História de marido traído

O marido traído é uma figura importante no imaginário coletivo, quase sempre personagem de tragicomédias, quando não de tragédias completas, que envolvem assassinatos. Há cornos célebres na literatura, como Bentinho, em ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis, o velho narrador de ‘Leite derramado’, de Chico Buarque, ou o marido apaixonado de ‘Madame Bovary’, clássico do francês Gustave Flaubert.

Na obra genial de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o corno é quase como uma figura demoníaca, que tem consciência de si, age de forma sarcástica e suga a vida de quem está ao seu redor. Em ‘O eterno marido’, romance de 1870, portanto, da fase madura do escritor, o leitor enfrenta a personalidade doentia do marido traído, mas do ponto de vista do amante, que Dostoiévski coloca no centro da história, deslocando o eixo narrativo para envolver o leitor.

O romance trata do reencontro do amante, Vieltchâninov, e o marido, Páviel Pávlovitch, quase uma década após viverem o triângulo amoroso e meses após a morte da esposa. Desde o princípio da história, uma estranha e misteriosa ligação envolve os dois personagens, que seguem uma trajetória que sempre retorna ao ponto de conflito, dado pela situação de disputa do desejo de uma mulher.

Essa característica de repetição ocorre como desdobramento da profunda investigação psicológica que Dostoiévski faz de seus personagens, envoltos em angústia, melancolia, ódio, sarcasmo, enfim, sentimentos que operam na obscuridade da personalidade. O texto é livre de preocupações com a forma, de fácil leitura, e pode ser encontrado em diversas edições – uma delas, da L&PM, é de bolso e tem preço acessível.

Capas – Dois volumes contam a trajetória artística de Chico de Assis (foto: divulgação)

Capas – Dois volumes trazem a obra de Chico de Assis (foto: divulgação)

Chico de Assis

Uma edição em dois volumes da obra do ator, dramaturgo, compositor e diretor Francisco de Assis Pereira, o Chico de Assis, é lançada hoje no teatro que foi palco da sua trajetória artística junto a uma geração de atores e dramaturgos com olhos voltados à realidade nacional.

‘O Teatro Seleto de Chico de Assis’ é publicado pelo Centro de Programas Integrados da Fundação Nacional de Artes (Cepin/Funarte), que também administra o Teatro de Arena – hoje Teatro de Arena Eugênio Kusnet, onde se realiza o lançamento.

Nestes 50 anos de carreira, Chico de Assis tem sido também formador de novos autores teatrais, por meio dos Seminários de Dramaturgia do Arena (Semda), que tiveram origem em 1989 a convite do diretor e dramaturgo Fauzi Arap, para o projeto ‘Tarô dos Ventos’.

O lançamento se realiza às 19h, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet: rua Dr. Teodoro Baima, 94, Vila Buarque, com entrada franca.

 

 

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O espírito do jogador

Dostoievski - o jogador - retrato

Dostoiévski escreveu o romance ‘O jogador’ em 25 dias

O espírito que anima a pessoa viciada em jogo é quase sempre enigmático. Há famílias que chegam a perder seus bens porque um de seus membros ficou alucinado em uma banca de jogo e não suportou a humilhação de falhar diante da figura ambígua entre Deus e Demônio, que é a figura da Sorte.

Consciência é algo que passa longe da compulsão pelo jogo, que está mais para paixão do que para razão. No caso, uma paixão mórbida. O vício é uma enfermidade que pode levar a pessoa a transgredir as leis de conduta. Outro dia encontrei em um fórum de jogos na Internet o depoimento de um jovem que confessava ter dito ao chefe, durante o expediente, que precisa visitar a avó no hospital, que estava nas últimas – na verdade, ela já havia morrido há dez anos. Tudo isso para ficar em casa jogando Starcraft II.  “Se o jogo for bom mesmo, amanhã nem vou trampar e ligo falando que a velha morreu mesmo e tô no enterro dela”, afirmou.

O caráter do jogo levado às últimas consequências é deletério, destrutivo, como mostra o romance ‘O jogador’, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).  Esse romance, de 1866, foi escrito em 25 dias e era exigência de contrato entre Dostoiévski e seu editor. O escritor vivia às voltas com problemas financeiros e criou ‘O jogador’ enquanto concluía o famoso ‘Crime e castigo’, também de 1866. Por conta dessa urgência, o texto traz algumas imperfeições de estilo que o tradutor preserva, como repetições de palavras, mas não deixa de exprimir a genialidade do escritor, que faz uma espécie de psicologia do jogador com teor realista. Dostoiévski também foi viciado em jogo, e essa condição o permite criar um narrador, Aleksei Ivanovitch, que é o próprio escritor falando com propriedade de suas vivências.

A história se passa em uma estação de águas na Alemanha, com nome fictício e perverso de “Roletemburgo”, onde em luxuosos hotéis desfilam os aristocratas que povoam o mundo das roletas.  Ivanovitch é preceptor [educador] da família de um general russo que passa uma temporada na cidade, enquanto aguarda ansiosamente a morte da avó, que deixará uma considerável fortuna como herança. A história central de amor se desenrola entre Ivanovitch e a enteada do general, Polina, que a princípio demonstra total desprezo por seu amante.

Diante da força da paixão, Ivanovitch assume uma posição de escravo e recebe ordens bizarras. O sarcasmo e a ganância percorrem as relações na história de Dostoiévski. Os diálogos são quase sempre ácidos e os personagens, perversos. Trata-se de um retrato realista da época, em que a cultura era permeada por um cinismo e uma arrogância particulares da burguesia daquele momento. No fundo, o escritor aproxima a psicologia do jogador, marcada pelo espírito da incerteza, da alma e identidade do povo russo, em contraste com ingleses e franceses.

