Donald Trump na era da pós-verdade: quando a versão é mais importante do que o fato

Flavio Aguiar – Rede Brasil Atualtrump-1938339_960_720

Corre uma discussão em diferentes mídias mundiais de que estaríamos vivendo, no jornalismo, nas redes sociais e de um modo geral, a “era da pós-verdade”. Normalmente, as pessoas usam o prefixo “pós” quando não sabem muito bem o que querem definir, mas sabem de onde partem para esta indefinição. O termo “pós-moderno” é o exemplo mais bem acabado disso.

Também deve-se considerar, previamente, que antes o termo “era” valia para um período muito extenso, coisa de milhões, milhares ou pelo menos uns dois séculos de duração. Hoje este prazo se abreviou consideravelmente, e fala-se descontraidamente em “era FHC”, “era Lula”, “era Dunga”, para ficar em alguns exemplos caseiros. Já há até quem fale em “era Temer”, enquanto outros anunciam, esperançosos, ou porque querem sucedê-lo, ou porque querem simplesmente vê-lo pelas costas, que “Temer já era”.

Mas o que se quer dizer – mesmo que sem exatidão – com “pós-verdade”?

De um modo geral, pode-se dizer que a expressão aponta para uma sensação controvertida de que estamos superando a consideração de que mais importante do que o fato é a versão. Estamos entrando num momento em que o fato perde sua substância completamente. A versão é o fato, e ela subsiste por ela mesma.

Apontam, por exemplo, que o turning point desta sucessão de momentos foi a guerra do Iraque que depôs Saddam Hussein. A mídia sustentou, sem provas nem mesmo tentativas de verificação, a ideia de que o ditador iraquiano albergava armas de destruição maciça e massiva. A justificativa sustentou a guerra. Depois se comprovou que era tudo mentira, que as tais armas não existiam, que fora tudo um engodo forjado pelo governo norte-americano e seus órgãos de inteligência e espionagem. Mas nesta altura Inês já era morta, ou melhor, Saddam Hussein já estava deposto e morto. Para muitos, isto foi e é um escândalo. Para outros tantos, isto não passa de faits-divers da guerra da informação; escandaloso é se recorrer a tais métodos.

Servem de amparo a ambos os lados da contenda as múltiplas afirmações atribuídas ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre a repetição da mentira até ela tornar-se verdade – afirmações estas que, diga-se de passagem, não dispõem de comprovação documental, pelo menos até o momento. Embora, é claro, que os defensores da desinformação como método de guerra jamais citarão o ministro de Hitler como argumento em seu favor.

A era da pós-verdade, seja lá o que isto queira dizer, ganhou um reforço com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, não resta dúvida. Além de reunir entre seus auxiliares diretos e indiretos o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo, e de tomar algumas medidas de acordo com seu programa demolidor do bom senso e consagrador do que o senso comum tem de mais idiota, Trump vem fazendo um esforço enorme para impor-se como o hegemon da pauta política mundial. Este termo é usado em ciência política para designar um estado que se impõe sobre outros dominando-os não só econômica, militar e politicamente, mas também culturalmente, fazendo-se a referência de significado para  os que mantém sob seu guarda-chuva ou dentro do seu curral, como se quiser. A Roma Antiga, Espanha, Holanda,  França, Inglaterra, Estados Unidos são bons exemplos de hegemons de sucesso com duração e alcance variados em sua hegemonia. Trump ambiciona fazer a renovação dos Estados Unidos como hegemon, interna e externamente, e neste esforço quer ele mesmo tornar-se o hegemon do hegemon, o “meta-hegemon“: “L’Amérique c’est moi”, para juntar o modo arrogante como os norte-americanos se referem a si mesmos com a célebre frase sobre o Estado atribuída a Luis XIV (ao que parece também sem fonte direta).

Um bom exemplo desta ânsia em hegemonizar a pauta mundial é o anúncio bombástico de que os Estados Unidos vão sair da Parceria Transpacífica. Na verdade, esta “bomba” anuncia que os Estados Unidos sairão de algo em que ainda não entraram, porque ela ainda não existe de fato. Trump poderia dizer “desistir”, mas não ficaria bem, porque líderes como ele não “desistem” de nada; “sair” é mais bombástico, mais “macho”, para usar uma boa expressão adequada ao personagem e à personalidade em que quer se transformar.

