A simbologia das cidades

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)
Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Tédio urbano, sufoco cotidiano. Ando pelas ruas da cidade de Belo Horizonte distraída para o movimento típico da rotina de qualquer capital e muito atenta a detalhes que aos olhos apressados de quem quer ganhar o dia são irrelevantes. Estas pessoas tropeçam em mim, me dizem murmúrios que prefiro não traduzir. Não ligo. Continuo olhando as fachadas de caquéticos prédios que passaram dos 50 anos sem ninguém para lhes assistir, construções desconstruídas pelos descuidados do tempo e pela pressa, sempre ela.

Estes prédios geralmente são os que servem, junto aos muros de imóveis comerciais vazios ou com cara de vazios, a desabafos que gritam coloridos por meio do grafite e do “pixo”, como escrevem os autênticos pichadores, expondo uma questão de ‘x’ ou ‘ch’ para lá da gramática. A voz das ruas ecoando vozes abafadas dentro de nós ou vozes desconhecidas, que só sabemos nos possuir quando são expelidas por uivo desesperado ou que fazemos sair diluídas por antidepressivos, o docinho compensatório do brasileiro moderno que passa mais de metade do dia pensando para os outros. E depois há os que falam mal das prostitutas.

“Tédio urbano, sufoco cotidiano” é a inscrição feita em letras coloridas e de tipografia quase animada num muro meio sem graça da avenida Professor Morais, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus, ao lado de um pub que une rock e futebol. Embora a mensagem seja triste, é um suspiro feito de forma alegre, em tons azul celeste contrastando com o muro laranja queimado sob o qual foi inscrita, como se fosse reinterpretação do avacalhado e conformado clichê que busca o riso a partir da percepção cruel: “a gente se fode mais se diverte”; porque a gente faz arte, porque ao menos tornamos nossos dias menos sufocantes pintando muros alegres por aí – poderia ser o complemento.

Diferente e mais grave é a inscrição feita nas alturas do bairro Funcionários. Na Getúlio Vargas com Gonçalves Dias há um prédio comercial com janelas pequeniníssimas, abafadas mesmo, envolvidas por grades cinzas-chumbo. Servem para proteger? São grades às quais devemos nos prender sob pena de ficarmos soltos demais. O recado pichado em uma das laterais do edifício não poderia ser mais elucidativo: “Suicídio cotidiano”.

Os prédios grandes da cidade, com suas vidraças espelhadas, leem as mensagens com desdém. Os edifícios Piazza Navona, no bairro nobre Belvedere ou o Cinecittà, na Serra, nada têm a ver com mensagens de tédio. Pregam a vida que o mortal pediu a Deus com suas promessas de felicidade familiar representadas por piscinas trilométricas e saunas mais suadérrimas e mias eucaliptadas do que as comuns saunas mais populares. Estes prédios não ouvem gritos arrebatados escritos pelos corpos cansados da estirpe proletária. Os ecos das mensagens não alcançam seus habitantes. Não conseguem ultrapassar calçadas ladrilhadas, jardins de todas as estações, amplas portarias e subir pelos elevadores. Alguém da sacada poderia ver alguns rabiscos no muro. O que seria? Mais algum político insistindo em pintar seus slogans premonitórios sobre o que pode fazer pelo Brasil seguidos pelos números de seu bilhete lotérico? Mas assim, tão fora dos tempos de eleições? Preferirá ficar a bater panelas, cozinhando o futuro do Brasil.

A vantagem da formiga pequenina, que vive no chão, comendo fuligem e carregando objetos bem maiores que seu próprio tamanho, é poder subir as paredes e ver as coisas bem de perto e com vista panorâmica e multifacetada. Só quem está na calçada pode olhar no muro a mensagem de tédio e atribuir-lhe sentido, conjugando o lido a reflexões sobre momentos montanhosos e labirínticos de que a vida de qualquer um se compõe. Porque notar momentos de sufoco e tédio e (con)viver com estes sentimentos é encarar de frente a realidade, ou seja, mirar a própria existência, ao invés de isolar-se numa torre de marfim e depois, apenas muito depois, perceber que as nuances são puras sedas ou cetim. Belos e completamente frágeis.

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478

Um fardo a menos

Nem ele sabia por que corria tanto, desassossego sem fim.

Anos e anos de terapia – sejamos francos – não lhe serviram para nada, como quase sempre acontece com todo mundo. Gastou fortuna, as frustrações ganharam corpo.

Alfredo continua o mesmo: inseguro, ansioso, certo de que o mundo acabará amanhã, ou a qualquer momento, como sempre dizia sua mãe. Obsessão de vida inteira: amanhã não haverá mais mundo.

