O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

paradoxo

Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

Anúncios

Metáfora do casamento blindado ou pósludio do dia dos namorados

casamento

Por Marina Moura

Deparei-me com o livro “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio” pela primeira quando zanzava pela livraria FNAC da avenida Paulista. Outros encontros viriam, em outras livrarias. Fiquei quase chocada com a capa. Sem querer ou precisar folhear o livro, porque o tempo de vida é muito raro para gastarmos assim, comecei a pensar apenas sobre a capa do produto. Como se fosse possível blindar algo, surge nas estantes das livrarias esta obra que considerei obscena e que certamente tem como objetivo, travestido de boas intenções, apenas a blindagem do bolso dos autores – quem nem precisariam empreender tal esforço, pois trata-se da filha do riquíssimo bispo Edir Macedo e seu par.

Um homem dentro de um carro blindado está seguro, mas não foi para isso que os homens foram construídos”, parafraseando o autor William Shedd, que diz que “um navio ancorado no porto está seguro, mas não foi para isso que os navios foram construídos”.

Um homem dentro de um carro blindado está protegido, mas em algum momento terá de sair do veículo. Quando um casamento é blindado, colete a prova de balas, vidros escuros e todas as outras armaduras do amor, certamente o impulso de liberdade de algum dos que ocupam o opressivo veículo quererá saltar fora.

O que sobra fica sozinho e trancafiado – seu coração também fica blindado. Uma das principais prisões do amor é a falta de liberdade.

Veja o casal da capa do livro tentando transmitir a imagem de uma relação segura. Mas uma coisa é fato, meu amigo: há que se considerar a volatilidade dos sentimentos humanos. Não somos coisas inertes, ainda bem.

Casamento_BlindadoAdmitir a palavra blindagem aplicada a uma relação dita amorosa é desconsiderar a possibilidade da contradição, ou seja, do ser atingido, o que neste caso se traduziria na insegurança do casamento.

Prefiro viver a realidade ao idolatrar a imagem do ideal. Mas, se for eleger uma imagem para retratar um relacionamento, prefiro pensar em cena que remeta ao amor livre, leve e solto – não falo aqui de relacionamentos abertos, aos quais tenho muita consideração e respeito, mas faço um recorte.

Minha visão é a do amor: livre no sentido de poder escolher a quem amar; leve simplesmente porque creio que o amor tem que ser constituído de matéria alegre e boa; solto porque não se pode ambicionar querer prender nem aquele a quem se ama e nem o próprio sentimento.

Assim, talvez meu retrato amoroso seja composto por um casal não que fica com olhos cruéis bem abertos um sobre o outro, mas sim que fecha os olhos para melhor sentir os suspiros de com ele estar, e, de mãos trançadas, saem voando sobre planícies abertas e não desvendadas, cultivando sonhos acima da maldade pequenina e desejos vãos.

Inspiração no simbolismo

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Julgar um livro pela facilidade com que o texto é capaz de prender o leitor é muito pouco. A boa literatura está em instigar a inteligência e imaginação, como também em permitir sair da tábula rasa de supostas verdades e convicções da nossa zona de conforto para alçar outros pensamentos, sejam eles nobres, inspiradores, poéticos ou até mesmo insuportáveis.

No livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, que marca a estreia de Matheus Arcaro, escritor, professor e artista plástico de Ribeirão Preto, o leitor experimentará todos esses movimentos e poderá revisitar escritores clássicos da literatura por meio das referências ou da forma com que as 22 histórias dessa coletânea são escritas.

A primeira característica a notar nas narrativas de Arcaro são as aproximações com o simbolismo, movimento literário do século 19 que se originou na França, representado por nomes como Charles Baudelaire e Paul Verlaine, entre outros, e que no Brasil teve expressões como Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa.

O caráter ‘simbolista’ se manifesta em textos que sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente. “O prazer para o leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, fechar o círculo dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura, para mim, é mais erotismo que pornografia”, afirma Arcaro.