Neste esforço titânico, Trump e seu entorno entraram em confronto com esta coisa inteiramente superada: o “fato”. Seu assessor de imprensa, Sean Spicer, acusou a mídia de falsear a imagem da posse do novo presidente como “vazia”, graças ao “pouco comparecimento”. Várias mídias reagiram, expondo fotos das ruas de Washington quase ao relento durante a posse de Trump (a não ser pelas manifestações contrárias), e as mesmas ruas tomadas por multidões feéricas durante a posse de Obama. Uma outra assessora de Trump veio em socorro de Spicer, dizendo que este se referia a “fatos alternativos”. Mas o melhor socorro mesmo veio do próprio Spicer, que no dia seguinte afirmou que às vezes é necessário ir contra os fatos, e que isto não significa mentir. Haverá melhor definição e práxis da “pós-verdade”?

Bem, Trump deu uma. Agora atribui sua derrota no voto popular para Hillary Clinton a um suposto comparecimento às urnas de algo entre 3 milhões e 5 milhões de “eleitores ilegais”. Diz que tem indícios, provas, mas não os apresenta. Fica assim o dito pelo dito, e é claro que haverá milhões de embasbacados pró-ativos acreditando na afirmação e repetindo-a até que para outros milhões ela vire uma verdade.

Como se costuma praticar em coletividades jurídicas que se põem alegremente sob o guarda-chuva – ou a canga – do hegemon norte-americano, sem provas, mas com muita convicção, mesmo que esta frase seja o amálgama de diferenças sentenças de diferentes personagens, mas unidos no esforço de, definido o criminoso para eles, encontrar a apresentar o crime que este cometeu – numa variante muito promissora para futuros romances policiais.

Portanto, resumindo para @s leitor@s, aperte o cinto. Você já está vivendo plenamente a “era da pós-verdade”, dentro e fora do seu país.

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O ‘paradoxo da comunicação’ nas palavras do professor Perseu Abramo

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Cara, depois de toda a luta, do golpe e esse bando de coxinhas estúpidos que tomaram o poder de assalto, eis que encontro uma declaração do professor Perseu Abramo, de 1995, aos formandos de jornalismo da PUC-SP, portanto, pouco tempo antes de sua morte, que impressiona por sua atualidade. Digo mais, é praticamente uma profecia.

Olha o professor: “Se a sociedade não lutar, também, pela democratização da comunicação, o aumento do poder tecnológico nas mãos de uma elite dominante, sem participação do conjunto social, não vai significar mais democracia. Ao contrário, significará mais dominação, mais exploração, mais opressão, mais desigualdade, mais injustiça. Portanto, menos democracia. É o que chamo de Paradoxo da Comunicação”.

Análise brilhante. Quanto mais comunicação concentrada, menos democracia. É como se o professor soubesse no que ia dar a aventura da democracia nestes anos 2010, é como se ele estivesse aqui, ao nosso lado, lutando contra o golpe legalista, contra a manipulação da realidade pela mídia golpista, contra a onda conservadora que reage a umas poucas, pouquíssimas conquistas. Aliás, manipulação da realidade é o cerne do livro onde encontrei essa declaração do professor: Padrões de manipulação na grande imprensa (Fundação Perseu Abramo, 2ª edição, 2016).

No universo da mídia como empresa, como negócio, não há comunicação sem um arcabouço ideológico, um plano estratégico, uma linha editorial, um projeto de realidade que não tem necessariamente tudo a ver com o real. A própria distinção entre fatos jornalísticos e não jornalísticos já cria uma cisão entre o que o leitor, espectador, ouvinte vai ter acesso e o que não vai. No livro, o professor mostra as ferramentas de manipulação que servem a esse projeto de criar uma realidade com certos objetivos. A ocultação, a inversão, a fragmentação são conceitos que permitem manipular a informação para que a realidade possa ficar ao sabor do interesse da empresa editorial.

