Biografia com fotos registra os 30 anos da morte de Lennon

Lennon inocente e rebelde: contradição exalta a vida do músico que teve o maior sucesso de uma carreira no rock

Ícone do rock´n´roll nos anos 60 e 70 e criador da banda mais famosa do mundo, os Beatles, o compositor inglês John Lennon (1940-1980) está de volta às prateleiras das livrarias com o lançamento da fotobiografia ‘A vida de John Lennon’, que registra os 30 anos de sua morte, completados em 8 de dezembro de 2010.

O livro, em formato grande (25 cm por 29,5 cm) e com capa flexível, traz mais de 180 fotos que abordam a trajetória do músico desde os tenros tempos de infância até os últimos dias em Nova York, quando foi covardemente alvejado pelas costas em frente ao prédio onde morava, o edifício Dakota, por Mark David Chapman.

A edição tem prefácio de Yoko Ono, grande paixão de Lennon e que foi um dos pivôs do fim da banda. “Quando eu o vejo nestas fotos, automaticamente olho nos olhos dele. Você vê que às vezes ele coloca o queixo para cima, com um ar bem petulante. Mas seus olhos nunca perderam o brilho… que o mantinha sempre motivado”, afirma Yoko.

A contradição à qual Yoko faz referência emerge também no texto de John Blaney, historiador, especialista na produção de Lennon. O mesmo músico que ao lado de Yoko assumiu cada vez mais o papel de ativista político e defensor da paz mundial era também uma pessoa explosiva, que muitas vezes buscava refúgio em álcool, anfetaminas e ácido lisérgico (LSD) para encarar o estrondoso sucesso.

Graças a uma declaração de Lennon à imprensa, a mídia na época chegou a comparar o sucesso dos Beatles ao de Jesus Cristo, fato que provocou protestos de grupos conservadores nos Estados Unidos e dificultou seus planos de obter o green card para viver no país.

Um momento emblemático da carreira de Lennon foi sua lua-de-mel em março de 1969, quando ele e Yoko ficaram uma semana na cama de um hotel em Amsterdã, em protesto contra a guerra do Vietnã, recebendo personalidades e dando entrevistas para a mídia.

Esse evento ficou conhecido com ‘bed-in’ (algo como ‘na cama’, em tradução livre) e depois foi repetido em Montreal, no Canadá. Foi nesse segundo ato que Lennon compôs a famosa canção ‘Come together’, que ele fez para o papa do LSD e líder cultural Timothy Leary usar em sua campanha a governador no estado da Califórnia.

George Harrison, John Lennon e Paul McCartney nos anos 50, com a banda ‘The Quarrymen’: caminho para o triunfo

Os Beatles brincam diante das câmeras no lançamento do disco ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’: rock sofisticado

A vida de John Lennon,

John Blaney, com edição de Valeria Manferto de Fabianis e tradução de Silmara Oliveira, Editora Escrituras, SP, 2010, 272 págs, R$ 78.

A Proposição 19 e a opinião de escritores sobre a maconha

Uma lei que será votada no dia 2 de novembro na Califórnia (EUA), conhecida como Proposição 19, poderá mudar o debate e as políticas de combate às drogas. Se a maconha for descriminalizada, os californianos poderão portar até 31 gramas da erva para consumo próprio e cultivar a planta em área de até 2,3 metros quadrados. Atualmente, o uso medicinal da maconha é permitido em 14 estados americanos.

A Proposição 19 também prevê que as cidades autorizem o cultivo e a venda. Segundo o jornal Los Angeles Times, Oakland é um dos municípios que já se mostra favorável a adotar a lei, caso aprovada. A cidade também sinalizou que pode aprovar o projeto de uma ‘fábrica’ de maconha, que teria 5,5 mil metros quadrados para abrigar 30 mil plantas, com receita de 50 milhões de dólares por ano.

O ‘business’ é um argumento que costuma convencer os norte-americanos. Eles estimam que essa lei possa alavancar a arrecadação de 1,4 bilhão de dólares para demandas do setor público. Mas, no caso da maconha, o dinheiro não é tudo. Pesquisas de opinião mostram a população dividida. Outro fator que causa expectativa é que especialistas na questão das drogas não sabem prever os efeitos da eventual aprovação da lei no tráfico e na criminalidade, sobretudo na fronteira com o México.

Enquanto a lei não é votada, vale conferir o que três escritores dizem sobre a maconha, em épocas diferentes:

Gilberto Freyre, em ‘Casa Grande & Senzala’ (1933) – “Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música ainda nos ouvidos… Alguns consumidores da planta, hoje cultivada em várias partes do Brasil, atribuem-lhe virtudes místicas; fuma-se ou ‘queima-se a planta’ com certas intenções, boas ou más. Segundo Querino, o Dr. J.R. da Costa Dória atribui-lhe também qualidade afrodisíaca. Entre barcaceiros e pescadores de Alagoas e Pernambuco verificamos que é grande ainda o uso da maconha”.

