Amor que acompanha

De todas as palavras da linguagem, a que mais me intriga é ‘amor’. Ela expressa a nossa humanidade como poucas. Pois se existe sentido para tudo o que criamos na civilização, com o ‘amor’ o sentido é aberto: a princípio está ausente e o sujeito passa a vida tentando encontrar significados para esse sentimento nobre, capaz de transformar sua existência.

Há tempos convivo com essa ideia, e por isso fui entrevistar o professor da PUC-SP e psicanalista Claudio César Montoto para que ele falasse sobre o amor nos dias de hoje. Montoto é autor de livros sobre o tema. O último deles, ‘Amor. Metáfora Eterna’, de 2012, resgata os sentidos da palavra desde Epicuro e Platão, na Grécia Antiga, passa por autores da psicanálise, como Sigmund Freud e Jacques Lacan, e faz uma leitura do que acontece na sociedade, que ele chama de “hipercapitalista”.

Montoto – Renúncia à paixão para alçar o amor (foto: divulgação)
Montoto – Renúncia à paixão para conquistar o amor (foto: divulgação)

“Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor”, afirma Montoto. Ele lembra que em Lacan o conceito de amor se relaciona a uma produção social, o que quer dizer que a experiência amorosa se articula com valores da cultura e, assim, o que importa é o amor romântico, a ideia de que a pessoa pode encontrar completude, a fusão com o outro, no estado de paixão. “Acreditamos que sempre existe a pessoa ideal e isso tem como resultado lançar o sujeito no processo de algo fadado ao fracasso”, afirma.

“É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é o contrário da completude”, diz Montoto. Para ele, o amor se insere em um contexto no qual a cultura empurra o sujeito no sentido da felicidade. “Mas não existe o estado absoluto e permanente de completude”.

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento. E sempre há um traço que faz com que o ser amado seja capturado: um cheiro, um olhar. “A paixão pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura, como é o caso da barriga de tanquinho”. Esse é um ideal compartilhado, um valor que muda o olhar. Todos desejam a tal barriga para estarem prontos para a paixão.

A verdadeira experiência amorosa, segundo Montoto, é construída a dois, no derrocar da paixão, a partir do conhecimento do outro, quando se dispõe a ter uma história em comum admitindo as diferenças. “Para amar é preciso renunciar à paixão e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada”.

Amor. Metáfora Eterna,

Claudio César Montoto, editora Bluecom, São José do Rio Preto, SP, 2012, 103 págs.

Onde encontrar: cmontoto@ig.com.br

Ou na Livraria da Vila: http://www.livrariadavila.com.br

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com Claudio César Montoto:

Entre as palavras da linguagem, não seria o ‘amor’ uma das poucas em que não há um sentido? Ou seja, inventamos uma palavra para algo que não existe e o sujeito passa a vida tentando encontrar seu significado?

O que é o amor? Em ‘O Banquete’, de Platão, Sócrates diz “a minha vida é só refletir sobre o amor”. Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor, é verdade, cada um busca dar um sentido para isso. Em Lacan, o conceito de amor se articula com uma produção social. É claro que é por meio de suas próprias tentativas que a pessoa que vai responder o que é o amor, mas essa experiência é articulada com a cultura e o mundo capitalista tenta difundir a perspectiva do romantismo do amor, a ideia de que a pessoa pode encontrar a completude, que sempre existe a pessoa ideal e essa ideia tem como resultado empurrar o sujeito no processo de algo que fadado ao fracasso, pois é uma ideia dada a partir do consumismo.

A felicidade não existe?

‘Você tem que ser feliz’, esse é o imperativo que se coloca para o sujeito, que na realidade fica em estado de abandono em meio aos objetos de consumo. É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é a antítese da completude. O amor insere-se em um contexto complicado porque o mercado empurra o sujeito no sentido da ilusão de felicidade. Não existe o estado absoluto de completude. Lacan diz “não procure a felicidade pelo mal que ela traz”. Ele assim indica que a cultura relaciona o amor com o estado de completude, o que quer dizer que existe uma crença de que somente no estado de paixão podemos encontrar a felicidade.

Mas se apaixonar não é inevitável?

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância, a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento do outro. E sempre há um traço que faz com que o outro seja capturado: um cheiro, um olhar… Nessa nossa conversa, estamos falando sobre como o amor se inscreve no inconsciente do sujeito, despejando sobre o outro anseios e ideais. Amor é como se fosse milagre na paixão. Pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura que oprime o sujeito, como é o caso da barriga de tanquinho. Esse é um ideal compartilhado com a cultura, um valor social que muda o olhar, todos desejam a barriga de tanquinho para estarem prontos para a paixão. A paixão é o processo de se amar no outro. Não se lida com o outro com suas diferenças, mas como uma parte de si mesmo. Os especialistas, os psiquiatras, que gostam de fazer cálculos dizem que a paixão dura de um e meio a dois anos. Não importa o tempo, o que é relevante é que a paixão está fadada ao fracasso. Não é uma questão de tempo, conhecer o outro é o mesmo que se desapontar com o outro. Então, as coisas começam a mudar se no percurso da paixão você percebe que apesar de o outro ser diferente pode-se construir um vínculo com ele.

