Uvas Verdes

Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

— Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

— Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, Teleco levantou a dúvida:

— Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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O espírito da crônica na pena de Rubem Braga

Já escrevi neste espaço que escritores são antenas da sociedade, capazes de antever tendências ou conflitos latentes, porque muitas vezes esmiúçam e revelam sentimentos que estão à margem dos valores e crenças que predominam no dia a dia.

Mas voltei a esse pensamento ao ler o livro ‘200 crônicas escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), em que ele mostra, por exemplo, entre suas qualidades de mestre da crônica, seu espírito visionário no texto ‘Luto na Família Silva’.

Braga entrou para a história da literatura como mestre da crônica – Foto: Rafael Silva/Reprodução

Escrita em junho de 1935 a partir de uma nota na seção “Fatos Diversos”, do Diário de Pernambuco, essa crônica homenageia um sujeito que morre na rua, chamado João da Silva, e explora o contraste entre os sobrenomes comuns e os das classes abastadas naquela época, como as famílias Matarazzo, Crespi, Guinle, Rocha Miranda, entre outras.

Braga faz assim uma defesa dos Silva em nome das pessoas simples, que estão marginalizadas na sociedade, mal representadas na política, e indica um desejo, uma aspiração: “Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política…”

Ao ler a crônica, fiquei pensando que essa história de um Silva no poder amadureceu como um projeto político no País com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, um Silva, portanto, 68 anos depois do texto de Braga.

A crônica é um gênero que se situa entre a notícia e a ficção. Essa seleção de textos produzidos entre 1935 e 1977, feita pelo autor com base em uma seleção original do escritor e amigo Fernando Sabino (1923-2004), é obrigatória para quem aprecia o gênero, que viveu uma crise em veículos impressos em períodos mais recentes e renasceu com os blogs e sites na internet.

As pessoas simples e humildes e até as coisas banais viram pequenas histórias que por vezes recorrem à sensibilidade do leitor, como o texto ‘Chegou o Outono’, em que uma folha seca que cai e bate no rosto do narrador, enquanto viaja em um bonde no Rio de Janeiro, indica a mudança do tempo: “Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do outono. Muitos passageiros do bonde suavam”.

Outro aspecto que agrada é a transparência de Braga com o leitor, não escondendo, por exemplo, quando falta assunto para a crônica. Em ‘Os Mortos de Manaus’, ele confessa: “Os assuntos passavam pela cabeça e iam-se embora sem querer ficar no papel”. Ler esse texto acaba sendo como participar do seu processo de composição, já que o autor mostra as dúvidas e hipóteses pelas quais passa para redigir a história.

200 crônicas escolhidas,

Rubem Braga, editora Record, RJ, 2002, 488 págs.

Drummond reencontra o prazer das palavras

Literatura é brincar com as palavras. Simplesmente isso. Nesse campo não há toda a seriedade que por vezes assusta o leitor. Poderia dizer também que literatura é loucura, e aí estaria nomeando de outra forma as coisas intocadas que os escritores e poetas buscam.

Intocadas, neste caso, são as palavras que desfilam com ironia e sem cerimônia nas páginas de ‘As palavras que ninguém diz’, uma coleção de 19 crônicas do mestre Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), escolhidas pela escritora e professora de literatura Luzia de Maria, entre os textos semanais que o escritor e poeta publicou durante três décadas em periódicos do Rio, como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil.

Drummond era observador atento das pequenas histórias do cotidiano

O volume faz parte da série ‘Mineiramente Drummond’, com três títulos para os leitores adolescentes. Há também títulos para crianças, estimulando suas primeiras incursões na leitura, mas ler Drummond, sobretudo para quem gosta de jogos de significados, é algo que transcende a idade.

“O jogo com as palavras proporciona prazer. Porque, quando crianças, tivemos a liberdade de brincar e gozar com as palavras”, afirma o professor de literatura francesa na Universidade de Paris Jean Bellemin-Noël no livro ‘Psicanálise e Literatura’ (editora Cultrix, 1983).

As palavras que Drummond escolhe como mote de suas crônicas são as que caíram no esquecimento, foram abandonadas pela linguagem coloquial. Quando elas ressurgem nas histórias, ganham novo sentido no contexto social em que se inserem, e essa transformação produz situações irônicas.

Um cobrador de ônibus ameaça chamar a polícia para tirar um passageiro que insiste em viajar com trajes molhados. “Vai botar o senhor pra fora porque é um… recalcitrante”, diz o cobrador. “O quê? Repita se for capaz… Te quebro a cara, ouviu?”, reage o outro. No tempo em que ‘recalcitrante’ era usado na fala, seu sentido era ‘resistir, ser insistente’.

Nomear as coisas e criar novos significados é também o jogo do amor, que irrompe na crônica ‘A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados’. O texto é como um buraco negro, porque permite condensar tudo o que surge da imaginação para dar nome ao ser amado. “Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem”, diz o personagem apaixonado.

Drummond confessa que reuniu nesse texto frases que ouviu aqui e ali, que não inventou nada. Mas acaba por mostrar que o absurdo é o próprio signo do amor: “Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de ‘meu bicho-do-pé’ e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento”.

 

As palavras que ninguém diz,

Carlos Drummond de Andrade, seleção de Luzia de Maria, editora Record, RJ, 2011, 121 págs.