O escritor tece ainda uma prosa contaminada de figuras fonéticas, como as aliterações e assonâncias, que são repetições de sons, como na frase “…disseminando os instintos e dissipando os instantes…” ou em “Helena permanecia calada, colada à lateral do carro…”. Essa, aliás, também é uma marca do simbolismo que Arcaro retoma.

Segundo ele, “emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético”.

Mas o simbolismo não circunscreve a experiência de ler ‘Violeta velha e outras flores’. Ao mergulhar na obra, o leitor encontrará também marcas do modernismo, como o fluxo de consciência que atravessa o conto ‘Maquinando’, no qual Matheus busca expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista por e-mail com Matheus Arcaro:

A primeira coisa que me chamou a atenção no seu livro foi o caráter simbolista comum às narrativas. Digo ‘simbolista’ no sentido de que os textos sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente para o leitor. O efeito disso é que o leitor agrega sua imaginação ao conto por meio de uma dinâmica específica com o texto, em que é ele, o leitor, quem reconhece essas identidades. Ao mesmo tempo, a constância dessa característica nos contos revela que essa é uma marca da composição do livro e um recurso que você adota para não perder de vista o leitor. É isso mesmo?

Matheus Arcaro 6

‘Literatura para mim é mais erotismo que pornografia’ (foto: arquivo pessoal)

Um dos pontos que diferencia a grande literatura da literatura de consumo é que a primeira não subestima a inteligência do leitor. Se aproximarmos a lupa dos livros de ficção que constam nas listas de mais vendidos, veremos que eles têm características semelhantes: “entregam” demais a história, trabalham pouco a linguagem, mantêm-se em pé basicamente pelo enredo. Sartre dizia que escrever literatura é afastar-se da linguagem instrumento. Seguindo esse raciocínio, é lícito distinguir a linguagem em cotidiana (como “instituída”) e a do escritor (como “instituinte”). O prazer para o bom leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, “fechar o círculo” dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura para mim é mais erotismo que pornografia. Em relação à “unidade” da obra, creio que o título seja uma espécie de metonímia: a violeta traz beleza em si e a aliteração em V contribui para acentuar foneticamente tal beleza. No entanto, trata-se de uma flor perpassada pelo tempo: beleza e perecimento interseccionados. De modo geral, essa contradição (material com o qual a vida se faz) é a tessitura do livro.

A atmosfera densa e carregada de subjetividades e questões existenciais das personagens não indicaria também a proximidade com o simbolismo? O próprio título ‘Violeta velha e outras flores’ não estaria olhando de algum modo para ‘Flores do Mal’, de Baudelaire, ou outra obra? Quais são as obras e autores que contaminaram esses contos?

Evidentemente todo escritor tem seus “fantasmas”, como diria Ernesto Sabato em um de seus livros de ensaios. Baudelaire vincou minha vida desde a primeira vez que o li, na adolescência. Anos mais tarde reli “As flores do mal” e a obra me bateu com mais violência. Violência no sentido de força de deslocamento. Aliás, Roland Barthes diz que a arte tem esse poder: deslocar o sujeito, tirá-lo de uma zona cômoda. É bem provável que quem se propuser a ler meus contos não se sinta muito confortável. Sob esse aspecto podemos aproximar meu livro da obra de Baudelaire, Rimbaud, Augusto dos Anjos e do simbolismo em geral. Do ponto de vista linguístico, também há semelhanças, principalmente em relação à musicalidade. Contudo, ainda na esfera da linguagem, o livro se aproxima dos modernistas, sobretudo em relação à não-linearidade de algumas narrativas e ao fluxo de consciência. Destaco, nesse quesito, Joyce, Woolf e Beckett. Em terras tupiniquins, Clarice Lispector é minha maior influência.

Outra marca simbolista é que as figuras fonéticas, como as aliterações, também percorrem os textos e representam o recurso com o qual você agrega uma estética poética à prosa. Mas ao trabalhar com as palavras desse modo, não seriam agregados ao texto outras qualidades também, como por exemplo a ironia? O que essa marca de composição representa para você?