A paixão não seria também uma fuga da castração que nos é imposta pela ordem simbólica?

A psicanálise nos ajuda a compreender que a paixão pode ser conduzida pela perversão, surgindo como uma forma de driblar a castração. A pessoa apaixonada não liga para a família, nem para os amigos, a ordem social para ela fica fora de questão. Esse pessoa também não precisa lidar com a falta, esse vazio interior que está em cada um de nós, que nos constitui. O mundo hipercapitalista diz que a pessoa sempre deve se apaixonar. A paixão é o motor do consumo. Mas quando o verniz da paixão começa a derreter surge aquela frase “você não é como eu achava que fosse”. Nesse momento, o olhar para o outro começa a mudar, afinal, a paixão não é o estado natural do ser humano, mas um estado de ilusão em que o sujeito apaixonado sonha que não precisa lidar com o outro, com suas diferenças, pois ele é igual ao sujeito apaixonado. Você pode viver sempre apaixonado, substituindo um por outro. Mas aí não se pode construir a relação amorosa de fato. Se acabo um relacionamento e começo outro, não há projeto de vida.

A paixão é o amor líquido, não?!

No livro ‘Amor líquido’, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fala da flutuação do fato de se estar constantemente apaixonado. Estar sozinho é representado como um fracasso e não como um estado necessário para a reflexão. A paixão é articulada com a lei de consumo dada pelo mercado – o celular fica obsoleto e o mercado vem pra isso, ou seja, compensar as quebras de ilusão. Quando a paixão cai, porque você começa a conhecer o outro, instala-se o desafio de criar o vínculo amoroso com o mesmo objeto, mas para isso é preciso reconhecer que o outro não é a completude. Nós não somos a completude para ninguém. Desça do salto porque você não é a completude para ninguém.

Mas que tipo de vínculo se pode construir?

Certamente, é o amor que acompanha. Para fazer parte da cultura, o sujeito renuncia à questão puramente física e busca estabelecer um laço mais elevado. E a literatura aborda tudo isso com liberdade. Veja o caso dos ‘encoxadores’ do Metrô. É o que todos fariam se pudessem deixar sua pulsão fluir. Assim, você deve observar que o amor tem um caráter sublimatório. O amor é uma suplência ao ato sexual puramente, é uma construção social que permite que eu tenha o outro sendo castrado. Mas a lógica do consumo diz para você sempre ter o estado de paixão que é o melhor, e quando a paixão acaba, você a substitui por outra. A pessoa fica obsoleta na sua vida, como se fosse um aparelho celular.

Mas e quando a paixão desemboca no ódio?

O desenlace da paixão pode ser também o ódio e há casos em que às vezes ele chega a unir mais do que o amor. Há casais que ficam juntos por ressentimento ou rancor, para cobrar um do outro as dívidas imaginárias assumidas, afinal, no ódio também se realiza o desejo. O ressentimento é um sentimento que se articula com a vingança e por isso não prescreve. Ele advém de um estado de paixão que não foi sustentado, porque sobreveio o conhecimento do outro, levando o sujeito a abandonar aquele estado inicial de prazerosa ignorância.

Relacionamentos superficiais são um sintoma do nosso tempo?

Neste início de século 21, é o desejo de estar apaixonado, logo, desejo de ignorância que prevalece. Os relacionamentos são superficiais, sua importância ocorre como se fosse medida pelas estatísticas, é mais importante a quantidade do que a qualidade. A metáfora do amor persiste e se desdobra no desconhecimento, quanto maior o desconhecimento, maior a ilusão de que se pode alcançar a completude. Mas para amar é preciso renunciar à paixão. Com certeza, em suas atitudes, haverá quem demonstre que amor é menos que paixão, mas o amor é construído a dois e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada.

Essa fluidez do amor é sintoma comum no divã?

Hoje em dia, o divã recebe analisantes que substituem uma relação por outra sem realizar um trabalho de luto quando a relação termina. O processo de luto significa um tempo para a reflexão, quando o sujeito fica consigo próprio para avaliar o que o outro levou dele com o fim da relação, afinal, só sabemos o valor da relação quando perdemos a pessoa desejada.

