Amor seduz e destrói lá no interior do Pará

Aquino publicou o romance ‘Eu receberia as piores notícias...’ em 2005

O leitor que aprecia romances que vão para a tela do cinema encontrará em ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’, do escritor paulista Marçal Aquino, uma narrativa envolvente e ironicamente filosófica, criada em torno de um triângulo amoroso em uma cidade no interior do Pará, onde conflitos entre garimpeiros e uma empresa mineradora dão o contexto de vidas fervilhantes, que se defrontam com loucura, violência e morte.

O filme, com o mesmo título, rendeu na última quarta-feira à atriz Camila Pitanga, que interpreta a ex-prostituta Lavínia, o troféu de melhor atriz do 8º Amazonas Film Festival, em Manaus. A crítica tem considerado que as cenas intimistas, de uma nudez como nunca vista, revelam a atriz em seu melhor momento.

A estreia em circuito nacional desse trabalho dos cineastas Beto Brant e Renato Ciasca será em março. Por enquanto, o filme cumpre agenda de exibições especiais – passou por mostras em São Paulo e Recife, e será apresentado no festival Cinema Iberoamericano de Huelva, na Espanha.

Beto Brant e Marçal Aquino são parceiros. O filme ‘O invasor’, de 2001, com Malu Mader e o roqueiro Paulo Miklos, tem roteiro de Aquino, que depois também publicou uma novela com título homônimo. Em 2009, Brant lançou o filme ‘O amor segundo B.Schianberg’, também inspirado em ‘Eu receberia as piores notícias…’. O romance tornou-se, assim, referência para dois projetos de Brant.

O livro, lançado em 2005, é narrado por um fotógrafo de São Paulo, chamado Cauby, como o cantor, que vai ao Pará cumprir um projeto internacional para a elaboração de um livro com fotos de prostitutas em torno do garimpo. É nesse contexto que ele conhece a bela Lavínia, com quem vive uma paixão febril e destruidora. Lavínia é casada com um pastor, e a tragédia que recorta suas vidas coloca para o leitor questões em torno do amor e da morte.

O texto é permeado por especulações, e a ironia de Aquino foi colocar essas ideias sob autoria de um escritor imaginário, Benjamin Schianberg, que teria escrito o livro de auto-ajuda ‘O que vemos no mundo’.  Essa ironia chegou a surpreender Aquino, que foi procurado por uma editora que desejava entrar em contato com o suposto autor.

A narrativa toma força ao construir uma imagem sedutora de Lavínia, que tem uma personalidade dupla, oscilando entre depressão e paixão. Já no começo da leitura, a forma como sua expressão e beleza encantam o narrador me fez lembrar o romance ‘Betty Blue – 37,2º de manhã’, do francês Philippe Djian. Encontrei algumas coincidências entre as histórias: a casa que se incendeia, a cidade que arde sob o calor, a chaleira no fogo, o desejo de ter filho como elemento da loucura da mulher, personagens que perdem um olho e, principalmente, a técnica narrativa que envolve o leitor, o faz apaixonar-se por Lavínia e Betty Blue.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,

Marçal Aquino, Companhia das Letras, SP, 2005, 228 págs.

 

Foto: http://www.blogdacompanhia.com.br

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A procura por Dulce Veiga e as canções que dão sentido à vida

A falta de sentido para a existência e a busca por um conhecimento que preencha esse vazio formam um núcleo que perpassa a história da literatura. O tema, no entanto, não envelhece. Por uma razão simples: a cultura, a vida social, o ser humano, enfim, estão inseridos em uma dinâmica impulsionada pelo desejo, algo que se transforma o tempo todo, como as águas de um rio, e que encontra e perde seus objetos de prazer sem explicações convincentes.

Essa busca de identidade é um fio condutor que se revela a cada página do ótimo livro de Caio Fernando Abreu, ‘Onde Andará Dulce Veiga? – Um romance B’, originalmente publicado em 1990. O enredo é construído a partir de um jornalista de 40 anos, morando em São Paulo, que começa a trabalhar como repórter da seção de variedades de um jornal de segunda linha.

Caio Fernando Abreu: a última sexta-feira, 25, marcou os 15 anos de sua morte

O repórter, que é também o narrador, passa então a elaborar uma matéria sobre a banda de rock ‘Márcia Felácio e as Vaginas Dentadas’ e descobre que a vocalista é filha de Dulce Veiga, uma cantora que fazia sucesso nos anos 60 e que sumiu sem deixar rastros no dia de estreia de seu grande show. O retorno da imagem de Dulce reacende as lembranças do jornalista, que a havia entrevistado no passado.

