Não quero ser apenas mais uma engrenagem dessa terrível máquina de moer carne

rebococaido

Por Fabio Da Silva Barbosa

eles me vêm com suas velhas morais e obrigações

o aceitam nossas opiniões

querem nos fazer acreditar que temos liberdade

mas isso não existe de verdade

somos livres apenas para fazer o que eles deixam

mas nãoo ao menos os que se mostram

existem mãos invisíveis nos controlando

estão controlando até o governo

um governo submisso a interesses mórbidos

estamos submissos a interesses escusos

o me curvo a essa falsidade

o acredito na falsa verdade que me ensinou apenas consumir

preciso mais, preciso existir

o vou me suprimir nãoo me reduzir

enquanto um se ilude e quer entrar

outro percebe e luta para a algema arrebentar

pular o muro dessa prisão até destruir as paredes

e começar a demolição dessa sociedade ilusória

da mentira compulsória

Lembranças

 Fabio Da Silva Barbosa2

lembro das luzes ao longe, iluminando o subir do morro

e daquela casa que ficava depois da última luz

onde a eletricidade ainda não tinha chegado

do esgoto a céu aberto que o menino sempre pulava

para jogar bola no campinho esburacado

 

e do choro de Dona Berenice

quando viu o filho tombar

ao ser atingido por uma bala de não sei qual calibre

e quando o sobrinho apanhou na delegacia

falaram que confundiram com traficante

 

das casas empilhadas umas sobre as outras

barracos sobre barracos

moradias sobre moradias

morando pessoas espremidas, gente sofrida

mordida por misérias, fomes e apatias

 

lembro também dos barulhos de tiros

ouvidos na hora da novela

dos apartamentos

que assistem de bem longe

se convencendo que não tem nada com a vida dos mortos

A transação

– Olha aqui, meu irmão. A parada que você pediu tá aí. Agora me dá o dinheiro que não tenho o dia inteiro. – Esse é o Margarina. Um cara muito ferrado na vida. Não servia nem para roubar carteira de velhinho em saída de banco.

– Certo. – Esse sorridente era o cara para quem ele tinha ido entregar algo dentro da mala do carro roubado, que acabava de apresentar. Nunca soube o que tinha naquele porta malas. Drogas, armas… Vai saber. O cara abriu a mala, deu uma boa olhada e continuou com o mesmo sorriso satisfeito.

– Tá vendo. Tá tudo aí. Pera… Que isso? – Margarina tremeu ao ver o cara puxar a arma.

– Olha aqui, seu pedaço de merda… Seu patrão anda de saco cheio de você. Pensamos em te usar como boi de piranha. Afinal, há muito tempo a polícia não mostra serviço. O problema é que na primeira porrada a operação seria toda comprometida.  Conhecemos bem esse tipo de cuzão que você é. Então, como tinha uma dívida para saudar com ele, achei que essa era a hora. Combinamos que você faria essa última entrega e eu te jogaria no lixo.

Outro sujeito, conhecido como Chaveirinho, se aproximou, amarrando as mãos de Margarina e colocando um capuz sobre sua cabeça. Quando ele começou a puxar Margarina, o cara sorridente disparou dois tiros.  Se aproximou e pressionou os furos feitos pelas balas em ambos os joelhos.

– Isso é para não tentar nenhuma gracinha pelo caminho.

Margarina se esticava todo, sentindo uma dor insuportável. Chaveirinho o arrastou até um outro carro que estava estacionado há alguns passos, jogando o corpo na mala. Aproximadamente duas horas depois, a mala se abriu. Margarina foi tirado de forma brusca e encostado no carro. Sentiu os olhos doerem com a luz do Sol ao ser retirado o capuz de uma só vez.  Ainda sem conseguir ver direito, foi virado com força e sentiu uma lâmina entre suas mãos. A corda foi cortada.

– Calma, porra. Aquele sacana destruiu meu joelho.

O corpo girou novamente e os olhos mais acostumados à claridade reconheceram o rosto de Chaveirinho.

– Já passei no banco e conferi. Você colocou o dinheiro direitinho. Cumpri minha parte, agora é com você.

– Vai me largar aqui? O cara que devia estar me esperando com a moto não chegou e mesmo se chegar não iremos longe com esses joelhos assim. Isso não tava no esquema.

– Fiz mais que costumo fazer. Cumpri o trato. Agora bye bye baby. – Se despediu dando dois tapinhas no rosto de Margarina e caminhou para a porta do motorista.