Achei fundamental um aspecto que o professor destaca que é a “inversão da opinião pela informação” – o veículo de comunicação passa opinião como se fosse informação, na perspectiva de obter uma aderência do leitor/espectador. O professor diz que nesse caso, o juízo de valor ocupa o lugar do juízo de realidade, como se a distinção entre ambos pudesse ser negada. Segundo Abramo, “o leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

É claro que não precisa navegar muito na internet para encontrar um exemplo do que o professor está falando. No Estadão, neste sábado (9): “Governo Temer investiga financiamento a porto em Cuba” – “hm”, penso como leitor, “então quer dizer que os governos Lula e Dilma teriam feito maracutaia no financiamento, hm”.

Meu, a publicação desse livro agora em segunda edição não poderia ser mais oportuna. Um momento de cisão profunda do país, momento em que se fala em desintegração social, e de imposição de um projeto que jamais seria aprovado pelas urnas. Tudo isso com adesão de parte expressiva da população, sem dúvida, que partilha de um senso comum midiático para criminalizar o pensamento e a atuação política de quem não comunga com as forças de mercado, com a meritocracia, com a entrega da soberania do pré-sal, com redução de programas sociais, com a prevalência do individualismo sobre a individualidade.

Cara, olha aí os coxinhas de camisa da seleção. Bebe logo essa cerveja e vambora antes que o clima esquente, abração, e tira essa camiseta vermelha, vê se usa algo mais neutro.

Quando a água acabar

Seca – Represa Jaguari, uma das que abastece o Cantareira (Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas)

Seca – Represa Jaguari, uma das que abastece o Cantareira (Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas)

‘Quando a água acabar’ pode ser mera força de expressão. Há lugares na cidade em que a água já acabou e quem me contou isso não foi o superintendente das águas de algum lugar, mas uma moradora do bairro dos Pimentas, em Guarulhos. Para ela, que todos os dias vai a São Paulo trabalhar, onde sempre vê as torneiras operantes, o gestor das águas e o governo tomaram a decisão clara de jogar o peso da crise hídrica sobre os mais pobres. Mais uma vez, São Paulo cumpre o legado histórico da política conservadora, e governa para os mais favorecidos, protegendo os bairros centrais do racionamento.

Oficialmente, Guarulhos cumpre um racionamento de um dia com água e outro sem desde o início da crise do Cantareira. Mas para essa mulher lutadora que mora no Pimentas, terminou o supletivo há pouco tempo e sonha em estudar na Universidade Federal em Guarulhos, que está sendo construída no seu bairro, o racionamento um por um seria de longe melhor do que a situação que vem enfrentando.

“Não tem racionamento, a água chega de forma completamente irregular, às vezes não tem pressão para chegar à caixa”, afirma, ressaltando que chega a ficar três dias sem água. Ela conta que os baldes estão cada vez mais se espalhando pela casa. E que o “socorro” um dia foi prestado por um carro-pipa que a prefeitura mandou, mas saiu briga na disputa pela água, o motorista até passou mal, e nunca mais o carro-pipa voltou. Também conta que a conta de água subiu, de R$ 20, em média, para R$ 36.

Mas o conto do vigário na crise hídrica de São Paulo é essa história de que São Pedro é quem vai salvar. Fosse um tempo de chuvas normais, ainda assim o Sistema Cantareira, que supre perto de 50% da cidade e outras regiões, estaria abaixo dos níveis de segurança. O consumo aumentou com o crescimento da população e de outras demandas, como a industrial. O fato é que o governo não fez os investimentos necessários para a expansão do abastecimento, e agora tenta soluções emergenciais, que neste ano não serão concluídas.

Nos últimos dias, especialistas em meio ambiente apareceram na imprensa para prever os desdobramentos do colapso do Cantareira e Alto Tietê, as duas reservas que podem secar primeiro. É até tecnicamente discutível se o colapso já não começou. Há quem defenda que sim, e para outros, como a moradora do Pimentas, o colapso se impôs na prática.

Mas também os últimos dias trouxeram à tona a crise de energia elétrica e, ironicamente, no escuro, em meio aos apagões, começou a ficar claro para os brasileiros que o País atravessa uma crise hídrica sem precedentes. 2015 provavelmente será menor do que sonhamos na noite de Ano Novo – haverá um impacto social e econômico que é difícil prever, mas que provavelmente vai se traduzir em menor crescimento.