No seu livro você fala do amor como experiência e da paixão como vivência…

Existe um paralelo entre a paixão e o amor, pois enquanto a primeira está para a vivência (da quantidade, do próprio prazer) o amor é da ordem da experiência, no sentido da troca com o outro e da articulação conjunta de uma história. Na paixão, não há nenhum tipo de reflexão, a vivência é aquilo que mantém o sujeito em estado de ignorância. Nós podemos dizer que a diferença entre paixão e amor está para a diferença entre informação e conhecimento e entre vivência e experiência. As questões envolvidas pela experiência são algo mais articulado. Se você vai assistir a cinco filmes em um fim de semana, você terá apenas uma vivência, mas se você investe seu tempo em um diálogo, na conversa com o outro, você necessariamente troca experiências.

A literatura também não deixa de ter essa perspectiva do diálogo.

O escritor Umberto Eco fala da experiência do texto literário da perspectiva do leitor, que encontra diferentes formas de lidar com a literatura e que ela mostra diferentes possibilidades de mundo. A literatura no campo da experiência sempre mente, mas mentindo nos diz a verdade.  Os escritor Mario Vargas Lhosa escreveu ‘A verdade das mentiras’, uma obra em que ele defende a literatura como possibilidade de transformar a realidade. A literatura mostra para o leitor as diferentes construções de mundo, é uma experiência por excelência. Ser leitor é estar disposto a realizar um trabalho. A fantasia a partir do texto realiza um trabalho de sublimação e permite lidar com questões para as quais existem barreiras.

E qual seria a relação da literatura com a perversão?

A perversão captura o neurótico, afinal, o perverso realiza a fantasia que todos gostariam, mas recuam porque têm a estrutura neurótica. Veja, por que Paulo Maluf e Fernando Collor continuam a ser votados?! Eles são os perversos que nós gostaríamos de ser e a literatura vem um pouco para suprir ou trabalhar esse lado dentro de cada um de nós.

‘Utopia’, de Thomas More, mantém viva a ideia de sociedade alternativa

Quando o roqueiro Bruce Springsteen há poucos dias abriu seu show em São Paulo com a música “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas (1945-1989), ele não apenas surpreendeu o público com seu carisma, como também deu um segundo recado, relacionado à escolha dessa música, o de que a chama da utopia continuará viva no ser humano enquanto a injustiça e a miséria reinarem em todos os cantos do mundo.

Thomas More – Advogado humanista foi conselheiro de Henrique VIII
Thomas More – Advogado foi conselheiro de Henrique VIII

“Utopia” é uma palavra de origem grega que significa um “não-lugar” ou “u-tópos”, algo irrealizável ou impossível, como o sonho de uma sociedade perfeita, sem conflitos. Mas essa ideia existe pelo menos desde a tradição da Grécia Antiga, expressa, por exemplo, no livro “A República”, de Platão (427-347 a.C.).

O Renascimento também se inspirou nos gregos para projetar o sonho de uma sociedade alternativa. “Utopia” é o título de um livro pouco conhecido ainda hoje, apesar de ter sido publicado em 1516, pelo escritor e político Thomas More, também conhecido como Thomas Morus, dependendo da tradução de sua obra.

More escreveu sobre uma sociedade imaginária, sem propriedade privada e sem a mediação do dinheiro, estabelecida em uma ilha chamada “Utopia”. O escritor fez um contraponto à sociedade inglesa de sua época, marcada pelo despótico senso de justiça do Rei Henrique VIII, e imaginou um lugar onde a sociedade se pautasse por valores diferentes.

Há várias traduções e edições da obra, que é dividida em duas partes: na primeira, Rafael Hitlodeu, alterego do escritor e um personagem que traz a experiência de ter viajado com os descobridores da época, faz uma crítica da sociedade inglesa. Ele adverte, por exemplo, que a pena de morte para castigar os roubos, o que era vigente na época, acabava por alimentar a violência, instigando a pessoa que roubava a matar, já que não havia distinção de pena.

Na segunda parte, Hitlodeu descreve a ilha de Utopia, segundo suas características geográficas, políticas, sociais e culturais. “As leis em Utopia são em número muito pequeno. Considera-se que um excesso de leis favorece a injustiça, uma vez que se torna praticamente impossível conhecer todas elas”, diz Hitlodeu.

O professor Nílson José Machado, da Faculdade de Educação da USP, criou uma versão da obra de More, voltada ao público jovem, que agora tem lançamento em segunda edição. O texto foi condensado, mantendo a forma de diálogo socrático, como é comum nos textos de Platão, que inspira Thomas More – um orador expõe as questões ou os casos e persuade os ouvintes com o discurso do conhecimento.