Margarina se apoiou no carro e perguntou que horas eram. O carro partiu, fazendo seu corpo despencar sobre o acostamento.

– Merda.

Margarina se arrastou até o mato que cobria a beira da estrada e ficou esperando o cara da moto chegar. Mas o cara não chegou. Quando estava quase anoitecendo, um carro parou. Alguém desceu. Era Chaveirinho. Seguindo os rastros de sangue, foi até o matagal onde estava escondido. Margarina levantou a cabeça com dificuldade, pois já tinha perdido muito sangue e a dor só piorava. Teve o intuito de sorrir, mas pensou duas vezes e viu que aquilo não podia ser boa coisa. Chaveirinho sacou a arma em sua direção.

– Pensei melhor. Vai que amanhã ou depois você dá mole e alguém te vê por aí. Todo mundo sabe que dar mole é com você mesmo.

Margarina arregalou os olhos em um último ato de desespero. O estouro da arma se fez ouvir.

Mais um que nunca deu sorte.

 

fsb-12Fabio da Silva Barbosa

E-mail: fsb1975@yahoo.com.br

 

Cerveja com amendoim

Estava aborrecido com aquele livro chatíssimo que tratava sobre algum tipo de verdade. Nem lembro bem porque estava perdendo tempo com mais aquele intelectualzinho arrogante. Era do tipo que sabe todas as respostas e o jeito certo de fazer qualquer tipo de coisa. Deve ser doutor ou qualquer outra merda do gênero. Pedi mais uma cerveja e um pacote de amendoins. Coloquei a cerveja no copo e despejei alguns amendoins dentro. Era sempre um bailado interessante. Alguns subiam, outros desciam e tinham aqueles que subiam e desciam. Apreciei um pouco a coreografia antes de voltar a leitura.

Alguns parágrafos e anotações depois, percebi uma movimentação estranha no boteco. Ergui os olhos e me deparei com um carro da polícia estacionado no meio fio. Carlinhos, o cara que escreve jogo de bicho na mesinha dos fundos, estava sendo preso. Pelo que entendi, uma tal delegada estava na cidade e os canas tinham de levar uma certa quantidade de gente presa. Carlinhos não criou maiores problemas. Daqui a pouco estaria de volta. Aproveitei a pausa e olhei como estavam meus amendoins. Dei um gole cuidadoso para não engolir nenhum. O segredo era só comer no final. Tinha de ficar na conserva. Ali o amendoim temperava a bebida, enquanto a bebida temperava o amendoim. Depositei o copo na mesa e procurei o parágrafo onde tinha parado.

– Que porra é essa aí, rapaz? Ô engraçadinho… É com você mesmo que estou falando.

O polícia tava falando comigo. O que seria dessa vez? Será que ainda faltava um para ser preso? Do que me acusariam? De estar lendo aquela merda na mesa, do lado de fora do bar? Ler merda em via pública agora é crime? Também, o que poderia esperar? Um sujeito que joga o tempo de vida fora com uma bosta daquelas merecia mesmo uns tapas.

– …

– Levanta! Levanta! Encosta na parede!

– Mas…

– Encosta aí, caralho!!!

Depois da geral, com a maior ignorância possível, me virou de frente e começou a gritar na minha cara. Pior que ficar olhando aquela caricatura bizarra durante os berros, só mesmo os pingos de saliva voando na minha direção. Tentei usar da educação e explicar que as palavras não estavam saindo de forma legível de sua boca.

– Não estou entendendo… Qual é o problema?

– O problema… Seu filho da puta… Tá pensando que sou idiota?

Parece que tinha lido meu pensamento. Foi exatamente isso que pensei. Mesmo tentando imaginar algum fundo de lógica na situação, pude confirmar minhas suspeitas no momento em que ele pegou meu copo de cerveja de forma raivosa e ralhou.

– O que é isso aqui? Me diz… Que porra é essa? Virou bagunça? – Ou foi algo mais ou menos assim que saía daquela boca arreganhada.

– Desculpe, mas não sabia que a cerveja havia sido proibida.

Não resisti. A situação em si pedia um deboche. Aquele havia sido o sinal, o é agora. Quando vi, já tinha falado. Mas o troco veio de imediato. Uma bofetada descomunal me atirou contra a mesa. Arrastei o que tinha pela frente em minha queda. Esqueci que essa rapaziada não costuma ter bom humor.