Daí, a necessidade de querer fazer já, para ontem, tudo, não importa o quê.

Anos e anos de sofrimento e despesas. À toa.

Um dia, muito tempo depois, de bolsa cheia, a terapeuta abriu o jogo:

— Alfredo: se você acha que o mundo vai acabar a qualquer momento – e não há quem tire essa bobagem de sua cabeça –, por que correr tanto, para que fazer isso ou aquilo, se amanhã aquilo e isso não terão sentido algum, já que não haverá mais mundo?

Caiu a ficha.

— Por que a senhora levou tanto tempo para me dizer o óbvio?

— Você não estava preparado para ouvir a verdade.

Alfredo pensou em muitas coisas: exigir o dinheiro (de anos, pequena fortuna) de volta, matar a terapeuta e família, exumar o corpo da mãe e queimar seus ossos…

Achou melhor continuar correndo, sempre apressado, sem saber para onde nem por quê. Só que agora sem ter que pagar a conta da terapeuta.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Tempo de despertar

Já fui muito festeiro, não sou mais. Se houvesse uma enquete para definir o mês mais chato do ano, cravaria sem pestanejar: dezembro. É um porre de bebida ordinária. É pior que cuecas e sapatos apertados.  Não chega a aleijar, mas incomoda.

Os preços disparam e raramente se encontra nas lojas o que se procura. O trânsito consegue ficar infinitamente pior do que já é. O telefone não para: de asilos a creches, todos querem uma doação extra. Os funcionários do prédio esperam uma “caixinha gorda”, os balconistas da padaria também. O ajudante do açougueiro, o carteiro e os medidores de água, luz e gás não fogem à regra. Esta gente não recebe o 13º salário?

Pior que isso, só o tal de “amigo oculto”. Perde-se muito tempo e dinheiro com essa bobagem. Em geral, você dá ao “amigo” o que ele abomina, e recebe algo que para nada lhe serve. É a lei da vida: aqui se faz e aqui se paga. Isso quando não ocorre de você dar um panetone para a tia e receber da tia um panetone, da mesma marca e tamanho. É patético.

Não sei o que é pior: as festas de Natal ou as comemorações do dia 31. Todo mundo de olho no relógio. Afinal, meia-noite é a hora de abraçar com entusiasmo aquele parente que você paga para não ver ao longo do ano. Aquela felicidade forçada é de arrebentar corações pouco valentes, como o meu.

Ah, temos os foguetórios, anunciando a chegada do novo ano. Todo mundo de boca aberta, olhando para o céu e dizendo em uníssono: “Que lindo!” Francamente. Que dizer, então, das simpatias? Calcinhas brancas para ter paz; amarelas para ter dinheiro. E por aí vai. Suponho que as devassas, por coerentes e pragmáticas, não usem calcinha alguma.

Ainda bem que não há mal que sempre dure. Janeiro logo chega. É tempo de pôr em marcha tudo aquilo que, há duas décadas, em marcha prometemos pôr. Em vão. Tempo de recomeçar a contar os dias que faltam para dezembro próximo.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Inspiração no simbolismo

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)
Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Julgar um livro pela facilidade com que o texto é capaz de prender o leitor é muito pouco. A boa literatura está em instigar a inteligência e imaginação, como também em permitir sair da tábula rasa de supostas verdades e convicções da nossa zona de conforto para alçar outros pensamentos, sejam eles nobres, inspiradores, poéticos ou até mesmo insuportáveis.

No livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, que marca a estreia de Matheus Arcaro, escritor, professor e artista plástico de Ribeirão Preto, o leitor experimentará todos esses movimentos e poderá revisitar escritores clássicos da literatura por meio das referências ou da forma com que as 22 histórias dessa coletânea são escritas.

A primeira característica a notar nas narrativas de Arcaro são as aproximações com o simbolismo, movimento literário do século 19 que se originou na França, representado por nomes como Charles Baudelaire e Paul Verlaine, entre outros, e que no Brasil teve expressões como Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa.

O caráter ‘simbolista’ se manifesta em textos que sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente. “O prazer para o leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, fechar o círculo dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura, para mim, é mais erotismo que pornografia”, afirma Arcaro.

O escritor tece ainda uma prosa contaminada de figuras fonéticas, como as aliterações e assonâncias, que são repetições de sons, como na frase “…disseminando os instintos e dissipando os instantes…” ou em “Helena permanecia calada, colada à lateral do carro…”. Essa, aliás, também é uma marca do simbolismo que Arcaro retoma.

Segundo ele, “emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético”.

