Frases ao avesso de Drummond revelam verdades com humor

Drummond era reconhecido pelo valor de sua obra poética

O uso da linguagem falada ou escrita cumpre no dia-a-dia a função de esconder as coisas, em vez de revelar. É assim, por exemplo, quando nos vemos em uma situação de conquista amorosa. Em vez de mostrar ao outro o real desejo, criamos motivos que nos mantêm perto dele ou dela, mas sem desnudar as intenções, preferindo que a nossa intimidade seja alcançada pouco a pouco, na medida em que a pessoa demonstra reciprocidade às nossas ideias. Isso é o que chamamos de jogo do amor.

Mas no caso do livro ‘O avesso das coisas, aforismos’, do poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, o jogo proposto com a linguagem é justamente o contrário – revelar as coisas. O livro foi publicado originalmente em 1988, e era uma das várias obras inéditas que ele deixou ao morrer, um ano antes. O título é uma coleção em ordem alfabética de frases, pensamentos, que poderiam ser chamados de ‘máximas’, mas, como parecem estar pelo avesso, são ‘mínimas’.

O gênero literário dos ‘aforismos’ seduz os escritores desde os antigos moralistas e Drummond se propõe a tomar parte nessa tradição. Oscar Wilde também era mestre na arte. É dele a frase: “As piores coisas são feitas com as melhores intenções”. Fernando Pessoa teve contribuições: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. No caso de Drummond, o livro é um avesso dele próprio, já que ele se notabilizou por sua obra poética, que não deixa de ser o avesso de alguma coisa… “A poesia força as palavras a dizerem o contrário do que elas pretendiam”, afirma ele no livro.

Drummond confessa no prefácio o caráter desprezível da obra. “Andei reunindo pedacinhos de papel onde estas anotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor”. A obra é emblemática do lado humorístico do poeta, mas por sua franqueza, não deixa de representar o exercício do próprio escritor, que é revelar aquilo que o cotidiano esconde e abrir novos horizontes para o pensamento.

Ao ler ‘O avesso das coisas’, lembrei o tempo todo de uma frase de Drummond no livro ‘Confissões de Minas’, de 1944, que vale como dica para quem deseja aprimorar a escrita: “À medida que envelheço, vou me desfazendo dos adjetivos. Chego a ver que tudo pode se dizer sem eles, melhor que com eles”.

Confira algumas frases de ‘O avesso das coisas’:

Amor – Amar sem inquietação é amar sem amor.

Diabo – É cada vez mais difícil vender a alma ao diabo, por excesso de oferta.

Felicidade – Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.

Homem – O homem foi criado a imagem e semelhança do seu Criador, para agir ao contrário dele.

Pênis – O mérito do pênis é independente do mérito de quem o porta.

Sexo – O ato sexual começa por não ser um ato, mas uma convulsão.

Solidão – A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.

O avesso das coisas, aforismos,

Carlos Drummond de Andrade, ilustrações de Jimmy Scott, ed. Record, RJ, 170 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br.

Fotos: Divulgação

João Antônio encontra poesia no mundo da malandragem

Uma história da malandragem paulistana, que se ambienta em salões de sinuca no início dos anos 60, embala as desventuras de três amigos que saem em busca de partidas em vários bairros da cidade para superar a falta de dinheiro.

O cenário inicial é a Lapa de Baixo, onde ainda hoje estão o mercado municipal e a estação de trem. Por ali passam proletários, gente pobre, humilde e sem instrução, mas honesta. Eles são o alvo dos jogadores, seus “coiós-sem-sorte”, que chegam a perder indenizações de toda uma vida de trabalho nas caçapas viciadas dos malandros.

Esse é o roteiro do conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que dá título ao livro do escritor e jornalista João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), lançado em 1963.  A obra traz outros oito contos, entre eles, Afinação da Arte de Chutar Tampinhas, história famosa que também é referência do autor e que trata dos sonhos e desilusões de um garoto pobre que jogava futebol na Moóca, fumava escondido e gostava de repicar na frigideira em rodas de samba.

