Inspiração no simbolismo

Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)
Matheus – Narrativas enriquecem a experiência do leitor (foto: arquivo pessoal)

Julgar um livro pela facilidade com que o texto é capaz de prender o leitor é muito pouco. A boa literatura está em instigar a inteligência e imaginação, como também em permitir sair da tábula rasa de supostas verdades e convicções da nossa zona de conforto para alçar outros pensamentos, sejam eles nobres, inspiradores, poéticos ou até mesmo insuportáveis.

No livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, que marca a estreia de Matheus Arcaro, escritor, professor e artista plástico de Ribeirão Preto, o leitor experimentará todos esses movimentos e poderá revisitar escritores clássicos da literatura por meio das referências ou da forma com que as 22 histórias dessa coletânea são escritas.

A primeira característica a notar nas narrativas de Arcaro são as aproximações com o simbolismo, movimento literário do século 19 que se originou na França, representado por nomes como Charles Baudelaire e Paul Verlaine, entre outros, e que no Brasil teve expressões como Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa.

O caráter ‘simbolista’ se manifesta em textos que sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente. “O prazer para o leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, fechar o círculo dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura, para mim, é mais erotismo que pornografia”, afirma Arcaro.

O escritor tece ainda uma prosa contaminada de figuras fonéticas, como as aliterações e assonâncias, que são repetições de sons, como na frase “…disseminando os instintos e dissipando os instantes…” ou em “Helena permanecia calada, colada à lateral do carro…”. Essa, aliás, também é uma marca do simbolismo que Arcaro retoma.

Segundo ele, “emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético”.

Mas o simbolismo não circunscreve a experiência de ler ‘Violeta velha e outras flores’. Ao mergulhar na obra, o leitor encontrará também marcas do modernismo, como o fluxo de consciência que atravessa o conto ‘Maquinando’, no qual Matheus busca expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

 

Confira a seguir a versão integral da entrevista por e-mail com Matheus Arcaro:

A primeira coisa que me chamou a atenção no seu livro foi o caráter simbolista comum às narrativas. Digo ‘simbolista’ no sentido de que os textos sugerem a identidade de personagens e das situações, sem defini-los literalmente para o leitor. O efeito disso é que o leitor agrega sua imaginação ao conto por meio de uma dinâmica específica com o texto, em que é ele, o leitor, quem reconhece essas identidades. Ao mesmo tempo, a constância dessa característica nos contos revela que essa é uma marca da composição do livro e um recurso que você adota para não perder de vista o leitor. É isso mesmo?

Matheus Arcaro 6
‘Literatura para mim é mais erotismo que pornografia’ (foto: arquivo pessoal)

Um dos pontos que diferencia a grande literatura da literatura de consumo é que a primeira não subestima a inteligência do leitor. Se aproximarmos a lupa dos livros de ficção que constam nas listas de mais vendidos, veremos que eles têm características semelhantes: “entregam” demais a história, trabalham pouco a linguagem, mantêm-se em pé basicamente pelo enredo. Sartre dizia que escrever literatura é afastar-se da linguagem instrumento. Seguindo esse raciocínio, é lícito distinguir a linguagem em cotidiana (como “instituída”) e a do escritor (como “instituinte”). O prazer para o bom leitor está em emprestar sua subjetividade ao texto para, assim, “fechar o círculo” dessa instauração estética. Por isso, sugiro em vez de escancarar. Literatura para mim é mais erotismo que pornografia. Em relação à “unidade” da obra, creio que o título seja uma espécie de metonímia: a violeta traz beleza em si e a aliteração em V contribui para acentuar foneticamente tal beleza. No entanto, trata-se de uma flor perpassada pelo tempo: beleza e perecimento interseccionados. De modo geral, essa contradição (material com o qual a vida se faz) é a tessitura do livro.

A atmosfera densa e carregada de subjetividades e questões existenciais das personagens não indicaria também a proximidade com o simbolismo? O próprio título ‘Violeta velha e outras flores’ não estaria olhando de algum modo para ‘Flores do Mal’, de Baudelaire, ou outra obra? Quais são as obras e autores que contaminaram esses contos?