Mas o simbolismo não circunscreve a experiência de ler ‘Violeta velha e outras flores’. Ao mergulhar na obra, o leitor encontrará também marcas do modernismo, como o fluxo de consciência que atravessa o conto ‘Maquinando’, no qual Matheus busca expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista por e-mail com Matheus Arcaro:

A primeira coisa que me chamou a atenção no seu livro foi o caráter simbolista comum às narrativas. Digo ‘simbolista’ no sentido de que os textos sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente para o leitor. O efeito disso é que o leitor agrega sua imaginação ao conto por meio de uma dinâmica específica com o texto, em que é ele, o leitor, quem reconhece essas identidades. Ao mesmo tempo, a constância dessa característica nos contos revela que essa é uma marca da composição do livro e um recurso que você adota para não perder de vista o leitor. É isso mesmo?

Matheus Arcaro 6
‘Literatura para mim é mais erotismo que pornografia’ (foto: arquivo pessoal)

Um dos pontos que diferencia a grande literatura da literatura de consumo é que a primeira não subestima a inteligência do leitor. Se aproximarmos a lupa dos livros de ficção que constam nas listas de mais vendidos, veremos que eles têm características semelhantes: “entregam” demais a história, trabalham pouco a linguagem, mantêm-se em pé basicamente pelo enredo. Sartre dizia que escrever literatura é afastar-se da linguagem instrumento. Seguindo esse raciocínio, é lícito distinguir a linguagem em cotidiana (como “instituída”) e a do escritor (como “instituinte”). O prazer para o bom leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, “fechar o círculo” dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura para mim é mais erotismo que pornografia. Em relação à “unidade” da obra, creio que o título seja uma espécie de metonímia: a violeta traz beleza em si e a aliteração em V contribui para acentuar foneticamente tal beleza. No entanto, trata-se de uma flor perpassada pelo tempo: beleza e perecimento interseccionados. De modo geral, essa contradição (material com o qual a vida se faz) é a tessitura do livro.

A atmosfera densa e carregada de subjetividades e questões existenciais das personagens não indicaria também a proximidade com o simbolismo? O próprio título ‘Violeta velha e outras flores’ não estaria olhando de algum modo para ‘Flores do Mal’, de Baudelaire, ou outra obra? Quais são as obras e autores que contaminaram esses contos?

Evidentemente todo escritor tem seus “fantasmas”, como diria Ernesto Sabato em um de seus livros de ensaios. Baudelaire vincou minha vida desde a primeira vez que o li, na adolescência. Anos mais tarde reli “As flores do mal” e a obra me bateu com mais violência. Violência no sentido de força de deslocamento. Aliás, Roland Barthes diz que a arte tem esse poder: deslocar o sujeito, tirá-lo de uma zona cômoda. É bem provável que quem se propuser a ler meus contos não se sinta muito confortável. Sob esse aspecto podemos aproximar meu livro da obra de Baudelaire, Rimbaud, Augusto dos Anjos e do simbolismo em geral. Do ponto de vista linguístico, também há semelhanças, principalmente em relação à musicalidade. Contudo, ainda na esfera da linguagem, o livro se aproxima dos modernistas, sobretudo em relação à não-linearidade de algumas narrativas e ao fluxo de consciência. Destaco, nesse quesito, Joyce, Woolf e Beckett. Em terras tupiniquins, Clarice Lispector é minha maior influência.

Outra marca simbolista é que as figuras fonéticas, como as aliterações, também percorrem os textos e representam o recurso com o qual você agrega uma estética poética à prosa. Mas ao trabalhar com as palavras desse modo, não seriam agregados ao texto outras qualidades também, como por exemplo a ironia? O que essa marca de composição representa para você?

Menalton Braff disse, certa vez, que a prosa, para sobreviver, tende a se aproximar da poesia. Concordo. Literatura para mim é predominantemente forma. Borges afirmava que há cinco ou seis temas literários universais; a diferença entre um escritor bom e um razoável está na maneira com que o primeiro conta sua história. Em relação à ironia, muitos dos contos são perpassados por essa figura de linguagem (“Está tudo escrito” é um dos exemplos). Mas vou além: emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético.

Lendo seu livro, não pude deixar de lembrar uma palestra que vi outro dia da professora de filosofia Marilena Chauí, em que ela dizia que nos dias de hoje vivemos uma crise de valores simbólicos na cultura. Segundo o raciocínio da professora, as pessoas hoje preferem os ‘sinais’ de riqueza, dados pelos bens de consumo, aos valores simbólicos. Você concorda com isso? E, no caso de concordar, acredita que o seu livro pode ser um antídoto para essa crise, ou não há nenhuma relação?