O livro recebeu quatro prêmios: dois Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), prêmio Fábio Prado e da Prefeitura de São Paulo. Em 1976, a história foi para as telas do cinema com o título O Jogo da Vida, sob a direção de Maurice Capovilla e com os atores Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Jofre Soares. O roteiro foi escrito pelo próprio João Antônio.

O escritor era de família humilde e trabalhou em funções mal remuneradas antes de lançar seu primeiro livro. João Antônio é considerado um autor de estilo arguto – trata das coisas mais sutis, revelando a engenhosidade e espiritualidade de personagens nas situações de penúria e marginalidade. Além dos malandros, seus personagens são os moradores de rua, pobres e miseráveis que as classes endinheiradas preferem não ver.

Esse estilo se traduz em uma escrita com grande poder de transmitir imagens, o que, aliás, é próprio da experiência literária. Mas no caso de João Antônio esse exercício é feito com o efeito das palavras que ele tira da boca do povo para transformá-las em frases curtas, de impacto certo e fulminante.

Veja como ele descreve o anoitecer:

“Bacanaço deu com a primeira luz. Lá no meio da cara da locomotiva. Num golpe luzes brotaram acima dos trilhos dos bondes. Os luminosos dos bares se acenderam e a fachada do cinema ficou bonita. A Lapa trocava de cor”.

Confira agora a imagem do malandro:

“Para final – Bacanaço era taco melhor, jogador maduro, ladino perigoso da caixeta, do baralho e da sinuca, moreno vistoso e mandão, malandro de mulheres. Camisa de Bacanaço era uma para cada dia. Vida arrumada. De mais a mais, Bacanaço tinha negócio com os mascates, aqueles que vendiam quinquilharias e penduricalhos nas beiradas da Lapa-de-Baixo, e era um considerado dos homens do mercado. Malandro fino, vadio de muita linha, tinha a consideração dos policiais. Andar com Bacanaço, segui-lo, ouvi-lo, servi-lo, fazer parceria, era negócio bom. Era quem primeiro cantava de galo, Bacanaço não olhava na cara dos desconhecidos. Impunha-se-lhes oprimindo, apequenando. Mandava primeiro, uma ruga na sobrancelha, sempre abespinhado. Desses que quando a conversa não interessa vão mandando para a casa do diabo. E se houver reaproximação já batem, já xingam, já correm o pé, dão cabeçada, deixam o sujeito estirado na calçada. Agora, se gostasse, gostava.”

Malandragem na história

A malandragem e seus personagens durante o século 20 são manifestações de expressões socioculturais fundamentais para que se possa conhecer a identidade brasileira, enfim, os objetos do desejo e os fantasmas que percorrem esse modo de ser e ver.

No percurso da história, a imagem do malandro sofreu mutações em seus dois principais territórios – Rio de Janeiro e São Paulo. A malandragem é um fenômeno de um país em seu processo de urbanização, enquanto o cangaço declinava no sertão, no mundo pré-urbano.

Nos anos 20 e 30, Madame Satã despontou na Lapa do Rio quase como uma figura mitológica, temida e desafiadora. Como todo malandro, Satã tinha seu território onde ele próprio era a lei, uma espécie de Estado paralelo. Com Bacanaço e sua trupe não é diferente. Na Lapa de Baixo ele impõe sua razão, tanto quanto fazem hoje os traficantes e o crime organizado em suas áreas demarcadas.

Mas no percurso da história, a figura do malandro foi domesticada pela mídia até cair de uso. Enquanto Madame Satã tinha o policial como eterno inimigo – ele próprio disse ter encarado mais de 3 mil brigas com policiais –, Bacanaço é diferente, a polícia lhe dedica respeito, o que já denota uma mudança da imagem do malandro no tempo. Isso, no entanto, não chega a dizimar o conflito com o poder. No caso da história de Bacanaço, esse conflito é carregado para o plano simbólico do jogo de sinuca. Seu grupo enfrenta na Água Branca o dono de uma roda de jogo chamado inspetor Lima, um policial aposentado, “nem malandro, nem coió” e que diz: “- A maior malandragem, meus filhos, é a honesta”. Sem dúvida, uma afirmação que lembra a Ópera do Malandro, de Chico Buarque:

“…mas o malandro pra valer
não espalha
aposentou a navalha
tem mulher e filho
e tralha e tal
dizem as más línguas
que ele até trabalha
mora lá longe e chacoalha
num trem da central”.

