartar a briga, também levou porrada – e do próprio namorado.

Os lixeiros assistiam a tudo, agora com calma. A vizinhança pedia misto, uns mais paz, outros mais cólera. O pau continuava amando nos carros que passavam e na dança dos meninos e meninas que quebravam até alcançarem o chão de lixo, porra, confete, mijo, vidro e resto de amor.

O grupo que mais apanhava conseguiu alcançar o carro preto e fugir a toda pela Rebouças, quase levando junto o careca da CET, o vendedor de 3 Skols por 10 e a novinha terrorista que abalava por ali.

Os valentões abandonados, solitários, sem ninguém para descer a mão, levantaram-se do chão, desamassaram a roupa abarrotada de pancada e dirigiram-se ao carro.

No caminho a mulher que apanhou parece chateada. Volta ao ambiente da confusão, acocora-se, triste mesmo. Olha para os lados com olhar perdido, desolado. Enfim encontra a garrafa verde com a catuaba, que já vai perto do fim. Entra no carro, dá um gole, beija o namorado e vai continuar seu carnaval.

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Reprodução da desenho criado pelo ilustrador José Luiz Benicio (www.benicioilustrador.com.br) para o rótulo da Catuaba Selvagem

Donald Trump na era da pós-verdade: quando a versão é mais importante do que o fato

Flavio Aguiar – Rede Brasil Atualtrump-1938339_960_720

Corre uma discussão em diferentes mídias mundiais de que estaríamos vivendo, no jornalismo, nas redes sociais e de um modo geral, a “era da pós-verdade”. Normalmente, as pessoas usam o prefixo “pós” quando não sabem muito bem o que querem definir, mas sabem de onde partem para esta indefinição. O termo “pós-moderno” é o exemplo mais bem acabado disso.

Também deve-se considerar, previamente, que antes o termo “era” valia para um período muito extenso, coisa de milhões, milhares ou pelo menos uns dois séculos de duração. Hoje este prazo se abreviou consideravelmente, e fala-se descontraidamente em “era FHC”, “era Lula”, “era Dunga”, para ficar em alguns exemplos caseiros. Já há até quem fale em “era Temer”, enquanto outros anunciam, esperançosos, ou porque querem sucedê-lo, ou porque querem simplesmente vê-lo pelas costas, que “Temer já era”.

Mas o que se quer dizer – mesmo que sem exatidão – com “pós-verdade”?

De um modo geral, pode-se dizer que a expressão aponta para uma sensação controvertida de que estamos superando a consideração de que mais importante do que o fato é a versão. Estamos entrando num momento em que o fato perde sua substância completamente. A versão é o fato, e ela subsiste por ela mesma.

Apontam, por exemplo, que o turning point desta sucessão de momentos foi a guerra do Iraque que depôs Saddam Hussein. A mídia sustentou, sem provas nem mesmo tentativas de verificação, a ideia de que o ditador iraquiano albergava armas de destruição maciça e massiva. A justificativa sustentou a guerra. Depois se comprovou que era tudo mentira, que as tais armas não existiam, que fora tudo um engodo forjado pelo governo norte-americano e seus órgãos de inteligência e espionagem. Mas nesta altura Inês já era morta, ou melhor, Saddam Hussein já estava deposto e morto. Para muitos, isto foi e é um escândalo. Para outros tantos, isto não passa de faits-divers da guerra da informação; escandaloso é se recorrer a tais métodos.

Servem de amparo a ambos os lados da contenda as múltiplas afirmações atribuídas ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre a repetição da mentira até ela tornar-se verdade – afirmações estas que, diga-se de passagem, não dispõem de comprovação documental, pelo menos até o momento. Embora, é claro, que os defensores da desinformação como método de guerra jamais citarão o ministro de Hitler como argumento em seu favor.