Menalton Braff disse, certa vez, que a prosa, para sobreviver, tende a se aproximar da poesia. Concordo. Literatura para mim é predominantemente forma. Borges afirmava que há cinco ou seis temas literários universais; a diferença entre um escritor bom e um razoável está na maneira com que o primeiro conta sua história. Em relação à ironia, muitos dos contos são perpassados por essa figura de linguagem (“Está tudo escrito” é um dos exemplos). Mas vou além: emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético.

Lendo seu livro, não pude deixar de lembrar uma palestra que vi outro dia da professora de filosofia Marilena Chauí, em que ela dizia que nos dias de hoje vivemos uma crise de valores simbólicos na cultura. Segundo o raciocínio da professora, as pessoas hoje preferem os ‘sinais’ de riqueza, dados pelos bens de consumo, aos valores simbólicos. Você concorda com isso? E, no caso de concordar, acredita que o seu livro pode ser um antídoto para essa crise, ou não há nenhuma relação?

Concordo em termos com Marilena Chauí. Uso com cautela a palavra “crise” e a expressão “nos dias de hoje” porque vejo, em ambas, um teor moral. É como se houvesse um tempo áureo e, nosso papel, fosse resgatar as virtudes desse período. Mas é evidente que as sociedades contemporâneas capitalistas prezam muito mais o que é imediato e de fácil assimilação do que aquilo que precisa ser “ruminado”, como diria Nietzsche. Isso é notório em sala de aula: a dificuldade interpretativa prevalece entre os alunos de ensino médio. É inequívoco que os meios de comunicação de massa contribuem para tal problema, principalmente a televisão. Isso porque, além de criar necessidades desnecessárias no que diz respeito ao consumo, a TV bombardeia o expectador com movimentos e cores, o que prejudica a capacidade de imaginação. Basta pensarmos que imaginar é colocar imagens em ação, ou seja, atividade. Mas como a televisão cumpre esse papel para o expectador, essa aptidão, aos poucos, vai se atrofiando. É por esse motivo que sempre me posicionei contrariamente aos livros infantis que ilustram seus enredos. Nesse sentido, a boa literatura pode ser um antídoto à passividade, já que é o estimulante por excelência da imaginação.

Qual a importância do narrador em terceira pessoa e do discurso indireto livre para a sua composição? Seria um contraponto à carga subjetiva das personagens? Enfim, o que você pensa sobre isso?

Sob o ponto de vista estritamente formal, o discurso indireto livre empresta dinamismo ao texto, além de suscitar a todo instante a participação do leitor, pois não há marcações nítidas entre enredo e diálogo. Sobre o narrador, concordo com a sua colocação: como a maioria das minhas personagens são densas subjetivamente, o narrador em terceira pessoa contribui para que os estados de experiência interiores estabeleçam relações tanto com o enredo, quanto com o leitor. Todavia, por outro lado, acredito que o próprio conto “exige” ser narrado em primeira ou terceira pessoa. “Condenado à liberdade”, por exemplo, que conta a história de um homem que só encontra a liberdade na prisão, só podia ser narrado em primeira pessoa. Um caso ilustrativo é o conto “Maquinando”, todo ele um fluxo de consciência (sem pontuação alguma) para expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

Agora, falando um pouco do contexto atual, do cenário social em que os escritores produzem literatura: o realismo está em crise? Quer dizer, a partir do momento em que ligamos a TV e somos bombardeados com enredos reais de violência nos noticiários seria preciso pensar a literatura em função disso? Seria preciso buscar na literatura o elo com sentidos e sentimentos que estão fora desse mundo imediato, banal e palatável? O que você pensa sobre literatura e meios de comunicação?

