Donald Trump na era da pós-verdade: quando a versão é mais importante do que o fato

Flavio Aguiar – Rede Brasil Atualtrump-1938339_960_720

Corre uma discussão em diferentes mídias mundiais de que estaríamos vivendo, no jornalismo, nas redes sociais e de um modo geral, a “era da pós-verdade”. Normalmente, as pessoas usam o prefixo “pós” quando não sabem muito bem o que querem definir, mas sabem de onde partem para esta indefinição. O termo “pós-moderno” é o exemplo mais bem acabado disso.

Também deve-se considerar, previamente, que antes o termo “era” valia para um período muito extenso, coisa de milhões, milhares ou pelo menos uns dois séculos de duração. Hoje este prazo se abreviou consideravelmente, e fala-se descontraidamente em “era FHC”, “era Lula”, “era Dunga”, para ficar em alguns exemplos caseiros. Já há até quem fale em “era Temer”, enquanto outros anunciam, esperançosos, ou porque querem sucedê-lo, ou porque querem simplesmente vê-lo pelas costas, que “Temer já era”.

Mas o que se quer dizer – mesmo que sem exatidão – com “pós-verdade”?

De um modo geral, pode-se dizer que a expressão aponta para uma sensação controvertida de que estamos superando a consideração de que mais importante do que o fato é a versão. Estamos entrando num momento em que o fato perde sua substância completamente. A versão é o fato, e ela subsiste por ela mesma.

Apontam, por exemplo, que o turning point desta sucessão de momentos foi a guerra do Iraque que depôs Saddam Hussein. A mídia sustentou, sem provas nem mesmo tentativas de verificação, a ideia de que o ditador iraquiano albergava armas de destruição maciça e massiva. A justificativa sustentou a guerra. Depois se comprovou que era tudo mentira, que as tais armas não existiam, que fora tudo um engodo forjado pelo governo norte-americano e seus órgãos de inteligência e espionagem. Mas nesta altura Inês já era morta, ou melhor, Saddam Hussein já estava deposto e morto. Para muitos, isto foi e é um escândalo. Para outros tantos, isto não passa de faits-divers da guerra da informação; escandaloso é se recorrer a tais métodos.

Servem de amparo a ambos os lados da contenda as múltiplas afirmações atribuídas ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre a repetição da mentira até ela tornar-se verdade – afirmações estas que, diga-se de passagem, não dispõem de comprovação documental, pelo menos até o momento. Embora, é claro, que os defensores da desinformação como método de guerra jamais citarão o ministro de Hitler como argumento em seu favor.

A era da pós-verdade, seja lá o que isto queira dizer, ganhou um reforço com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, não resta dúvida. Além de reunir entre seus auxiliares diretos e indiretos o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo, e de tomar algumas medidas de acordo com seu programa demolidor do bom senso e consagrador do que o senso comum tem de mais idiota, Trump vem fazendo um esforço enorme para impor-se como o hegemon da pauta política mundial. Este termo é usado em ciência política para designar um estado que se impõe sobre outros dominando-os não só econômica, militar e politicamente, mas também culturalmente, fazendo-se a referência de significado para  os que mantém sob seu guarda-chuva ou dentro do seu curral, como se quiser. A Roma Antiga, Espanha, Holanda,  França, Inglaterra, Estados Unidos são bons exemplos de hegemons de sucesso com duração e alcance variados em sua hegemonia. Trump ambiciona fazer a renovação dos Estados Unidos como hegemon, interna e externamente, e neste esforço quer ele mesmo tornar-se o hegemon do hegemon, o “meta-hegemon“: “L’Amérique c’est moi”, para juntar o modo arrogante como os norte-americanos se referem a si mesmos com a célebre frase sobre o Estado atribuída a Luis XIV (ao que parece também sem fonte direta).

Um bom exemplo desta ânsia em hegemonizar a pauta mundial é o anúncio bombástico de que os Estados Unidos vão sair da Parceria Transpacífica. Na verdade, esta “bomba” anuncia que os Estados Unidos sairão de algo em que ainda não entraram, porque ela ainda não existe de fato. Trump poderia dizer “desistir”, mas não ficaria bem, porque líderes como ele não “desistem” de nada; “sair” é mais bombástico, mais “macho”, para usar uma boa expressão adequada ao personagem e à personalidade em que quer se transformar.

Neste esforço titânico, Trump e seu entorno entraram em confronto com esta coisa inteiramente superada: o “fato”. Seu assessor de imprensa, Sean Spicer, acusou a mídia de falsear a imagem da posse do novo presidente como “vazia”, graças ao “pouco comparecimento”. Várias mídias reagiram, expondo fotos das ruas de Washington quase ao relento durante a posse de Trump (a não ser pelas manifestações contrárias), e as mesmas ruas tomadas por multidões feéricas durante a posse de Obama. Uma outra assessora de Trump veio em socorro de Spicer, dizendo que este se referia a “fatos alternativos”. Mas o melhor socorro mesmo veio do próprio Spicer, que no dia seguinte afirmou que às vezes é necessário ir contra os fatos, e que isto não significa mentir. Haverá melhor definição e práxis da “pós-verdade”?