João Antônio Ferreira Filho, em ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’ (1963) – “Jogava que jogava Caloi. Osso duro de roer. Deu trabalho a muitos tacos, era um artista, era um cérebro, um atirador. Mas deu também para mulheres e sua mão começava a tremer no instante das tacadas. Foi indo, indo, tropicando. Quando deu fé parecia um galo cego que perdeu o tino. Deu, então, para a maconha e uma feita ficou célebre – vez que um pixote lhe tomou quinze contos num dia de carnaval lá na Rua Barão de Paranapiacaba. Aquilo o encabulou, arruinou o seu juízo de jogador. A maconha desfez o homem, lhe apodreceu o cérebro e Caloi acabou falando sozinho, feito tan-tan de muita zonzeira lá num pavilhão do Juquerí”.

Maria Rita Kehl, em ‘O tempo e o cão’ (2009) – “De todas as experiências subjetivas que a história deixou para trás, talvez a mais perdida, para o sujeito contemporâneo, seja a do abandono da mente à lenta passagem das horas: tempo do devaneio, do ócio prazeroso, dedicado a contar e rememorar histórias. Uma experiência que os jovens buscam recuperar através do uso de certas drogas não-excitantes como a maconha, que fumam sozinhos ou em grupos – nesse caso, a troca de experiência ajuda a atenuar a angústia ante o retorno da temporalidade recalcada”.

Escritor resgata o ópio do massacre cultural do capitalismo

Helder Lima

O desenvolvimento da indústria e do capitalismo nos EUA e Europa, desde suas origens, impôs às sociedades ao redor do planeta um modelo de vida centrado no consumo de bens materiais, o que os norte-americanos chamam de ‘american way of life’. Esse sistema funciona como um rolo compressor sobre valores e tradições. A mercadoria e a necessidade do lucro tornam-se, elas mesmas, o valor maior que passa a referenciar o desejo e a conduta humana.

É contra esse estado de coisas que o jornalista, novelista, compositor e escritor Nick Tosches escreve A Última Casa de Ópio, lançado em 2002 nos EUA e em 2006 no Brasil pela Editora Conrad. O livro traz uma reportagem que inicialmente seria publicada na revista americana Vanity Fair, que trata de cultura, política e moda, e da qual Tosches era colaborador.

Nick Tosches

Tosches viaja aos países asiáticos para resgatar a história do que era uma tradição em seu país e na Europa do início do século 19, as casas para se fumar ópio. A droga é obtida com a seiva de uma planta chamada papoula, cultivada no oriente, e se espalhou pelo mundo por conta de suas propriedades medicinais.

A narrativa jornalística densa em informações é permeada por motivações pessoais. O escritor sofre de diabetes. “Minha incapacidade de manter sob controle essa doença mediante dieta, exercícios, medicamentos e evitando o estresse intriga os médicos, incluindo os melhores endocrinologistas. Só recentemente fui informado de que, entre seus muitos usos medicinais ancestrais comprovados – como cura para disenteria, asma, reumatismo etc. – o ópio foi considerado eficaz no tratamento de diabetes”.

Nos EUA, as casas de ópio foram disseminadas pelos chineses, que procuraram o país para trabalhar na construção de ferrovias e em mineração. Mas a papoula é conhecida há mais de cinco mil anos e desde a antiguidade é cultuada como uma panaceia, passando pelas civilizações do Egito, Mesopotâmia e Grécia. Mekone, cidade da Grécia Antiga, significa cidade das papoulas. O rio Mekong, que corta o sudeste asiático passando por Tibete, Mianmar, Camboja e Vietnã, entre outros países, também faz referência à planta.

Como uma tradição fora dos interesses da revolução cultural burguesa, as casas de ópio começam a sucumbir já no fim do século 19, perseguidas pela polícia e proibidas pelos governos. Segundo Tosches, muito do que se divulgava era fantasia, mas acreditava-se que as casas eram frequentadas por gângsters e pessoas do submundo. A última casa de ópio nos EUA foi fechada em Nova Iorque, em 1957.

Ao longo do texto, Tosches faz vários contrapontos entre a investigação da tradição do ópio e os símbolos dos valores da sociedade contemporânea, denunciando as mudanças provocadas pelo capitalismo. Em Bangcoc, capital da Tailândia, ele observa prostitutas se exibirem em um bar, ostentando garrafas de Coca na genitália. É como se ele encontrasse de tudo, menos casas de ópio. Na própria Tailândia, o escritor se vê cercado por restaurantes da rede norte-americana KFC e seus sanduíches de frango.

O massacre da cultura do ópio pelo capitalismo se dá duplamente. Enquanto as casas de ópio são fulminadas, a sede de lucros e o tráfico internacional transformam a papoula em heroína e morfina, dois derivados químicos perigosos e com alto poder aliciador, apesar de suas aplicações medicinais.

Cachimbo da paz
O ópio para fumar é processado em uma pasta conhecida como chandoo na Índia e no sudeste asiático. O cachimbo em geral é de bambu, mas há construções artesanais, que são os cachimbos imperiais, com marfim entalhado, ouro, jade e um couro especial chamado chagrém. Para extrair os vapores da pasta, é preciso também usar uma lamparina, uma haste e um raspador. Segundo Tosches, o ambiente é igualmente importante. O ritual deve ser feito em salas com esteiras e as pessoas deitadas de lado. Essa posição, aliás, é o traço que deu origem ao termo hip (que significa quadril em inglês), surgindo em 1904 para atravessar o século 20 com os hippies do jazz e depois do rock nos anos 60 e 70.

A Última Casa de Ópio,
Nick Tosches, Conrad Editora, SP, 2006, 93 págs.,
Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br);
Conrad: (www.lojaconrad.com.br).