O contexto no qual o autor está inserido influencia, mas não condiciona ou determina sua criação. É natural que alguns artistas se aproveitem do que os circunda para criar (a literatura dita “engajada” é um dos exemplos”). Mas colocar a literatura em função de qualquer coisa é, no mínimo, duvidoso: passa-se da arte ao panfleto em um piscar de olhos. Sobre a literatura como “válvula de escape” da banalidade: é interessante notarmos como a Indústria Cultural faz uso de alguns rótulos como argumento de venda. Um exemplo claro em relação a livros e filmes é o famoso “baseado em fatos reais”. É como se isso fosse um selo de qualidade quando demonstra, justamente, o oposto. Mas por que se usa isso? Os teóricos da Escola de Frankfurt trataram desse tema exaustivamente, mas só destaco um ponto em relação à literatura: o que escapa à expectativa do leitor médio é potencialmente pouco vendável e, por isso, relegado. Tal leitor (que se identifica com os livros de autoajuda precisamente porque estes não abalam seu ponto de vista), tem a necessidade do que é estável, do que tem correspondente na realidade. Mas, afinal, o que chamamos de realidade? Este conceito, no século XX, foi colocado em xeque: há mesmo algo em si? Se sim, ele é captável pelo intelecto ou pela sensibilidade? Depois da física quântica, que nos mostrou que o simples ato de observar influencia o objeto observado, é difícil falar em “realidade”. Tenho um verso que brinca com isso: “realidade é a imaginação de terno e gravata”. Outro ponto importante: mesmo inconscientemente, grande parte das pessoas é cientificista. Basta pensarmos o quão crível é o jargão “cientificamente comprovado”. Na literatura, essa pretensão foi levada às últimas consequências por Zola, no final do século XIX. Influenciado pelo positivismo e pelas descobertas científicas, ele lutou para que o romance fosse “naturalizado”. Escreveu ele em “Romance experimental”: “O naturalismo consiste unicamente no método experimental, na observação e na experiência aplicados à literatura. A retórica não tem lugar nela. Se a medicina deve ser uma ciência, porque seria de outra forma com a literatura?” Lendo essa declaração, penso: quanta pretensão!

 

Violeta Velha - capaVioleta velha e outras flores,

Matheus Arcaro, editora Patuá, SP, 2014, 162 págs.

 

 

Histórias das ruas

João Antônio – Narrativa pelo viés dos excluídos (foto: divulgação)

João Antônio – Narrativa pelo viés dos excluídos da vida social  (foto: divulgação)

A vida marginal, o imenso fosso que a discriminação abre entre ricos e pobres na cidade de São Paulo ou as palavras que brotam nas ruas para expressar a alma da malandragem são temas abordados na obra do escritor e jornalista João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), mestre da literatura urbana, para a qual chega a ser considerado tão importante quanto Guimarães Rosa (1908-1967) ao retratar a vida no sertão.

João Antônio trabalhou na revista Realidade, referência no jornalismo literário nos anos 1960, escreveu também textos teóricos, mas são os contos que representam sua genialidade, em período marcado pela ação repressora da Ditadura Militar, sob a qual sua obra despontou como literatura de resistência.

A produção de João Antônio continua viva e pulsante. O leitor encontra novas edições de seus textos, publicados pela Cosac Naify, com destaque para os contos em formato digital ePub, cujos preços são bem acessíveis.

Sempre com uma abordagem social, as histórias de João Antônio são peças de ficção que impactam pelo retrato da realidade. O universo de prostitutas, boêmios, malandros, drogados, batedores de carteira, garotos de rua e toda a sorte de excluídos é retratado por quem conheceu de perto esse mundo, e soube contar as histórias pelo viés do explorado e não do explorador, como vemos muitas vezes hoje na mídia.

O embate da realidade de gente pobre da cidade, na zona conhecida como Boca do Lixo, em seus primórdios durante os anos 1950, com a mídia de propriedade das elites é um dos eixos que conduz um dos mais importantes contos de João Antônio, chamado ‘Paulinho Perna Torna’. No texto, o leitor descobre que o próprio título encerra a tensão entre a realidade e o mundo apresentado na mídia, visto que seu verdadeiro nome, ‘Paulinho duma Perna Torta’, ganha versão curta nos jornais.