Bem, Trump deu uma. Agora atribui sua derrota no voto popular para Hillary Clinton a um suposto comparecimento às urnas de algo entre 3 milhões e 5 milhões de “eleitores ilegais”. Diz que tem indícios, provas, mas não os apresenta. Fica assim o dito pelo dito, e é claro que haverá milhões de embasbacados pró-ativos acreditando na afirmação e repetindo-a até que para outros milhões ela vire uma verdade.

Como se costuma praticar em coletividades jurídicas que se põem alegremente sob o guarda-chuva – ou a canga – do hegemon norte-americano, sem provas, mas com muita convicção, mesmo que esta frase seja o amálgama de diferenças sentenças de diferentes personagens, mas unidos no esforço de, definido o criminoso para eles, encontrar a apresentar o crime que este cometeu – numa variante muito promissora para futuros romances policiais.

Portanto, resumindo para @s leitor@s, aperte o cinto. Você já está vivendo plenamente a “era da pós-verdade”, dentro e fora do seu país.

O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

paradoxo

Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

AP denuncia operação clandestina dos EUA em Havana

Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)

Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)

A agência de notícias Associated Press (AP) divulgou na quinta-feira (10) documentos que mostram que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) se infiltrou durante dois anos (2009 e 2010) no movimento hip-hop em Havana para influir na carreira de rappers e fomentar um movimento contra o governo de Cuba.

A ação clandestina da agência consistiu em influenciar os jovens ideologicamente, procurando fomentar uma mobilização por mudanças sociais no país. Segundo os jornalistas da AP que fizeram a investigação, por pelo menos seis vezes as autoridades cubanas detiveram ou interrogaram pessoas ligadas ao programa, confiscaram computadores e encontraram informações que comprometiam cubanos, sem que eles soubessem estar participando de uma ação secreta dos norte-americanos.

Os documentos que a AP publicou na internet são e-mails, relatórios de trabalho, contratos, enfim, uma profusão de informações que detalha toda a ação da agência norte-americana na ilha. A ‘operação hip-hop’ teve como articulador o sérvio Rajko Bozic, que atuou no movimento estudantil na Iugoslávia, que no ano 2000 levou à renúncia do presidente Slobodan Milosevic.

A atuação de Bozic foi focada no grupo Los Aldeanos, que era bastante respeitado entre os jovens cubanos. Os documentos também mostram a participação da empresa norte-americana Creative Associates, que financiou um programa de televisão estrelado pelos Los Aldeanos. A Creative usou uma empresa de fachada no Panamá e um banco em Lichtenstein, um minúsculo principado na Europa, para dificultar o rastreamento do dinheiro.

O projeto, no entanto, se mostrou amador e não obteve sucesso. Em agosto de 2010, ao participar de um festival de música independente em Havana chamado Rotilla, os membros do grupo, Bian Rodriguez e Aldo Rodriguez, insultaram oficiais do governo e a polícia.  “A polícia, em vez de me fazer odiá-los, inspira pena, porque eles são como comedores de m…, eles nem mesmo compreendem que são vítimas do sistema. Viva Cuba livre”, afirmou Aldo para um público de 15 mil pessoas. Depois disso, os Los Aldeanos se mudaram para a Flórida.

O fracasso da operação é o que mais chama a atenção nessa história. Faz tempo que os Estados Unidos tentam dizimar, sem sucesso, a cultura cubana, que se fortaleceu com a revolução que levou Fidel Castro ao poder. Muito da força do povo tem a ver com a universalização da educação na ilha. “Foram criadas mais de dez mil salas de aulas apenas no primeiro ano após a derrubada de Fulgencio Batista. Uma das primeiras instruções baixadas por Fidel Castro como primeiro-ministro foi a transformação de 70 quarteis em escolas de alfabetização, depois readaptadas para o ensino médio”, afirma o escritor Fernando Morais no livro-reportagem ‘A Ilha’, publicado nos anos 1970.

Confira os documentos divulgados pela AP.

Assessor sofre

— Excelência: eu sei que o senhor e seu grupo são chegados a negócios escusos e em recursos não-contabilizados. Sei também que querem sair bem na imprensa, como os paladinos da ética e moralidade. Só que ninguém é besta; as informações correm. Um dia a casa cai. Não dá para ter – e ser – tudo ao mesmo tempo. Não dá pra fazer mágica. Sejam corretos, trabalhem com seriedade.

— Você está me dizendo que sou como eles – os canalhas que critico?