AP denuncia operação clandestina dos EUA em Havana

Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)

Los Aldeanos – influência de agência norte-americana sem ter consciência da operação (foto: Oriana Eliçabe)

A agência de notícias Associated Press (AP) divulgou na quinta-feira (10) documentos que mostram que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) se infiltrou durante dois anos (2009 e 2010) no movimento hip-hop em Havana para influir na carreira de rappers e fomentar um movimento contra o governo de Cuba.

A ação clandestina da agência consistiu em influenciar os jovens ideologicamente, procurando fomentar uma mobilização por mudanças sociais no país. Segundo os jornalistas da AP que fizeram a investigação, por pelo menos seis vezes as autoridades cubanas detiveram ou interrogaram pessoas ligadas ao programa, confiscaram computadores e encontraram informações que comprometiam cubanos, sem que eles soubessem estar participando de uma ação secreta dos norte-americanos.

Os documentos que a AP publicou na internet são e-mails, relatórios de trabalho, contratos, enfim, uma profusão de informações que detalha toda a ação da agência norte-americana na ilha. A ‘operação hip-hop’ teve como articulador o sérvio Rajko Bozic, que atuou no movimento estudantil na Iugoslávia, que no ano 2000 levou à renúncia do presidente Slobodan Milosevic.

A atuação de Bozic foi focada no grupo Los Aldeanos, que era bastante respeitado entre os jovens cubanos. Os documentos também mostram a participação da empresa norte-americana Creative Associates, que financiou um programa de televisão estrelado pelos Los Aldeanos. A Creative usou uma empresa de fachada no Panamá e um banco em Lichtenstein, um minúsculo principado na Europa, para dificultar o rastreamento do dinheiro.

O projeto, no entanto, se mostrou amador e não obteve sucesso. Em agosto de 2010, ao participar de um festival de música independente em Havana chamado Rotilla, os membros do grupo, Bian Rodriguez e Aldo Rodriguez, insultaram oficiais do governo e a polícia.  “A polícia, em vez de me fazer odiá-los, inspira pena, porque eles são como comedores de m…, eles nem mesmo compreendem que são vítimas do sistema. Viva Cuba livre”, afirmou Aldo para um público de 15 mil pessoas. Depois disso, os Los Aldeanos se mudaram para a Flórida.

O fracasso da operação é o que mais chama a atenção nessa história. Faz tempo que os Estados Unidos tentam dizimar, sem sucesso, a cultura cubana, que se fortaleceu com a revolução que levou Fidel Castro ao poder. Muito da força do povo tem a ver com a universalização da educação na ilha. “Foram criadas mais de dez mil salas de aulas apenas no primeiro ano após a derrubada de Fulgencio Batista. Uma das primeiras instruções baixadas por Fidel Castro como primeiro-ministro foi a transformação de 70 quarteis em escolas de alfabetização, depois readaptadas para o ensino médio”, afirma o escritor Fernando Morais no livro-reportagem ‘A Ilha’, publicado nos anos 1970.

Confira os documentos divulgados pela AP.

Amor desde o princípio

Monalisa, Renato e o pequeno Leonas – Parto como momento mágico (foto: Anna Amorim)

Monalisa, Renato e o pequeno Leonas – Parto como momento mágico (foto: Anna Amorim)

“Leonas é um bebê de quatro meses muito tranquilo, acima da média”, afirma a mãe, a ex-estudante de naturologia Monalisa Di Giovanni Rakauskas, com a autoridade de quem está criando o terceiro filho. O ar sereno de Leonas, que no colo da mãe exibe inocentemente seus dois primeiros dentes inferiores, é apenas a primeira constatação dos benefícios que a escolha pelo parto natural proporcionará ao garoto ao longo da vida.

Mas enquanto Leonas cresce e se desenvolve a partir da experiência de ter recebido carinho dos pais desde o primeiro segundo de sua existência, o que certamente é um privilégio, o parto no Brasil não vai bem. E não é por carência de recursos, como hospitais, mas por falta de informação.