A era da pós-verdade, seja lá o que isto queira dizer, ganhou um reforço com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, não resta dúvida. Além de reunir entre seus auxiliares diretos e indiretos o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo, e de tomar algumas medidas de acordo com seu programa demolidor do bom senso e consagrador do que o senso comum tem de mais idiota, Trump vem fazendo um esforço enorme para impor-se como o hegemon da pauta política mundial. Este termo é usado em ciência política para designar um estado que se impõe sobre outros dominando-os não só econômica, militar e politicamente, mas também culturalmente, fazendo-se a referência de significado para  os que mantém sob seu guarda-chuva ou dentro do seu curral, como se quiser. A Roma Antiga, Espanha, Holanda,  França, Inglaterra, Estados Unidos são bons exemplos de hegemons de sucesso com duração e alcance variados em sua hegemonia. Trump ambiciona fazer a renovação dos Estados Unidos como hegemon, interna e externamente, e neste esforço quer ele mesmo tornar-se o hegemon do hegemon, o “meta-hegemon“: “L’Amérique c’est moi”, para juntar o modo arrogante como os norte-americanos se referem a si mesmos com a célebre frase sobre o Estado atribuída a Luis XIV (ao que parece também sem fonte direta).

Um bom exemplo desta ânsia em hegemonizar a pauta mundial é o anúncio bombástico de que os Estados Unidos vão sair da Parceria Transpacífica. Na verdade, esta “bomba” anuncia que os Estados Unidos sairão de algo em que ainda não entraram, porque ela ainda não existe de fato. Trump poderia dizer “desistir”, mas não ficaria bem, porque líderes como ele não “desistem” de nada; “sair” é mais bombástico, mais “macho”, para usar uma boa expressão adequada ao personagem e à personalidade em que quer se transformar.

Neste esforço titânico, Trump e seu entorno entraram em confronto com esta coisa inteiramente superada: o “fato”. Seu assessor de imprensa, Sean Spicer, acusou a mídia de falsear a imagem da posse do novo presidente como “vazia”, graças ao “pouco comparecimento”. Várias mídias reagiram, expondo fotos das ruas de Washington quase ao relento durante a posse de Trump (a não ser pelas manifestações contrárias), e as mesmas ruas tomadas por multidões feéricas durante a posse de Obama. Uma outra assessora de Trump veio em socorro de Spicer, dizendo que este se referia a “fatos alternativos”. Mas o melhor socorro mesmo veio do próprio Spicer, que no dia seguinte afirmou que às vezes é necessário ir contra os fatos, e que isto não significa mentir. Haverá melhor definição e práxis da “pós-verdade”?

Bem, Trump deu uma. Agora atribui sua derrota no voto popular para Hillary Clinton a um suposto comparecimento às urnas de algo entre 3 milhões e 5 milhões de “eleitores ilegais”. Diz que tem indícios, provas, mas não os apresenta. Fica assim o dito pelo dito, e é claro que haverá milhões de embasbacados pró-ativos acreditando na afirmação e repetindo-a até que para outros milhões ela vire uma verdade.

Como se costuma praticar em coletividades jurídicas que se põem alegremente sob o guarda-chuva – ou a canga – do hegemon norte-americano, sem provas, mas com muita convicção, mesmo que esta frase seja o amálgama de diferenças sentenças de diferentes personagens, mas unidos no esforço de, definido o criminoso para eles, encontrar a apresentar o crime que este cometeu – numa variante muito promissora para futuros romances policiais.

Portanto, resumindo para @s leitor@s, aperte o cinto. Você já está vivendo plenamente a “era da pós-verdade”, dentro e fora do seu país.

O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

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Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

Metáfora do casamento blindado ou pósludio do dia dos namorados

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Por Marina Moura

Deparei-me com o livro “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio” pela primeira quando zanzava pela livraria FNAC da avenida Paulista. Outros encontros viriam, em outras livrarias. Fiquei quase chocada com a capa. Sem querer ou precisar folhear o livro, porque o tempo de vida é muito raro para gastarmos assim, comecei a pensar apenas sobre a capa do produto. Como se fosse possível blindar algo, surge nas estantes das livrarias esta obra que considerei obscena e que certamente tem como objetivo, travestido de boas intenções, apenas a blindagem do bolso dos autores – quem nem precisariam empreender tal esforço, pois trata-se da filha do riquíssimo bispo Edir Macedo e seu par.