Evidentemente todo escritor tem seus “fantasmas”, como diria Ernesto Sabato em um de seus livros de ensaios. Baudelaire vincou minha vida desde a primeira vez que o li, na adolescência. Anos mais tarde reli “As flores do mal” e a obra me bateu com mais violência. Violência no sentido de força de deslocamento. Aliás, Roland Barthes diz que a arte tem esse poder: deslocar o sujeito, tirá-lo de uma zona cômoda. É bem provável que quem se propuser a ler meus contos não se sinta muito confortável. Sob esse aspecto podemos aproximar meu livro da obra de Baudelaire, Rimbaud, Augusto dos Anjos e do simbolismo em geral. Do ponto de vista linguístico, também há semelhanças, principalmente em relação à musicalidade. Contudo, ainda na esfera da linguagem, o livro se aproxima dos modernistas, sobretudo em relação à não-linearidade de algumas narrativas e ao fluxo de consciência. Destaco, nesse quesito, Joyce, Woolf e Beckett. Em terras tupiniquins, Clarice Lispector é minha maior influência.

Outra marca simbolista é que as figuras fonéticas, como as aliterações, também percorrem os textos e representam o recurso com o qual você agrega uma estética poética à prosa. Mas ao trabalhar com as palavras desse modo, não seriam agregados ao texto outras qualidades também, como por exemplo a ironia? O que essa marca de composição representa para você?

Menalton Braff disse, certa vez, que a prosa, para sobreviver, tende a se aproximar da poesia. Concordo. Literatura para mim é predominantemente forma. Borges afirmava que há cinco ou seis temas literários universais; a diferença entre um escritor bom e um razoável está na maneira com que o primeiro conta sua história. Em relação à ironia, muitos dos contos são perpassados por essa figura de linguagem (“Está tudo escrito” é um dos exemplos). Mas vou além: emprestar poeticidade à prosa é demonstrar, de forma irônica, que não existem gêneros puros. Toda poesia é, em certa medida, narrativa e toda prosa, em certa medida, é poética: a primeira nos propõe um caminho (mesmo que seja para nos levar a lugar nenhum) e a segunda arranja as palavras de tal modo que aquilo tenha (mesmo que minimante) um efeito estético.

Lendo seu livro, não pude deixar de lembrar uma palestra que vi outro dia da professora de filosofia Marilena Chauí, em que ela dizia que nos dias de hoje vivemos uma crise de valores simbólicos na cultura. Segundo o raciocínio da professora, as pessoas hoje preferem os ‘sinais’ de riqueza, dados pelos bens de consumo, aos valores simbólicos. Você concorda com isso? E, no caso de concordar, acredita que o seu livro pode ser um antídoto para essa crise, ou não há nenhuma relação?

Concordo em termos com Marilena Chauí. Uso com cautela a palavra “crise” e a expressão “nos dias de hoje” porque vejo, em ambas, um teor moral. É como se houvesse um tempo áureo e, nosso papel, fosse resgatar as virtudes desse período. Mas é evidente que as sociedades contemporâneas capitalistas prezam muito mais o que é imediato e de fácil assimilação do que aquilo que precisa ser “ruminado”, como diria Nietzsche. Isso é notório em sala de aula: a dificuldade interpretativa prevalece entre os alunos de ensino médio. É inequívoco que os meios de comunicação de massa contribuem para tal problema, principalmente a televisão. Isso porque, além de criar necessidades desnecessárias no que diz respeito ao consumo, a TV bombardeia o expectador com movimentos e cores, o que prejudica a capacidade de imaginação. Basta pensarmos que imaginar é colocar imagens em ação, ou seja, atividade. Mas como a televisão cumpre esse papel para o expectador, essa aptidão, aos poucos, vai se atrofiando. É por esse motivo que sempre me posicionei contrariamente aos livros infantis que ilustram seus enredos. Nesse sentido, a boa literatura pode ser um antídoto à passividade, já que é o estimulante por excelência da imaginação.

Qual a importância do narrador em terceira pessoa e do discurso indireto livre para a sua composição? Seria um contraponto à carga subjetiva das personagens? Enfim, o que você pensa sobre isso?

Sob o ponto de vista estritamente formal, o discurso indireto livre empresta dinamismo ao texto, além de suscitar a todo instante a participação do leitor, pois não há marcações nítidas entre enredo e diálogo. Sobre o narrador, concordo com a sua colocação: como a maioria das minhas personagens são densas subjetivamente, o narrador em terceira pessoa contribui para que os estados de experiência interiores estabeleçam relações tanto com o enredo, quanto com o leitor. Todavia, por outro lado, acredito que o próprio conto “exige” ser narrado em primeira ou terceira pessoa. “Condenado à liberdade”, por exemplo, que conta a história de um homem que só encontra a liberdade na prisão, só podia ser narrado em primeira pessoa. Um caso ilustrativo é o conto “Maquinando”, todo ele um fluxo de consciência (sem pontuação alguma) para expressar o ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande.

