Não julgai os que botam a mão na massa

oleiroPor Marina Moura*

À exceção dos que colocam a mão numa massa chamada “dinheiro alheio”, não julgai os erros daqueles que são da ação, que fazem. Quem lava pratos um dia os quebra, quem usa carro um dia o bate ou o tem batido, quem manuseia afiadas lâminas um dia se corta. O destino do poeta é, um dia, ser chantageado pelas próprias palavras. Quem trabalha, quem faz, erra. E não errar é inumano, sentença inversamente proporcional ao dito.

Os que apenas mandam ou coordenam e depois julgam com ferocidade o desvio do operador, que não compreendeu seus desejos, não merecem o reino dos céus. Folgados, bufões. Valem-se da execução do outro e empacam tal mulas em sua preguiça mandona. Se bem-feito, bem, obra e louros do mandante. Se não saiu como o esperado: cortem a cabeça! Do operador, é claro.

Mas não generalizemos. O bom chefe, ao contrário do explorador, é aquele que, se agora não faz, já fez, e por isso sabe demandar. “Assina” as ações junto do operador de sua ideia, é coautor. Este sim, verdadeiro professor, passa conhecimento adiante e merece reconhecimento – que sua existência seja perpetuada e prolifere!

Massa: todos poderiam botar as mãos nela. O processo do fazer, talvez, seja mais admirável e prazeroso do que a realização, que é a coisa pronta, sem revelação de seu interior e da artesania que levou à materialização.

Age quod agis

O dicionário explica que esta expressão é utilizada para designar “alguém que se deixa distrair por algo estranho à sua ocupação”, quando deveria prestar mais atenção ao que faz.

Mas ora, se a distração é a alegria do viver, como e por que pouparmo-nos? Deixar de olhar os hábitos das pessoas, as cores e os cheiros da cidade, porque o dever é, num processo automático cotidiano, dirigir-se disciplinadamente ao trabalho com a gola da camisa perfeitamente ensolarada, fisiológico desafiando o sol que alcança os 30ºC logo pela manhã?

Inexpressão das criaturas perfeitas

Outro dia pasmei. Estava no banco o qual carinhosamente chamo de Brades-cão quando ao meu lado para uma criatura perfeita. Era alta, escultural-proporcional, tinha as unhas 100% esmaltadas de roxo vivaz, nem um canto esgarçadinho. Cheirosa, frutosa, voz de veludo e sincronia ao piscar os cílios envoltos em rímel perfeitamente pincelados.

Que saco! Que visão comum, que obviedade para o olhar que procura rasuras, marcas de vida, um abraço mais apertado dado num amigo no meio do caminho, um andar meio torto causado pela pressa, fones de ouvido caindo bolsa afora, o zíper meio aberto da miúda bolsa desnudando pedaços de intimidade em frestas. Tive medo daquela criatura lindamente alienígena. Toda hermética, conduzia-se pelo espaço com passos de lady. Bela como uma replicante do Blade Runner ou como uma boneca inflável.

Sem moralismos, trata-se de preferência de um lugar pro olhar olhar. Os meus olhos ficam vidrados quando conduzem-se ao não esperado, captam sorrisos repentinos ou gritos de dor de quem não pode evitá-los.

E por fim: vivenciemos as experiências em sua totalidade. Deixar-se sujar, borrar, ferrar, lascar, encrencar, perder, ferir – errar! –, é como provar da liberdade de ser, de forma mais integral, dentro das oportunidades disponíveis. Acertar é apenas uma das possibilidades. E tudo isso é humano, talvez demasiadamente humano. E belo.

(imagem: reprodução You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VYw-HKti2OU)
Marina Moura2*Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário. Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478
 

Feira de economia solidária reúne artesanato e culinária sustentável

Evento no Jardim Jaqueline terá artesanato com reciclados, oficinas de alimentação e mobiliário, grafite e shows com o grupo Batukaí e o rapper Dugueto Shabazz

 

No sábado, 6, será realizada no Jardim Jaqueline (Zona Oeste) uma feira de economia solidária que apresentará à comunidade e visitantes produtos de cooperativas de trabalhadores que buscam formas alternativas e sustentáveis de produção e comercialização.

Quem conferir a feira, que será realizada das 10h às 16h, poderá conhecer artesanatos com materiais reutilizados, como tapetes e fuxicos feitos com retalhos, bolsas de pano, flores, pufes, cadernos e agendas de papel reciclado, roupas e acessórios, barra de cereais entre outros.

