Cristiane Brasil fica mais distante de assumir o Ministério do Trabalho

A deputada Cristiane Brasil (PTB) foi a subcelebridade que bombou nas redes sociais nesta segunda-feira (28). Bombou para tentar afundar de vez o barco que a conduziria ao Ministério do Trabalho. Tudo graças a um vídeo em que ela aparece em uma embarcação ao lado de quatro amigos empresários em trajes de banho, durante o qual comenta as ações que sofreu na Justiça do Trabalho e que a impediram de assumir a pasta como indicada do golpista Michel Temer.

“O que pode passar na cabeça das pessoas que entram contra a gente nas ações trabalhistas”, pergunta a deputada que enfrenta na justiça uma ação de um grupo de advogados. Um desses advogados disse ao Jornal Nacional que o vídeo servirá como prova de que a deputada não respeita a Justiça do Trabalho. Isso poderá servir para o Supremo Tribunal Federal (STF) manter a reclamação que sustenta o pedido de suspensão de Cristiane Brasil. Se já estava difícil assumir a pasta, agora parece que ficou quase impossível.

Quem vê o vídeo, que inclusive chegou a causar constrangimento no governo, não tem dúvida de que a deputada estava em um momento de relaxamento entre amigos, todos sem muitas convicções sobre compromissos trabalhistas. “Na verdade, eu posso dar uma declaração? Como empresário aqui, ação trabalhista toda hora a gente tem”, diz um dos amigos da deputada. “Todo mundo pode ter. Eu tenho, ele tem, qualquer um pode ter”, declara outro.

Confira o vídeo:

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O fim da conciliação de classes na República das Bananas

1. Haverá uma diferença nas eleições deste ano no Brasil. Uma diferença consolidada do que já se apresentava em 2014 como esboço. Não há mais conciliação de classes no país. É o que deixou bem claro o julgamento do ex-presidente Lula no TRF-4 em 24 de Janeiro. Ou nas palavras do professor Vladimir Safatle sobre o julgamento: “seu destino é a expressão do colapso de todo horizonte de conciliação na política nacional, com seu preço a pagar em moedas de grandes empreiteiras” (Folha de S. Paulo – 26.jan.18).

2. A observação de mais impacto sobre o julgamento decorre da derrocada dessa conciliação. A classe dominante no Brasil cada vez mais se faz representar pelo Judiciário, sem se incomodar com o equilíbrio de poderes ou outros ‘mimimis’ do estado de direito. O julgamento transforma as garantias constitucionais em ficção. Mera ficção. A letra da conciliação, a Constituição de 1988, já se torna letra morta.

3. Lula não pode ir para a Etiópia participar de Conferência sobre a fome. Seu passaporte foi tomado pela justiça depois que a unanimidade contra ele foi expressa no julgamento do TRF-4. Literalmente, é Lula que não pode viajar. Mas do ponto de vista simbólico é o brasileiro que não pode se deslocar. Não pode se deslocar no campo das ideias. Não pode ter o pensamento livre. O estado de exceção permite somente o que legitima a exploração. É a tentativa de pôr fim à subjetividade. Somente o que legitima o senso comum tacanho tem vez. O orgulho de ser brasileiro está ferido.

4. A concessão de TV no Brasil desde a ditadura civil-militar de 1964 criou um monstro. É um monstro, uma aberração, que não precisa mais ser representado no poder, mas que agora representa a si mesmo. Basta responder qual país você deseja para o futuro para estar em sintonia com esse monstro. Se você acredita que o país deve estar a seu serviço (na verdade a serviço da classe dominante), que a meritocracia é o caminho para conquistar prosperidade, parabéns, você está em paz com o monstro e cego para o fato de que as oportunidades não são iguais neste país.

5. Mas se você acredita que a luta política é um esforço coletivo, cuidado. Você é comunista e como tal será odiado.

6. O ódio é a expressão deste momento ou deste tempo. Ele canaliza o desejo de matar o outro, de aniquilar as diferenças e devolver o mundo à ordem, uma ordem que se expressa no paradigma positivista da bandeira nacional. Ordem é a hegemonização do pensamento. Pensamento é aquilo que legitima a exploração. Tudo o mais não é admitido.

Por Janduí Dantas: alguns versos para o momento

Sujeito grosso, fascista

pornofônico, violento

tresloucado, rabugento

arrogante, neonazista

fã de tortura, racista

do amor na contramão

dez pedras em cada mão

e cheio de ódio no peito:

Se é cristão esse sujeito,

o que é mesmo ser cristão?!

Pobre besta direitista

leva a vida a levar tombo

pobre com Direita forma

parceria que zombo:

a Direita com a chibata

e o pobre entra com o lombo!

