Uvas Verdes

Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

— Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

— Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, Teleco levantou a dúvida:

— Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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Amor que acompanha

De todas as palavras da linguagem, a que mais me intriga é ‘amor’. Ela expressa a nossa humanidade como poucas. Pois se existe sentido para tudo o que criamos na civilização, com o ‘amor’ o sentido é aberto: a princípio está ausente e o sujeito passa a vida tentando encontrar significados para esse sentimento nobre, capaz de transformar sua existência.

Há tempos convivo com essa ideia, e por isso fui entrevistar o professor da PUC-SP e psicanalista Claudio César Montoto para que ele falasse sobre o amor nos dias de hoje. Montoto é autor de livros sobre o tema. O último deles, ‘Amor. Metáfora Eterna’, de 2012, resgata os sentidos da palavra desde Epicuro e Platão, na Grécia Antiga, passa por autores da psicanálise, como Sigmund Freud e Jacques Lacan, e faz uma leitura do que acontece na sociedade, que ele chama de “hipercapitalista”.

Montoto – Renúncia à paixão para alçar o amor (foto: divulgação)

Montoto – Renúncia à paixão para conquistar o amor (foto: divulgação)

“Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor”, afirma Montoto. Ele lembra que em Lacan o conceito de amor se relaciona a uma produção social, o que quer dizer que a experiência amorosa se articula com valores da cultura e, assim, o que importa é o amor romântico, a ideia de que a pessoa pode encontrar completude, a fusão com o outro, no estado de paixão. “Acreditamos que sempre existe a pessoa ideal e isso tem como resultado lançar o sujeito no processo de algo fadado ao fracasso”, afirma.

“É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é o contrário da completude”, diz Montoto. Para ele, o amor se insere em um contexto no qual a cultura empurra o sujeito no sentido da felicidade. “Mas não existe o estado absoluto e permanente de completude”.

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento. E sempre há um traço que faz com que o ser amado seja capturado: um cheiro, um olhar. “A paixão pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura, como é o caso da barriga de tanquinho”. Esse é um ideal compartilhado, um valor que muda o olhar. Todos desejam a tal barriga para estarem prontos para a paixão.

A verdadeira experiência amorosa, segundo Montoto, é construída a dois, no derrocar da paixão, a partir do conhecimento do outro, quando se dispõe a ter uma história em comum admitindo as diferenças. “Para amar é preciso renunciar à paixão e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada”.

Amor. Metáfora Eterna,

Claudio César Montoto, editora Bluecom, São José do Rio Preto, SP, 2012, 103 págs.

Onde encontrar: cmontoto@ig.com.br

Ou na Livraria da Vila: http://www.livrariadavila.com.br

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com Claudio César Montoto:

Entre as palavras da linguagem, não seria o ‘amor’ uma das poucas em que não há um sentido? Ou seja, inventamos uma palavra para algo que não existe e o sujeito passa a vida tentando encontrar seu significado?

O que é o amor? Em ‘O Banquete’, de Platão, Sócrates diz “a minha vida é só refletir sobre o amor”. Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor, é verdade, cada um busca dar um sentido para isso. Em Lacan, o conceito de amor se articula com uma produção social. É claro que é por meio de suas próprias tentativas que a pessoa que vai responder o que é o amor, mas essa experiência é articulada com a cultura e o mundo capitalista tenta difundir a perspectiva do romantismo do amor, a ideia de que a pessoa pode encontrar a completude, que sempre existe a pessoa ideal e essa ideia tem como resultado empurrar o sujeito no processo de algo que fadado ao fracasso, pois é uma ideia dada a partir do consumismo.

A felicidade não existe?

‘Você tem que ser feliz’, esse é o imperativo que se coloca para o sujeito, que na realidade fica em estado de abandono em meio aos objetos de consumo. É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é a antítese da completude. O amor insere-se em um contexto complicado porque o mercado empurra o sujeito no sentido da ilusão de felicidade. Não existe o estado absoluto de completude. Lacan diz “não procure a felicidade pelo mal que ela traz”. Ele assim indica que a cultura relaciona o amor com o estado de completude, o que quer dizer que existe uma crença de que somente no estado de paixão podemos encontrar a felicidade.

Mas se apaixonar não é inevitável?