Agora, falando um pouco do contexto atual, do cenário social em que os escritores produzem literatura: o realismo está em crise? Quer dizer, a partir do momento em que ligamos a TV e somos bombardeados com enredos reais de violência nos noticiários seria preciso pensar a literatura em função disso? Seria preciso buscar na literatura o elo com sentidos e sentimentos que estão fora desse mundo imediato, banal e palatável? O que você pensa sobre literatura e meios de comunicação?

O contexto no qual o autor está inserido influencia, mas não condiciona ou determina sua criação. É natural que alguns artistas se aproveitem do que os circunda para criar (a literatura dita “engajada” é um dos exemplos”). Mas colocar a literatura em função de qualquer coisa é, no mínimo, duvidoso: passa-se da arte ao panfleto em um piscar de olhos. Sobre a literatura como “válvula de escape” da banalidade: é interessante notarmos como a Indústria Cultural faz uso de alguns rótulos como argumento de venda. Um exemplo claro em relação a livros e filmes é o famoso “baseado em fatos reais”. É como se isso fosse um selo de qualidade quando demonstra, justamente, o oposto. Mas por que se usa isso? Os teóricos da Escola de Frankfurt trataram desse tema exaustivamente, mas só destaco um ponto em relação à literatura: o que escapa à expectativa do leitor médio é potencialmente pouco vendável e, por isso, relegado. Tal leitor (que se identifica com os livros de autoajuda precisamente porque estes não abalam seu ponto de vista), tem a necessidade do que é estável, do que tem correspondente na realidade. Mas, afinal, o que chamamos de realidade? Este conceito, no século XX, foi colocado em xeque: há mesmo algo em si? Se sim, ele é captável pelo intelecto ou pela sensibilidade? Depois da física quântica, que nos mostrou que o simples ato de observar influencia o objeto observado, é difícil falar em “realidade”. Tenho um verso que brinca com isso: “realidade é a imaginação de terno e gravata”. Outro ponto importante: mesmo inconscientemente, grande parte das pessoas é cientificista. Basta pensarmos o quão crível é o jargão “cientificamente comprovado”. Na literatura, essa pretensão foi levada às últimas consequências por Zola, no final do século XIX. Influenciado pelo positivismo e pelas descobertas científicas, ele lutou para que o romance fosse “naturalizado”. Escreveu ele em “Romance experimental”: “O naturalismo consiste unicamente no método experimental, na observação e na experiência aplicados à literatura. A retórica não tem lugar nela. Se a medicina deve ser uma ciência, porque seria de outra forma com a literatura?” Lendo essa declaração, penso: quanta pretensão!

 

Violeta Velha - capaVioleta velha e outras flores,

Matheus Arcaro, editora Patuá, SP, 2014, 162 págs.

 

 

Rapidíssimas

PAPO DE BOTECO

— Já vi tudo, Aderbal. Tomou todas. Não é?

— Não seja besta, Durval. Só tomo da mesma.

 

VITRINE & BOLSO

A falta de grana aniquila o bom gosto.

 

BACIA DAS ALMAS

Sei que o barato sai caro, mas é o que dá para comprar.

 

OCASIÕES

Elas só produzem ladrões pés de chinelo. Os “tops de linha” criam as ditas cujas.

 

ENVELHECEU

Comove-se por tudo, choraminga por qualquer coisa, em especial quando vai buscar o auxílio previdenciário no banco.

 

JOGO DO BICHO

Sonhou com a tia (gorda que só). Jogou no elefante. Deu vaca.

 

(Inspirado, claro, em GAETANINHO, de Antonio de Alcântara Machado. Livro lançado, salvo falha da memória trôpega, em 1928.)

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Kafka e a metáfora do isolamento

Kafka escreveu pequena e densa obra ao longo de apenas 12 anos de trabalho
Kafka escreveu pequena e densa obra em 12 anos de trabalho

As obras clássicas são antídotos contra a falta de ideias e o tédio das verdades absolutas que engessam a nossa visão de mundo. Recorrer a um desses livros que nunca envelhecem significa oxigenar a mente. Algumas histórias podem até mesmo marcar a experiência emocional do leitor, como se ele tivesse testemunhado um acontecimento trágico.