Malagueta, Perus e Bacanaço,

João Antônio Ferreira Filho, ed. Civilização Brasileira, 1975, RJ, 159 págs.

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br.

‘O púcaro búlgaro’ satiriza os fantasmas da loucura

O ser humano lida no dia a dia com certezas que parecem conduzir a vida prática e lhe proporcionam a impressão de que tudo está no lugar. É o que muitos chamam de zona de conforto. Quando os problemas surgem, no entanto, é necessário rever conceitos e elaborar uma nova representação para aquilo que antes era dado como certo e que se mostrou mera ilusão.

Essa capacidade de criar e recriar as coisas com a linguagem é a matéria-prima do livro O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho (1916-1998). No jogo simbólico que propõe na obra originalmente lançada em 1964, Carvalho abandona a sensatez e traz para primeiro plano os fantasmas que habitam a mente, com os desejos e as lógicas mais estapafúrdias. O livro é um diário com veia humorística que perde sentido o tempo todo, propondo-se como uma especulação sobre a loucura, que deixa muitos significados refletidos em suas entrelinhas.

“Decidi-me a descobrir o que quero descobrir, e fuçarei até o último dos lixos se preciso. Descobri esta noite que a escuridão, longe de me desviar do caminho, acabará me pondo nele: fuçarei a escuridão”, diz o escritor. Carvalho constrói a história a partir de um púcaro búlgaro, uma espécie de um recipiente com asa como um caneco, visto em um museu na Filadélfia.

Hilário, o narrador, duvida então da existência do púcaro e da Bulgária e arregimenta por meio de anúncio em jornal um grupo de lunáticos para se lançarem a uma expedição que vai certificar ou não a existência de um e de outro. Do alto de seu apartamento no oitavo andar na Gávea, no Rio, o grupo funda o MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos de Búlgaros). A brincadeira coloca o leitor frente ao conceito de território ou de país, que é mera representação, ou melhor, uma mentira com a qual todo o grupo social concorda.

Campos de Carvalho é tido por referência da prosa brasileira, ao lado de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. O escritor produziu outras obras aclamadas pela crítica, como A lua vem da Ásia (1956), Vaca de nariz sutil (1961) e A chuva imóvel (1963).  O púcaro búlgaro teve sua segunda edição em 2008 por conta do sucesso da peça homônima montada pelo diretor Aderbal Freire-Filho, que levou a história para o palco sem fazer adaptações no texto e a define como “cheia de peripécias sem sair do lugar”.

O púcaro búlgaro,

Campos de Carvalho, José Olympio Editora, RJ, 2008, 110 págs.

Machado e Pessoa podem ser copiados na Web sem custo

Machado de Assis

Para ter acesso à boa leitura nem sempre é preciso gastar dinheiro. A obra de grandes escritores como Machado de Assis (1839-1908) e Fernando Pessoa (1888-1935) está disponível integralmente para o leitor, sem custo, no site Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação para incentivar a troca de conhecimentos entre professores, estudantes, pesquisadores e a população em geral.

O acervo é composto por títulos que se encontram em domínio público – obras culturais sem a necessidade de pagamento de direitos autorais – ou receberam licença dos detentores dos direitos para serem divulgados de graça. As obras, segundo a lei, caem em domínio público depois de 70 anos do falecimento do autor, ou antes, se não houver herdeiros.

No site também podem ser copiados arquivos MP3 de música erudita, com execução da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal Fluminense, e obras como as de William Shakespeare (1564 – 1616), que escreveu a famosa peça Romeu e Julieta, e a Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321). Este, aliás, é o título mais procurado, com mais de 1,1 milhão de cópias desde que o site foi criado em 2004.