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância, a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento do outro. E sempre há um traço que faz com que o outro seja capturado: um cheiro, um olhar… Nessa nossa conversa, estamos falando sobre como o amor se inscreve no inconsciente do sujeito, despejando sobre o outro anseios e ideais. Amor é como se fosse milagre na paixão. Pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura que oprime o sujeito, como é o caso da barriga de tanquinho. Esse é um ideal compartilhado com a cultura, um valor social que muda o olhar, todos desejam a barriga de tanquinho para estarem prontos para a paixão. A paixão é o processo de se amar no outro. Não se lida com o outro com suas diferenças, mas como uma parte de si mesmo. Os especialistas, os psiquiatras, que gostam de fazer cálculos dizem que a paixão dura de um e meio a dois anos. Não importa o tempo, o que é relevante é que a paixão está fadada ao fracasso. Não é uma questão de tempo, conhecer o outro é o mesmo que se desapontar com o outro. Então, as coisas começam a mudar se no percurso da paixão você percebe que apesar de o outro ser diferente pode-se construir um vínculo com ele.

A paixão não seria também uma fuga da castração que nos é imposta pela ordem simbólica?

A psicanálise nos ajuda a compreender que a paixão pode ser conduzida pela perversão, surgindo como uma forma de driblar a castração. A pessoa apaixonada não liga para a família, nem para os amigos, a ordem social para ela fica fora de questão. Esse pessoa também não precisa lidar com a falta, esse vazio interior que está em cada um de nós, que nos constitui. O mundo hipercapitalista diz que a pessoa sempre deve se apaixonar. A paixão é o motor do consumo. Mas quando o verniz da paixão começa a derreter surge aquela frase “você não é como eu achava que fosse”. Nesse momento, o olhar para o outro começa a mudar, afinal, a paixão não é o estado natural do ser humano, mas um estado de ilusão em que o sujeito apaixonado sonha que não precisa lidar com o outro, com suas diferenças, pois ele é igual ao sujeito apaixonado. Você pode viver sempre apaixonado, substituindo um por outro. Mas aí não se pode construir a relação amorosa de fato. Se acabo um relacionamento e começo outro, não há projeto de vida.

A paixão é o amor líquido, não?!

No livro ‘Amor líquido’, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fala da flutuação do fato de se estar constantemente apaixonado. Estar sozinho é representado como um fracasso e não como um estado necessário para a reflexão. A paixão é articulada com a lei de consumo dada pelo mercado – o celular fica obsoleto e o mercado vem pra isso, ou seja, compensar as quebras de ilusão. Quando a paixão cai, porque você começa a conhecer o outro, instala-se o desafio de criar o vínculo amoroso com o mesmo objeto, mas para isso é preciso reconhecer que o outro não é a completude. Nós não somos a completude para ninguém. Desça do salto porque você não é a completude para ninguém.

Mas que tipo de vínculo se pode construir?

Certamente, é o amor que acompanha. Para fazer parte da cultura, o sujeito renuncia à questão puramente física e busca estabelecer um laço mais elevado. E a literatura aborda tudo isso com liberdade. Veja o caso dos ‘encoxadores’ do Metrô. É o que todos fariam se pudessem deixar sua pulsão fluir. Assim, você deve observar que o amor tem um caráter sublimatório. O amor é uma suplência ao ato sexual puramente, é uma construção social que permite que eu tenha o outro sendo castrado. Mas a lógica do consumo diz para você sempre ter o estado de paixão que é o melhor, e quando a paixão acaba, você a substitui por outra. A pessoa fica obsoleta na sua vida, como se fosse um aparelho celular.

Mas e quando a paixão desemboca no ódio?

O desenlace da paixão pode ser também o ódio e há casos em que às vezes ele chega a unir mais do que o amor. Há casais que ficam juntos por ressentimento ou rancor, para cobrar um do outro as dívidas imaginárias assumidas, afinal, no ódio também se realiza o desejo. O ressentimento é um sentimento que se articula com a vingança e por isso não prescreve. Ele advém de um estado de paixão que não foi sustentado, porque sobreveio o conhecimento do outro, levando o sujeito a abandonar aquele estado inicial de prazerosa ignorância.

Relacionamentos superficiais são um sintoma do nosso tempo?

Neste início de século 21, é o desejo de estar apaixonado, logo, desejo de ignorância que prevalece. Os relacionamentos são superficiais, sua importância ocorre como se fosse medida pelas estatísticas, é mais importante a quantidade do que a qualidade. A metáfora do amor persiste e se desdobra no desconhecimento, quanto maior o desconhecimento, maior a ilusão de que se pode alcançar a completude. Mas para amar é preciso renunciar à paixão. Com certeza, em suas atitudes, haverá quem demonstre que amor é menos que paixão, mas o amor é construído a dois e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada.