É um pouco desse modo que o leitor vai se sentir ao mergulhar na pequena novela “A metamorfose”, do escritor Franz Kafka (1883-1924), que nasceu em Praga (atual República Checa), era de origem judaica e ainda hoje é considerado um dos maiores ficcionistas do século 20. São de sua autoria também os textos “O processo” e “Carta ao pai”, emblemáticos de uma pequena produção literária que resultou de apenas 12 anos de trabalho do escritor, mas que representou de modo incomum a condição do homem moderno, seus estados de opressão, abandono e isolamento.

Em “A metamorfose”, publicada originalmente em 1912, Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que há cinco anos trabalha em uma empresa para pagar dívidas da família e num dia de inverno e névoa acorda transformado em um grande inseto, não conseguindo mais cumprir sua rotina de trabalho. Gregor vive com os pais e uma irmã mais nova, que até então dependem de seu salário para sobreviver.

Aos poucos, o leitor vai percebendo que a transformação em inseto é uma metáfora de alguém que, movido por uma força interior desconhecida, renuncia ao lugar que ocupa perante a família e a sociedade, caindo em isolamento. É como se Gregor não fosse mais capaz de cumprir o seu papel, acometido por um estado depressivo ou melancólico.

A transformação em inseto é assim um insulto que Gregor impõe a si próprio e a quem está à sua volta, visto que seu sentimento de autoestima se mostra perturbado, porque já não consegue mais reagir diante da opressão de quem não tem outra saída senão trabalhar ainda por mais cinco ou seis anos para pagar a tal dívida dos pais.

Na história, Kafka mostra o isolamento como resultante de uma cisão entre Gregor e a família, que não o aceita em sua nova condição. Esse é um problema que continua um tanto atual. São muitas as pessoas à margem da sociedade, abandonadas em manicômios, hospitais ou mesmo nas ruas, porque não correspondem às expectativas de seus familiares ou até mesmo da sociedade de consumo, que só valoriza quem está de acordo com a ideologia da mercadoria.

Kafka - a metamorfose - capaA metamorfose,

Franz Kafka, tradução de Marcelo Backes, L&PM Editores, Porto Alegre, 2001, 144 págs.

Fotos: Divulgação

A queda do sonho americano

Fitzgerald expressou as contradições dos anos 20 em seu romance
Fitzgerald expressou as contradições dos anos 20 em seu romance

Alguns romances são obrigatórios para quem deseja conhecer a literatura norte-americana. Um deles é “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), que ganhou nova edição em capa dura, projeto gráfico apurado e um encarte no miolo com fotos do escritor e sua esposa, Zelda Sayre (1900-1948), e também de três montagens dessa história clássica para o cinema – a mais recente delas, que estreou neste mês, tem Leonardo DiCaprio no papel principal e direção do australiano Baz Luhrmann.

O mais importante romance de Fitzgerald, originalmente publicado em 1925, chega com DiCaprio à quarta versão para o cinema – as outras três foram em 1926, 1949 e 1974. Nenhuma delas, no entanto, parece ter dado conta da riqueza do livro, pelo menos segundo a crítica, que passou a classificar o romance como “infilmável”.

Mas se no plano da sétima arte as coisas não vão bem, no campo da literatura o livro é de uma força simbólica, capaz de envolver o leitor em uma tragédia cujos elementos acabam por mostrar uma sociedade, a dos anos 20 em Nova York (EUA), que depois da Primeira Guerra Mundial passa a viver uma fase de prosperidade e luxúria, que desaba com a crise da Bolsa em 1929.

Como se criasse um microcosmo do sonho americano numa época que ficou conhecida como “a era do jazz”, o Grande Gatsby apresenta a trajetória de um homem rico e envolto em suspeitas de contrabando de bebidas – era a época da Lei Seca –, que morava em uma mansão em Long Island, ilha a sudeste de Nova York, onde proporcionava festas memoráveis – para duas mil pessoas, a maioria das quais ele nem sequer conhecia –, regadas a Fox-trot, champanhe, banhos de piscina e muita loucura nos espíritos arrogantes e hipócritas.

Cada personagem do romance representa uma camada da sociedade norte-americana naquele momento, que era caracterizado por uma imobilidade social grande. O conflito que se estabelece entre o ricaço Tom e Gatsby representa, por exemplo, o confronto entre os ricos tradicionais e os novos ricos. Mas o fio condutor da história é o amor de Gatsby por Daisy, mulher de Tom e prima de Nick Carraway, o narrador. A história é marcada por traições e bebedeiras, que espelham a vida conturbada que Fitzgerald teve ao lado da esposa, que tinha problemas mentais. No prefácio, o jornalista Ruy Castro afirma que Gatsby é alterego do escritor, assim como Daisy era o “duplo” de sua esposa.