Fernando Pessoa

Entre os dez títulos mais acessados estão também o romance Dom Casmurro, de Machado, e um livro de Pessoa intitulado O Eu profundo e os outros Eus, escrito em 1913.

Dom Casmurro é sem dúvida o romance mais famoso de Machado, é a história que notabilizou a personagem Capitu e seu olhar de ressaca, “oblíquo e dissimulado”, como um sinal da ambigüidade que permeia o enredo, um suposto triângulo amoroso sem que jamais se possa saber o que houve entre Bentinho, Capitu e Escobar.

Já o livro de Pessoa traz dois poemas dramáticos – Na Floresta do Alheamento e O Marinheiro – que são especulações sobre a constituição do ‘Eu’, sobre os desejos que nos colocam na perspectivas de diferentes realidades e fazem com que a nossa personalidade seja dupla, ambígua e contraditória.

Neste trecho, por exemplo, Pessoa foca a relação entre o ‘Eu’ e o outro: “E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser. . .”

Dom Casmurro, Machado de Assis, 1899.

O Eu profundo e os outros Eus, Fernando Pessoa, 1913.

Onde Encontrar: Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br).

Coleção de frases prontas investiga a fala do brasileiro

Helder Lima

Desde o século 19, as ciências humanas se desenvolvem por meio da descoberta de fatos ou fenômenos que estão escondidos da percepção e do conhecimento das pessoas. Isso é o que os estudiosos chamam de ‘inconsciente’ ou ‘memória inconsciente’, que se manifesta, por exemplo, em esquecimentos, lapsos de linguagem durante a fala e atos falhos. Todas essas expressões são ‘sinais’ dos conteúdos guardados nas profundezas da mente e algo do qual não nos damos conta.

Esse tipo de investigação marcou a literatura durante o Romantismo, passou também pela filosofia – um dos expoentes é o alemão Friedrich Nietzsche – e atingiu seu ponto alto com Sigmund Freud e Karl Marx. Com o conceito de ‘inconsciente’, Freud fundou a psicanálise, estudo que ainda hoje é das maiores referências sobre a alma humana. E Marx escreveu O Capital, revelando o que estava escondido sob as trocas comerciais no capitalismo.

O escritor Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), autor de 127 livros sobre a cultura e o folclore brasileiro e expressão do movimento Modernista no Nordeste – ele era de Natal (RN) –, encontrou material inconsciente para estudar a cultura brasileira nas frases feitas que falamos automaticamente no dia a dia, e reuniu 505 expressões em uma coleção de 1970 com o título Locuções Tradicionais no Brasil – Coisas que o Povo Diz, editada pela Universidade de São Paulo (USP) e Editora Itatiaia.

O inconsciente é politicamente incorreto e em muitos momentos nos manda rejeitar a velhice. Mas Cascudo quebra esse vínculo e resgata a fala dos mais velhos, para aprender com ela. “Na minha família, materna e paterna, as mulheres atingem a uma lúcida e assombrosa ancianidade. As avós e tias-avós foram as minhas Camenas [deusas dos mananciais, poços e fontes na mitologia romana] informadoras”, afirmou.

As locuções do livro foram condensadas ao longo de 60 anos. Cascudo não buscou as frases em suas pesquisas, mas observou pacientemente a fala das pessoas e registrou situações reais de comunicação para só depois sair em busca da origem. No livro não há nem mesmo uma organização por ordem alfabética. “A bibliografia utilizada foi complementar. As vozes antigas, murmurando as conversas incomparáveis, já constituíam a veracidade fundamental”.

Veja exemplos de locuções que são atuais:

Arranca-rabo – Significa briga, disputa e não tem variação no país, seja no interior ou no litoral. Antigamente, cortar ou decepar o rabo do cavalo do inimigo era um troféu guerreiro, de grande valia. Cascudo encontra a origem dessa expressão 14 séculos antes de Cristo, na civilização egípcia. “Arrancar o rabo ao cavalo de sela do chefe adversário era proeza comentada”.