Concordo em termos com Marilena Chauí. Uso com cautela a palavra “crise” e a expressão “nos dias de hoje” porque vejo, em ambas, um teor moral. É como se houvesse um tempo áureo e, nosso papel, fosse resgatar as virtudes desse período. Mas é evidente que as sociedades contemporâneas capitalistas prezam muito mais o que é imediato e de fácil assimilação do que aquilo que precisa ser “ruminado”, como diria Nietzsche. Isso é notório em sala de aula: a dificuldade interpretativa prevalece entre os alunos de ensino médio. É inequívoco que os meios de comunicação de massa contribuem para tal problema, principalmente a televisão. Isso porque, além de criar necessidades desnecessárias no que diz respeito ao consumo, a TV bombardeia o expectador com movimentos e cores, o que prejudica a capacidade de imaginação. Basta pensarmos que imaginar é colocar imagens em ação, ou seja, atividade. Mas como a televisão cumpre esse papel para o expectador, essa aptidão, aos poucos, vai se atrofiando. É por esse motivo que sempre me posicionei contrariamente aos livros infantis que ilustram seus enredos. Nesse sentido, a boa literatura pode ser um antídoto à passividade, já que é o estimulante por excelência da imaginação.

Qual a importância do narrador em terceira pessoa e do discurso indireto livre para a sua composição? Seria um contraponto à carga subjetiva das personagens? Enfim, o que você pensa sobre isso?

Sob o ponto de vista estritamente formal, o discurso indireto livre empresta dinamismo ao texto, além de suscitar a todo instante a participação do leitor, pois não há marcações nítidas entre enredo e diálogo. Sobre o narrador, concordo com a sua colocação: como a maioria das minhas personagens são densas subjetivamente, o narrador em terceira pessoa contribui para que os estados de experiência interiores estabeleçam relações tanto com o enredo, quanto com o leitor. Todavia, por outro lado, acredito que o próprio conto “exige” ser narrado em primeira ou terceira pessoa. “Condenado à liberdade”, por exemplo, que conta a história de um homem que só encontra a liberdade na prisão, só podia ser narrado em primeira pessoa. Um caso ilustrativo é o conto “Maquinando”, todo ele um fluxo de consciência (sem pontuação alguma) para expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

Agora, falando um pouco do contexto atual, do cenário social em que os escritores produzem literatura: o realismo está em crise? Quer dizer, a partir do momento em que ligamos a TV e somos bombardeados com enredos reais de violência nos noticiários seria preciso pensar a literatura em função disso? Seria preciso buscar na literatura o elo com sentidos e sentimentos que estão fora desse mundo imediato, banal e palatável? O que você pensa sobre literatura e meios de comunicação?

O contexto no qual o autor está inserido influencia, mas não condiciona ou determina sua criação. É natural que alguns artistas se aproveitem do que os circunda para criar (a literatura dita “engajada” é um dos exemplos”). Mas colocar a literatura em função de qualquer coisa é, no mínimo, duvidoso: passa-se da arte ao panfleto em um piscar de olhos. Sobre a literatura como “válvula de escape” da banalidade: é interessante notarmos como a Indústria Cultural faz uso de alguns rótulos como argumento de venda. Um exemplo claro em relação a livros e filmes é o famoso “baseado em fatos reais”. É como se isso fosse um selo de qualidade quando demonstra, justamente, o oposto. Mas por que se usa isso? Os teóricos da Escola de Frankfurt trataram desse tema exaustivamente, mas só destaco um ponto em relação à literatura: o que escapa à expectativa do leitor médio é potencialmente pouco vendável e, por isso, relegado. Tal leitor (que se identifica com os livros de autoajuda precisamente porque estes não abalam seu ponto de vista), tem a necessidade do que é estável, do que tem correspondente na realidade. Mas, afinal, o que chamamos de realidade? Este conceito, no século XX, foi colocado em xeque: há mesmo algo em si? Se sim, ele é captável pelo intelecto ou pela sensibilidade? Depois da física quântica, que nos mostrou que o simples ato de observar influencia o objeto observado, é difícil falar em “realidade”. Tenho um verso que brinca com isso: “realidade é a imaginação de terno e gravata”. Outro ponto importante: mesmo inconscientemente, grande parte das pessoas é cientificista. Basta pensarmos o quão crível é o jargão “cientificamente comprovado”. Na literatura, essa pretensão foi levada às últimas consequências por Zola, no final do século XIX. Influenciado pelo positivismo e pelas descobertas científicas, ele lutou para que o romance fosse “naturalizado”. Escreveu ele em “Romance experimental”: “O naturalismo consiste unicamente no método experimental, na observação e na experiência aplicados à literatura. A retórica não tem lugar nela. Se a medicina deve ser uma ciência, porque seria de outra forma com a literatura?” Lendo essa declaração, penso: quanta pretensão!

