A simbologia das cidades

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Tédio urbano, sufoco cotidiano. Ando pelas ruas da cidade de Belo Horizonte distraída para o movimento típico da rotina de qualquer capital e muito atenta a detalhes que aos olhos apressados de quem quer ganhar o dia são irrelevantes. Estas pessoas tropeçam em mim, me dizem murmúrios que prefiro não traduzir. Não ligo. Continuo olhando as fachadas de caquéticos prédios que passaram dos 50 anos sem ninguém para lhes assistir, construções desconstruídas pelos descuidados do tempo e pela pressa, sempre ela.

Estes prédios geralmente são os que servem, junto aos muros de imóveis comerciais vazios ou com cara de vazios, a desabafos que gritam coloridos por meio do grafite e do “pixo”, como escrevem os autênticos pichadores, expondo uma questão de ‘x’ ou ‘ch’ para lá da gramática. A voz das ruas ecoando vozes abafadas dentro de nós ou vozes desconhecidas, que só sabemos nos possuir quando são expelidas por uivo desesperado ou que fazemos sair diluídas por antidepressivos, o docinho compensatório do brasileiro moderno que passa mais de metade do dia pensando para os outros. E depois há os que falam mal das prostitutas.

“Tédio urbano, sufoco cotidiano” é a inscrição feita em letras coloridas e de tipografia quase animada num muro meio sem graça da avenida Professor Morais, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus, ao lado de um pub que une rock e futebol. Embora a mensagem seja triste, é um suspiro feito de forma alegre, em tons azul celeste contrastando com o muro laranja queimado sob o qual foi inscrita, como se fosse reinterpretação do avacalhado e conformado clichê que busca o riso a partir da percepção cruel: “a gente se fode mais se diverte”; porque a gente faz arte, porque ao menos tornamos nossos dias menos sufocantes pintando muros alegres por aí – poderia ser o complemento.

Diferente e mais grave é a inscrição feita nas alturas do bairro Funcionários. Na Getúlio Vargas com Gonçalves Dias há um prédio comercial com janelas pequeniníssimas, abafadas mesmo, envolvidas por grades cinzas-chumbo. Servem para proteger? São grades às quais devemos nos prender sob pena de ficarmos soltos demais. O recado pichado em uma das laterais do edifício não poderia ser mais elucidativo: “Suicídio cotidiano”.

Os prédios grandes da cidade, com suas vidraças espelhadas, leem as mensagens com desdém. Os edifícios Piazza Navona, no bairro nobre Belvedere ou o Cinecittà, na Serra, nada têm a ver com mensagens de tédio. Pregam a vida que o mortal pediu a Deus com suas promessas de felicidade familiar representadas por piscinas trilométricas e saunas mais suadérrimas e mias eucaliptadas do que as comuns saunas mais populares. Estes prédios não ouvem gritos arrebatados escritos pelos corpos cansados da estirpe proletária. Os ecos das mensagens não alcançam seus habitantes. Não conseguem ultrapassar calçadas ladrilhadas, jardins de todas as estações, amplas portarias e subir pelos elevadores. Alguém da sacada poderia ver alguns rabiscos no muro. O que seria? Mais algum político insistindo em pintar seus slogans premonitórios sobre o que pode fazer pelo Brasil seguidos pelos números de seu bilhete lotérico? Mas assim, tão fora dos tempos de eleições? Preferirá ficar a bater panelas, cozinhando o futuro do Brasil.

A vantagem da formiga pequenina, que vive no chão, comendo fuligem e carregando objetos bem maiores que seu próprio tamanho, é poder subir as paredes e ver as coisas bem de perto e com vista panorâmica e multifacetada. Só quem está na calçada pode olhar no muro a mensagem de tédio e atribuir-lhe sentido, conjugando o lido a reflexões sobre momentos montanhosos e labirínticos de que a vida de qualquer um se compõe. Porque notar momentos de sufoco e tédio e (con)viver com estes sentimentos é encarar de frente a realidade, ou seja, mirar a própria existência, ao invés de isolar-se numa torre de marfim e depois, apenas muito depois, perceber que as nuances são puras sedas ou cetim. Belos e completamente frágeis.

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478

Humor abaixo de zero

Nossa grande sociedade satírica casa com o politicamente correto e juntos geram uma filha chamada intolerância. Na casa deles, o humor não entra, se janta patê de ética e limpa-se a boca com a moral

Nos causa enorme confusão mental vivermos em uma época em que muitos veículos de comunicação, principalmente os televisivos, são movidos por um fazer-humor fajuto, sem-graça e este sim preconceituoso. Numa parada do ônibus que ia a Belo Horizonte, tive três minutos para assistir Faustão — a não ser que você esteja na casa de alguém que deixa o Faustão falando sozinho enquanto a família se reúne em torno da TV para falar de qualquer outro assunto, alguém ainda se presta a assistir este programa bisonho?

Bem, voltemos ao conteúdo assistido na parada do ônibus. Um cara peludo vestido de Iemanjá ridicularizava as prendas de fim de ano recebidas por ela, entidade, falando que iria filtrar as entregas vagabundas daquelas que interessavam — ficaria apenas com os artigos “de rico”. A interpretação era sem graça, o personagem sem consistência e a maneira de dizer tudo isso, ridicularizando no palco religião e pobres, era para lá de chula.