F. Scott Fitzgerald - capa3O grande Gatsby,

F. Scott Fitzgerald, tradução de Humberto Guedes, Geração Editorial, 2013, 204 págs.

Foto: Divulgação

Memorial de um modernista

Oswald de Andrade escreveu memorial com irreverência (Foto: Biblioteca Nacional)
Oswald de Andrade escreveu memorial com irreverência (Foto: Biblioteca Nacional)

A vida e a obra de Oswald de Andrade (1890-1954), escritor que fundou o movimento modernista, estão intrincadas no livro ‘Um homem sem profissão. Memórias e Confissões. Sob as ordens de mamãe’, que foi originalmente publicado em 1954, ano de sua morte. O livro apresenta um memorial que seria o primeiro volume de uma série de quatro títulos, que não chegaram a se concretizar.

As memórias de Oswald ficaram assim restritas a esse volume I, que traz o período de sua infância até o início da vida adulta, e ao início do volume II, que deveria tratar dos anos 20, quando houve a gênese do movimento modernista, marcado pela Semana de Arte Moderna, de 1922. Nesse início de texto, Oswald trata do período na faculdade de Direito do Largo do São Francisco, onde estudou, e registra suas críticas a essa instituição.

No gênero literário do “memorial”, o leitor em geral encontra a oportunidade de conhecer aspectos da personalidade do narrador e ao mesmo tempo traços sociais e históricos da época vivenciada. Essas duas coisas estão presentes no texto de Oswald, mas de uma forma subvertida e irreverente, como era o estilo do escritor que foi fundamental para a literatura brasileira dar uma guinada em direção à liberdade.

Na introdução à primeira edição, o escritor e crítico Antonio Candido fala sobre essa questão, que envolve os retratos do tempo e o espírito do autor: “Aqui tudo se mistura; o eu e o mundo fundem-se num ritmo de impressão pessoal muito peculiar, em que se perde, por assim dizer, a independência de ambos. Este livro delineia de vez o ser complexo e estranho que é Oswald de Andrade, desnudando a extrema singeleza (sem paradoxo) de suas componentes fundamentais”.

No início do texto, são impagáveis as confissões de Oswald sobre suas fantasias de infância e como sua vida despertou para o amor, em meio a crenças católicas que pretendiam transformar toda a manifestação em pecado. Foi visitando um circo pela primeira vez que Oswald conta ter se encantado com as dançarinas, que depois passaram a frequentar sua imaginação de noite na cama: “O camisolão azul era o pano do circo que o mastro central enfunava. E as ‘pastorinhas de meu sexo’ do poeta Luís Coelho, pelos olhos encantados da invenção, vinham até mim, para consertar, róseas, frescas, faiscantes, os seus maiôs rasgados”.

Outro momento importante do texto é o da primeira viagem de Oswald à Europa, ficando principalmente na Itália, França e Inglaterra, onde conheceu artistas de viés modernista, e que entre outras coisas propunham abandonar a métrica na poesia e também a postura dominante cristã de reprimir a expressão do amor e da sexualidade.

 

Oswald de Andrade - capa2Um homem sem profissão. Memórias e Confissões. Sob as ordens de mamãe,

Oswald de Andrade, editora Globo, SP, 2000, 236 págs.

Quando o sonho cai por terra

Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964
Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964

Desde que a crise econômica internacional se agravou em 2008, passou a fazer bastante sentido criticar as sociedades norte-americana e europeia. O modelo de desenvolvimento com base no neoliberalismo, que permitiu às empresas, sobretudo as financeiras, concentrar renda de forma absurda, caiu por terra e os governos foram chamados a prestar socorro.

Somada a isso a crise política deflagrada pelos ataques de 11 de setembro de 2001, temos um cenário em que a promessa de prosperidade nos países de Primeiro Mundo no período pós-guerra já não existe. O recente ataque a bombas em Boston, a persistente crise entre Israel e Palestina, as guerras no Iraque e Afeganistão, o conflito na Síria e agora a crise com a Coreia do Norte mostram que pouco tem sido feito para aliviar as tensões e adotar políticas que se pautem menos pelo preconceito e mais pela tolerância.