Thomas Morus - capa2Utopia,

Thomas More, tradução e adaptação de Nílson José Machado, ilustrações de Vera Andrade, editora Escrituras, SP, 2013, 80 págs.

Leia versão impressa, publicada no Metrô News.

Jornadas de Junho

As cidades brasileiras são cenários de exclusão. Quem não tem dinheiro, não tem acesso à habitação e ao transporte. Mas isso é só o básico. A realidade da exclusão se desdobra em tantas faces que o resultado é a multiplicidade dos marginalizados. Há os que não têm escola, médico, hospital, comida, dignidade, respeito, cidadania, cultura, informação e assim por diante.

Cada um pode observar no dia a dia novos personagens ou cenários da exclusão. Não é difícil, pois o que todas essas formas têm em comum é sua relação com o dinheiro, afinal, tudo isso pode ser comprado, tudo é mercadoria. E apesar das mudanças sociais e do crescimento da classe C, o Brasil ainda é uma plutocracia: uma sociedade regida pelo poder do dinheiro. Há até quem prefira comprar a ignorância e, nesse caso, mesmo com excesso de recursos, torna-se excluído do saber.

20 de junho – Manifestação na Av. Paulista reuniu 100 mil pessoas (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)
20/6 – Manifestação na Paulista reúne 100 mil pessoas (Foto: Marcos Santos / USP Imagens)

“As catracas do transporte são uma barreira física que discrimina, segundo o critério de concentração de renda, aqueles que podem circular pela cidade daqueles condenados à exclusão urbana”, afirma o texto coletivo do Movimento Passe Livre (MPL), publicado no livro lançado na semana passada “Cidades rebeldes, Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil”.

A publicação reúne textos de diferentes autores ligados ao pensamento de esquerda atualmente, que procuram identificar os denominadores comuns, o simbolismo, as contradições e os desdobramentos das mobilizações que no Brasil e no mundo colocam em xeque os valores neoliberais da globalização, ou seja, essa crença já um tanto decadente de que “os mercados” se bastam.

Os jovens que foram às ruas nas manifestações de junho deram um passo fundamental para mudar a realidade da exclusão.  A reapropriação do espaço urbano é a perspectiva da luta que se estabeleceu com as Jornadas de Junho, como ficou conhecido o movimento, que culminou com o corte do aumento na tarifa de ônibus em mais de cem cidades no País.

O livro traz também uma contribuição do filósofo esloveno Slavoj Žižek, que atualmente é uma importante referência para os estudantes das áreas de ciências humanas. No texto, Žižek analisa as manifestações no Brasil e em outros países frente aos ditames e contradições da globalização.   “O que une esses protestos é o fato de que nenhum deles pode ser reduzido a uma única questão, pois todos lidam com uma combinação específica de (pelo menos) duas questões: uma econômica, de maior ou menor radicalidade, e outra político-ideológica, que inclui desde demandas pela democracia até exigências para a superação da democracia multipartidária usual”.

Cidades Rebeldes - capa2Cidades rebeldes, Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil,

Vários autores, Coleção Tinta Vermelha, Boitempo Editorial e Carta Maior, SP, 2013, 169 págs.

Crises narrativas na sociedade do espetáculo

Na vida real e na literatura existem hoje crises narrativas, que têm conexão com o tempo que estamos vivendo. No primeiro caso, essa crise tem se mostrado nas manifestações de rua, seja no Leblon, no Rio, ou na av. Paulista, com os jovens que se recusam a dar entrevista para os jornalistas da mídia tradicional, ou mesmo os hostilizam. O problema foi discutido na última semana no programa Roda Viva, da TV Cultura, que entrevistou os jornalistas da Mídia NINJA Bruno Torturra e Pablo Capilé. A emissora alternativa tem sido o contraponto da TV tradicional na cobertura ao vivo das manifestações, atraindo milhares de jovens para suas transmissões nas redes sociais.

Debord – Na sociedade do espetáculo, “parecer” é mais importante do que “ser”
Debord – Na sociedade do espetáculo, “parecer” é mais importante do que “ser”

Capilé disse que a crise narrativa atual ocorre por conta de um modelo que perdeu credibilidade. Editar ou “empacotar” imagens e dizer que aquilo é uma verdade “imparcial” não convence mais. Capilé propõe que os veículos de comunicação assumam suas “parcialidades”, que são suas posições políticas e valores, para que a difusão de informações se dê de forma transparente.

No universo da literatura, a crise também se dá por conta da falta de espaço para “discursos” que estejam fora do massacre do senso comum, que simplifica as coisas e as pessoas. “Muitas das construções, marcadamente modernas, acerca do sujeito e de suas relações sociais, sofreram simplificações, quando, no afã de realizar a crítica da modernidade, se fez passar por monolítico o que na verdade foi, mesmo em seu tempo, incerteza e conflito”, escreve Denise Brasil Alvarenga Aguiar, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em artigo sobre o tema.