Fuxicos confeccionados com retalhos pelo grupo Amigas Arteiras (foto: divulgação)

Fuxicos confeccionados com retalhos pelo grupo Amigas Arteiras (foto: divulgação)

A feira será ainda uma oportunidade para o visitante conhecer ou trocar experiências sobre alimentação saudável, com menos desperdício e mais consciência. Oficina realizada pelo projeto Disco Xepa vai mostrar como reutilizar alimentos em boas condições, que sobram das feiras de rua. Em apoio ao movimento internacional de ecogastronomia Slow Food, o Disco Xepa já realizou mais de 200 eventos como esse, em 75 cidades e 15 países.

“A ideia é que a comunidade participe ativa e colaborativamente na elaboração das comidas apropriando-se de novos saberes culinários, além da ressignificação do que é lixo e do que pode não ser”, afirma Luciana Pellacani, formadora em economia solidária da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-USP), que organiza o evento junto com o Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CRSANS-BT), da Prefeitura de São Paulo.

Outra oficina vai mostrar como confeccionar mobiliário artesanal (pufes) a partir de resíduos reciclados. Todas as atividades da feira são gratuitas.

Rapper Dugueto Shabbaz fará apresentação na feira (foto: divulgação)

Rapper Dugueto Shabbaz fará apresentação na feira (foto: divulgação)

Um artista grafiteiro irá pintar um painel feito de madeirite ao longo do espaço da feira, com a participação do público. Além disso, o dia contará com música ao vivo com o grupo Batukaí e com o rapper Dugueto Shabbaz.

“Esperamos que o projeto dê novo sentido aos olhares para a questão dos resíduos sólidos e orgânicos, estimulando as pessoas a consumirem e produzirem de maneira mais responsável com o meio ambiente”, afirma Luciana. Ela diz que a feira propiciará um sábado de confraternização e entretenimento para a comunidade e para o público da cidade interessado em conhecer as ações concretas de economia solidária.

Serviço

III Feira de Economia Solidária no CRSANS-BT, sábado, 6 de setembro, das 10h às 16h, na Rua Nella Murari Rosa, nº 40, Jd. Jaqueline, entrada pela rua Basílio Levi – altura do km 14,5 da Rod. Raposo Tavares.

 

 

Confira os coletivos que participam da feira

Amigas Arteiras: artesanato feito a partir de retalhos reutilizados, como tapetes amarradinhos e fuxicos

Mãos na Massa: barras de cereais

Das Doida: artesanato com flores e pufes

Papel de Mulher: papel reciclado para cadernos, agendas, blocos de notas, entre outros

Todas por uma: diversos produtos artesanais

Candaces: roupas e acessórios

Cardume de mães: bolsas produzidas a partir de banners reutilizados

Modela Pano: brinquedos serigrafados

 

 

Entidades que apoiam a economia solidária

ITCP-USP: a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-USP) é um programa de extensão universitária da Universidade de São Paulo (USP) que busca extrapolar os seus muros para fortalecer as iniciativas de trabalhadores dispostos à formação de uma Economia Solidária e popular com base no cooperativismo e autogestão.

CRSANS-BT: é o primeiro Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de São Paulo, localizado no Parque Raposo Tavares, no Butantã. O Centro funciona como ponto multiplicador de discussões e um local de atividades relacionadas à segurança alimentar e nutricional, que envolvem inclusão social e conscientização ambiental da comunidade. A ideia é transmitir os conceitos e técnicas relacionados a cultivo de alimentos saudáveis e de nutrição, para que os frequentadores levem o conhecimento para casa e disseminem o que aprenderam.

 

 

 

 

 

 

Papel de escritor

Fabio – Diferentes caminhos na luta para transformar a realidade (foto: divulgação)

Fabio – Diferentes caminhos na luta para transformar a realidade (foto: divulgação)

Você pode encontrar muitas definições para o que é ser um escritor, mas uma delas é algo que se repete por gerações. O escritor é alguém que tem um desejo ardente de mudar o mundo, de transformar a realidade de violência e exclusão que toma conta do cotidiano.

Na semana passada, troquei vários e-mails sobre esse tema com o escritor Fabio da Silva Barbosa, que vive em Porto Alegre (RS). Tudo começou porque ele disse que se sentia “iluminado” por conta de um novo trabalho como educador social em um abrigo para crianças e jovens de zero a 17 anos em situação de vulnerabilidade.