(Janduí Dantas)

Donald Trump na era da pós-verdade: quando a versão é mais importante do que o fato

Flavio Aguiar – Rede Brasil Atualtrump-1938339_960_720

Corre uma discussão em diferentes mídias mundiais de que estaríamos vivendo, no jornalismo, nas redes sociais e de um modo geral, a “era da pós-verdade”. Normalmente, as pessoas usam o prefixo “pós” quando não sabem muito bem o que querem definir, mas sabem de onde partem para esta indefinição. O termo “pós-moderno” é o exemplo mais bem acabado disso.

Também deve-se considerar, previamente, que antes o termo “era” valia para um período muito extenso, coisa de milhões, milhares ou pelo menos uns dois séculos de duração. Hoje este prazo se abreviou consideravelmente, e fala-se descontraidamente em “era FHC”, “era Lula”, “era Dunga”, para ficar em alguns exemplos caseiros. Já há até quem fale em “era Temer”, enquanto outros anunciam, esperançosos, ou porque querem sucedê-lo, ou porque querem simplesmente vê-lo pelas costas, que “Temer já era”.

Mas o que se quer dizer – mesmo que sem exatidão – com “pós-verdade”?

De um modo geral, pode-se dizer que a expressão aponta para uma sensação controvertida de que estamos superando a consideração de que mais importante do que o fato é a versão. Estamos entrando num momento em que o fato perde sua substância completamente. A versão é o fato, e ela subsiste por ela mesma.

Apontam, por exemplo, que o turning point desta sucessão de momentos foi a guerra do Iraque que depôs Saddam Hussein. A mídia sustentou, sem provas nem mesmo tentativas de verificação, a ideia de que o ditador iraquiano albergava armas de destruição maciça e massiva. A justificativa sustentou a guerra. Depois se comprovou que era tudo mentira, que as tais armas não existiam, que fora tudo um engodo forjado pelo governo norte-americano e seus órgãos de inteligência e espionagem. Mas nesta altura Inês já era morta, ou melhor, Saddam Hussein já estava deposto e morto. Para muitos, isto foi e é um escândalo. Para outros tantos, isto não passa de faits-divers da guerra da informação; escandaloso é se recorrer a tais métodos.

Servem de amparo a ambos os lados da contenda as múltiplas afirmações atribuídas ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre a repetição da mentira até ela tornar-se verdade – afirmações estas que, diga-se de passagem, não dispõem de comprovação documental, pelo menos até o momento. Embora, é claro, que os defensores da desinformação como método de guerra jamais citarão o ministro de Hitler como argumento em seu favor.

A era da pós-verdade, seja lá o que isto queira dizer, ganhou um reforço com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, não resta dúvida. Além de reunir entre seus auxiliares diretos e indiretos o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo, e de tomar algumas medidas de acordo com seu programa demolidor do bom senso e consagrador do que o senso comum tem de mais idiota, Trump vem fazendo um esforço enorme para impor-se como o hegemon da pauta política mundial. Este termo é usado em ciência política para designar um estado que se impõe sobre outros dominando-os não só econômica, militar e politicamente, mas também culturalmente, fazendo-se a referência de significado para  os que mantém sob seu guarda-chuva ou dentro do seu curral, como se quiser. A Roma Antiga, Espanha, Holanda,  França, Inglaterra, Estados Unidos são bons exemplos de hegemons de sucesso com duração e alcance variados em sua hegemonia. Trump ambiciona fazer a renovação dos Estados Unidos como hegemon, interna e externamente, e neste esforço quer ele mesmo tornar-se o hegemon do hegemon, o “meta-hegemon“: “L’Amérique c’est moi”, para juntar o modo arrogante como os norte-americanos se referem a si mesmos com a célebre frase sobre o Estado atribuída a Luis XIV (ao que parece também sem fonte direta).

Um bom exemplo desta ânsia em hegemonizar a pauta mundial é o anúncio bombástico de que os Estados Unidos vão sair da Parceria Transpacífica. Na verdade, esta “bomba” anuncia que os Estados Unidos sairão de algo em que ainda não entraram, porque ela ainda não existe de fato. Trump poderia dizer “desistir”, mas não ficaria bem, porque líderes como ele não “desistem” de nada; “sair” é mais bombástico, mais “macho”, para usar uma boa expressão adequada ao personagem e à personalidade em que quer se transformar.

Neste esforço titânico, Trump e seu entorno entraram em confronto com esta coisa inteiramente superada: o “fato”. Seu assessor de imprensa, Sean Spicer, acusou a mídia de falsear a imagem da posse do novo presidente como “vazia”, graças ao “pouco comparecimento”. Várias mídias reagiram, expondo fotos das ruas de Washington quase ao relento durante a posse de Trump (a não ser pelas manifestações contrárias), e as mesmas ruas tomadas por multidões feéricas durante a posse de Obama. Uma outra assessora de Trump veio em socorro de Spicer, dizendo que este se referia a “fatos alternativos”. Mas o melhor socorro mesmo veio do próprio Spicer, que no dia seguinte afirmou que às vezes é necessário ir contra os fatos, e que isto não significa mentir. Haverá melhor definição e práxis da “pós-verdade”?