Segundo Denise, essa simplificação, ou homogeneização, colabora para que os indivíduos tenham somente um tipo de percepção das coisas. Sair fora da experiência comum e enxergar outros horizontes parece algo difícil nos dias de hoje, em que as imagens no aparelho de TV dizem como deve ser a verdade. Neste momento, a Mídia NINJA e outros canais de informação alternativos, como os blogs, têm feito esse trabalho.

O filósofo francês Guy Debord (1931-1994) escreveu no livro “A sociedade do espetáculo” que as imagens têm um caráter autoritário e que seu controle é essencial para manter os indivíduos voltados para o consumo: “A administração desta sociedade e todo o contato entre os homens já não podem ser exercidos senão por intermédio deste poder de comunicação instantâneo, é por isso que tal ‘comunicação’ é essencialmente unilateral; sua concentração se traduz acumulando nas mãos da administração do sistema existente os meios que lhe garantem prosseguir administrando”.

Esse livro, escrito nos anos 60 e famoso por ter inspirado desde então ideias transformadoras, tem sido lembrado por conta das manifestações de rua, e sua leitura é essencial para quem deseja saber mais sobre a sociedade hoje e a forma como as imagens acabam sendo instrumentos de doutrinação para os interesses de mercado.

Guy Debord - capa2A sociedade do espetáculo,

Guy Debord, tradução de Estela dos Santos Abreu, Contraponto Editora, RJ, 240 págs.

Fotos; Divulgação

Leia artigo da professora Denise Brasil Alvarenga Aguiar sobre a crise na narrativa contemporânea na literatura.

Tratado sobre o amor

Arte - Desenho de Alfredo Benavídez Bedoya, que ilustra a edição da Tordesilhas
Arte – Desenho de Alfredo Benavídez Bedoya, que ilustra a edição da Tordesilhas (Imagem: Reprodução)

O sucesso da literatura erótica, com o fenômeno de vendas da escritora E. L. James, de “50 tons de cinza” e outros agregados, mostra que uma marca dos dias de hoje é a mulher assumir a posição de quem faz o discurso da sexualidade. Enquanto isso, os homens brigam pelo direito de usar saia, como aconteceu em um protesto de alunos de Letras da USP, e também no Colégio Bandeirantes, há poucos dias, com cerca de 50 alunos vestindo a peça feminina em apoio a três colegas censurados pela diretoria por usarem saias.

Como “sinal” do tempo, de repente um grupo social passa a clamar por outra forma de ver uma questão. Esse é o caso da escritora e suas leitoras ao se defrontarem com uma faceta do machismo, que é a predominância do discurso masculino no tocante ao sexo, e do protesto da saia, um objeto puramente convencional que pode ser “reinterpretado” para ocupar “outro lugar” na cultura, como pretendem seus adeptos.

Na maior parte da produção erótica, a literatura e o discurso da sexualidade têm uma relação direta com a vivência do presente. A produção literária é praticamente um radar que capta as tendências da sociedade. Mas, se a questão é considerar obras de cunho transcendental em erotismo, a leitura necessariamente começa com o livro “Kama Sutra”, de Vatsyayana, filósofo da Índia que escreveu esse texto no século IV.

Ao contrário do que muitos pensam, o “Kama Sutra” não é um manual de práticas sexuais, mas um tratado sobre o amor, o que é completamente diferente. A palavra “tratado”significa que o texto não resulta puramente da imaginação, mas nasce de um estudo, de uma análise sobre um fenônemo, que no caso é o exercício do sexo. A transcendência do texto está em inscrever entre os símbolos da cultura as características e categorias da prática do amor.

O livro é a maior referência do tema na literatura em sânscrito. Isso é feito na perspectiva da cultura na Índia, o que coloca o sexo (chamado “Kama”) como um dos três princípios que regem a vida, ao lado de “Darma”, em referência às leis, e “Artha”, a prosperidade. É, portanto, um cenário bastante diferente da banalidade carnal que conduz o sexo hoje.

Tive o privilégio de ganhar de presente de um amigo uma edição em português traduzida diretamente do sânscrito. No mundo, essas traduções são recentes e ampliam o nosso alcance sobre a obra rica em significações – desde o século 19, o que se tinha era uma tradução em inglês que era base de todas as outras, reproduzindo erros e desvios.

Kama Sutra - capa2Kama Sutra,
Vatsyayana, com ilustrações de Alfredo Benavídez Bedoya, tradução de Daniel Moreira Miranda e Juliana Di Fiori Pondian, editora Tordesilhas, SP, 2011, 96 págs.