Os nascimentos por cesariana produzem índices alarmantes e expõe mãe e bebê aos riscos pertinentes a toda cirurgia. Os dados mais recentes, de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada em maio, são de que essa prática cirúrgica domina 52% dos nascimentos, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda 15%, justamente para atender os casos mais complicados. Na medicina privada, a prática chega a 88% dos nascimentos, número que comprova que a visão do parto como “ato cirúrgico” prevalece sobre a medicina humanizada.

Monalisa conta que já no início do pré-natal o médico indicava a cesariana, quando ela manifestou o desejo do parto natural. Desejo, aliás, comum a quase 70% das mulheres no início da gravidez, atesta também a pesquisa da Fiocruz. “Mas você aguenta a bronca”, perguntou o médico em referência à dor. “Ele também disse que o parto natural não era elegante”, afirma Monalisa, que já no princípio desconfiou de que, seguindo a lógica do médico, iria passar pela cesariana em maternidade com serviço de hotel, com dia e hora marcada para a “operação”, situação que coloca o nascimento em uma linha de produção e sustenta o mito de que o parto é apenas um ato de dor.

Pesquisando sobre o assunto, Monalisa e o marido, o engenheiro Renato Campos Rakauskas, decidiram não apenas pelo parto natural, mas por ter Leonas em casa, com a assistência de obstetrizes, em instalações à escolha da mãe, que preferiu montar uma piscina de água morna para receber o filho no ambiente o mais confortável possível. Renato fala com orgulho da opção feita e diz que em nenhum momento perdeu de vista que o casal chamava para si a responsabilidade pelo parto. “O que mais me motivou foi a possibilidade de participar desse momento”, afirma Renato. Monalisa, por sua vez, diz que guarda as mais doces memórias da experiência, e nem sequer lembra das dores.

 

Saiba mais sobre parto natural

 

Pesquisa da Fiocruz sobre números de cesarianas no país:

http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/pesquisa-revela-numero-excessivo-de-cesarianas-no-pais

 

Brasil tem a maior taxa de cesarianas do mundo:

http://www.epochtimes.com.br/brasil-tem-maior-taxa-de-cesariana-do-mundo-segundo-unicef/#.U43iw3JdXfQ

 

Filme ‘O renascimento do parto”:

http://orenascimentodoparto.com.br/

 

Livro ‘O renascimento do parto’, de Michel Odent:

http://www.estantevirtual.com.br/qtit/o-renascimento-do-parto

 

Livro ‘Parto com amor’, de Luciana Benatti:

http://www.estantevirtual.com.br/qtit/parto-com-amor

 

Livro ‘Parto normal ou cesarea?’, de Ana Cristina Duarte e Simone Grilo Diniz:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=786258&termo=ana%20cristina%20duarte

 

 

 

Mulher-Aranha de fato

O artista italiano Milo Manara, autor de uma respeitável obra erótica em quadrinhos, criou para a editora norte-americana Marvel, que publica HQs de super-heróis, uma capa alternativa para um novo gibi da Mulher-Aranha, apresentado em julho em San Diego. O trabalho mostra a heroína com o corpo nu e pintado, alçando o topo de um arranha-céu em posição um tanto provocativa, começando a engatinhar, situação que esquenta a imaginação do leitor.

Mulher-Aranha – Corpo nu e posição erótica (Reprodução)

Mulher-Aranha – Corpo nu e posição erótica (Reprodução)

Manara não previra, mas a reação de aficionados em quadrinhos nos Estados Unidos foi de indignação. Ele foi duramente criticado por tratar a mulher como objeto, por criar sua obra a partir de uma posição supostamente machista. Além disso, os críticos questionaram a possibilidade anatômica de uma mulher estar naquela posição em uma situação real, como que exigindo verossimilhança do desenho, ou que aquela posição devesse ser “natural”. Houve uma artista, Karine Charlebois, que postou em seu blog um desenho “corrigindo” as formas improváveis do traço de Manara.

