O retorno do filho rejeitado pelo ditador

Luíz Horácio explora a linguagem do pampa (foto: Divulgação)

A Comissão da Verdade instalada na semana passada pela presidente Dilma terá a missão de reescrever a história do País no período de 1946 a 1988, tirando a limpo fatos e personagens envolvidos. É uma iniciativa sujeita a polêmicas e pressões, mas que resgata o direito do cidadão ter acesso a informações para formar livremente sua opinião.

Na literatura, o tema da ditadura militar, de 1964 a 1985, é fecundo. Os traumas, violações dos Direitos Humanos, as confabulações e atos de tortura formam o retrato de um Brasil que a cultura de massa ignorou e esqueceu, com exceção da literatura e do cinema.

Ainda hoje a produção literária repercute as angústias e enigmas desse período, como é o caso do romance ‘Pássaros Grandes Não Cantam’ (2010), do escritor Luíz Horácio Pinto Rodrigues, gaúcho de Quaraí, município da fronteira com o Uruguai. O livro completa uma trilogia com ‘Perciliana e o pássaro com alma de cão’ (2005) e ‘Nenhum pássaro no céu’ (2008).

A história se desenvolve em torno de Horácio, um estancieiro da região de Rosário e Livramento, no pampa gaúcho, que foi colaborador da ditadura militar. O livro desperta a curiosidade do leitor pelo fato de mostrar como pensa um ser que se constitui entre preconceitos, possessões, ódios e arrogâncias.

O romance também desnuda o preconceito contra os negros, que ainda hoje persiste na cultura, como herança arcaica dos tempos da escravidão, mas faz isso não sem explorar a relação ambígua que se coloca no confronto de raças no País. “Me parece que usted gosta deles, mas acha que não deve gostar?”, indaga o vaqueiro Amâncio a Horácio, referindo-se aos negros.

Essa relação ambígua permeia o romance, que se desdobra a partir de um caso de amor entre Horácio e Ana Maria, uma negra da estância vizinha, que engravida e por isso é expulsa da região, tendo de reconstruir a vida no Rio de Janeiro.

O retorno do filho que resultou da união pretensamente indesejada marca o tempo presente do romance, é quando Horácio começa a se defrontar com a verdade de sua existência. Armando, o filho rejeitado, surge na história como que para protestar contra a ausência de pai, uma carência que é um verdadeiro sintoma da cultura hoje.

O romance também tem um caráter regional, e por isso é construído em ‘gauchês’, com as expressões comuns do homem do pampa. Esse aspecto enriquece o livro com ironia, é uma contribuição para ilustrar o conhecimento de quem está cansado de linguagem globalizada que sufoca a subjetividade nos dias de hoje.

Pássaros Grandes Não Cantam,

Luíz Horácio, Global Editora, São Paulo, 2010, 220 págs.

Fantasmas debocham das crenças de Marcelo Mirisola

O fantasma de um arquiteto “desreprimido” que habita uma casa em Campos do Jordão desafia as crenças do escritor Marcelo Mirisola no conto ‘A casa das pedras’, publicado no livro ‘Memórias da sauna Finlandesa’, de 2009, um dos últimos trabalhos do escritor paulista que atualmente mora no Rio de Janeiro.

Mirisola explora as coisas rejeitadas e esquecidas para escrever

No conto, o narrador aluga a casa para ter uns dias de sossego, mas encontra uma habitação oprimida por araucárias ao redor, e feita com pedras e muito vidro, o que revela seu interior. Suspenso nesse clima frio e estranho, sem a zona de conforto da casa isolada, Mirisola vislumbra na transparência os fantasmas de seus proprietários, uns hippies maconheiros que nos anos 70 a construíram exatamente porque acreditavam que o movimento de abrir a mente ocorre de fora para dentro.

“Consta que para abrir as ‘portas da percepção’ o sujeito tem de fazê-lo de dentro para fora, e não o contrário. Isso é básico, e é tipicamente humano”, escreve Mirisola, rechaçando a teoria libertária de seu fantasma. Essa convicção, no entanto, desaba ao longo da história, e o escritor revela para o leitor uma característica, ou um talento tão necessário à arte de escrever, que é a capacidade de se deslocar no mundo das opiniões e ver a realidade a partir do lugar do outro.

A fantasmagoria de Mirisola está presente em outros contos do livro – esse é um indicador do registro autobiográfico em sua obra – como na história ‘Olhos de cais’, em que ele se projeta como alguém que está sempre abandonando pessoas e objetos, e rejeitando a memória dos fatos. Ele chega a dizer que o garoto que foi na infância virou um fantasma na idade adulta, “e sua condenação foi não ter morrido”. Essa abordagem é uma visão que quebra a ilusão da criança que vive em cada um de nós, é uma espécie de franqueza áspera.