— Não, não. Sei que uns são piores que os outros. O senhor (tome isso como elogio) está no volume morto.

— Meu caro, então saiba: antes que a casa caia, quero encher os bolsos. Se você não tem competência para trabalhar minha imagem da forma que mereço – a melhor, pois mereço a melhor imagem, lutei contra a ditadura etc. –, arrume outra ocupação. Está demitido. Uma despesa a menos para o gabinete. A economia terá boa destinação.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

A voz dos Black Blocs

Mascarados_black_blockDesde que os jovens ocuparam as ruas da cidade nas manifestações de junho de 2013, tornou-se rotina para a mídia e para boa parte da população reproduzir o discurso que classifica os ativistas mascarados da tática Black Blocs como vândalos, baderneiros e outras qualificações semelhantes. Todas elas parecem guardar em comum a reprovação incondicional à violência, mas também são rótulos que encobrem o que esses ativistas têm a dizer.

A falta de capacidade de ouvir o outro é um dos males do País hoje, é o que esteve por trás das manifestações de ódio durante o processo eleitoral no mês passado. As 2,5 mil pessoas que há poucos dias foram à avenida Paulista pedir a volta dos militares ao poder também mostram-se movidas por esse ódio, já que se dispõem a atropelar a democracia, porque não é possível suportar aquilo que é diferente ou as mudanças que o País conquistou.

Para os mais radicais e insensíveis, a triste notícia é que a realidade é multifacetada e se compõem da visão de todas as pessoas, inclusive, os Black Blocs, cuja voz pode ser conhecida no livro ‘Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc’, de autoria da socióloga da Unifesp Esther Solano e dos jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes.

Desde agosto do ano passado, Esther pesquisou o grupo, acompanhando as manifestações. Ouviu dezenas de jovens e se concentrou na produção do livro para ajudar o leitor a entender um pouco mais sobre as razões da violência. Desde o princípio, os ataques aos bancos e ao patrimônio público na avenida Paulista, bem como os enfrentamentos com a Polícia Militar, mostram um caráter simbólico.

“A mensagem talvez seja que a sociedade não está pronta para assumir, por exemplo, que a raiva do Black Bloc é um sintoma, que os problemas estruturais da polícia são sintomas que estão explicitando as úlceras do atual modelo social brasileiro”, afirma Esther no livro, enfatizando que a realidade está além das verdades absolutas e que os jovens, a maioria de classe média baixa, buscam ser ouvidos.

O jornalista Bruno Paes Manso cobriu as manifestações dos Black Blocs como repórter do jornal ‘O Estado de S. Paulo’. Seu relato na segunda parte do livro mostra como o jornalista mudou sua visão do movimento ao longo da cobertura, não se resumindo simplesmente a classificar os ativistas como vândalos. Na parte final, o jornalista Willian Novaes reúne depoimentos dos jovens que protagonizaram os atos e traz também uma entrevista com o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi, que foi ferido em uma das manifestações.

 

Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc,

Esther Solano, Bruno Paes Manso e Willian Novaes, Geração Editorial, SP, 2014, 336 págs.

Os gemidos de Nélson Rodrigues

O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas… Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações do pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Ruy Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava só (tinha medo de morrer sozinho), narra Castro, Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

— Dona Concetta, fique comigo. Venha me ouvir gemer.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

 

Quase histórias

E AGORA, ALFREDO?

 

— Oi, querida. Estava me sentindo muito solitário aqui na praia, só escrevendo, sem você, sem ninguém pra conversar. Dias tristes. Coisa boa você chegar tão linda, cheirosa. Mas, Cacilda Becker, tinha que trazer sua mãe junto?

 

***

 

SENHOR

 

Não me queira mal por chegar assim: de mãos abanando. Cheguei como pude – sem terno, sem mortalha, sem roupinha melhor. Sem compostura. Compostura, aliás, nunca foi minha praia. Venho como vivi: quase pelado: de bermuda ordinária, camiseta, chinelos, assuntando inutilidades. Com cigarros no bolso, caixinha de fósforo na mão… Pode fumar aqui, Senhor?

 

***

 

DIÁLOGO NO BOTECO

 

— Então, como ficaram seus olhos após a operação?

 

— A mesma porcaria de antes. Tanto faz eu estar de óculos ou sem óculos. Enxergo a mesma coisa: muito mal.

 

— Se é assim, deixe os óculos em casa, seu Dodô. Pelo menos, o senhor se livra de carregar um peso desnecessário.

 

***

 

CÍRCULO VICIOSO

 

— Quintino, Quintino, meu amigo: você ficou rico, muito rico mesmo, depois que entrou na política, todo mundo sabe. Por que, então, continua fazendo trapaças?

 

— Para poder contratar advogados de ponta. A gente nunca sabe como será o amanhã. Essa gente cobra caro.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/