Em uma longa entrevista na imprensa italiana, o autor disse que “existe atualmente uma hipersensibilidade a imagens eróticas se espalhando, talvez devido às discussões em curso relacionadas ao Islã. Sabemos que a censura sobre o corpo da mulher não deve ser um traço ocidental. Isso também é bastante surpreendente para mim”. Em sua fala, Manara identifica a controvérsia como subproduto de uma onda conservadora que varre o Ocidente e também rechaça a exigência de objetividade na obra: “Na verdade, ela é vista um pouco de cima. Você não a vê mal. Acabamos de ver que ela tem uma bunda, elaborada desse modo. E ela é uma menina com uma bela bunda, sim, do meu ponto de vista”.

O ponto de vista de Manara é o de um homem pleno de desejo erótico, ao modo de um adolescente que tem a energia sexual transbordando o tempo todo. Foi assim que me vi (e gostei) ao ler ‘O perfume do Invisível’, um dos títulos do autor que foram publicados no Brasil pela Conrad. A história é inspirada no romance de ficção científica ‘O Homem Invisível’, de H. G. Wells, e na atriz Kim Basinger.

O livro de Manara é uma experiência divertida e também valiosa, porque provoca identidade e reflexão. O autor não está nem aí para o realismo, a não ser pela maestria com que representa o corpo feminino. Suas cenas e situações são produtos do seu imaginário erótico, de sua subjetividade que não se censura ao desenhar uma história. As mulheres de Manara andam nuas pelas ruas nuas, têm calor nas partes íntimas, gostam de transar com vários homens, são sodomitas e dizem muito sobre os desejos ardentes que todos guardamos secretamente.

 

 

Palestina ocupada

Joe Sacco por ele próprio – personagem de quadrinhos (imagem: reprodução)

Joe Sacco por ele próprio – personagem de quadrinhos (imagem: reprodução)

O ataque do exército israelense a uma escola da ONU em Gaza, na quarta-feira passada, com a morte de 15 refugiados, é uma aberração que representa mais um capítulo na história do massacre de um povo que vive sob humilhação e isolamento, sem seus direitos civis respeitados. A cada dia, o conflito parece se superar em termos de crueldade, já que as crianças têm se tornado vítimas indistintas entre os palestinos mortos.

A palavra aberração serve para o conflito porque se trata de uma guerra de forças desproporcionais. Enquanto Israel tem um exército de alta tecnologia apoiado por armamentos dos Estados Unidos, os palestinos reagem com foguetes de fabricação caseira que são interceptados e a população enfrenta os soldados nas ruas com paus e pedras.

O conflito é histórico e começou ainda no século 19 com o advento do Sionismo, um movimento político que defende a existência de um estado nacional judaico na região onde historicamente foi o Reino de Israel, segundo a crença judaica. Na época, 85% dos habitantes dessa região do Oriente Médio eram palestinos.

Nem sempre o noticiário é esclarecedor sobre os reais motivos que estão no centro da discórdia na região. “Nada do que se vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três israelenses na Cisjordânia ocupada, nem com o assassinato de um palestino na Jerusalém Leste ocupada. Tampouco tem algo a ver com a prisão de militantes e políticos do Hamas na Cisjordânia. E nem o que se vê hoje na Palestina tem algo a ver com foguetes. Tudo, ali, sempre, é disputa por terra dos árabes”, escreveu o jornalista Robert Fisk, do jornal inglês ‘The Independent’, em artigo reproduzido também nos sites Diário do Centro do Mundo e Carta Maior.

Uma leitura que pode ajudar a entender o que historicamente acontece em Gaza e na Cisjordânia está na obra em quadrinhos do jornalista Joe Sacco, que desde os anos 1990 faz incursões nas áreas palestinas para reportar o que se passa do lado oprimido. Reportar neste caso não é figura de linguagem. Os livros são reportagens em quadrinhos, em que Joe é um personagem em busca de informações.

‘Palestina, uma nação ocupada’ (editora Conrad) é o primeiro título do trabalho de Joe. O livro traz histórias curtas como fragmentos de sua permanência em cidades da Cisjordânia, como Hebron e Nablus. Sacco visitou hospitais e campos de refugiados, entrevistou feridos, conversou com pessoas comuns que perderam entes queridos ou guardam marcas do conflito e testemunhou episódios de abuso de autoridade. Seu outro título, ‘Notas sobre Gaza’ (Companhia das Letras), recupera a história do massacre de novembro de 1956, quando centenas de civis palestinos foram mortos pelo exército israelense.