Mequetrefe – Representa uma pessoa ordinária, comum, inferior. Em Portugal, significa “pessoa que se mete onde não a chamam: entremetida”. Mais recentemente, essa palavra também passou a ser usada para coisas ordinárias e de pouco proveito.

Falar pelos cotovelos – É o mesmo que papagaiar, ser tagarela, loquaz. A frase surgiu das cutucadas com o cotovelo para chamar a atenção do outro quando falamos. Segundo Cascudo, a expressão já era conhecida 150 anos atrás. No sertão do Nordeste, existia a ‘surra de cotovelo’ quando a esposa pedia atenção ao marido distraído no leito conjugal.

Os pés pelas mãos – Confundir-se ou enganar-se. A origem está nos guizos que os mestres de cavalos punham nas patas dos animais para obter pelo som a marcha certa e regular. Segundo Cascudo, “o segredo do cavalo sem tacha [defeito] nem vício está justamente em não meter os pés pelas mãos”.

Locuções Tradicionais no Brasil – Coisas que o Povo Diz,

Luís da Câmara Cascudo, Editora da Universidade de São Paulo e Editora Itatiaia, SP, 1986, 314 págs.;

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br.

Leia também sobre as cartas de Câmara Cascudo e Mário de Andrade.

´Vidas Secas´ é o título mais vendido nos sebos online

Helder Lima

Graciliano Ramos

Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1892-1953), é o título mais vendido no
portal Estante Virtual, que atualmente reúne 23 milhões de livros de 1,6 mil sebos online. O romance teve sua primeira edição lançada em 1938 e é considerado a obra mais importante do autor. Em 1963, a história foi para as telas do cinema, com o filme homônimo dirigido por Nelson Pereira dos Santos, um dos pioneiros do movimento do Cinema Novo no país, que propunha o filme autoral em detrimento das grandes produções.

O livro conta a história de uma família que enfrenta uma caminhada inóspita e sem fim em meio ao sertão nordestino. Nessa situação de penúria extrema, em que até o papagaio da família é sacrificado para saciar a fome, Ramos investiga o espírito humano, suas contradições e lances de crueldade. O romance foi escrito em meio a profundas transformações políticas e econômicas e representa o amadurecimento do movimento Modernista, que explorava a questão das nossas identidades culturais.

Nessa época, o Brasil era marcado pela ditadura de Getúlio Vargas e suas contradições: o povo vivia sem liberdades políticas, enquanto o governo criava as bases para o desenvolvimento nacional, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de 1937. Simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o escritor foi preso em 1936, quando então passou a escrever Memórias do Cárcere, que denuncia a realidade política do país naquele momento.

No topo dos 500 mais vendidos estão também, em segundo lugar, A Revolução dos Bichos, de George Orwell (1903-1950), e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez (1928), em terceiro lugar. Trata-se também de duas obras clássicas.

O livro de Orwell traz uma fábula política com a história dos animais de um galinheiro, oprimidos por seu proprietário. Os bichos unem forças e desencadeiam uma revolução vitoriosa, que os coloca no poder. Mas a felicidade dura pouco. O grupo é liderado por dois porcos que logo se veem às voltas com divergências até que um deles assume o poder e depois reinstala o totalitarismo. O livro brinca com a ideia de revolução que, definida literalmente, representa uma volta para o mesmo lugar.

Já a obra de Márquez, publicada em 1967 e considerada uma das mais importantes da literatura hispânica, conta a saga das várias gerações de uma família em uma aldeia fictícia da América Latina chamada Macondo. Definida como uma obra de realismo fantástico, a história explora situações e expressões de rudeza, colocando o gênero humano frente a frente com sua violência e irracionalidade. Para ler esse livro, vale copiar da internet uma das tantas árvores genealógicas, já que há um momento em que o leitor começa a se perder entre tantos personagens e gerações.