Começa assim a procura por Dulce Veiga numa trajetória em que realidade e ilusão estão sempre se confundindo, sem que o jornalista saiba distinguir se sua busca é interior ou exterior. Em cartas a amigos, escritas na época da conclusão do livro, Caio definiu seu narrador como um ego que não tem consciência de si, “cercado de alteregos por todos os lados”.

Os personagens tornam-se assim projeções do narrador, evidenciando que Dulce ocupa o lugar metafórico das coisas que ficam esquecidas pelo meio do caminho. Caio escreveu a história pensando que ela seria convertida para o cinema, e a dedicou ao diretor Guilherme de Almeida Prado, que lançou o filme homônimo em 2007, com Maitê Proença no papel de Dulce. Na época, o filme foi elogiado pela crítica por seu caráter experimentalista.

O livro é um dos dois romances de Caio – o outro é ‘Limite Branco’ – e uma obra madura de sua carreira, criada ao longo de 13 anos. Caio consolida o que podemos chamar de literatura ‘pop’, fazendo referências ao cinema, à literatura e à música. Mas isso não é mero recurso de estilo, mas um modo de ver as realidades escondidas da cultura e do ser humano, feitas de lixos simbólicos, ou fragmentos de memórias das coisas do cotidiano.

Na procura de Dulce, o leitor vai descobrir a magia da música. “Dulce Veiga é um livro todo construído no sentido do encontro com o ato de CANTAR – a música para construir sentido para a existência”, escreveu o autor.

Onde Andará Dulce Veiga? – Um romance B,

Caio Fernando Abreu, editora Agir, RJ, 2007, 215 págs.

Fotos: Divulgação

A possível influência do Brasil no nascimento de Barack Obama

O filme ‘Orfeu Negro’, produção ítalo-franco-brasileira, de 1958, dirigido por Marcel Camus (1912-1982) e baseado na peça ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes (1913-1980), é a pedra fundamental do novo livro do jornalista e escritor Fernando Jorge, que traz no título a tese que defende: ‘Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido’.

O escritor e jornalista Fernando Jorge

O texto com viés jornalístico e acompanhado de fotos parte da identidade entre Stanley Ann Dunham, mãe de Obama, e o filme, que ela assistiu em sua juventude, cerca de dois anos antes do nascimento do então futuro presidente. “Ann saiu deslumbrada do cinema e confessou que esse filme havia sido a coisa mais bonita que ela tinha visto na sua vida”, escreve Jorge, reportando-se ao capítulo seis do livro ‘A origem dos meus sonhos’, escrito por Obama em 1995, antes de entrar na política.

Vinicius transpôs o mito grego sobre a paixão de Orfeu e Eurídice para o cenário do carnaval no Rio, compondo o que poderíamos chamar de uma tragédia tropical. Orfeu é representado pelo ator Breno Mello, que na época guardava semelhanças físicas com Barack Hussein Obama sênior, o pai do presidente norte-americano.

Ann assistiu ao filme antes de conhecer o futuro marido e, por essa razão, Jorge sustenta que a identidade com o filme alimentou seu imaginário no romance com o rapaz africano no Havaí. Curioso notar que no texto o autor opera um deslocamento: o ator brasileiro é “quase sósia” do pai de Obama, quando para a mãe, naquela época, o então namorado seria o “quase sósia” do ator.

A tese do livro é uma hipótese que poderia se prestar a uma investigação da psicanálise, já que a ciência de Sigmund Freud trata também da formação das identidades entre as pessoas e as coisas, no caso, o filme. Mas Jorge prefere explorar os dados históricos, dando uma dimensão do que foi o racismo nos Estados Unidos nos séculos 19 e 20 e como esse ambiente influenciou a vida de Ann e sua aproximação com a cultura negra.

O texto preenche ainda lacunas dos livros da escola, em geral superficiais na abordagem da história recente. Jorge mostra, por exemplo, a face perversa da Ku Klux Klan, organização racista e violenta, que promovia linchamentos e enforcamentos públicos de negros nos anos 30. Essa é uma faceta da história que revela um povo norte-americano distante do anseio de democracia e igualdade que hoje é disseminado pela mídia.

O livro também mergulha em dados biográficos de Obama e Vinicius e traz uma análise das relações diplomáticas atuais entre Brasil e Estados Unidos, assumindo o contorno de uma grande reportagem. Jorge é autor de vários livros, entre eles, ‘Cala a boca, jornalista!’, que trata da selvageria do poder contra os profissionais da imprensa desde D. Pedro I, e ‘As Lutas, a Glória e o Martírio de Santos Dumont’, com a biografia do inventor do avião.

Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido,

Fernando Jorge, editora Novo Século, SP, 2010, 270 págs.

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