 

Violeta Velha - capaVioleta velha e outras flores,

Matheus Arcaro, editora Patuá, SP, 2014, 162 págs.

 

 

Histórias do cotidiano

Silveira – Espírito de observação e um retrato das pessoas na cidade
Silveira – Espírito de observação sobre a vida na cidade (foto: divulgação)

Noite fria em São Paulo, um homem toma um trago no balcão da padaria e atenta para um rapaz, sentado em um degrau ao lado da entrada, enrolado em uma manta suja, acompanhado de seu cão. O homem ordena ao balconista um bauru para viagem e ao sair o oferece ao outro, junto com fósforos e cigarros.

O rapaz agradece, dá uma mordida no sanduíche, mastiga, mastiga, mas por fim confessa dificuldade: “Está muito gostoso, mas não consigo comer. Posso dar o restante para o cachorro, o senhor não me leva a mal? Ele tem mais fome que eu. Muito obrigado. Vá com Deus.”

Essa história aparentemente banal e que nos remete à clássica imagem de Charles Chaplin ao lado de seu cãozinho, é narrada na crônica ‘Beiçola’, do escritor e jornalista Orlando Silveira, que vive no bairro do Tatuapé. Ela diz muito sobre a condição humana e o fosso que existe entre ricos, ou nem tão ricos, e as pessoas que habitam a miséria na cidade. É um retrato da exclusão, para a qual preferimos fechar os olhos, como se fosse uma realidade inexistente.

Mas as histórias de Silveira trazem também um lado irônico, caricato, que sempre conduz o leitor a cenas e fatos do cotidiano, seja em família, no boteco, entre vizinhos. Silveira escreve sobre as coisas que estão debaixo do nariz, mas não somos capazes de contar por falta de espírito de observação.

Velho Marinheiro, entre outros, é um dos personagens que se repetem em suas histórias. E a postura do Velho, que sofre de um bicho de pé imaginário, têm muito a ver com os percalços e atitudes da terceira idade.

Sempre debochado, o personagem é alguém que “deu um pontapé na compostura” e prefere ser mais honesto consigo próprio, como no conto ‘As namoradas do Velho Marinheiro’, em que ele pede à neta para escrever um e-mail a uma paquera, apesar de ser casado: “Deolinda, Deolinda: coisa linda demais, eu faço minhas as poucas – mas sábias – palavras de Mário Quintana: ‘Eu queria trazer-te uns versos lindos…/Trago-te estas mãos vazias/Que vão tomando a forma das tuas nádegas’”.

Nesse texto, o Velho debocha até mesmo do verso de Quintana e a neta, indignada, chama sua atenção: “Não bastasse sua canalhice, o senhor errou feio: Quintana não falou em nádegas. Ele falou em seios”, esbraveja a neta.

O blog Livros & Ideias publica os textos de Silveira aos sábados. Para conhecer o trabalho de Silveira, o leitor pode também visitar o blog do escritor, que está completando um ano: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br. O blog ‘Jornal da Besta Fubana’ (http://www.luizberto.com/), editado pelo escritor pernambucano Luiz Berto, também apresenta textos do autor.

* Texto publicado nos jornais Metrô News e Folha Metropolitana.

Feira de economia solidária reúne artesanato e culinária sustentável

Evento no Jardim Jaqueline terá artesanato com reciclados, oficinas de alimentação e mobiliário, grafite e shows com o grupo Batukaí e o rapper Dugueto Shabazz

 

No sábado, 6, será realizada no Jardim Jaqueline (Zona Oeste) uma feira de economia solidária que apresentará à comunidade e visitantes produtos de cooperativas de trabalhadores que buscam formas alternativas e sustentáveis de produção e comercialização.

Quem conferir a feira, que será realizada das 10h às 16h, poderá conhecer artesanatos com materiais reutilizados, como tapetes e fuxicos feitos com retalhos, bolsas de pano, flores, pufes, cadernos e agendas de papel reciclado, roupas e acessórios, barra de cereais entre outros.