Sotaque caricatural

Na palestra que realizou no Salão do Livro de Guarulhos, no domingo, 9 de maio, o escritor Ariano Suassuna aproveitou para criticar o sotaque nordestino reproduzido nas novelas da TV. “Aquele sotaque não é de lugar nenhum no Nordeste, é de aeroporto; estão acabando com a língua”. Por falar nisso, a comunidade italiana também vai ter mais uma oportunidade de ficar de cabelos em pé com a novela Passione, da Globo, que estreia segunda-feira com o ator Tony Ramos e seu italiano macarrônico.

Onde Encontrar: www.estantevirtual.com.br

Salão do Livro de Guarulhos termina neste fim de semana

Da Prefeitura de Guarulhos – Secretaria de Comunicação

Confira a programação do Salão do Livro de Guarulhos, que termina neste fim de semana.

Sábado (15.05)

AUDITÓRIO

10h00 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS

Benita Prieto e Zé Bocca/Instituto Conta Brasil

15h00 ESPETÁCULO INFANTIL “A Ilha” – Bazar En-Cena

17h00 PALESTRA SOBRE LITERATURA BRASILEIRA

Marcelino Freire – Autor de EraOdito, é um dos editores da PS:SP, revista de prosa
Palestra: Prosa Brasileira Contemporânea
Apresentação: Jorge Vasconcellos

20h00 APRESENTAÇÃO MUSICAL – Amaury Falabela

ESPAÇO CULTURAL

10h00 CAFÉ LITERÁRIO

Aura Gold – membro da Academia Guarulhense de Letras

Clarimundo Aguiar – Escritor e artista plástico, é membro da Academia Guarulhense de Letras
Apresentação: Jean Fabian Daud Gaspar

14h00 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS

Benita Prieto e Zé Bocca/Instituto Conta Brasil

16h00 FIQUE LIGADO

Jairo Bouer – Psiquiatra, referência no Brasil quando o assunto é saúde e comportamento jovem, mantém programas na Rede Globo, no Canal Futura e em diversas rádios brasileiras.
Tema: Sexo
Apresentação: Jorge Vasconcellos

18h00 CAFÉ FILOSÓFICO

Daniel Lins
Palestra: “Nietzsche e a apologia da beleza”

19h30 CAFÉ LITERÁRIO

Fabrício Carpinejar – Poeta, cronista, jornalista e professor, autor de quatorze livros, oito de poesia, escreve o Consultório Poético.
Apresentação: Jorge Vasconcellos

Domingo (16.05)

AUDITÓRIO

10h00 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Benita Prieto/ Instituto Conta Brasil

15h00 ESPETÁCULO INFANTIL “Esperando Gordô” – Cia Lona Retalhos

17h00 DUPLA POESIA
Eucanaã Ferraz – Editor da revista online Errática, professor de literatura brasileira da UFRJ
Antonio Cícero – Vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura, com o livro “Guardar
Apresentação: Reynaldo Damazio

20h00 APRESENTAÇÃO MUSICAL – Amaury Falabela

ESPAÇO CULTURAL

10h00 CAFÉ LITERÁRIO
Heloísa Prieto – Mestra em comunicação e doutoranda em Teoria Literária, é tradutora e autora de diversas obras de literatura infanto-juvenil.
Apresentação: Jorge Vasconcellos
14h00 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Benita Prieto e Zé Bocca/Instituto Conta Brasil

16h00 FIQUE LIGADO

Guilherme Fiúza – Jornalista, atua como repórter, editor e articulista desde 1987. É autor de “Meu nome não é Johnny” e vai lançar em 2010 a biografia de Bussunda
Tema: Biografias
Apresentação: Jorge Vasconcellos

Mais informações: http://www.guarulhos.sp.gov.br/salaodolivro/

Suassuna diz que Calypso não representa a cultura brasileira

Helder Lima

O escritor Ariano Suassuna, que no último domingo reuniu 600 pessoas no Café Literário do Salão do Livro de Guarulhos, criticou as produções culturais pasteurizadas pela mídia e citou a banda Calypso como exemplo de produção cultural ruim no país. “Não posso tolerar o gosto médio e importado, a banda Calypso não representa a cultura brasileira”, afirmou.