Foto: Divulgação

Rubem Alves e o poder mágico das palavras

Rubem Alves: inspiração para despertar novos conhecimentos no leitor

As palavras têm poder mágico. Mas isso não é mera força de expressão. É algo que acontece na realidade. As palavras que a mãe dirige ao filho, por exemplo, podem marcá-lo por toda a vida. Na religião, espera-se que elas conduzam a ação do sujeito, sem o quê não haveria razão para rezar. Os efeitos que as palavras provocam no ser humano têm a ver com ‘transformação’.

“O poder das palavras não está nelas mesmas. Está no jeito como as lemos”, afirma o escritor e psicanalista Rubem Alves, no livro ‘Palavras para desatar nós’, uma reunião de 48 crônicas publicadas em jornais, revistas e na internet, lançada este mês.

Alves é autor de mais de 50 títulos, incluindo livros infantis e sobre educação. Na nova obra, agradou a leveza com que ele trata de temas que o público toma por áridos, difíceis, como psicanálise, filosofia, obras clássicas como a ‘Odisseia’, de Homero, ou ainda os sentimentos mais escondidos, como a inveja e o medo da morte.

As crônicas de Alves representam a procura de uma conversa na qual o leitor possa descobrir algo novo sobre si mesmo – daí o sentido do título – e por isso têm um caráter de franqueza: “As pessoas que me procuraram nos anos em que exerci a psicanálise eram todas diferentes e tinham queixas diferentes. Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande queixa: queriam ter alegria”.

Ou ainda: “O que escrevo é melhor do que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor”, afirma ele para desmascarar o mito de que o escritor é parecido com sua obra.  Ele faz isso resgatando a história de um encontro marcado entre Fernando Pessoa e Cecília Meireles, ao qual Pessoa não compareceu, enviando um mensageiro com uma desculpa esfarrapada. Alves encontra a razão do desencontro no texto ‘Livro do Desassossego’, assinado pelo heterônimo Bernardo Soares, onde afirma: “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”.

Os textos soam também como breves lições que nos fazem pensar. Na pequena crônica ‘As lâmpadas e a inteligência’, ele brinca com a ideia quase banal de comparar as duas coisas. “As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam. Há inteligências de QI 200 que só iluminam esgotos e cemitérios”.

Outra ideia presente em Alves é que literatura e psicanálise são campos do conhecimento que se mantêm próximos, porque buscam um saber incerto sobre o mesmo objeto: os desejos e aflições da alma. “Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não sonhamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar”.

 

Palavras para desatar nós,

Rubem Alves, editora Papirus, Campinas (SP), 2011, 176 págs.

 

Foto: Divulgação

Espaço vivo onde a linguagem se transforma

João do Rio desvendou a alma das ruas como um flâneur

O leitor que aprecia a crônica, gênero que encontra saborosas maneiras de contar casos da vida cotidiana com riqueza de significados, deve ler ‘A Alma Encantadora das Ruas’, do escritor e jornalista carioca João do Rio (1881-1921). Publicado originalmente em 1908, esse é talvez seu mais famoso livro, de caráter modernista e recortado de humor, que está disponível para download, sem custo, no site Domínio Público, do Ministério da Educação.

Nessa série de histórias que se aproximam de reportagens, o escritor desvenda o espírito das ruas do Rio no início do século, quando a política no País era dirigida pelas oligarquias da República Velha. Como meio urbano, a Cidade Maravilhosa começava a se desenvolver e a se tornar polo de cultura num tempo em que a maioria das pessoas vivia no campo.

João do Rio abre o livro com uma conferência que deu em 1905 em busca de definições para a palavra ‘rua’, que os dicionários tanto desprezam, limitando-se à sua definição literal, sem alma, como uma simples via ladeada de prédios, casas, praças ou jardins. “A rua é a agasalhadora da miséria; a rua é a transformadora das línguas”, afirma João do Rio, deixando claro que esse é o espaço em que diferentes linguagens se inscrevem por meio de seus personagens.

O escritor adota o verbo ´flanar´, que significa andar sem rumo pela cidade pelo puro prazer de olhar o que acontece, para indicar ao leitor que esse foi o método com o qual construiu a obra. Essa é também uma referência ao flâneur do poeta Charles Baudelaire (1821-1867), quem na verdade criou esse conceito em ‘Flores do Mal’, buscando o lirismo do mergulho na multidão. Como um passante, João do Rio encontra cocheiros, vendedores de livros, meninos tatuadores e vendedores de orações, tabuletas [profissionais que pintavam a fachada de lojas] e até chineses da zona portuária que se reuniam para fumar ópio.

Sim, essa foi para mim a surpresa do livro. O Rio naquela época tinha raras casas decadentes, pobres, em que os chineses cultuavam seus cachimbos. “O guia suspende a cortina e nós entramos numa sala quadrada, em que cerca de dez chins, reclinados em esteirinhas diante das lâmpadas acesas, se narcotizam com o veneno das dormideiras. A cena é de um lúgubre exotismo. Os chins estão inteiramente nus, as lâmpadas estrelam a escuridão de olhos sangrentos, das paredes pendem pedaços de ganga [tecido de algodão] rubra com sentenças filosóficas rabiscadas a nanquim”, escreve.

A obra revela aguda sensibilidade do escritor para detectar traços do imaginário social, consciente de que é na rua que a linguagem viva, falada, se transforma e se impõe. Para o escritor, a rua é um organismo tão vivo quanto as pessoas que a ocupam.

A Alma Encantadora das Ruas,

João do Rio, Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional, 112 págs.

Onde encontrar – http://www.dominiopublico.gov.br

Foto: Divulgação