Renato Russo, ex-líder da banda Legião Urbana, tinha razão: “Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”, diz a letra de ‘Índios’, uma de suas músicas. Doente, mas que ainda se encanta com as promessas de consumo, sustentando o sonho de viver ao estilo dos norte-americanos. A doença é o outro lado do sonho, que redundou em uma sociedade obcecada por sexo e violência, como mostra o envolvente romance de Norman Mailer (1923-2007), ‘Um sonho americano’, escrito em 1964.

A decadência do modelo de vida dos países ricos é algo escancarado hoje, mas que já era patente nos idos dos anos 60 e 70, sobretudo nos círculos de escritores da geração beat nos Estados Unidos, como é o caso de Mailer, e dos existencialistas da Europa, como Jean-Paul Sartre.

Em ‘Um sonho americano’, o protagonista Stephen Rojack é um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e ex-deputado, professor universitário e apresentador de um programa de TV. Seu sucesso é emoldurado por um casamento com uma dama da alta sociedade. Mas o fato é que nos bastidores Rojack mantém um casamento agressivo e deplorável até que numa noite ele perde o controle e mata a mulher, joga-a pela janela de um confortável apartamento em Nova York para caracterizar suicídio e aí mergulha em uma viagem de violência, sexo e drogas que traz à tona os desejos sufocados pelas aparências que a civilização o obriga a manter.

A obsessão e a paranoia permeiam os personagens do livro. Quando foi lançada, a história chocou a sociedade americana, pois há momentos de prática de incesto no texto, o que deixa o leitor meio atormentado, por estar em um terreno onde não há sentido. Um aspecto interessante é que a história se pauta por registrar os cheiros das pessoas, os cheiros e seus estados de espírito, o que revela que Mailer navega em águas represadas da personalidade, construindo seu discurso com elementos em geral não verbalizados.

 

Norman Mailer - capa2Um sonho americano,

Norman Mailer, tradução de Lia Wyler, editora L&PM, Porto Alegre (RS), 2007, 276 págs.

Foto: Carl Van Vechten

Nascimento da poesia moderna

‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret, pertenceu a Mário de Andrade
‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret, pertenceu a Mário de Andrade

Os registros de memória em São Paulo são frágeis e se perdem ou mudam de uma geração para outra. A cultura predominante na cidade, desde seus tempos mais remotos, até hoje se mantém: construir, destruir e reconstruir, num ciclo incansável que apaga a história e nos deixa surpresos diante da novidade.

Esse é um traço da cidade para o bem e para o mal. Se de um ponto de vista o espírito cosmopolita se renova, de outro a constante mudança provoca angústia, oprime os mais desfavorecidos, tantas vezes expulsos de suas humildes moradias, e desafia poetas e artistas.

Esse foi o aspecto que me chamou a atenção ao percorrer o texto e as fotografias antigas da cidade no livro ilustrado do escritor e professor de literatura Aleilton Fonseca, ‘O Arlequim da Pauliceia: imagens de São Paulo na poesia de Mário de Andrade’, que com um texto objetivo e despretensioso parte de um passeio em aspectos históricos, econômicos e sociais da cidade no século 20 para mergulhar na poética urbana do escritor paulistano, que foi um dos precursores do movimento modernista no País.

A prosa de Fonseca se debruça sobre dois títulos emblemáticos da influência da cidade na obra de Mário de Andrade: ‘Pauliceia desvairada’ e ‘Lira Paulistana’. Esses livros são extremos da produção do poeta e escritor.

O primeiro título foi escrito no começo dos anos 20 e apresentado na Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal. ‘Pauliceia desvairada’ é obra inaugural da poesia urbana moderna, livre da métrica e das tradições que já não expressavam mais a transformação do País, que no plano político se preparava para derrubar a República Velha com a Revolução de 30. Já o outro título é de 1945, portanto, da fase de maturidade do escritor, publicado no ano de sua morte.

Fonseca destaca que as duas obras representam dois estilos que convivem no poeta: “São balizas que marcam os pontos extremos de uma trajetória que vai gradativamente do desvario, predominante no primeiro livro, à observação metódica mais rigorosa, predominante no segundo”.

O livro também aborda episódios da vida familiar de Mário de Andrade e do “preço” que ele tinha de pagar por ser da vanguarda artística, como foi o caso da desaprovação que ele recebeu da família ao adquirir a escultura ‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret.