“É um trabalho fantástico com menores de idade que sofreram situações de abuso, abandono. Os verdadeiros marginalizados já nasceram lançados à margem… Frutos do que o sistema joga para debaixo do tapete”, disse Fabio quando comecei a perguntar detalhes desse desafio, que vai também influenciar sua produção literária, já que o mundo marginalizado é a principal matéria-prima de seus contos e poemas.

Em nosso diálogo à distância, perguntei sobre a importância de ajudar esses jovens a rever o significado dos eventos traumáticos que, queira ou não, exercem grande influência sobre a construção da personalidade. Fabio afirmou que “existem crianças que chegam sem saber se comunicar, completamente arredias, e aí temos de ensinar coisas básicas como o afeto. O problema é que quando lidamos com indivíduos, lidamos com subjetividades e aí a coisa fica diversa demais. Falar do ser humano respeitando suas peculiaridades, sem enquadrá-lo em padrões pré-estabelecidos, é falar de seu próprio universo”.

Talvez o trabalho de Fabio como educador social não seja, em essência, tão diferente do trabalho de escritor. Ouvir o outro, ou dar importância à voz do outro, como ele diz, é algo que se coloca em qualquer situação que pretenda transformar a nossa experiência como sociedade. Um cidadão digno, pleno no exercício de sua cidadania, só existe se houver alguém que lhe confira um lugar na sociedade. Por isso, os pais são tão importantes para as crianças.

Da mesma forma, uma obra literária só existe se conseguir tocar a sensibilidade do outro. Não há nada em termos de literatura ou de qualquer outra arte que não dependa da instância do outro para ganhar existência no grupo social.

Na última sexta-feira, Fabio lançou em Porto Alegre o livro de poesias ‘Reboco Caído’, título homônimo ao zine que ele publica já há algum tempo. Seu editor define o novo livro como voltado à poesia punk, um rótulo que o escritor aceita: “Achei que tem tudo a ver com o trabalho”, afirmou. Quem quiser conhecer esse novo livro e adquirir um exemplar pode entrar em contato com a editora pelo e-mail: coisaedicoes@gmail.com.

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com o escritor por e-mail:

Descreva o seu trabalho: qual a localização (cidade e bairro), qual a instituição, qual a sua rotina e qual o perfil dos jovens com os quais você atua.

Descrever meu trabalho é sempre uma tarefa múltipla, pois sempre atuo em diversas frentes… Enfim… Mas pelo resto da pergunta vi que está querendo saber sobre meu mais novo trabalho remunerado. Talvez tenha participado de experiências tão insólitas quanto Bukowski para garantir meu pão de cada dia. Atualmente estou trabalhando no lance mais significativo no que diz respeito a trabalho remunerado. Não que despreze tudo que fiz até então, pois tudo que fiz resultou no que sou hoje e preciso ser quem sou para estar lá fazendo o que faço do jeito que faço. Ainda sim continuo aprendendo e me aperfeiçoando enquanto ser humano. Trabalho em um abrigo para crianças e jovens, de zero a 17 anos, meninos e meninas. É um trabalho fantástico com menores de idade que sofreram situações de abuso, abandono, estão em vulnerabilidade social. Os verdadeiros marginalizados, já nasceram lançados à margem… Frutos do que o sistema joga para debaixo do tapete. Não curto falar pontualmente do problema, pois em toda parte do Brasil podemos encontrar essas pessoas. São pessoas que com poucos anos e meses já têm um problemão. Não há futuro, perspectivas. Localizar eles numa determinada região seria dizer que isso acontece apenas aqui ou ali, com essa ou aquela pessoa. Isso acontece em toda parte o dia inteiro. O pior é saber que aquelas pessoas, completamente desamparadas, irão atingir a maior idade e um monte de idiotas, que não sabem nada do que acontece fora dos seus televisores, irão querer cobrar deles responsabilidade social, consciência política e um monte de coisas de que eles nem sabem o significado. Estou muito feliz de atuar hoje como educador social. Cada vez mais as pessoas ficam sem argumentos para dizer que dependo da sociedade para alguma coisa. Não trabalho para nenhuma empresa ou latifundiário. Trabalho de forma direta pela mudança de vida de pessoas que farão parte do futuro.

Há um modelo de atuação para o abrigo, ou seja, o trabalho dele está inserido em alguma política governamental de assistência?