Fuxicos confeccionados com retalhos pelo grupo Amigas Arteiras (foto: divulgação)
Fuxicos confeccionados com retalhos pelo grupo Amigas Arteiras (foto: divulgação)

A feira será ainda uma oportunidade para o visitante conhecer ou trocar experiências sobre alimentação saudável, com menos desperdício e mais consciência. Oficina realizada pelo projeto Disco Xepa vai mostrar como reutilizar alimentos em boas condições, que sobram das feiras de rua. Em apoio ao movimento internacional de ecogastronomia Slow Food, o Disco Xepa já realizou mais de 200 eventos como esse, em 75 cidades e 15 países.

“A ideia é que a comunidade participe ativa e colaborativamente na elaboração das comidas apropriando-se de novos saberes culinários, além da ressignificação do que é lixo e do que pode não ser”, afirma Luciana Pellacani, formadora em economia solidária da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-USP), que organiza o evento junto com o Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CRSANS-BT), da Prefeitura de São Paulo.

Outra oficina vai mostrar como confeccionar mobiliário artesanal (pufes) a partir de resíduos reciclados. Todas as atividades da feira são gratuitas.

Rapper Dugueto Shabbaz fará apresentação na feira (foto: divulgação)
Rapper Dugueto Shabbaz fará apresentação na feira (foto: divulgação)

Um artista grafiteiro irá pintar um painel feito de madeirite ao longo do espaço da feira, com a participação do público. Além disso, o dia contará com música ao vivo com o grupo Batukaí e com o rapper Dugueto Shabbaz.

“Esperamos que o projeto dê novo sentido aos olhares para a questão dos resíduos sólidos e orgânicos, estimulando as pessoas a consumirem e produzirem de maneira mais responsável com o meio ambiente”, afirma Luciana. Ela diz que a feira propiciará um sábado de confraternização e entretenimento para a comunidade e para o público da cidade interessado em conhecer as ações concretas de economia solidária.

Serviço

III Feira de Economia Solidária no CRSANS-BT, sábado, 6 de setembro, das 10h às 16h, na Rua Nella Murari Rosa, nº 40, Jd. Jaqueline, entrada pela rua Basílio Levi – altura do km 14,5 da Rod. Raposo Tavares.

 

 

Confira os coletivos que participam da feira

Amigas Arteiras: artesanato feito a partir de retalhos reutilizados, como tapetes amarradinhos e fuxicos

Mãos na Massa: barras de cereais

Das Doida: artesanato com flores e pufes

Papel de Mulher: papel reciclado para cadernos, agendas, blocos de notas, entre outros

Todas por uma: diversos produtos artesanais

Candaces: roupas e acessórios

Cardume de mães: bolsas produzidas a partir de banners reutilizados

Modela Pano: brinquedos serigrafados

 

 

Entidades que apoiam a economia solidária

ITCP-USP: a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-USP) é um programa de extensão universitária da Universidade de São Paulo (USP) que busca extrapolar os seus muros para fortalecer as iniciativas de trabalhadores dispostos à formação de uma Economia Solidária e popular com base no cooperativismo e autogestão.

CRSANS-BT: é o primeiro Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de São Paulo, localizado no Parque Raposo Tavares, no Butantã. O Centro funciona como ponto multiplicador de discussões e um local de atividades relacionadas à segurança alimentar e nutricional, que envolvem inclusão social e conscientização ambiental da comunidade. A ideia é transmitir os conceitos e técnicas relacionados a cultivo de alimentos saudáveis e de nutrição, para que os frequentadores levem o conhecimento para casa e disseminem o que aprenderam.

 

 

 

 

 

 

Todo mundo ficava dodói

1986. Vereadores paulistanos pediam – e obtinham! – licença “por motivos de saúde” com uma facilidade impressionante. Em seus lugares, assumiam os suplentes, ávidos por apresentar projetos e discursos inócuos. Os titulares continuavam ganhando normalmente seus salários. Os suplentes também, muito embora alguns tivessem que dividir a grana com os primeiros. A conta da farra, evidentemente, era paga por todos nós.

Em julho, em pleno recesso, muitos se licenciaram – todos por motivos de saúde – e foram assistir aos jogos da Copa do Mundo no México. Até então não se sabia que o sol escaldante de Guadalajara e as emoções que uma competição dessas provoca faziam tão bem ao corpo e ao espírito.

Não há reforma política que dê jeito na falta de caráter.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Fruto de ampla mobilização cidadã, Cine Belas Artes reabre no dia 19

Um dos mais tradicionais cinemas de rua de São Paulo reabre as portas no sábado, 19 de julho, às 16h; consolidação do espaço como patrimônio afetivo, cultural e histórico será assegurada por conselho proposto pelo MBA, movimento que liderou desde 2011 a campanha pela sua retomada

Belas artes
Mobilização: resgate do espaço que é referência do cinema de arte na cidade (foto: MBA)

Programada para o próximo sábado, dia 19 de julho, às 16h, a reabertura do Cine Belas Artes sacramentará a vitória de uma mobilização cidadã protagonizada pelo Movimento Cine Belas Artes (MBA), que levou ao reconhecimento desse tradicional cinema da Rua da Consolação, 2.423, como patrimônio de São Paulo e do Brasil.