 

Mais consciência sobre o Brasil

Marilena: mito fundador encobre os conflitos da sociedade
Marilena: mito fundador encobre os conflitos da sociedade brasileira

O livro estava há semanas sobre a mesa, já empoeirado, aguardando uma oportunidade de leitura. Aí vieram as manifestações de junho de 2013, o livro se inscreveu novamente no contexto da atualidade e a poeira foi embora. “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”, da professora de filosofia da USP Marilena Chaui, é praticamente uma luz para clarear o nosso caminho nesse momento em que, apesar da vitória das manifestações, conseguindo cancelar o aumento do transporte coletivo, uma “falta de ideias” coloca a mobilização a serviço dos valores mais conservadores.

Um efeito disso, por exemplo, é que a política tem sido reduzida a uma prática de criminosos e corruptos. Essa ideia ficou patente quando os portadores de bandeiras de partidos foram agredidos em São Paulo. A rejeição aos partidos expressa um descontentamento, é verdade, mas é importante perceber a realidade: não temos outro modo de representação e de organização de governo que não seja por meio de partidos. De qualquer forma, essa discussão colocou a reforma política na agenda do País, e a resposta da presidente Dilma foi a ideia de plebiscito. Em breve o povo deverá se manifestar por voto se quer ou não acabar com o clientelismo, a rede de favores e a influência do dinheiro na política. É de uma reorganização institucional de que estamos falando, portanto, e não propriamente de punir ou banir políticos do exercício do poder.

O livro da professora Marilena é uma contribuição para nos lembrar de quem somos, enquanto brasileiros, ou seja, filhos de um País autoritário, dominado por ideologias que querem nos fazer acreditar que somos um povo ordeiro, pacifista e abençoado por Deus. Na brilhante dinâmica desse texto, a autora parte das construções simbólicas que constituíram o que ela chama de “mito fundador” do Brasil, para em seguida mostrar como essas crenças encobrem a realidade de nossas relações, nossos verdadeiros conflitos e contradições, coisas que se manifestam, por exemplo, na pessoa que fala contra as cotas nas universidades, ou que “quem recebe Bolsa Família é vagabundo”, para depois dizer que o País é maravilhoso, não discrimina ninguém. Isso esconde o cruel processo de exclusão social, que tem raízes históricas e sua existência negada pelo discurso predominante.  O livro é, assim, uma sugestão para colocar mais conteúdo histórico e político nas manifestações.

Marilena Chaui - Brasil mito fundador - capa2Brasil: mito fundador e sociedade autoritária,

Marilena Chaui, Editora Fundação Perseu Abramo, SP, 2000, 103 págs.

Foto: Divulgação

Quando o sonho cai por terra

Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964
Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964

Desde que a crise econômica internacional se agravou em 2008, passou a fazer bastante sentido criticar as sociedades norte-americana e europeia. O modelo de desenvolvimento com base no neoliberalismo, que permitiu às empresas, sobretudo as financeiras, concentrar renda de forma absurda, caiu por terra e os governos foram chamados a prestar socorro.

Somada a isso a crise política deflagrada pelos ataques de 11 de setembro de 2001, temos um cenário em que a promessa de prosperidade nos países de Primeiro Mundo no período pós-guerra já não existe. O recente ataque a bombas em Boston, a persistente crise entre Israel e Palestina, as guerras no Iraque e Afeganistão, o conflito na Síria e agora a crise com a Coreia do Norte mostram que pouco tem sido feito para aliviar as tensões e adotar políticas que se pautem menos pelo preconceito e mais pela tolerância.

Renato Russo, ex-líder da banda Legião Urbana, tinha razão: “Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”, diz a letra de ‘Índios’, uma de suas músicas. Doente, mas que ainda se encanta com as promessas de consumo, sustentando o sonho de viver ao estilo dos norte-americanos. A doença é o outro lado do sonho, que redundou em uma sociedade obcecada por sexo e violência, como mostra o envolvente romance de Norman Mailer (1923-2007), ‘Um sonho americano’, escrito em 1964.

A decadência do modelo de vida dos países ricos é algo escancarado hoje, mas que já era patente nos idos dos anos 60 e 70, sobretudo nos círculos de escritores da geração beat nos Estados Unidos, como é o caso de Mailer, e dos existencialistas da Europa, como Jean-Paul Sartre.

Em ‘Um sonho americano’, o protagonista Stephen Rojack é um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e ex-deputado, professor universitário e apresentador de um programa de TV. Seu sucesso é emoldurado por um casamento com uma dama da alta sociedade. Mas o fato é que nos bastidores Rojack mantém um casamento agressivo e deplorável até que numa noite ele perde o controle e mata a mulher, joga-a pela janela de um confortável apartamento em Nova York para caracterizar suicídio e aí mergulha em uma viagem de violência, sexo e drogas que traz à tona os desejos sufocados pelas aparências que a civilização o obriga a manter.