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Fiódor Dostoiévski, tradução de Moacir Werneck de Castro, editora Bertrand Brasil, RJ, 1993, 147 págs.

Foto: Divulgação

Reduto dos estados mórbidos da alma

Um homem doente não sabe ao certo do que sofre. Ele vive no século 19 e, aos 40 anos, já é considerado velho. Aposentado, o ex-funcionário público é alguém que passa seus dias sob hesitações e questionamentos, mergulhado em inibições.

Esse narrador é o anti-herói do pequeno romance ‘Notas do subsolo’, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), um dos mais inovadores de todos os tempos e crítico feroz do movimento romântico europeu e russo que permeou sua época.

Como quase sempre a grande obra desafia o gênero, o livro pode ser considerado também uma novela híbrida com a prosa, ou o ensaio. O caso é que, de dois capítulos, o primeiro, intitulado ‘O subsolo’, é uma reflexão filosófica em que o narrador tenta dar conta da própria existência, razão pela qual essa obra foi tomada como fundadora do ‘existencialismo’ e enaltecida pelo escritor Jean-Paul Sartre (1905-1980).

O existencialismo é uma escola filosófica que coloca a subjetividade no centro de suas ideias, e por isso enfatiza que os seres humanos se definem por suas ações e não por palavras. Como pensamento, esse movimento destaca o sujeito de sua zona de conforto, e o coloca em confronto com suas certezas.

São Petersburgo, cidade em que Dostoiévski nasceu no século 19

O segundo capítulo do livro, chamado ‘A propósito da neve molhada’, é apresentado pelo narrador como uma novela; é quando o narrador deixa sua condição de filósofo para lidar com o mundo, enfrentar o convívio em sua cidade, São Petersburgo, numa época em que a Rússia era comandada pelo império czarista, e a sociedade refletia influência dos valores capitalistas.

Nesse importante livro da obra de Dostoiévski, o subsolo é a metáfora de um estado da alma, de um aterramento de caráter obsessivo e masoquista, por um sujeito que se sente rejeitado e ao mesmo tempo procura a rejeição. Veja o que diz o texto: “Ora, trata-se de um homem e, por conseguinte, de tudo o mais também. E o mais importante é que ele mesmo se considera um camundongo; ninguém lhe pede isto, e este é um ponto importante”.

Um aspecto que chamou a atenção também é que o narrador atribui em alguns momentos sua doença a um excesso de consciência, algo que lhe sufoca a ação e as emoções. “Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno. Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa”.

Notas do subsolo,

Fiódor Dostoiévski, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, L&PM Editores, Porto Alegre (RS), 2008, 160 págs.

Foto: Divulgação

Inspirado em notícias, Dostoiévski compôs duas de suas novelas

Dostoiévski é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos

Uma das tendências entre os escritores é expressar em suas obras histórias que tenham um pé na realidade e outro na ficção. Uma coleção de notícias ou documentos históricos podem se transformar em matéria-prima que, com a imaginação e percepção crítica do escritor, ganha a forma de romances, contos, novelas, enfim, de produtos culturais.

Essa técnica de misturar realidade e ficção – que na verdade não é uma ‘técnica’, mas uma ‘filosofia de composição’ –, foi um recurso com o qual o grande escritor russo Fiódor Dostoiévski compôs duas pequenas obras-primas, reunidas no livro ‘Duas narrativas fantásticas – A dócil e O sonho de um homem ridículo’, publicadas originalmente em 1876 e 1877 na revista mensal ‘Diário de um escritor’, que Dostoiévski editou em seus últimos cinco anos de vida.

Nessa época, os jornais de São Petersburgo traziam notícias de suicídios, uma verdadeira onda deles varria a cidade. Dostoiévski buscou inspiração nesses casos e compôs duas novelas com suas verves de jornalista e escritor, mostrando, mais do que um sintoma de sua época, o ser humano em momentos de angústia, oscilando entre a melancolia e o êxtase.

‘A dócil’ traz a história, um depoimento, de um homem maduro, dono de uma caixa de penhor, cuja mulher, uma jovem de 16 anos, acabara de se suicidar. A narrativa se desenrola enquanto o corpo jaz sobre uma mesa na sala. É um monólogo, mas apenas aparentemente. Na escrita de Dostoiévski, são muitas as vozes que falam na consciência desse indivíduo, que se mostra doentio e contraditório, e que com seu silêncio aniquila a esposa, destratando-a por conta de uma suposta traição.

Já o outro texto retrata a situação de um homem prestes a cometer suicídio e que tem um sonho na noite em que havia decidido consumar o ato. Dormindo na cadeira, com o revólver na mesa ao seu lado, o personagem sonha com a própria morte e encontra outro mundo, que identifica como um paraíso, no qual as pessoas vivem em harmonia. O narrador, no entanto, perverte esse novo mundo e isso permite um final surpreendente, que leva o leitor a uma interessante reflexão sobre as relações humanas.

O desejo como combustível dos sonhos

Neste trecho de ‘O sonho de um homes ridículo’, Dostoiévski faz uma investigação sobre o papel dos sonhos e seus ‘mecanismos’:

“Os sonhos, como se sabe, são uma coisa extraordinariamente estranha: um se apresenta com assombrosa nitidez, com minucioso acabamento de ourivesaria nos pormenores, e em outro, como que sem se dar conta de nada, você salta, por exemplo, por cima do espaço e do tempo. Os sonhos, ao que parece, move-os não a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o coração, e no entanto que coisas ardilosas produzia às vezes a minha razão em sonho!”

Duas narrativas fantásticas – A dócil e O sonho de um homem ridículo,

Fiódor Dostoiévski, tradução de Vadim Nikitin, Editora 34, SP, 2003, 127 págs.