Bem, Trump deu uma. Agora atribui sua derrota no voto popular para Hillary Clinton a um suposto comparecimento às urnas de algo entre 3 milhões e 5 milhões de “eleitores ilegais”. Diz que tem indícios, provas, mas não os apresenta. Fica assim o dito pelo dito, e é claro que haverá milhões de embasbacados pró-ativos acreditando na afirmação e repetindo-a até que para outros milhões ela vire uma verdade.

Como se costuma praticar em coletividades jurídicas que se põem alegremente sob o guarda-chuva – ou a canga – do hegemon norte-americano, sem provas, mas com muita convicção, mesmo que esta frase seja o amálgama de diferenças sentenças de diferentes personagens, mas unidos no esforço de, definido o criminoso para eles, encontrar a apresentar o crime que este cometeu – numa variante muito promissora para futuros romances policiais.

Portanto, resumindo para @s leitor@s, aperte o cinto. Você já está vivendo plenamente a “era da pós-verdade”, dentro e fora do seu país.

O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

paradoxo

Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

AP denuncia operação clandestina dos EUA em Havana

Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)
Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)

A agência de notícias Associated Press (AP) divulgou na quinta-feira (10) documentos que mostram que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) se infiltrou durante dois anos (2009 e 2010) no movimento hip-hop em Havana para influir na carreira de rappers e fomentar um movimento contra o governo de Cuba.

A ação clandestina da agência consistiu em influenciar os jovens ideologicamente, procurando fomentar uma mobilização por mudanças sociais no país. Segundo os jornalistas da AP que fizeram a investigação, por pelo menos seis vezes as autoridades cubanas detiveram ou interrogaram pessoas ligadas ao programa, confiscaram computadores e encontraram informações que comprometiam cubanos, sem que eles soubessem estar participando de uma ação secreta dos norte-americanos.

Os documentos que a AP publicou na internet são e-mails, relatórios de trabalho, contratos, enfim, uma profusão de informações que detalha toda a ação da agência norte-americana na ilha. A ‘operação hip-hop’ teve como articulador o sérvio Rajko Bozic, que atuou no movimento estudantil na Iugoslávia, que no ano 2000 levou à renúncia do presidente Slobodan Milosevic.

A atuação de Bozic foi focada no grupo Los Aldeanos, que era bastante respeitado entre os jovens cubanos. Os documentos também mostram a participação da empresa norte-americana Creative Associates, que financiou um programa de televisão estrelado pelos Los Aldeanos. A Creative usou uma empresa de fachada no Panamá e um banco em Lichtenstein, um minúsculo principado na Europa, para dificultar o rastreamento do dinheiro.

O projeto, no entanto, se mostrou amador e não obteve sucesso. Em agosto de 2010, ao participar de um festival de música independente em Havana chamado Rotilla, os membros do grupo, Bian Rodriguez e Aldo Rodriguez, insultaram oficiais do governo e a polícia.  “A polícia, em vez de me fazer odiá-los, inspira pena, porque eles são como comedores de m…, eles nem mesmo compreendem que são vítimas do sistema. Viva Cuba livre”, afirmou Aldo para um público de 15 mil pessoas. Depois disso, os Los Aldeanos se mudaram para a Flórida.

O fracasso da operação é o que mais chama a atenção nessa história. Faz tempo que os Estados Unidos tentam dizimar, sem sucesso, a cultura cubana, que se fortaleceu com a revolução que levou Fidel Castro ao poder. Muito da força do povo tem a ver com a universalização da educação na ilha. “Foram criadas mais de dez mil salas de aulas apenas no primeiro ano após a derrubada de Fulgencio Batista. Uma das primeiras instruções baixadas por Fidel Castro como primeiro-ministro foi a transformação de 70 quarteis em escolas de alfabetização, depois readaptadas para o ensino médio”, afirma o escritor Fernando Morais no livro-reportagem ‘A Ilha’, publicado nos anos 1970.

Confira os documentos divulgados pela AP.

Assessor sofre

— Excelência: eu sei que o senhor e seu grupo são chegados a negócios escusos e em recursos não-contabilizados. Sei também que querem sair bem na imprensa, como os paladinos da ética e moralidade. Só que ninguém é besta; as informações correm. Um dia a casa cai. Não dá para ter – e ser – tudo ao mesmo tempo. Não dá pra fazer mágica. Sejam corretos, trabalhem com seriedade.

— Você está me dizendo que sou como eles – os canalhas que critico?

— Não, não. Sei que uns são piores que os outros. O senhor (tome isso como elogio) está no volume morto.

— Meu caro, então saiba: antes que a casa caia, quero encher os bolsos. Se você não tem competência para trabalhar minha imagem da forma que mereço – a melhor, pois mereço a melhor imagem, lutei contra a ditadura etc. –, arrume outra ocupação. Está demitido. Uma despesa a menos para o gabinete. A economia terá boa destinação.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/