O escritor não faz questão de se esconder ao criar personagens. No conto ‘Encontro no Cervantes’, ele se coloca como um ‘travecão’ com 300 gramas de silicone em cada teta, que está com outro travesti em um sujo e tradicional bar do Rio, o Cervantes, e lá acaba se metendo em uma conversa alheia sobre samba de raiz, em uma situação que tem traços tão ambíguos quanto a cultura da homossexualidade.

Castelos e bolhas feitos de sonhos

Neste trecho do conto ‘Valentina e o laranja intenso’, Mirisola exerce um lirismo que se projeta a partir de sensações comuns no cotidiano:

“Nem seria preciso dizer: bolhas de sabão são feitas com o mesmo material dos castelos que se desmancham na areia. Sonhos. Não há diferença. Apenas uma questão de localização. Se eu fosse poeta, e se acreditasse em sonhos, diria: um se desmancha no ar, e outro é arrastado pela correnteza”.

Memórias da sauna finlandesa,

Marcelo Mirisola, Editora 34, São Paulo, 2009, 175 págs., R$ 30.

Foto: Guto Zafalan

Salão do livro de Guarulhos terá Ariano Suassuna

Da Prefeitura de Guarulhos – Secretaria de Comunicação

A Prefeitura realiza entre os dias 7 e 16 de maio, das 10h às 22h, no Parque da Transguarulhense (Continental), o Salão do Livro de Guarulhos. Todas as atividades do Salão são gratuitas. O escritor Ariano Suassuna estará no Café Literário no domingo, dia 9, às 19h30.

A abertura oficial na sexta-feira (7), às 19h30, contará com a presença do prefeito Sebastião Almeida e dos secretários Moacir de Souza (Educação) e Hélio Arantes (Cultura).

A Orquestra Jovem de Guarulhos, sob a regência do maestro Emiliano Patarra faz o show de abertura. A programação do primeiro dia, porém, começa bem mais cedo, às 10h30, com apresentação da Orquestra Pimentinhas, sob regência do maestro Vanderlei Banci. As 15h a diversão fica por conta do espetáculo Chang Cia de Circo.

A programação da tarde continua com um bate papo no Espaço Cultural, às 16 horas, com Max B.O. sobre o Movimento Hip-Hop. Na sequência, às 18 horas, Afonso Romano de Sant’anna participa do Café Literário, com apresentação de Frederico Barbosa.

O Salão do Livro, iniciativa da Prefeitura de Guarulhos, via secretarias de Educação e Cultura é realizado em parceria com a Associação Nacional de Livrarias – ANL.

Os exemplares serão expostos num espaço climatizado de 5 mil m². São cerca de 80 mil livros dos principais autores brasileiros, entre eles: Ariano Suassuana, Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Heitor Cony e Pasquale Cipro Neto. Mais de 200 mil pessoas devem passar pelo salão durante os dez dias do evento.

Mais informações: http://www.guarulhos.sp.gov.br/salaodolivro/

Deleuze pensa o conceito de ‘território’ como realização da arte

Deleuze e Guattari

Em 88 e 89, o filósofo francês Gilles Deleuze deu uma série de entrevistas à jornalista Claire Parnet, que foi compilada em mais de sete horas. Inicialmente, o acordo para esse trabalho era de que ele fosse apresentado somente após a morte do filósofo. Mas meses antes de falecer Deleuze acabou por assentir na divulgação das entrevistas, o que foi feito de novembro de 1994 a maio de 1995, no canal franco-alemão chamado TV Arte.

Para conduzir a entrevista, a jornalista elaborou um abecedário para que o filósofo desenvolvesse cada um dos 26 temas. Na letra ‘A’, Deleuze reflete sobre os animais e dentro desse tema trata do conceito de território, que ele e Félix Guattari desenvolveram no livro ‘O que é a Filosofia?’, de 1992.

Veja o que ele diz sobre território e arte:

Claire Parnet: Daí sua relação animal-escrita. O escritor, para você, é, também, alguém que tem um mundo?

Gille Deleuze: Não sei, porque há outros aspectos, não basta ter um mundo para ser um animal. O que me fascina completamente são as questões de território e acho que Félix e eu criamos um conceito que se pode dizer que é filosófico, com a ideia de território. Os animais de território, há animais sem território, mas os animais de território são prodigiosos, porque constituir um território, para mim, é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo sabe, todo mundo invoca sempre… As histórias de glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras de seu território. O que intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos, que eles manifestam na fronteira do território… Cor, canto, postura, são as três determinações da arte, quero dizer, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. E, então, eu me digo, quando eles saem de seu território ou quando voltam para ele, seu comportamento… O território é o domínio do ter. É curioso que seja no ter, isto é, minhas propriedades, minhas propriedades à maneira de Beckett ou de Michaux. O território são as propriedades do animal, e sair do território é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora dele.