Comparei o pseudo-humor do programa de domingo a um fato ocorrido há algum tempo com a Loja Pernambucana, que teve que cessar a venda de camisetas masculinas que mostravam uma menina numa forca e embaixo a palavra “gi_lfri_n_”, coisa assim.

Ora, daqui a pouco vamos ser obrigados a formular eufemismos para usarmos todas as vezes em que proferirmos uma expressão exagerada. No lugar de “eu quero mataaaar minha mãe quando ela fala no Facebook que eu sou sua florzinha”, vamos ter que usar “eu fico deveras chateada com mamãe quando ela, blabla, mas eu a perdoo, blabla”.

Consequências

Sabe o que a falta de tolerância ao humor unida ao politicamente correto gera? Gera linchamentos — a torcedora gremista que chama o jogador Aranha de macaco no calor de um jogo de futebol, quanto animalismo, é cercada pela imprensa e por pessoas que a lincham por meses. Gera preconceitos que vão além, muito além, daquele que parece ter sido usado na piada do negro, do feio, do gay, do português etc. — o senhorzinho que contava piadas no bar deixa de ser engraçado aos olhos dos amigos; o tio que conta uma piada sobre loucos é olhado com desconfiança pelos sobrinhos. E gera até as mortes dos cartunistas parisienses do jornal satírico Charlie Hebdo, mortos na última quarta-feira (7) por terroristas que entraram na redação disparando 50 tiros. O motivo seriam as “provocações a Alá” feitas pelos jornalistas via cartoons. O último trabalho realizado pelo diretor da publicação, conhecido como Charb, mostra um personagem fardado dizendo “Ainda não houve atentados em França. Esperem. Temos até o fim de janeiro para nossos desejos [de Ano Novo]”.

Profeticamente, a charge deu em morte. E não precisamos ser profetas para saber que, se continuarmos assim, presos aos pilares religiosos – some-se agora a eles à religião do politicamente correto –, estaremos rumando ao obscurantismo, tão contrário aos ideais que foram da Revolução Francesa, mas que deveriam ser universalmente desejados: liberté, egalité, fraternité; liberdade, igualdade e fraternidade.

charlie

Este atentado não é apenas um atentado contra a humanidade, contra os 12 inocentes atingidos. É um atentado contra a liberdade de expressão, é uma mensagem mórbida emitida por pessoas tão covardes que tiram do caminho com bala, e não com argumentos, aqueles com quem não concorda. Tão arrogantes que se acham certas a ponto de calar quem pensa diferente delas. Uma mensagem que indica um ano-novo sem tréguas para a paz, a liberdade de expressão, oh, passando longe. É assim que vamos ficar? Calados e amedrontados? Reformulo aqui minha resolução de fim de ano, que tem ares de utopia: quero uma reação mundial, um grito, em uníssono, pela vinda do bom-senso e da paz.

 

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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Reflexões no seio do movimento modernista

Mário de Andrade liderou a Semana de Arte Moderna

Por conta dos 90 anos da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, resgatei da estante o livro ‘A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade’, uma compilação da correspondência redigida entre 1924 e 1945, até dois dias antes da morte de Mário, que foi o principal articulador da histórica semana que mudou a maneira como as artes eram produzidas no País.

A literatura registrada em cartas é conhecida como gênero ‘epistolar’ e a obra de um escritor nesse formato é chamada ‘epistolografia’. No caso de Mário de Andrade, esse gênero é fundamental para a compreensão de suas ideias, afinal, foram publicados nove volumes reunindo esses textos, que ele redigia com afinco e desprendimento.

O livro é importante também porque foi com Drummond que o escritor paulistano teve sua mais intensa troca. Na apresentação, Drummond afirma que a produção epistolar começou tão logo a dupla travou amizade: “Estabeleceu-se imediatamente um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária por mim recebido em toda existência”.

Quando a correspondência começou Drummond contava 22 anos, era um escritor iniciante e Mário, do alto de seus 31 anos, com a bagagem da Semana de 22 e a publicação de ‘Há uma gota de sangue em cada poema’ (1917) e ‘Pauliceia desvairada’ (1922), dava conselhos ao amigo que na época morava em Belo Horizonte.

Assim, logo nas primeiras cartas, Mário analisa algumas poesias enviadas por Drummond, dando sugestões para aprimorar os textos. Esses conselhos representam um achado, porque são raros os momentos em que os escritores abrem seus segredos de composição, como, por exemplo, quando Mário sugere eliminar artigos de algumas frases para reforçar a presença do substantivo.

O livro mostra um Mário de Andrade espontâneo, de linguagem fácil, sem pretensões em seu texto, afinal, ele não tinha ambição de ver suas cartas publicadas ou, às vezes, contraditoriamente, deixava esse desejo se manifestar. Mas a decisão de publicá-las ocorreu por seu valor para o pensamento literário no País. Há muitos momentos de reflexão, e o leitor poderá entender as motivações do modernismo: “O que nós todos queremos (o que pelo menos imagino que todos queiram) é obrigar este velho e imoralíssimo Brasil de nossos dias a incorporar-se ao movimento universal das ideias”, afirma, referindo-se ao modernismo entre os artistas europeus. Mas para isso era preciso ser nacionalista, ou criar identidade com a cultura do brasileiro: “Nacionalismo quer simplesmente dizer: ser nacional. O que mais simplesmente ainda significa: Ser.”

 

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade,

Mário de Andrade, editora Record, RJ, 1988, 272 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br