O girassol é sempre doce quando bate n’água

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Por Marina Moura

A escrita de repente ficou muda, mas deve ser porque há tanto grito dentro de mim.
A língua não sabe falar objetivamente o que toca nas cordas invisíveis dessa pele sensível que gostamos de chamar de alma.
Música desesperada. Música aflita ou muito calma. 
Cabem em mim todas as melodias desde que estremeçam, causando rupturas e dilacerações controláveis.
O meu exagero é uma espécie de muitos gerúndios:
Ando tendo fazendo tresloucando.
E ainda assim me invade violenta fúria.

( O que me move? )
( Remove )
( Lo (u) co )
( Move )
( Co move? )

Os parênteses que cortam minha história do começo ao fim
São incontáveis como as partículas de cor
Que formam os arcos
Que invadem as íris

Sou um grande trocadilho de mim.

Penso que os poetas são arquitetos secretos da linguagem, da vida e das coisas de esferas profundas e absolutas.

Provocam males secretos. Furtos secretos. Gozos secretos.

E todo mundo queria viver a vida do poeta sem viver sua aflição.

A tendência das pessoas normais é secar as lágrimas com lenços de seda.

O poeta as seca com areia, deixa o vento bater e leva a mão à face.
Acompanha o esfarelamento do choro, traz a água porosa à boca, mistura com a saliva e engole, pensando em naufragar no mar enquanto tocam os batuques e entoam-se cantos pra ela, Yemanjá, tornar doce o caldo da vida do poeta.

Ilustração: Pixabay

Poesia é protagonista em peça sobre Sylvia Plath

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

maurofmello@yahoo.com.br

A dramaturga Gabriela Mellão se debruçou sobre a obra e a vida da poeta estadunidense Sylvia Plath (1932-1963). “Acho Sylvia uma mulher infinita e muito próxima de todos nós. Sua escrita extremamente autobiográfica expõe potências e fragilidades comuns a todo ser humano de alma inquieta, em busca de um entendimento mais profundo de si e da vida. Ela demonstra plena consciência de que não utiliza plenamente toda sua capacidade. Não se contenta, quer sempre mais, caminhar, avançar, desenvolver-se”, conta a dramaturga. Desse mergulho nasceu a peça Ilhada em Mim – Sylvia Plath, que estreia no Sesc Pinheiros, na capital paulista, na quinta-feira (dia 18).

“Minha intenção foi revelar a complexidade do universo interior de Sylvia Plath, a potência de sua loucura e ao mesmo tempo de sua sensibilidade e extrema consciência”, explica. E esse universo embaralha obra e vida da poeta, que “evidencia seu compromisso de alma com uma arte vanguardista e verdadeiramente revolucionária, sua obsessão pelo esvair do tempo, seu desejo profundo e nunca plenamente atingido de ser mulher, amante, artista, filha e mãe”.

Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)

Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)

Dirigido por André Guerreiro Lopes, o espetáculo ainda investiga a conexão entre Sylvia e o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), com quem foi casada. “A tentativa foi revelar a relação de um amor intenso, tão vital como desestabilizador e destrutivo. Expor uma Sylvia movida pela paixão por Ted que definiu sua vida e obra, uma paixão que representa redenção e condenação na mesma medida, ou seja, vida e morte. A intenção foi revelar as emoções descontroladas da personagem, sua infinita capacidade de amar e sofrer, de entregar-se ao melhor e ao pior de sua paixão”, relata Gabriela. Djin Sganzerla interpreta Sylvia e Lopes, Hughes.

Inexiste a preocupação de fazer com que a narrativa transcorra de maneira linear, observa a dramaturga. “A peça não busca retratar a vida de Sylvia de forma didática, contar sua história. A intenção foi alcançar sua essência, jogar no palco as forças que se digladiavam dentro dela, que elevaram-na como mulher e artista e que também destruíram-na. Busquei o cheiro de Sylvia, seu odor mais perfumado e fétido. O texto é um vômito de amor, de sofrer, loucura, lirismo, vida, morte.”

A montagem foge da concepção realista, aponta. “A ideia do texto e da encenação foi se aproximar do lírico e do simbólico. No texto, a palavra poética é protagonista, busquei ultrapassar o discurso lógico criando imagens e estados que despertassem nos espectadores viagens sensoriais, além de mentais. O diretor traduz o texto em cena usando a água como metáfora para expor a inquietude sufocante de Sylvia, sua busca incessante por ar e paz interior. Os sinais do seu desajuste interior são conotados por uma simbologia visual que usa a água como signo de afogamento. Seu universo se esvai em cena, debaixo de água, elemento libertário tanto quanto asfixiante.”

É lícito entender, na peça, que a literatura é uma linguagem que sintetiza a própria arte. “Em Sylvia, literatura e poesia transformam cotidiano em arte. Seus sentimentos e questionamentos partem do cotidiano da existência humana, mas se afastam do pequeno revelando um entendimento das grandes questões da vida.” Ilhada em Mim – Sylvia Plath é mais uma expedição de Gabriela pelo universo da criação artística. Ela está em cartaz, como autora e codiretora (ao lado de João Paulo Lorenzon), no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o espetáculo Nijinski – Minha Loucura É o Amor da Humanidade até o dia 21, com ingressos esgotados.