O texto é referenciado em notas, valendo-se de um conhecimento que torna a leitura ainda mais interessante. Numa dessas notas, Fonseca cita o historiador Nicolau Sevcenko, que no livro ‘Orfeu extático na metrópole’ (Companhia das Letras) considera o surgimento da cidade como “subproduto imprevisto e até inoportuno” da monocultura do café, cujo preço no mercado internacional enfrentava quedas crônicas naquela época, lançando crises que culminam com a dispensa da mão de obra de imigrantes, que buscam na capital uma alternativa de sobrevivência.

 

Aleilton Fonseca - O Arlequim da Pauliceia - capaO Arlequim da Pauliceia: imagens de São Paulo na poesia de Mário de Andrade,

Aleilton Fonseca, Geração Editorial, SP, 2012, 296 págs.

Entre vozes de almas penadas

Juan Rulfo foi precursor do realismo fantástico
Juan Rulfo foi precursor do realismo fantástico

A riqueza da produção latino-americana com os escritores modernos da segunda metade do século 20, como os argentinos Júlio Cortázar e Jorge Luis Borges, ou o colombiano Gabriel García Márquez, é algo que merece lugar seleto na biblioteca do leitor.

Os críticos convencionaram chamar de realismo ‘mágico’ ou ‘fantástico’ a produção desse grupo, que no Brasil também conta com representantes como Murilo Rubião e José J. Veiga.

Mas há um pequeno livro que é fundamental para ingressar nesse universo de obras, porque tem um caráter precursor. ‘Pedro Páramo’, do escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), é uma novela que influenciou toda essa geração e que faz o leitor mergulhar em um mundo sem fronteiras entre a vida e a morte, ou entre presente e passado.

‘Pedro Páramo’, de 1955, é um dos dois títulos aclamados que Rulfo publicou em vida. O outro é a coleção de contos ‘Chão em chamas’. A escassez de títulos é o contraponto do talento de Rulfo, que traz em sua novela a história de uma busca de identidade que ganha muitos significados no percurso do livro.

Na história, investido de um pedido da mãe em seu leito de morte, Juan Preciado viaja a um povoado chamado Comala, onde vive seu pai, Pedro Páramo. Mas o que o narrador encontra é um lugar deserto, habitado apenas por almas penadas, cujo sofrimento o assombra e causa estranheza.

Nas primeiras páginas, Juan segue viagem em companhia de um arrieiro, Abúndio, que lhe revela ser também filho de ‘dom Pedro’, como era chamado o proprietário de todas as terras de Comala. Logo, no entanto, Juan descobre que Abúndio era uma alma presa aos seus pecados, como todos os outros personagens que encontra.

A narrativa não tem sequência. Os textos se associam livremente como pedaços de memórias que vagam no tempo e no espaço e se manifestam por vozes. Com esse tipo de forma narrativa, o escritor expressa a falta de completude ou de felicidade na vida que as almas movidas pelo rancor não conseguem deixar para trás.

Pedro Páramo é o protótipo do concentrador de terra, movido por vingança e ódio, o que leva à solidão, a um deserto de alma. A novela reflete o contexto histórico da Guerra dos Cristeros, um levante rebelde no fim dos anos 20 no México em favor da igreja e contra o Estado.

Na vida do escritor, essa revolução, quando ele tinha cerca de dez anos, representou a morte do pai e a ruína de sua família, visto que ele era filho de proprietários de terra. A obra tem assim um forte apelo autobiográfico.

 

Juan Rulfo - capaPedro Páramo,

Juan Rulfo, tradução de Eliane Zagury, editora Paz e Terra, RJ, 1996, 162 págs.

Foto:  Divulgação

O suposto racismo de Monteiro Lobato

A ação contra a presença da obra ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato (1882-1948), em escolas públicas, que se arrasta desde 2010 e na semana passada teve mais uma rodada de conciliação no Supremo Tribunal Federal, coloca em questão o racismo e o papel da educação hoje, mas a literatura de qualquer modo fica arranhada.

A narrativa faz referência à personagem Tia Nastácia como “macaca de carvão” e essa expressão motivou o Conselho Nacional de Educação a recomendar a retirada do título do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Lobato publicou ‘Caçadas de Pedrinho’ em 1933

Desde então, a ação movida pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), do Rio, e pelo técnico Antonio Costa Neto defende que os professores recebam treinamento para lidar com questões raciais, enquanto o Ministério da Educação propõe a impressão de um nota explicativa, com o contexto histórico da obra.