Criado em janeiro de 2011 após o anúncio do fechamento, o MBA é composto por frequentadores e cidadãos que acreditam na valorização dos cinemas de rua e na proteção de espaços culturais como fundamentais para a construção de uma São Paulo mais acessível e humana¹.

Ao longo desses mais de três anos, o MBA promoveu inúmeras atividades públicas e negociações com representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público e das três esferas do governo (municipal, estadual e federal)², com destaque para a liminar concedida pela Justiça em dezembro de 2011, que reabriu os processos de tombamento, impedindo que o prédio fosse demolido ou transformado em shopping center ou loja de departamentos.

No início de 2013, o MBA conseguiu sensibilizar o então recém-empossado Secretário Municipal da Cultura, Juca Ferreira, a assumir a mediação de difíceis negociações visando à retomada das atividades. Na falta de dinheiro para comprar o edifício, estimado em R$ 10 milhões, a prefeitura costurou o apoio da Caixa, que investirá R$ 1,8 milhão ao ano para patrocinar o cinema, suficiente para cobrir o valor aluguel. Assim, o espaço reabre como Cine Caixa Belas Artes.

Acreditamos que apenas esforços conjugados entre a sociedade civil, o poder público e a iniciativa provada poderão fortalecer de um modelo inovador de preservação de espaços relevantes para a população, como os cinemas de rua. Nesse modelo, a comunidade passa a cuidar de seus patrimônios culturais respaldada por políticas públicas e investimentos públicos e privados.

Para entrar no negócio, a Caixa condicionou a liberação dos recursos a contrapartidas estabelecidas no acordo de cogestão entre o gestor privado e a Secretaria Municipal de Cultura para baratear os ingressos, ocupar o período matutino com atividades para escolas (proposta do MBA) e reservar o uso de uma sala para a SPCine, com exibição de filmes nacionais, e mostras da Caixa Cultural.

O MBA também propôs a criação do Conselho de Amigos do Cine Belas Artes, que foi incluído no acordo de cogestão e será fundamental para que o cinema se consolide como patrimônio da cidade e preserve seus valores fundadores³.

Em um contexto de ampla hegemonia do mercado imobiliário no desenvolvimento urbano do país, a reabertura do Belas Artes dará nova vida às calçadas da Consolação e novo fôlego às lutas por mais cultura, cidadania e sustentabilidade nas cidades brasileiras.

Novo site no ar – O MBA lança seu site oficial, no qual é possível ler artigos e notícias sobre a luta pela retomada do cinema, acessar documentos e entender cronologicamente a história do Movimento e suas conquistas. O site está totalmente aberto a comentários e sugestões para a continuidade da mobilização cidadã. Acesse:

www.movimentocinebelasartes.com.br

 

Reabertura do Cine Caixa Belas Artes
Solenidade aberta ao público
Dia 19 de julho, sábado, às 16h
Na Rua da Consolação, 2.423, em frente ao cinema

Notas

¹ O MBA também conta com o apoio das seguintes entidades: Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas/Seção São Paulo (ABD/SP), Associação Paulista de Cineastas (Apaci), Associação Preserva São Paulo, Conselho Brasileiro de Entidades Culturais (Cebec), Movimento Defenda São Paulo, Sociedade Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Sammorc) e Via Cultural – Instituto de Pesquisa e Ação pela Cultura.

² Também organizou eventos e debates públicos, produziu dezenas de documentos e articulações para o tombamento do espaço, conquistou a adesão de aproximadamente 90 mil pessoas à causa contra o fechamento do cinema na plataforma Causes, o apoio de mais de 100 personalidades em seu Manifesto e abaixo-assinados com 28 mil assinaturas, participou de audiências públicas na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa de SP, foi uma das forças mais influentes nas discussões sobre cultura na revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) da cidade ao longo de 2013 e 2014 e propôs ao Secretário Juca Ferreira, que mediasse negociações visando a reabertura do Belas Artes – o que resultou na parceria com a Caixa Econômica Federal, que aportará R$ 1,8 milhão por ano para o pagamento do aluguel. Ver mais na Linha do Tempo do movimento em www.movimentocinebelasartes.com.br/linha-do-tempo

 ³ O MBA propõe, ainda, a criação do Corredor Cultural Consolação/Paulista, no contexto do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP) – instrumento incluído na revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE), que visa promover a revitalização do espaço público, fomentando equipamentos culturais e incentivando a indústria criativa, os negócios sustentáveis, as galerias comerciais e o comércio de rua. Mecanismo formulado em parte pelo MBA, o TICP servirá, ainda, para inspirar o estabelecimento de corredores culturais nas demais regiões da cidade.