Com a trajetória de anti-herói de Perna Torta, João Antônio mostra a decadência da malandragem naquele período, graças à opressão policial, fenômeno que se repete com o famoso malandro Madame Satã, na Lapa do Rio de Janeiro.  O conto adquire também um valor histórico, digamos, pelo modo como apresenta os fatos de uma realidade que se mantém até hoje. João Antônio mostra a ação truculenta da polícia na Boca do Lixo, em uma narrativa que ainda encontra paralelos no cotidiano, como na ação violenta do mês passado, quando 250 famílias foram despejadas de um hotel abandonado na av. São João, com respaldo de uma reintegração de posse.

Figuras de linguagem em cordel

Dantas – Foco na criação poética voltada a temas de sala de aula (foto: divulgação)

Dantas – Foco na criação poética voltada a temas de sala de aula (foto: divulgação)

O professor, escritor e cordelista Janduhi Dantas, de Juàzeirinho (PB), lança pela editora Vozes, no dia 8 de outubro, o livro ‘As figuras de linguagem na linguagem do Cordel’, título que oferece ao leitor um passeio bem humorado, no ritmo da métrica do cordel, pelo mundo dos conceitos que dominam as figuras de linguagem, como metáfora, metonímia, catacrese, silepse e outros bichos que muitas vezes confundem nossa cabeça.

“O tema das figuras e dos vícios de linguagem é sempre interessante; a gente o tempo todo está usando figuras de linguagem nas nossas conversas”, afirma Dantas. “Quando a gente diz a vida de fulano é um mar de rosas, minha vida está um inferno, acaba fazendo uso das figuras de linguagem sem mesmo perceber”, diz o escritor, que acredita que o livro pode agradar não só os estudantes, mas qualquer leitor interessado em conhecer mais sobre o funcionamento da linguagem.

Capa - Ilustração por Silas  Silva (blog)

Capa – Ilustração por Silas Silva (blog)

Esse é o segundo título de Dantas, publicado pela editora Vozes, que tem caráter paradidático. O outro é ‘Lições de Gramática em Versos de Cordel’. Quem anda pelas ruas de João Pessoa e observa os livrinhos à venda em diversos pontos da cidade também percebe que Dantas é referência no cordel. Além de histórias engraçadas, como ‘A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99’, ele faz adaptações de histórias célebres para o cordel, como a do filme ‘Psicose’, do diretor Alfred Hitchcock.

Ainda este ano, deve ser publicado pela editora da Universidade da Paraíba o que Dantas chama de “livro cordel”, uma adaptação, com mais de 150 páginas, do romance ‘Menino de engenho’, de José Lins do Rego (1901-1957). “Estou sempre fazendo um cordel voltado para a sala de aula. Acredito que essa adaptação pode contribuir para que os estudantes sejam incentivados a conhecerem a obra clássica”, afirma.

Dantas declara que os versos e a métrica rondam sua cabeça de modo permanente e lembra uma frase do poeta cearense Patativa do Assaré (1909-2002) sobre esse processo de criatividade: “Pra todo canto que eu olho, vejo um verso se bulindo”. O cordelista diz que está escrevendo também sobre um episódio da Ditadura Militar, ocorrido em uma cidade do interior paraibano em meados dos anos 70. “Como cordelista, estou preocupado em levar temas de discussão política, tentando despertar a consciência crítica nos jovens estudantes que me leem”.

O novo livro poderá ser adquirido nas Livrarias Vozes, pelo site da editora (www.universovozes.com.br) ou pelo e-mail do escritor: jdantasn@yahoo.com.br.

 

Democracia do eBook

O livro eletrônico, o eBook, é a mudança mais radical de que se tem notícia no mercado editorial nos últimos tempos, uma transformação que surge no bojo da revolução digital. O livro em formato eletrônico seduz o consumidor em primeiro lugar porque tem um custo 20 a 30% menor do que o livro tradicional. “No mundo de papel, temos que considerar os custos de impressão, distribuição e armazenamento. Esses são os únicos custos que desaparecem na publicação de um livro eletrônico”, afirma Fernando César Quaglia, da Capítulo Sete, empresa que produz livros eletrônicos para editoras.