O abrigo é resultado da união de uma ONG com o município, além de contar com a ajuda de colaboradores que se fazem presentes através de doações. Lógico que, embora o governo federal esteja muito abaixo das expectativas, existem políticas que ajudam bastante como um todo. Atualmente existem programas assistenciais que fazem com que determinadas crianças não precisem de abrigos como o que trabalho. Mas a mudança tem de ser maior. O ideal é que as pessoas não precisassem de nada disso. Ter uma vida digna deveria ser natural. Se contentar com pouco é quase o mesmo que se contentar com nada. Mas temos de ter consciência que não é a mesma coisa. O QUASE faz uma diferença muito importante.

Quantos jovens estão envolvidos com o seu trabalho? Esses jovens são institucionalizados (vivem sob resguardo da instituição) ou moram com familiares?

Lá é uma casa de acolhimento. De lá o futuro deles é definido. Quando o Estado e suas instituições definem que a família (quando há) não está cumprindo seu papel, não está sendo benéfica para o indivíduo, as crianças e adolescentes são enviados para lá. Daí nós acolhemos esse ser com todas as suas confusões e revoltas e tentamos fazer o possível até se resolver o que será feito. É o primeiro passo. É um processo muito complexo para se responder em apenas algumas linhas, mas podemos resumir dizendo que é uma situação provisória – que pode levar alguns anos, meses –, então a população é flutuante.  Os números e os casos variam muito. Existem os que têm contato com a família e existem os casos em que esse contato é prejudicial. Só vivendo dentro para entender.

Os jovens estão inseridos nas comunidades que habitam? Eles vão à escola? Como é a rotina desses jovens?

Depende do caso. A tentativa é sempre fazer o melhor para o acolhido. Existe o trabalho de devolvê-lo para a comunidade e para a família de origem, mas o problema é que nem sempre é possível. Tem crianças que chegam com meses de existência, com mães e pais desconhecidos. Como disse, cada caso é analisado de acordo com suas necessidades. Existem crianças que frequentam escola e há aquelas que ainda estão sendo preparadas para encarar uma sala de aula. Existem as que acabaram de chegar e precisa de uma vaga na rede pública a essa altura do ano. Existem os que necessitam de uma educação especial…

O que é um jovem em situação de vulnerabilidade na sua perspectiva? Você tem alguma crítica sobre a abordagem que a sociedade ou a mídia fazem sobre os jovens?

Um jovem ou criança em situação de vulnerabilidade é um menor de idade que está sofrendo com o abandono, com abusos diversos… Torturas… Traumas infinitos. A sociedade e a mídia preferem fingir que isso não existe. As pessoas querem acreditar que moram na Disneylândia.

Uma pesquisa feita pelo instituto de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (http://www.scielosp.org/pdf/csc/v14n2/a14v14n2.pdf) sobre eventos estressores (violência sexual, morte na família, entre outros) em jovens em situação de vulnerabilidade indica que as crianças e adolescentes institucionalizados sofreram mais esses eventos do que as crianças que moram com famílias em situação de vulnerabilidade. O que você pode dizer sobre isso com a sua experiência?

É sempre necessário analisar cada caso. Não tem como botar tudo num saco de gatos. É claro que ser mandado para um abrigo é sempre um trauma. Até o tipo de abrigo tem de ser analisado. Cada abrigo é um abrigo. Dei sorte de cair em um lugar onde as pessoas – ou, pelo menos, a maioria delas – tentam mudar a realidade sórdida em que vivemos. Uma coisa que me irrita nos teóricos é querer conhecer as coisas à distância. As situações, ainda mais quando falamos de seres humanos, têm de ser analisadas o mais perto possível. Num caso em que uma menina é abusada pelo próprio pai, por exemplo, a distância desse ente doentio é o melhor para essa criança e o abrigo se torna muito mais seguro que a família de origem. A outra opção seria qual? A rua? Existem muitas coisas. Não acredito em uma forma geral de se tratar o assunto. Até porque, hoje em dia, existem várias formas de abrigar. É um assunto realmente extenso, que não dá para tratar de forma superficial. Cada dia é um aprendizado.

Essa pesquisa, de autoria dos pesquisadores Michele Poletto, Silvia Helena Koller e Débora Dalbosco Dell’Aglio, afirma que “o impacto dos eventos estressores é determinado pela forma que eles ocorrem, mas também como são percebidos”. Você diria que o seu trabalho envolve a tentativa de buscar conteúdos e ‘ressignificar’ esses eventos que são fundamentais para a visão de mundo de um jovem? Ou o seu trabalho está em outra perspectiva, e qual seria ela?