Tia Ufa

Liga, não liga? Liga, não liga? O inferno de sempre, falsa dúvida. Sabia que teria que ligar, pra saber do pai, da mãe, sobrinhos, família e do cachorro há muito sepultado. Convenções. (Atire pedras quem vive sem essas pragas domésticas: as convenções.) Ligou, sabedora do que a esperava:

— Oi, mana, tudo bem?

— Oi, Arlete. Bem nada, menina. Ando tão cansada, tão cansada. Tudo tão difícil. Como é custoso viver. Tenho muitas dores nas pernas, nos ombros. Calos nos pés me assombram. Sem falar da falta de ar, das rachaduras nos bicos dos seios… Ando tão cansada… Esporão. Aftas. O pai teima demais, a mãe está pior que ele, Juninho não quer saber de estudar, Isolda dá pra todo mundo, é o que dizem. Se ainda desse pra rapaz de futuro… Estou tão cansada, Arlete, minha irmã. Rezo pro dia não amanhecer, imploro pra noite chegar. Estou tão cansada. Minha vida é fazer comida, limpar a casa, lavar e passar roupa… Arlete, alô, alô?

— Tia, não é Arlete, é Marilda, sua sobrinha.

— Cadê sua mãe?

— Sua prosa a levou a nocaute. Caiu de cansaço. Até loguinho.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Memórias da prisão

Atriz - Taylor Schilling interpreta Piper Kerman na história adaptada para TV (foto: divulgação)
Atriz – Taylor Schilling interpreta Piper Kerman na história adaptada para TV (foto: divulgação)

Histórias que acontecem atrás das grades passaram a chamar minha atenção desde que conheci a peça ‘Barrela’, escrita por Plínio Marcos (1935-1999) em 1958 e que ficou censurada no País até 1978.

Baseada em fatos reais ocorridos na cidade de Santos, a narrativa gira em torno de personagens amontoados em um xadrez enquanto esperam julgamento e, assim, vivem situações de confronto que colocam em questão a linha tênue da sobrevivência em um espaço regido por “leis” completamente avessas às que organizam a vida aqui fora.

Agora, com o livro ‘Orange Is the New Black’ (título sem tradução), de escritora norte-americana Piper Kerman, cuja versão em português foi lançada no mês passado, vejo novamente o desafio da sobrevivência dentro de um presídio engendrar episódios que testemunham a transformação de quem, ao encarar a realidade do confinamento, é obrigado a conhecer a si próprio para se manter vivo.

Também fundamentada em fatos reais, a narrativa de Piper foi adaptada para série de TV com produção da Netflix, estrelada pela atriz Taylor Schilling. A segunda temporada da série foi lançada em 6 de junho e uma terceira temporada está sendo gravada.

Na história, Piper conta sua experiência ao cumprir sentença de 15 meses em um presídio federal feminino, acusada de lavagem de dinheiro e envolvimento com tráfico internacional de drogas anos antes quando teve relação homossexual com uma traficante.

O livro com as memórias de Piper foi publicado originalmente em 2010. Traz detalhes escatológicos e cruéis da vida no presídio, em tom de comédia dramática contada por quem pertence a uma família abastada e tinha a vida sob seus pés, com emprego, noivado e tudo o mais de bom que a estabilidade, o dinheiro e a convivência familiar podem proporcionar.

Em comum com outras histórias do gênero, a narrativa de Piper mostra como a deletéria convivência com presas violentas e carcereiros e policiais corruptos tende a desumanizar a situação de quem cumpre uma pena.

Essa desumanização se traduz na perda da dimensão do outro, dimensão tão essencial para a sobrevivência, mas algo do qual só nos damos conta quando estamos em sua privação. Reinventar o outro é um exercício que se impõe para que não morra o amor e a esperança. E desse modo até mesmo relações afetivas passam por um processo de ressignificação. Estar lésbica dentro de um presídio é no mínimo um “estado” que passa longe dos preconceitos de quem condena a homossexualidade.

 
Capa OrangeOrange Is the New Black,
Piper Kerman, tradução de Cláudio Figueiredo e Lourdes Sette, editora Intrínseca, RJ, 2014, 304 págs.