Do ponto de vista comercial, 2013 é considerado o primeiro ano no Brasil em que efetivamente esse segmento do mercado operou com capacitação consolidada, depois de investimentos feitos por livrarias para oferecer o formato ao consumidor. Segundo o relatório ‘Global eBook Report’, o País vendeu no ano passado 2,5 milhões de cópias eletrônicas, o que é perto de 2,5% das vendas do mercado tradicional.

Quaglia – Formatos digitais ampliam acesso a livros (foto: divulgação)

Quaglia – Formatos digitais ampliam acesso do leitor a livros (foto: divulgação)

Assim, como tudo ainda é começo, as vendas no País seguem tendência de crescimento e no futuro poderão conquistar parcela maior do mercado, como já acontece em países nos quais o consumidor tem mais poder aquisitivo e acesso à tecnologia. Nos Estados Unidos e Reino Unido, o eBook já representa 21 e 25% das vendas de livros, respectivamente.

Além da vantagem do preço, o eBook atrai o consumidor pelas possibilidades de interação. O leitor pode navegar pelas páginas buscando as palavras que deseja para localizar rapidamente as partes do texto que interessam, entre outras alternativas. Mas é no segmento do livro infantil que as transformações são mais profundas: os recursos de interação, aprendizado e brincadeiras são incomparavelmente maiores e indicam que a produção desse livro pode ser mais sofisticada do que no papel.

Para os escritores, os custos mais baixos do formato, o crescimento das editoras independentes, que só trabalham com linguagens digitais, e os grandes canais de produção e distribuição também significam a possibilidade de ter um retorno maior do que os 10% tradicionais com as editoras. “Essa realidade vem mudando. Empresas como Amazon permitem que o autor realize a edição de seu livro, escolha em que território pode ser vendido e repassa até 70% do valor de venda da obra. Apple, Barnes & Noble, a livraria Saraiva e outros oferecem esse serviço”, afirma Quaglia. O eBook representa assim um avanço na possibilidade técnica de realização de uma obra que pode colocar o talento de mais escritores e pesquisadores ao alcance do público.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista cedida por Fernando César Quaglia ao Livros & Ideias:

Quais são as principais mudanças no mercado editorial decorrentes do eBook na sua avaliação?

O mercado editorial vem atravessando numerosas mudanças, e os livros eletrônicos, na minha visão, são apenas uma delas. No mundo, podemos ver como algumas tendências se consolidam. Por exemplo, a compra de livros através da internet é uma realidade que tem colocado em xeque as livrarias tradicionais.

Os autores também vêm encontrando novos espaços graças às novas tecnologias; através delas eles conseguem publicar por conta própria as suas obras e às vezes sem nenhum custo, já que consideram que as editoras convencionais nem sempre fazem bem o seu trabalho.

Os leitores também participam ativamente dessa mudança, podemos ver que hoje alguns hábitos de leitura estão mudando graças às mídias sociais, pois elas possibilitam a interação com o autor, a troca de opiniões entre os leitores de um mesmo título ou a possibilidade de rescrever trechos de uma obra.

Mas focando na questão dos eBooks, podemos observar que o mercado editorial no Brasil, e principalmente o público leitor, vem incorporando essa nova realidade. Com a chegada dos grandes players do mercado como Apple, Amazon e Google, somados às empresas tradicionais, como a Livraria Saraiva e a Livraria Cultura, tem-se registrado um grande aumento na edição e comercializarão de livros eletrônicos. Ainda ocupam, porém, uma pequena fatia no total de vendas de livros.

O livro de papel e o formato eletrônico atualmente convivem no mercado, e seria ingenuidade nossa pensar que o formato eletrônico vai engolir o papel, até porque o livro de papel também ganha vida nova no mundo digital, por meio das livrarias virtuais e também os sebos, que nos permitem acesso a exemplares inimagináveis. Assim, considerando a sua experiência com marketing, gostaria que você nos dissesse: com a consolidação do mercado do livro digital no futuro (afinal, hoje ele é pouco mais que uma promessa), a tendência é que o preço do livro de um modo geral ser torne mais acessível? O livro digital vai colaborar para baratear o custo do livro no Brasil?