O trabalho inclui isso e muito mais. Existem crianças que chegam sem saber se comunicar, completamente arredias, e aí temos de ensinar coisas básicas como o afeto. O problema é que quando lidamos com indivíduos, lidamos com subjetividades e aí a coisa fica diversa demais. Falar do ser humano respeitando suas peculiaridades, sem enquadrá-lo em padrões pré-estabelecidos, é falar de seu próprio universo.

Como você é um escritor, acredito que a interação com os jovens nesse ambiente de ‘trabalho’, digamos, também é uma fonte de inspiração e de informações para a criação narrativa. Estou correto, ou deve haver uma ética que impeça que o seu texto reflita a percepção de realidade apurada na interação com os jovens?

Meus personagens sempre saíram do meio marginal, da sarjeta, dos rejeitados. É claro que minhas experiências com essas pessoas irão interferir na minha visão de mundo e, com isso, no meu texto.

Entre os jovens em situação de vulnerabilidade, são muitos os que desenvolvem patologias psíquicas, como a psicose? Como isso é considerado no trabalho com os jovens?

Existe todo um acompanhamento de profissionais no assunto. Meu trabalho é amparado por toda uma galera com a formação apropriada. Mas como a formação não é tudo, é necessário que se tenham pessoas como eu, um jornalista e escritor, que saibam sentir e fazer a realidade ser sentida para lidar diretamente, de forma prática.

Você está lançando o livro de poesia ‘Reboco Caído – Reflexos e Reflexões’, que a página da editora no facebook indica como um título de ‘poesia punk’.  Como você define esse novo trabalho? Essa identidade com o movimento punk é importante para você?

O movimento punk foi importante para mim como tudo o que passei na vida. Tudo é parte da construção do meu eu. Esse título de “poesia punk” foi dado pelo Jeison, o cara da editora Coisa Edições. Eu achei que tem tudo a ver com o trabalho. É um trabalho que tem o mesmo nome do meu zine (Reboco Caído), mas que possui uma personalidade própria. É um trabalho bem diferente do e-book que lancei ano passado pela Lamparina Luminosa, o ‘Escritos malditos de uma realidade insana’. Diferente, mas com pontos em comum.

O livro será distribuído em bancas somente em Porto Alegre? Qual a estratégia de lançamento e como os nossos leitores podem adquirir o livro?

O lance é entrar em contato via internet com a editora. Pode buscar pelo facebook o nome da editora (Coisa Edições) ou mandar um e-mail (coisaedicoes@gmail.com). Lançaremos o livro em alguns eventos daqui de Porto Alegre. Estarei fazendo a segunda edição da ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’ (evento que criei no início desse ano), onde será o lançamento do livro. A história é correr atrás para conseguir o material. Sabe como é conseguir material independente e alternativo, ainda mais lançado por uma editora artesanal… Se o cara esperar encontrar nas grandes livrarias, tá fodido (no pior sentido da expressão).

Explique melhor o que é o evento ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’? Como a literatura e outras artes são contempladas nesse evento?

Acontecerá, no dia 3 de agosto, no Clube de Cultura de Porto Alegre, a segunda edição da ‘Tarde Multicultural Sem Fronteiras’. O evento começará a partir das 16 horas, trazendo diversas formas de manifestação e expressão. Uma programação para quem curte conhecer e interagir. A primeira edição aconteceu em janeiro deste ano. A ideia continua a mesma da edição anterior. Agrupar quem faz, quem produz. Teremos palestras, debates, exposições, saraus, apresentações diversas… A parada é agrupar da música ao teatro, da pintura à cachaça… E por aí vai. Quem quiser dar uma olhada na programação é só visitar a página no facebook (https://www.facebook.com/events/646731178750879/?fref=ts). A Segunda ‘Tarde Multicultural Sem fronteiras’ promete ser uma ótima sequência.

Como você vê o conflito em Gaza? Você acredita que devemos ser solidários à causa palestina? 

Vejo como o extermínio de um povo. O que estamos assistindo é um genocídio em pleno 2014. Existem diversos filmes e escritos que esclarecem bastante a situação. Vou citar apenas um deles, que pode ser encontrado sem muita dificuldade na internet: ‘Palestina: História de Uma Terra’. O link para assisti-lo no youtube é https://www.youtube.com/watch?v=1MXBL0Mc6XM. Qualquer um, com o mínimo de informação sobre o que realmente está acontecendo lá, não tem como ficar em dúvida.