Um homem dentro de um carro blindado está seguro, mas não foi para isso que os homens foram construídos”, parafraseando o autor William Shedd, que diz que “um navio ancorado no porto está seguro, mas não foi para isso que os navios foram construídos”.

Um homem dentro de um carro blindado está protegido, mas em algum momento terá de sair do veículo. Quando um casamento é blindado, colete a prova de balas, vidros escuros e todas as outras armaduras do amor, certamente o impulso de liberdade de algum dos que ocupam o opressivo veículo quererá saltar fora.

O que sobra fica sozinho e trancafiado – seu coração também fica blindado. Uma das principais prisões do amor é a falta de liberdade.

Veja o casal da capa do livro tentando transmitir a imagem de uma relação segura. Mas uma coisa é fato, meu amigo: há que se considerar a volatilidade dos sentimentos humanos. Não somos coisas inertes, ainda bem.

Casamento_BlindadoAdmitir a palavra blindagem aplicada a uma relação dita amorosa é desconsiderar a possibilidade da contradição, ou seja, do ser atingido, o que neste caso se traduziria na insegurança do casamento.

Prefiro viver a realidade ao idolatrar a imagem do ideal. Mas, se for eleger uma imagem para retratar um relacionamento, prefiro pensar em cena que remeta ao amor livre, leve e solto – não falo aqui de relacionamentos abertos, aos quais tenho muita consideração e respeito, mas faço um recorte.

Minha visão é a do amor: livre no sentido de poder escolher a quem amar; leve simplesmente porque creio que o amor tem que ser constituído de matéria alegre e boa; solto porque não se pode ambicionar querer prender nem aquele a quem se ama e nem o próprio sentimento.

Assim, talvez meu retrato amoroso seja composto por um casal não que fica com olhos cruéis bem abertos um sobre o outro, mas sim que fecha os olhos para melhor sentir os suspiros de com ele estar, e, de mãos trançadas, saem voando sobre planícies abertas e não desvendadas, cultivando sonhos acima da maldade pequenina e desejos vãos.

Símbolos trocados ou a dificuldade de gostar da coisa em si

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Por Marina Moura

Quando comecei a fazer yoga, várias pessoas não pouparam suas linguinhas e pensamentos afiados e logo deram um jeitinho de me dizer quão bom era eu estar fazendo algo para desestressar. Se fossem pessoas chegadas eu poderia fazer menção de preocupação. Aquele “Oh! Serei eu criatura estressada? Será que dei uma patada recente ou antiga naquele que me avisa e quem avisa amigo é?”.

Fato é que tais pessoas quase nada sabiam a respeito de minha vida. Tinham em comum serem para mim apenas criaturas com quem me relaciono muito esporadicamente e apenas para resolver questões de trabalho. Tinham em comum o hábito de dizerem que responderiam um importante e-mail dali a alguns instantes e respondiam em três dias, quando respondiam, o que para mim é tremenda falta de educação, mas não causa de estresse. Como acredito que a comunicação virtual é apenas mais um meio de se comunicar, não significando ser natural que o outro responda apenas o que e quando achar conveniente, como tenho essas malditas considerações na minha cabeça, eu delicadamente pedia respostas e era a chata estressada, o que justificaria meu yoga.

Por que é tão recorrente entre alguns o hábito de atrelar uma ação, coisa ou símbolo a um motivo ou meta, geralmente os mais banais e fáceis que vêm na cabeça dos afirmadores de plantão? Chega a parecer até arrogância, como se “soubessem para você” o que “é melhor para você”.

Lembro de um professor de filosofia que falou da bobagem de se embriagar por algum motivo. O melhor, dizia, era o vinho em si. Tal pensamento transformou-se de fato em filosofia para mim e alastrou-se além-vinho, vida afora.