A obsessão e a paranoia permeiam os personagens do livro. Quando foi lançada, a história chocou a sociedade americana, pois há momentos de prática de incesto no texto, o que deixa o leitor meio atormentado, por estar em um terreno onde não há sentido. Um aspecto interessante é que a história se pauta por registrar os cheiros das pessoas, os cheiros e seus estados de espírito, o que revela que Mailer navega em águas represadas da personalidade, construindo seu discurso com elementos em geral não verbalizados.

 

Norman Mailer - capa2Um sonho americano,

Norman Mailer, tradução de Lia Wyler, editora L&PM, Porto Alegre (RS), 2007, 276 págs.

Foto: Carl Van Vechten

O suplício do Papai Noel

Lévi-Strauss viveu no Brasil nos anos 30 para ajudar a criar a USP
Lévi-Strauss viveu no País nos anos 30 para criar a USP

O Natal de 1951 ficou marcado na história da França por um acontecimento inusitado. Descontente com a proliferação da imagem do Papai Noel na festividade, o que na época ainda era novidade, a igreja passou a condenar a figura do bom velhinho, acusando-o de “paganizar” a data, de ser um símbolo importado dos Estados Unidos que, por terem vencido a Segunda Guerra Mundial, conseguiam disseminar a tal imagem por todo o Ocidente.

O acirramento da questão levou a que no dia 24 de dezembro as autoridades eclesiásticas aprovassem um ato de suplício do Papai Noel, contando inclusive com o apoio dos protestantes. Foi assim que 250 crianças de orfanatos assistiram na catedral de Dijon, na região da Borgonha, ao enforcamento do Papai Noel, que em seguida foi publicamente queimado no átrio da igreja.

O protesto dividiu a sociedade francesa. Imprensa, comércio e boa parte das famílias saíram em defesa da personagem, enquanto a igreja preferia manter a tradição e atacava o caráter “de mentira” do ícone.

Foi por conta dessa cisão na opinião pública que na sequência surgiu o texto ‘O suplício do Papai Noel’, no qual o antropólogo e sociólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos maiores nomes das ciências humanas no século 20, vai além das aparências para desvendar as significações dos símbolos das festividades natalinas, identificando ligações da sociedade com valores ancestrais.

Partindo das muitas manifestações que defendiam os direitos das crianças se divertirem e guardar lembranças do Papai Noel, Lévi-Strauss afirma: “… não se trata de justificar as razões pelas quais as crianças gostam de Papai Noel, e sim as razões pelas quais os adultos o inventaram”. Curioso é que na polêmica o antropólogo encontra uma inversão de papéis: “Pois nesse episódio, é como se a igreja adotasse um espírito crítico ávido por franqueza e verdade, enquanto os racionalistas posam de guardiões da superstição”.

Para Lévi-Strauss, explicar a força simbólica do Papai Noel apenas pela influência dos Estados Unidos é um pensamento simplista. Na verdade, há uma concorrência de fatores que colabora para que as pessoas se identifiquem, visto que a imagem tem a capacidade de evocar uma disposição afetiva que já havia na pessoa, mas ainda não tinha encontrado meio de expressão. O livro foi editado em 2008 por ocasião do centenário do autor.

Lévi-Strauss - capa2O suplício do Papai Noel,

Claude Lévi-Strauss, tradução de Denise Bottmann, editora Cosac Naify, 2008, 50 págs.

Foto: Divulgação

Biografia discute a vida sexual de Gandhi

A vida de Gandhi (1869-1948), líder espiritual e político fundamental para a Índia conquistar sua independência da Inglaterra em 1947, é amplamente conhecida por meio de sua autobiografia e outros textos, mas para o historiador inglês Jad Adams faltava uma biografia que colocasse em evidência a personalidade do líder, uma espécie de face oculta do santo, trazendo à tona as características que se mostram na intimidade e nas relações com a família.

Para realizar ‘Gandhi: ambição nua’, Adams, que é pesquisador da Escola de Estudos Avançados da Universidade de Londres, consultou boa parte da literatura existente no assunto, construída com depoimentos de testemunhas oculares, mais diários e extensas biografias dos secretários de Gandhi.

Gandhi dormia ao lado de mulheres nuas para provar que era capaz de manter castidade

Adams partiu da investigação do voto de castidade de Gandhi, que ele fez cerca de seis anos após o seu casamento, aos 13 anos, para construir uma narrativa que joga luzes sobre as diversas formas como o líder sustentava sua opção.