Uma edição de qualidade sempre implica em custos de produção. Além do trabalho do autor, temos que considerar os custos de revisão de texto, de criação de capa, de diagramação, de publicação e assim por diante.

No mundo de papel, além desses custos, temos que considerar os custos de impressão, distribuição e armazenamento. Esses são os únicos custos que desaparecem na publicação de um livro eletrônico. Esses custos, no Brasil, representam em torno de 20% a 30% do preço de um livro. É por isso que a maioria das editoras realiza esse desconto no preço dos seus eBooks. O usuário não compra um objeto tangível e considera lógico que custe menos que uma edição impressa.

Ainda insistindo na questão anterior: em vista da possibilidade de cópias de títulos em PDF, sem custo, na internet, por acaso não estaríamos caminhando para um mercado em que o livro será praticamente de graça ou de custo muito baixo?

Os PDF’s na internet não oferecem uma experiência de leitura agradável nos dispositivos de leitura. É por isso que o formato ePub tem se consolidado no mercado editorial como sinônimo de livro eletrônico.

Por outra parte, quem garante que o PDF que achei na internet é o livro original? Existe um certo pensamento de que tudo o que é digital não tem custo, mas a realidade nos mostra que não é assim. Se queremos conteúdo de qualidade devemos pagar por eles. Uma editora investe muito dinheiro para publicar um título e é justo que cobre por isso.

O Brasil hoje é um mercado editorial que vende perto de 500 milhões de exemplares por ano, lança 62 mil títulos e tem faturamento de R$ 5,4 bilhões, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Sabemos que as compras de governos e os livros didáticos são a parte mais significativa desse universo, no entanto, você tem ideia da dimensão dos produtores independentes? Quanto desse mercado é formal e tradicional e quanto é independente, ainda que seja uma fração mínima?

Existe no Brasil um grande número de pequenas editoras, a maioria delas familiares, que publicam poucos títulos por ano. Em outros casos, são editoras criadas por autores que não encontraram espaço para suas obras nas editoras convencionais.

Além disso, o surgimento de novas tecnologias tem produzido o crescimento de um grande número de editoras completamente digitais: essas editoras não imprimem suas obras e, como enfrentam menores custos, publicam grande quantidade de títulos.

É difícil saber exatamente quantas destas editoras existem no mercado, geralmente não estão inscritas nem na Câmara Brasileira do Livro, nem no Sindicato Nacional de Editores de Livros.

O autor tradicionalmente recebe 10% do preço do exemplar na livraria. Como é que essa remuneração fica no caso de edições independentes?

O autor costumava receber em torno de 10% do valor de venda do livro. Com a edição independente essa realidade vem mudando. Empresas como Amazon permitem que o autor realize a edição de seu livro, escolha em que território pode ser vendido e repassa até 70% do valor de venda da obra. Apple, Barnes & Noble, a livraria Saraiva e outros oferecem esse serviço. Considero que esse tipo de solução serve para alguns títulos. Ainda são muitos os que preferem ver suas obras publicadas por uma editora consolidada.

Veja este caso: acabo de escrever um livro, digamos, uma novela, e devido a repercussões positivas do texto entre meus amigos leitores julgo que devo publicar minha obra. Quanto vou gastar para isso em um formato digital? E quais os serviços que serão incluídos nesse custo, enfim, o que envolve a produção de um livro digital?

Como já mencionamos, a produção de um livro de qualidade, seja em papel ou em digital, implica nos mesmos custos. Temos que considerar a revisão do texto, a criação de uma capa atrativa, que gere vendas, a formatação profissional do livro, a solicitação de números ISBN, a ficha catalográfica e assim por diante. Por último, realizaremos a versão eletrônica do livro. Até hoje, a produção de livros eletrônicos de qualidade requer de profissionais competentes. Existem algumas ferramentas automáticas, mas o resultado é muito pobre e se queremos trabalhar com profissionais competentes e de qualidade teremos que pagar por isso. As plataformas digitais permitem criar livros utilizando templates, o que diminui os custos de produção. Eu costumo utilizar uma analogia para explicar melhor: é como escolher entre um restaurante de comidas rápidas e um outro à la carte.