Um dia decidi alargar o prato da salada. No mesmo dia, coincidentemente, não queria refrigerante até mais da metade do copo. Está querendo emagrecer, Marina? Foi a primeira sentença que escutei. Sorte que não foi da minha mãe. Como disse, as bobagens que já escutei vieram de quase estranhos. Minha mãe ao menos mantém suas convicções e acredita que eu decididamente me alimento mal, independentemente da minha saudabilidade e várias refeições diárias que incluem igualitariamente bobagens e saladas, mas ela vê apenas o colorido das jujubas.

Recordo de um dia ter visto um quadro que mostrava um quadrado branco no meio de um quadrado branco. Era visível aos olhos apenas porque um dos quadrados era um pouquinho mais claro ou mais escuro, sei lá eu, do que o outro. Aquela composição não me remetia a nada, não me causava nenhuma lembrança nem permitia associações. Fiquei arrepiada e quase chorei porque passava por uma fase de intenso fluxo de ideias, de ações e de sentimentos que forçavam conexões entre si, embolando-se até causar em mim um caos tremendo. Então aquele silêncio do quadro significou nada mais do que conforto.

Nossa espécie parece viver demasiadamente de compensações, apresentando séria dificuldade de admirar, olhar, fazer a coisa por si mesma. Beber pelo gosto do vinho e não porque a vida é difícil. Comer menos porque está com vontade de menos, não por estar se achando gordo. Ler porque pinçou instintivamente um livro qualquer na estante, não para se tornar o intelectual do ano. Dar um beijo no parceiro porque beijo é bom, não porque ama-o mais naquele momento ou está fazendo algum tipo de jogo.

O perigo nesta história toda é começarmos a agir motivados por esse tanto de lugares-comuns que norteiam as escolhas que os outros fazem por nós. Só em pensar na questão, quando estou fazendo algo por fazer, fico com preguiça de algumas pessoas ou até com medo, pois estarão possuindo a condução que escolhi para mim e talvez até me possuindo sem que eu dê permissão.

(foto: divulgação)

As horas que sobram

Por Marina Moura

Eu sei, sei que o tempo é curto, que no cômputo cotidiano as horas que sobram são menores do que as gastas. Mas realmente sinto falta de pessoas com interesses interessantes.

Um de meus escritores favoritos, o jornalista João Antônio, além de fazer textos fenomenais, costumava fazer alguns cálculos. Humanos gastam: oito horas diárias trabalhando, três horas se locomovendo, duas horas se alimentando, duas horas com as necessidades básicas, mais oito horas dormindo (duvido!) e por aí vai.

horas que sobram

Olha que ele não calculou o tempo gasto com idas ao banco, com ligações para atendentes de telemarketing e com o tal do Netflix. Não tenho certeza das atividades que compunham os cálculos do João, mas sempre que faço os meus próprios, com direito a reajustes de acordo com nossas novas tarefas do século 21, sobram umas 4 horinhas livres só.

Expus estes cálculos na cozinha de uma das empresas onde trabalhei e um funcionário que estava lá me questionou, perplexo: “ué, e 4 horas não está bom demais?!”. Está aí, certamente é uma pessoa com interesses desinteressantes, para espremer a própria vida assim, em espaço tão curto de tempo.

Porque quando largo o trabalho desejo ler um bocado de páginas de um bocado de livros, fazer alguma das várias danças que gosto, treinar alguma das línguas estrangeiras que um dia hei de aprender, cantar alguns sons dos anos 20 aos 2015 e (claaaaro!) beber algum álcool ao lado de amigos que têm interesses interessantes.

De preferência fazer uma poesia antes de dormir e, quem sabe, até uma oração? Entre as preces certamente constará o desejo que norteou as palavras todas desse texto: “Meu senhorzinho do céu, por favor. Esticai as horas que sobram. Aproximai-me das atividades e amigos que amo. Livrai-me daqueles que têm interesses desinteressantes. Amém”.