Hoje ninguém em sã consciência pode ser a favor do racismo e admitir a expressão de Lobato, mas a questão da literatura é menor nessa discussão, que tem motivações políticas.  Entre as opiniões que repercutiram a polêmica, achei duas as mais interessantes: a ação chegou a ser chamada de patrulhamento ideológico e de exagero da postura politicamente correta.

“Toda manifestação artística deve ser analisada à luz do momento histórico em que foi criada: não existe obra desvinculada de seu contexto”, afirma a escritora Karla Lima, autora do romance ‘Minha Vida de Brinquedo’, que trata da condição social dos idosos na sociedade hoje. “Mas a edição ou supressão do termo seria uma violência ainda maior”, afirma, lembrando o caso da obra ‘As aventuras de Huckleberry Finn’, de Mark Twain (1835-1910), em que a editora americana NewSouth Books substituiu a palavra ‘negro’ por ‘escravo’ em uma nova edição.

E há outros casos de literatura provocando confusão. Em 2011, o Tribunal de Justiça de São Paulo vetou nas escolas o livro ‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’ por conta de seu conteúdo sexual. O livro ‘Violetas e Pavões’, de Dalton Trevisan, também teve de ser banido da lista de vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Esses fatos são de arrepiar os escritores, que são como que antenas do tempo, captando o que o humano tem de absurdo, agressivo e impensado. Não existe uma literatura “boa”, em que os personagens sejam somente movidos por ideais éticos. A literatura é um campo de conflitos de ideias e emoções. Sexo, perversões e fantasias absurdas expressam mais sobre o espírito humano do que qualquer vã filosofia. Talvez por isso o escritor Ziraldo tenha dito à Folha de S.Paulo que leu toda a obra de Lobato e não percebeu nenhuma ideia racista.

John Fante na montanha russa das paixões

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Fante publicou ‘Pergunte ao pó’ em 1939

Devorei as páginas de ‘Pergunte ao pó’, de John Fante (1909-1983), um romance que me arrebatou desde o princípio, com sua verve de paixão e sentimentos incertos, algo que poucas vezes se vê em um livro.

O título é um clássico, precursor da literatura beat, que teve expressões como Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg, e até hoje influencia gerações, como a dos brasileiros Marcelo Mirisola e Clarah Averbuck, que tributam a Fante a decisão de se tornarem escritores.

Charles Bukowski também bebeu nas fontes do americano quando era jovem. Aliás, é dele o prefácio de ‘Pergunte ao pó’: “Ele [John Fante] se tornaria uma influência no meu modo de escrever para toda a vida”, afirma Bukowski, considerando que os livros eram escritos “das entranhas e do coração”.

O protagonista do romance é Arturo Bandini, de ascendência italiana e alterego do escritor, que com esse personagem compôs quatro títulos, sendo ‘Pergunte ao pó’ o mais famoso deles, um divisor de águas na carreira de Fante. Os outros livros do chamado quarteto Bandini são ‘Espere a primavera, Bandini’, ‘Sonhos de Bunker Hill’ e ‘O caminho de Los Angeles’, todos eles com edições em português.

‘Pergunte ao pó’ segue uma trilha narrativa carregada de autobiografia em que Bandini, aos vinte e poucos anos, perambula como um marginal pelas ruas de Los Angeles nos anos 30, buscando inspiração para se tornar escritor. Em um café, ele se impressiona pela garçonete, Camilla Lopez, uma morena de procedência mexicana – linda, exótica e pobre –, com quem tenta um relacionamento tumultuado, carregado de ódio, tensão e paixão.

Um desacerto constante permeia a relação dos jovens, enquanto Bandini pouco a pouco consegue se estabelecer como escritor, publicando seus primeiros contos em revistas. Tudo acontece como se nos bastidores das histórias a vida fosse selvagem e incontrolável.

Não há meio termo para os desejos da juventude, um turbilhão de emoções emerge das entranhas e por isso o amor se torna impossível. Não existe sentimento que se sustente em sua coerência.

Bandini vai ao correio e manda um telegrama para Camilla, dizendo que deseja se casar com ela. Mas antes de o telegrama chegar ao destino, ele se mostra arrependido,  cerca o carteiro na rua e tenta dissuadi-lo de entregar a mensagem. Fante revela assim uma verdade que nos incomoda: mascarar a realidade com certezas e decisões duradouras é tão angustiante quanto viver em busca de sentido.

Pergunte ao pó,

John Fante, tradução de Roberto Muggiati, José Olympio Editora, RJ, 2011, 206 págs.