Essa fluidez do amor é sintoma comum no divã?

Hoje em dia, o divã recebe analisantes que substituem uma relação por outra sem realizar um trabalho de luto quando a relação termina. O processo de luto significa um tempo para a reflexão, quando o sujeito fica consigo próprio para avaliar o que o outro levou dele com o fim da relação, afinal, só sabemos o valor da relação quando perdemos a pessoa desejada.

No seu livro você fala do amor como experiência e da paixão como vivência…

Existe um paralelo entre a paixão e o amor, pois enquanto a primeira está para a vivência (da quantidade, do próprio prazer) o amor é da ordem da experiência, no sentido da troca com o outro e da articulação conjunta de uma história. Na paixão, não há nenhum tipo de reflexão, a vivência é aquilo que mantém o sujeito em estado de ignorância. Nós podemos dizer que a diferença entre paixão e amor está para a diferença entre informação e conhecimento e entre vivência e experiência. As questões envolvidas pela experiência são algo mais articulado. Se você vai assistir a cinco filmes em um fim de semana, você terá apenas uma vivência, mas se você investe seu tempo em um diálogo, na conversa com o outro, você necessariamente troca experiências.

A literatura também não deixa de ter essa perspectiva do diálogo.

O escritor Umberto Eco fala da experiência do texto literário da perspectiva do leitor, que encontra diferentes formas de lidar com a literatura e que ela mostra diferentes possibilidades de mundo. A literatura no campo da experiência sempre mente, mas mentindo nos diz a verdade.  Os escritor Mario Vargas Lhosa escreveu ‘A verdade das mentiras’, uma obra em que ele defende a literatura como possibilidade de transformar a realidade. A literatura mostra para o leitor as diferentes construções de mundo, é uma experiência por excelência. Ser leitor é estar disposto a realizar um trabalho. A fantasia a partir do texto realiza um trabalho de sublimação e permite lidar com questões para as quais existem barreiras.

E qual seria a relação da literatura com a perversão?

A perversão captura o neurótico, afinal, o perverso realiza a fantasia que todos gostariam, mas recuam porque têm a estrutura neurótica. Veja, por que Paulo Maluf e Fernando Collor continuam a ser votados?! Eles são os perversos que nós gostaríamos de ser e a literatura vem um pouco para suprir ou trabalhar esse lado dentro de cada um de nós.

Ilusão e morte nas transformações do amor

Martha Medeiros mergulha no tema do amor para enfrentar suas contradições

A morte do amor é o tema que conduz o livro ‘Fora de mim’, da escritora gaúcha Martha Medeiros. Lançada no ano passado, essa novela mostra o percurso e as reflexões de uma mulher perto dos 40 anos, que vive uma paixão avassaladora depois de terminar um casamento de 16 anos.

A narrativa começa por meio de uma metáfora, um acidente de avião, que é talvez tão grave quanto o fim de uma relação para quem está apaixonado. Ao baque da queda, segue-se o estado vegetativo, de morta-viva, em que permanece a narradora, escrevendo um discurso informal e melancólico dirigido a ‘você’, o amante e também o leitor do livro, que ocupa a posição do outro no discurso que é estabelecido.

Depois de experimentar alguma recuperação do impacto do abandono, a suposta narradora começa então a situar o leitor sobre suas desventuras amorosas, deixando entrever que sua história é na verdade comum a todos nós, que vivemos um tempo em que as relações estáveis tendem a sucumbir.

Sintoma desta velocidade com que os casais começam e terminam, a narradora conhece sua grande paixão no mesmo dia em que se separa, e depois prossegue em outros relacionamentos sem que haja o rótulo ‘felizes para sempre’.

Essa vulnerabilidade do amor é também tema do livro ‘Amor líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos’ (Jorge Zahar Editor), do sociólogo Zygmunt Bauman, em que ele investiga esse problema no contexto dos dias atuais. A falta de identidade duradoura entre as pessoas afeta todas as formas de “amor”, como a amizade e as relações de parentesco, a ponto de termos hoje dificuldade em tratar o outro com humanidade, sobretudo em lugares públicos.