E sobre os manifestantes que foram presos?! O que é preciso dizer sobre esse problema? Em sua opinião, a realidade desses casos é diferente do que tem sido mostrado na mídia?

Como sempre, a realidade é completamente diferente do que é mostrado na mídia. E a maior vergonha é termos essa situação frente a um governo de uma pessoa que foi perseguida, taxada de terrorista e radical, presa e torturada. É uma vergonha hoje em dia permitir que aconteça a mesma coisa com os que se rebelam contra essa podridão que nos cerca. Isso tem a ver com a pergunta anterior. O Estado de Israel também está fazendo a mesma coisa que os nazistas fizeram com os judeus (com alguma diferença aqui e ali devido ao tempo que passou e ao aprimoramento dos massacres). Eu só fico pensando na vergonha que essas pessoas devem ter delas mesmas. Será que elas ficam tranquilas com suas consciências? Será que elas têm consciência? Na verdade, esses governos servem ao capital, não ao povo. O chamado governo é apenas a parte visível do esquema. É o que fica ali para dar aparência de escolha, de opção, de liberdade. E muitos ainda gastam energia discutindo, defendendo essa fachada. Quem acompanhou todo esse processo, que não vem de hoje, pela mídia alternativa e independente sabe que o que os grandes meios de comunicação estão fazendo não é informar e sim serem parciais, ouvir apenas um lado da história, deformar… Eles querem manter tudo como está a qualquer custo, nem que tenham que bater, prender, mentir… Mas a rapaziada não está pedindo arrego. Não há mais porque ter medo. A máscara está caindo. Por mais que as pessoas evitem sair da sua zona de conforto, está chegando a hora que não vai dar mais para viver de faz de conta.

 

 

Assédio moral: publicações ajudam a criar mais consciência

Metas sem delicadeza – Ilustração da cartilha divulgada pelo MTE

Metas sem delicadeza – Ilustração da cartilha divulgada pelo MTE

Imagine uma pessoa que por alguma razão é isolada do grupo de colegas no ambiente de trabalho. A discriminação pode ocorrer por causa de cor, origem, situação financeira, preferência sexual, uso de drogas ou álcool, limitação física ou intelectual, enfim, ou pode surgir de um motivo banal apenas porque, digamos, a pessoa tem diferentes referências culturais.

Esse profissional que perdeu a identidade com os parceiros vai carregar para a sua experiência uma certa culpa por essa situação, vai sentir vergonha de encarar as pessoas que se recusam a conversar com ele e, quando o caso é grave, vai se demitir, cumprindo o objetivo dos seus agressores.

Infelizmente, esse tipo de ocorrência faz parte do dia a dia das empresas, públicas ou privadas, e deve ser caracterizado como assédio moral. Tem gente, principalmente os que se creem aceitos no grupo, que acha que a discriminação é normal, faz parte da competição no mercado de trabalho.

Essa confusão acontece porque o assédio moral é um conceito ou uma figura ainda em construção na doutrina do Direito. É diferente do assédio sexual, realidade já bem conhecida e caracterizada. O assédio moral envolve muitas vezes atitudes ou gestos não explícitos, que causam até mesmo confusão mental na vítima, que passa a conviver com fantasmas.

Uma das leituras de referência do tema, e que nos ajuda a ter mais consciência quanto ao que de fato acontece nas relações de trabalho, é a cartilha ‘Assédio Moral e Sexual no Trabalho’, divulgada no site do Ministério do Trabalho e Emprego (http://portal.mte.gov.br). No texto, o leitor pode conferir como as situações de violência moral devem ser compreendidas, valorizando a aceitação de diferenças no ambiente de trabalho; pode ver também como identificar um agressor.

Outra fonte sobre o tema é o livro ‘Assédio Moral no Trabalho – Culpa e Vergonha Pela Humilhação” (editora Juruá), das pesquisadoras Ivonete Steinbach Garcia e Suzana da Rosa Tolfo, ambas ligadas ao Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nesse livro, o leitor verifica como as diferentes manifestações do assédio moral são categorizadas do ponto de vista dos prejuízos causados à vítima e como o problema se mostra como sintoma da ordem competitiva vigente, que privilegia a ideologia individualista.

A UFSC, aliás, mantém um grupo que pesquisa o tema, chamado Núcleo de Estudos do Trabalho e Constituição do Sujeito (NETCOS). No site no endereço http://www.assediomoral.ufsc.br/, o leitor encontra também publicações, indicações de filmes e teses que esmiúçam o problema em situações concretas nas organizações.