Como proceder para assegurar a oferta da minha obra no mundo digital?

Muitas pessoas pensam que por colocar um livro na Amazon ou na Apple já está tudo feito. As grandes lojas possuem milhares de títulos disponíveis e se não carregarmos bem os metadados da obra e não realizarmos algum tipo de promoção, seguramente não acontecerá nada com o nosso eBook. As mídias sociais são muito importantes na divulgação, mas não podem ser os únicos recursos para divulgar um título.

O curso virtual que você está ministrando (“Virando a página: compreendendo o livro eletrônico e as mudanças no negócio editorial”) é voltado a quem? Pode nos dar uma dimensão do que seja o curso?

O curso está voltado para os profissionais da cadeia produtiva do livro, são eles: editores, produtores editoriais, publicitários, jornalistas, professores, designers, bibliotecários, estudantes de comunicação, editoração, letras, jornalismo, empresários das áreas editoriais. O curso tem sido desenvolvido ao longo de um ano e meio de trabalho e temos entrevistado os principais protagonistas do mundo do livro digital.

Através do curso, os alunos poderão compreender melhor as realidades que o mercado editorial vem enfrentando, oferecendo subsídios para entender a realidade dos livros eletrônicos. Por ser um fenômeno recente, ainda são muitas as pessoas que buscam aprofundar seus conhecimentos nesse assunto.

O homem diante da morte, de Philippe Ariès

Da Editora Unesp – Neste abrangente estudo, o historiador francês Philippe Ariès (1914-1984) investiga o comportamento humano diante da morte ao longo do último milênio nas sociedades ocidentais. A partir de uma perspectiva histórica, sociológica e até mesmo psicológica, ele analisa textos literários, inscrições lapidares, obras de arte, diários pessoais para mostrar que as atitudes em relação à morte, própria e dos outros, foram se transformando, de modo quase imperceptível, no decorrer do tempo, até se tornarem irreconhecíveis em relação aos séculos anteriores. A comparação entre a morte familiar e “domesticada” da sociedade cristã medieval e a morte repelida, percebida como negação absoluta e tornada oculta da Era Contemporânea, dão a medida justa dessa mutação.

philippe ariesAriès levanta uma hipótese para a pesquisa, monumental, e a enriquece gradualmente propondo por fim a existência de uma correlação entre a atitude do homem diante da morte e a consciência da individualidade, agregando ainda outras três variáveis ​​psicológicas ao estudo: a defesa da sociedade contra a natureza selvagem e a crença na sobrevivência e na existência do mal.

A obra mostra que a trajetória humana em torno da morte não tem continuidade temporal, pois velhas atitudes sobrevivem a novos modelos. Contudo, na Era Medieval o modelo predominante é o da morte como membro das comunidades, que conduz os homens a uma espécie de sono. Em seguida, vem à tona o indivíduo e impõe-se a noção de sobrevivência da alma, a sede da individualidade.

Num segundo momento, que vai do século 16 ao século 18, a morte até então domesticada e contida, é liberada, retorna ao estado de selvageria e passa a provocar fascínio e medo. É somente no século 18, segundo Airiès, que a morte adquire um sentido dramático e passa a ser encarada como transgressão, por “roubar” o homem de seu cotidiano e sua família – trata-se agora de olhar para a morte do outro.

Nos anos seguintes a morte se transformou, aos poucos, em tabu, sua proximidade passou a ser ocultada do moribundo. Mas foi a partir dos anos 1930 que a medicina mudou a representação social da morte: morre-se agora em hospitais, não mais em casa, e a vida pode ser estendida, ainda que de forma vegetativa, por meses e anos.