O dramaturgo e romancista, autor da peça ‘O Auto da Compadecida’ e do livro ‘O Romance da Pedra do Reino’, falou por mais de uma hora, sempre bem humorado e arrancando risos da plateia. Já no início, Suassuna disse sobre o seu amor pela literatura. “Leitura é fundamental, não faço distinção entre a leitura e a vida”.

Suassuna foi idealizador do movimento Armorial, que surgiu em Recife (PE) em 1970, fazendo composições entre o erudito e popular para resgatar o espírito das manifestações relacionadas às raízes culturais do país.

O escritor falou da subjetividade na composição literária e deu como exemplo a obra de Graciliano Ramos (1892-1953). Contou que antigamente recebia pessoas em sua casa, perguntando ‘por que não escrevia um livro com Graciliano Ramos?` Suassuna explicou ao público que não havia como abrir mão de sua subjetividade. “O escritor vê o que entra em consonância com o universo dele”.

Ele disse também que Graciliano era “um sujeito amigo, mas introvertido, escreveu um livro chamado ‘Angústia’; não é à toa que ele via o mundo todo cinzento”. Depois completou: “O Graciliano via no sertanejo aquilo que estava no universo dele. Meus personagens são diferentes, não são amargos”.

Sobre sua atuação política – Suassuna foi secretário da cultura por duas vezes –, ele disse, com ironia, que não gosta de “ter cara de secretário”. Contou que quando menino, na Paraíba, “tinha um jumentinho e o nome dele era ‘secretário’”. Depois lembrou do tempo em que foi secretário de Miguel Arraes, governador do Pernambuco. “Eu fiz uma alavanca para discutir a cultura brasileira”. O escritor também frisou que não tem nada contra a cultura de outros países, e que deve muito a escritores como Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha, a obra inaugural do romance moderno, Dostoiéviski e Moliére.

Escritor resgata o ópio do massacre cultural do capitalismo

Helder Lima

O desenvolvimento da indústria e do capitalismo nos EUA e Europa, desde suas origens, impôs às sociedades ao redor do planeta um modelo de vida centrado no consumo de bens materiais, o que os norte-americanos chamam de ‘american way of life’. Esse sistema funciona como um rolo compressor sobre valores e tradições. A mercadoria e a necessidade do lucro tornam-se, elas mesmas, o valor maior que passa a referenciar o desejo e a conduta humana.

É contra esse estado de coisas que o jornalista, novelista, compositor e escritor Nick Tosches escreve A Última Casa de Ópio, lançado em 2002 nos EUA e em 2006 no Brasil pela Editora Conrad. O livro traz uma reportagem que inicialmente seria publicada na revista americana Vanity Fair, que trata de cultura, política e moda, e da qual Tosches era colaborador.

Nick Tosches

Tosches viaja aos países asiáticos para resgatar a história do que era uma tradição em seu país e na Europa do início do século 19, as casas para se fumar ópio. A droga é obtida com a seiva de uma planta chamada papoula, cultivada no oriente, e se espalhou pelo mundo por conta de suas propriedades medicinais.

A narrativa jornalística densa em informações é permeada por motivações pessoais. O escritor sofre de diabetes. “Minha incapacidade de manter sob controle essa doença mediante dieta, exercícios, medicamentos e evitando o estresse intriga os médicos, incluindo os melhores endocrinologistas. Só recentemente fui informado de que, entre seus muitos usos medicinais ancestrais comprovados – como cura para disenteria, asma, reumatismo etc. – o ópio foi considerado eficaz no tratamento de diabetes”.

Nos EUA, as casas de ópio foram disseminadas pelos chineses, que procuraram o país para trabalhar na construção de ferrovias e em mineração. Mas a papoula é conhecida há mais de cinco mil anos e desde a antiguidade é cultuada como uma panaceia, passando pelas civilizações do Egito, Mesopotâmia e Grécia. Mekone, cidade da Grécia Antiga, significa cidade das papoulas. O rio Mekong, que corta o sudeste asiático passando por Tibete, Mianmar, Camboja e Vietnã, entre outros países, também faz referência à planta.