 

Serviço

ILHADA EM MIM – SYLVIA PLATH. Dramaturgia de Gabriela Mellão. Direção de André Guerreiro Lopes. Com Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes. No Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, São Paulo, SP. Fone (11) 3095-9400. Quinta a sábado, às 20h30. Sessões extras nos dias 10, 17 e 24/10, às 17h. Até 1º/11. R$ 5 a R$ 25. Recomendação: 14 anos.

Projeto Kombi do Rap leva música e literatura para a periferia

A ideia de que literatura só pode ser encontrada em livros está ficando distante da realidade dos dias de hoje. A literatura está também no ar, e na periferia ela chega por meio de saraus e da linguagem do rap. Neste mês, o projeto Kombi do Rap, um veículo com equipamentos de som que permite essas duas manifestações e oferece até um microfone aberto para as comunidades, completa um ano com mais de 30 apresentações em lugares distantes, em busca do público que não tem acesso à cultura.

O rapper Liu Mr, criador do projeto, afirma que “pelo interesse dos jovens em participar das apresentações da Kombi dá para notar que as pessoas estão escrevendo sua própria história”. Ele diz que são muitos os adolescentes e também adultos que aparecem na Kombi para mostrar suas poesias e músicas. Liu considera esse um processo de protagonismo social. “Antes para um lugar ser imortalizado por meio das letras, a gente tinha de esperar vir um sociólogo para escrever sobre a nossa realidade, mas hoje o povo já está conseguindo escrever a sua história”, diz.

Protagonismo social – Liu Mr (de camiseta clara) e companheiros no Capão Redondo (foto: divulgação)

Protagonismo social – Liu Mr (de camiseta clara) e companheiros no Capão Redondo (foto: divulgação)

No próximo fim de semana, a Kombi do Rap fará apresentações nos quatro cantos da cidade, como parte da programação da Virada Cultural, um dos maiores eventos de rua do País, com shows musicais e outras manifestações artísticas. Liu Mr diz que a Kombi estará na Praça da Paz (Vila Brasilândia), no Jabaquara, no beco de grafites da Vila Madalena e no Jardim Elba (Zona Leste). “Em cada ponto, a gente vai ficar aproximadamente três horas, mas normalmente o nosso evento dura de cinco a seis horas”, afirma. Mais detalhes sobre a programação podem ser conhecidos na página do projeto no Facebook: https://www.facebook.com/KombiDoRap.

Oficina proporciona iniciação musical

Em um estudo sobre rap e literatura marginal, Waldilene Silva Miranda, mestre em literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), afirma essas expressões artísticas “são vozes plurais que emergem das margens do poder estabelecido e lutam pela construção da cultura da periferia, buscando reformular o discurso ignorado pela história excludente.”

Na prática, essa capacidade de dar vazão ao discurso excluído da grande mídia tem ampliado o papel da Kombi do Rap em suas incursões nas periferias. Liu Mr diz que a partir das experiências da Kombi surgiu um outro projeto, chamado ‘Kombinado’, que é uma oficina de gravação de músicas. “Nós proporcionamos uma iniciação musical para crianças e adolescentes”, afirma o rapper, que ainda neste ano fará uma viagem à Dinamarca, a convite do governo daquele País, para mostrar sua experiência com o projeto Kombi do Rap.

Confira o trabalho de Liu Mr

 

 

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Te amo contra a noite

Que acredito que passa

E que passará

 

Essa noite de um dia só

 

Te amo contra o mundo

Que acredito que saiba

Ou que saberá

 

Esse sabor de um dia que só

 

O amor que é no tempo essa transversal

De meu peito aberto

Que acalma

 

Ou me acalmará

.

 

Henrique Barreto 

O autor tem 27 anos e há três mantém suas poesias no projeto saopoesias.wordpress.com. Deseja publicar seu primeiro livro.

Vale

O universo e o mar são infinitos

iguais

aos olhos de um homem

 

Pequenos ou nem tão pequenos

talvez sejam imensos

escuros

 

quando descanso eternamente na areia

 

constelações que imagino

peito adentro

se alguma estrela me olha.

 

se essa calma

 

vale de coisa alguma.

 

Henrique Barreto 

O autor tem 27 anos e há três mantém suas poesias no projeto saopoesias.wordpress.com. Deseja publicar seu primeiro livro.

 

Surdo

Meu olhar que de repente procura

o mesmo céu

onde nada acontece

 

o mesmo mudo

 

sem nenhum porquê

me formulo

em teu mesmo azul surdo

 

me deseja

que um mundo seguro

 

me devolva a palavra que seja

me espelha

 

o maior absurdo

 

Henrique Barreto 

O autor tem 27 anos e há três mantém suas poesias no projeto saopoesias.wordpress.com. Deseja publicar seu primeiro livro.

Borboletas

.

Caçar borboleta no teu quarto escuro

que é pra onde você

ainda não

.

Borboleta que não é desse mundo

que você trouxe

as cores da asa em si

.

Asa de voar pintura sem intrometer

na moldura

poesia de crescer

.

do teu quarto escuro

saber de você

.

 

Henrique Barreto 

O autor tem 27 anos e há três mantém suas poesias no projeto saopoesias.wordpress.com. Deseja publicar seu primeiro livro.