O amor, assim como o ódio, é por excelência um sentimento humano. No livro de Martha, esse aspecto se mostra com o amadurecimento que a narradora experimenta construindo seus relacionamentos. Do estado inicial de depressão, a narradora abandona os valores de consumidora de shopping para encontrar um parceiro com mais afinidade, ainda que seja alguém fora dos padrões vigentes.

O livro faz assim um movimento da loucura, do ‘fora de mim’, do ser aturdido pela morte real da paixão, para uma posição em que a narradora percebe que, ainda que haja alguma consciência para viver uma relação a dois, é impossível definir o amor. É como se houvesse a palavra e faltasse seu significado. “Não consigo imaginar nada mais satisfatório do que amar, e mesmo não sabendo o que o amor significa, sei o que representa. É o que nos faz, no meio da multidão, destacar alguém que se torna essencial para o nosso bem-estar, e o nosso para o dele”, escreve.

O livro mostra também com ironia a eterna supremacia das mulheres sobre os homens, já que a narradora se aproxima da mulher que se casa com seu ex-namorado e experimenta entrar na intimidade alheia até que se vê envolvida em uma saia justa graças à típica falta de caráter no mundo masculino.

 

Fora de mim,

Martha Medeiros, editora Objetiva, RJ, 131 págs.

Foto: Divulgação

Escritor analisa as ‘figuras’ criadas pelo discurso do amor

O ser humano escreve sua história por caminhos muitas vezes ambíguos, tortuosos, conflitantes e contraditórios. Mas é na paixão que as marcas de sua angústia e insanidade tornam-se irrecusáveis – basta um conflito, uma briga de casal, por exemplo, para o discurso do outro emergir como ameaça àquela imagem que instantes antes era verdadeiramente idolatrada.

Barthes resgatou tema esquecido em sua época

Para o escritor francês Roland Barthes (1915-1980), o discurso do sujeito apaixonado é uma articulação de ideias que toma por base ‘figuras’, que ele define como pedaços de frases que se repetem nos pensamentos e que mostram a paixão em ação. É um discurso de alguém que fala do outro sem perceber que fala de si mesmo.

Barthes montou um arranjo dessas figuras do amor no livro ‘Fragmentos de um discurso amoroso’, de 1977. O livro está na relação dos 500 títulos mais vendidos no site Estante Virtual, portal que reúne 1,8 mil sebos do país. Uma das razões de seu sucesso é a identidade com o leitor – muitos se veem espelhados nas situações esmiuçadas no texto.

O escritor contou que decidiu fazer esse livro porque o discurso da paixão é absolutamente solitário, já que não há quem o sustente diante do grupo social. De fato, são poucos os que saem por aí em busca de ouvinte para as próprias agruras amorosas, mas com o livro Barthes também resgatou para as ciências humanas um tema que era relegado ao ostracismo pelos intelectuais de sua época.

Hoje, ‘Fragmentos’ continua importante, principalmente porque pode ser um contraponto para a realidade de relações amorosas cada vez mais despojadas de glamour, de encanto, fenômeno que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisa em um livro chamado ‘Amor líquido’ (Editora Zahar). A resistência a ter laços duradouros e fortes e, ao mesmo tempo, a necessidade de ter alguém demarcam um dos conflitos do homem na sociedade contemporânea.

O livro de Barthes pode assim se tornar um oásis nesse deserto de vínculos do amor de hoje, em que o companheiro é quase tão importante quanto uma mercadoria.  As ‘figuras’ investigadas por Barthes soam como uma contribuição para restituir o imaginário do amor e o sentimento de completude que o outro traz.

Tudo perfeito, exceto por um detalhe

Neste trecho, Barthes discute a figura de ‘alteração’ da imagem do ser amado, quando o amante percebe nela algo estranho:

“Rusbrock [personagem de Dostoievski] está enterrado há cinco anos; é desenterrado; seu corpo está intacto e puro (pudera! Senão não haveria história); mas: ‘havia apenas um pontinho no nariz que tinha um leve traço de decomposição’. Sobre a figura perfeita e como embalsamada do outro (que tanto me fascina), percebo de repente um ponto de decomposição. É um ponto mínimo: um gesto, uma palavra, um objeto, uma roupa, alguma coisa insólita que surge (que aponta) de uma região de que eu nunca havia suspeitado antes, e devolve bruscamente o objeto amado a um mundo medíocre”.

Fragmentos de um discurso amoroso,

Roland Barthes, tradução de Hortênsia dos Santos, Editora Francisco Alves, RJ, 1977, 200 págs.

Consulte o livro no site Estante Virtual.