Como uma tradição fora dos interesses da revolução cultural burguesa, as casas de ópio começam a sucumbir já no fim do século 19, perseguidas pela polícia e proibidas pelos governos. Segundo Tosches, muito do que se divulgava era fantasia, mas acreditava-se que as casas eram frequentadas por gângsters e pessoas do submundo. A última casa de ópio nos EUA foi fechada em Nova Iorque, em 1957.

Ao longo do texto, Tosches faz vários contrapontos entre a investigação da tradição do ópio e os símbolos dos valores da sociedade contemporânea, denunciando as mudanças provocadas pelo capitalismo. Em Bangcoc, capital da Tailândia, ele observa prostitutas se exibirem em um bar, ostentando garrafas de Coca na genitália. É como se ele encontrasse de tudo, menos casas de ópio. Na própria Tailândia, o escritor se vê cercado por restaurantes da rede norte-americana KFC e seus sanduíches de frango.

O massacre da cultura do ópio pelo capitalismo se dá duplamente. Enquanto as casas de ópio são fulminadas, a sede de lucros e o tráfico internacional transformam a papoula em heroína e morfina, dois derivados químicos perigosos e com alto poder aliciador, apesar de suas aplicações medicinais.

Cachimbo da paz
O ópio para fumar é processado em uma pasta conhecida como chandoo na Índia e no sudeste asiático. O cachimbo em geral é de bambu, mas há construções artesanais, que são os cachimbos imperiais, com marfim entalhado, ouro, jade e um couro especial chamado chagrém. Para extrair os vapores da pasta, é preciso também usar uma lamparina, uma haste e um raspador. Segundo Tosches, o ambiente é igualmente importante. O ritual deve ser feito em salas com esteiras e as pessoas deitadas de lado. Essa posição, aliás, é o traço que deu origem ao termo hip (que significa quadril em inglês), surgindo em 1904 para atravessar o século 20 com os hippies do jazz e depois do rock nos anos 60 e 70.

A Última Casa de Ópio,
Nick Tosches, Conrad Editora, SP, 2006, 93 págs.,
Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br);
Conrad: (www.lojaconrad.com.br).

Salão do livro de Guarulhos terá Ariano Suassuna

Da Prefeitura de Guarulhos – Secretaria de Comunicação

A Prefeitura realiza entre os dias 7 e 16 de maio, das 10h às 22h, no Parque da Transguarulhense (Continental), o Salão do Livro de Guarulhos. Todas as atividades do Salão são gratuitas. O escritor Ariano Suassuna estará no Café Literário no domingo, dia 9, às 19h30.

A abertura oficial na sexta-feira (7), às 19h30, contará com a presença do prefeito Sebastião Almeida e dos secretários Moacir de Souza (Educação) e Hélio Arantes (Cultura).

A Orquestra Jovem de Guarulhos, sob a regência do maestro Emiliano Patarra faz o show de abertura. A programação do primeiro dia, porém, começa bem mais cedo, às 10h30, com apresentação da Orquestra Pimentinhas, sob regência do maestro Vanderlei Banci. As 15h a diversão fica por conta do espetáculo Chang Cia de Circo.

A programação da tarde continua com um bate papo no Espaço Cultural, às 16 horas, com Max B.O. sobre o Movimento Hip-Hop. Na sequência, às 18 horas, Afonso Romano de Sant’anna participa do Café Literário, com apresentação de Frederico Barbosa.

O Salão do Livro, iniciativa da Prefeitura de Guarulhos, via secretarias de Educação e Cultura é realizado em parceria com a Associação Nacional de Livrarias – ANL.

Os exemplares serão expostos num espaço climatizado de 5 mil m². São cerca de 80 mil livros dos principais autores brasileiros, entre eles: Ariano Suassuana, Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Heitor Cony e Pasquale Cipro Neto. Mais de 200 mil pessoas devem passar pelo salão durante os dez dias do evento.

Mais informações: http://www.guarulhos.sp.gov.br/salaodolivro/