Apesar da convicção na castidade, Gandhi se submetia a massagens eróticas e dormia ao lado de mulheres nuas no ashram, casa espiritual em que homens e mulheres ficavam separados, e chegava a causar protestos entre os homens que tinham de manter a castidade e ao mesmo tempo ver suas esposas em companhia do líder. Gandhi justificava sua atitude como demonstração de que podia dominar o impulso sexual.

O livro provocou polêmica no Reino Unido e Índia quando foi lançado em 2010. Sua abordagem meio que desnuda Gandhi do mito do homem que ensinou a força da não violência e instigou a desobediência civil em nome da dignidade humana. Segundo Adams, Gandhi escreveu muito sobre sexo e tinha uma personalidade em que predominavam os traços obsessivos, seja por sua busca de perfeição espiritual ou pelos enemas (lavagens intestinais) diários que realizava porque sofria de constipação.

Um dos episódios que revela a contradição entre o líder e o pai de família ocorre em 1924, quando Gandhi pratica jejum para defender a união hindu-muçulmana. Disso resultou uma conferência de 200 líderes religiosos, todos concordando que os muçulmanos continuassem a abater vacas, e os hindus tocassem suas músicas, não importando se fossem ouvidas nas vizinhanças das mesquitas.

Mas quando seu filho Manilal, em 1926, pediu autorização para se casar com a filha de um comerciante muçulmano, Gandhi rechaçou a ideia e fez ameaças ao rapaz, que perderia o emprego como diretor do jornal Indian Opinion, seria cortado da família e não mais poderia viver no país. “O respeito por outras culturas era mantido desde que umas ficassem distantes das outras”, escreve Adams.

Gandhi: ambição nua,

Jad Adams, tradução de Fulvio Lubisco, Geração Editorial, SP, 2012, 453 págs.

Fotos: Divulgação

História para sacudir a ideia de civilização

A palavra ‘civilização’ andou me perseguindo por alguns dias. Fiquei com ela na cabeça até que encontrei algo para alimentar essa obsessão pela tal palavra. ‘Laranja Mecânica’, escrito em 1962 pelo inglês Anthony Burgess (1917-1993), é um romance que ilumina a questão, é um livro feito para sacudir a ideia de ‘civilização’.

Por meio do relato autobiográfico do jovem Alex, Burgess imagina um futuro dominado por violência e totalitarismo, dando assim as mãos a escritores como George Orwell, autor de ‘1984’, e Aldous Huxley, em ‘Admirável Mundo Novo’.  São todas obras que projetam a tragédia humana no futuro.

Malcolm McDowell interpretou o jovem Alex no filme de Kubrick (foto: divulgação)

Alex e seus três amigos formam um grupo que sai às noites pelas ruas da cidade em busca de violência, sexo e drogas. Essa busca de afirmação de individualidade é algo que não tem limites tanto que, por conta de alguns momentos, o livro é classificado como de ‘ultraviolência’. Os personagens têm uma linguagem própria, e no final do livro há um glossário.

Um dos exemplos da marca da violência é o estupro da esposa de um escritor, enquanto o casal cumpria sua rotina doméstica e tem a casa invadida. Não falta crueldade na história, que começa quando a gangue agride um velho bêbado.

‘Laranja Mecânica’ é um título que projeta a grande contradição da humanidade no futuro, dada pela luta do homem em defesa de sua subjetividade, contra o massacre das instituições da civilização, como a política e a igreja. O livro tenta discutir também o quanto a maldade faz parte do ser.

Quando Alex invade a casa do escritor, ele lê um trecho da obra que estava sendo escrita que desvenda para o leitor o sentido da metáfora do título: “… A tentativa de impor ao homem, criatura superior e capaz de doçura, a fluir suculentamente, na última fase da Criação, dos cantos dos lábios barbudos de Deus, tentar impor, digo eu, leis e condições apropriadas para uma criação mecânica, contra isso eu levanto a minha pena-espada”.

‘Laranja Mecânica’ é o principal livro de Burgess e também o filme mais emblemático da obra do diretor inglês Stanley Kubrick (1928-1999).

Lançado em 1972, o filme só chegou aos cinemas brasileiros em 1978, chamando atenção por conta das cenas de nu frontal, que no nosso caso só aconteceram depois que a censura federal determinou que fossem colocadas na película cinematográfica umas bolinhas pretas para cobrir os órgãos genitais dos atores. Nessas cenas, a obra tornou-se um espetáculo patético, mas isso não prejudicou a importância do acesso ao filme, que também foi proibido em outros países.

 

Laranja Mecânica,

Anthony Burgess, tradução de Fábio Fernandes, editora Aleph, SP, 2004, 224 págs.