Trecho da entrevista no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=_v1CkAdgdSw&feature=related

Conceitos do abecedário na entrevista:

A de Animal
B de Beber
C de Cultura
D de Desejo
E de Enfance [Infância]
F de Fidelidade
G de Gauche [Esquerda]
H de História da Filosofia
I de Idéia
J de Joie [Alegria]
K de Kant
L de Literatura
M de Maladie [Doença]
N de Neurologia
O de Ópera
P de Professor
Q de Questão
R de Resistência
S de Style [Estilo]
T de Tênis
U de Uno
V de Viagem
W de Wittgenstein
X de Desconhecido
Y de Indizível
Z de Ziguezague

Hilda Hilst costura linguagens e revela os desejos banais

Helder Lima

Nos início dos anos 90, a escritora paulista Hilda Hilst (1930 – 2004) publicou uma trilogia obscena que escandalizou os leitores. Parte da crítica passou a considerá-la erótica, mas esses livros não chegaram a representar um décimo de sua produção, e nem mesmo a classificação ‘erótica’ era apropriada aos temas que ela trata nessas obras.

Um dos livros da série é Contos D’Escárnio/Textos Grotescos, lançado em 1990 e que pode ser encontrado nas livrarias com reedição da Editora Globo. Nas entrelinhas de uma linguagem o mais chula quanto possível, Hilda faz uma costura da linguagem coloquial com valores da cultura que estão sedimentados e contra os quais não fazemos questionamentos, como, por exemplo, o teatro de Shakespeare, que ela toma por objeto de seu riso e escárnio.

A escritora também ousa uma quebra da estrutura do romance tradicional, que historicamente é conhecido por “romance burguês”, aquele que obedece a lógica do começo meio e fim. Em vez disso, ela prefere uma narrativa sem referências do tempo e que é marcada por várias vozes, o que o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Alcir Pécora, que escreve uma nota introdutória, classifica como “mistura babélica de línguas”.

Na prática, o livro é uma anarquia de gêneros que passa pela narrativa longa do romance, pelo conto, teatro e poesia. Brinca até mesmo com a forma das receitas, textos que em geral não têm qualquer pretensão literária.

A linguagem chula, que tanto chocou os leitores, no texto de Hilda é pautada por aquilo que muitas vezes pensamos e nem sequer cogitamos expressar verbalmente, já que parecem tão absurdas de serem comunicadas ao outro.

Na repetição das palavras, como ‘cona’, ‘pau’, ‘verga’ e tantas outras que alimentam o imaginário sobre a genitália humana, Hilda revela para o leitor as ideias banais que muitas vezes estão escondidas nas nossas intenções e desejos. Essa revelação certamente tem um caráter perturbador, já que ela nos faz pensar sobre a nossa própria insignificância.

O narrador é Crasso, alguém que é ao mesmo tempo ninguém. A mãe morreu no dia seguinte ao seu batismo e o pai morreu em cima de uma prostituta em um bordel. Crasso foi criado por um tio, Vlad, que, segundo Hilda, “morreu quando estava sendo chupado por um coroinha”. Essa capacidade de satirizar as situações permite à escritora navegar por assuntos tabus nos dias de hoje, como morte, sodomia, zoofilia e pedofilia. Crasso fala de cada uma dessas coisas sem a menor cerimônia.

A mudança de estilos é marcada por um livro que Clódia, namorada perversa de Crasso, ganhou em um manicômio onde foi presa, depois de ser vista em público pedindo para ver a genitália dos homens. Essa parte reúne receitas e peças de teatro. Outras inserções são os contos de Hans Haeckel, um escritor depressivo contumaz, e do próprio Crasso, que abordam sempre episódios bizarros.

Crítica ao Best-seller

Hilda avisa no começo da história que pretende fazer uma crítica ao mundo dos Best-sellers. “Bem, resolvi escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu”. Mais adiante, ela volta ao tema, agora com pura ironia: “Recolha num vidro de boca larga um pouco de ar de Cubatão e um traque do seu nenê. Compre uma ‘Bicicleta Azul’ e adentre-se algum tempo nas ‘Brumas de Avalon’. É uma boa receita se você quiser ser um escritor vendável”.

Contos D’Escárnio / Textos Grotescos,

Hilda Hilst, Editora Globo, SP, 2002, 136 págs.