– Levanta, porra.

– Calma… Que isso…?

– É exatamente o que eu quero saber. O que é isso? – O desgraçado quase enfiava o copo na minha cara.

– Cerveja, porra. É um copo com cerveja.

– Tô falando dessas bolinhas dentro do copo.

– Ahhhh… Isso… – Suspirei entre o aliviado e o incrédulo – Isso é amendoim.

– Amendoim… – Soco no estômago. – Tá me achando com cara de trouxa mesmo, né?

– Mas é amendoim… Olha… Ainda tem mais no saquinho… Deve ter caído pelo chão quando derrubei a mesa.

Aí… – Berrou para a viatura. – Manda o cara que escreve o jogo se espremer. Vai entrar mais um.

– Tá viajando no amendoim, né?

A voz do rastafári alemão dono do botequim me trouxe de volta para aquela mesa. Os amendoins ainda bailavam no copo, diante dos meus olhos. Ouvi os primeiros acordes de Redemption Song e só aí percebi que meu amigo rasta estava sentado ao meu lado com o violão. Até chegar o próximo freguês, iria rolar um som. Dei um gole na cerva e depositei o copo sobre a mesa. Empurrei o livro para um canto. Não ia mais me desgastar com isso.

fsb-12Fabio da Silva Barbosa

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Tesão

Ele chegou cedo à casa da namorada. Enquanto os pais da amada acabavam de se arrumar no andar de cima e ela limpava a bunda depois de uma cagada daquelas que lambrecam todo o entorno, se acomodou no sofá. O jantar ainda demoraria um pouco.

Passados alguns minutos, Tritão, o cachorro da família (um vira-lata imenso), entrou vagarosamente pela sala cheirando o ar como quem não queria nada. Veio até sua perna e cheirou. Distraído, pensando em como faria o pedido de noivado, fez um cafuné na cabeçorra da criatura.

Em um salto repentino, Tritão agarrou sua perna e, com movimentos repetidos, começou a esfregar a cabeça pontiaguda de seu órgão reprodutor. Chocado, o cavalheiro tentou tirar o mamute de cima da sua perna. Tritão resistia bravamente, mas com doçura.

Não havia jeito. Mal conseguia afastar o cão e ele já voltava ofegante. Os anfitriões desceram e se espantaram com a estranha conduta do animal. Tentaram de tudo, mas era impossível afastar o cachorro de sua paixão. Por fim, o caso virou graça e o rapaz foi embora sem pedir a mão de sua amada. Tritão o acompanhou até o quintal, onde, depois de muita luta, conseguiram afastá-lo da lambuzada perna.

Ao ouvir o bater do portão, o cachorro correu para as grades e ficou apreciando aquela perna se afastar. Passando por sua irmã gêmea, sumiu apressadamente pela rua. O que restou foi um animal triste, sentado no portão. Iria permanecer assim até a próxima visita.

fsb-12Fabio da Silva Barbosa

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Maioria marginalizada

Fabio: histórias para resgatar personagens invisíveis

Fabio: histórias para resgatar personagens invisíveis

A atitude de tratar as pessoas que estão fora do padrão social como minorias pode ter um efeito prático para dar foco às políticas sociais, mas ela acaba por criar uma espécie de cegueira, que mostra que a realidade, para a maioria, é o mundo das “pessoas normais”, como se normalidade fosse possível e dentro de seus domínios não houvesse loucura.

“Embora tratados como minorias, os marginalizados formam a verdadeira maioria. É que eles são divididos em grupos. Junta tudo aí pra ver. Os mendigos, as prostitutas, os bêbados, os drogados, os loucos, os homossexuais, os favelados, os presidiários e todas as classes ignoradas, lançadas à margem por uma minoria (esta sim minoria) privilegiada”, afirma o escritor Fabio da Silva Barbosa, que lançou o livro ‘Escritos malditos de uma realidade insana’, reunindo contos sobre personagens que no cotidiano ocupam o cenário das cidades como seres invisíveis ou, quando não, como alvo de preconceito – e aí sim ganham espaço na mídia que se alimenta do lado bizarro da vida.

Fabio é também jornalista e tem se dedicado a registrar a barbárie social em projetos de fanzines e de escritores independentes, propondo escapar da opressão de ideias e valores sustentados pelo senso comum das opiniões, que faz as pessoas crerem que preconceito e discriminação não existem.

Com textos curtos e contundentes, os contos transitam entre a realidade e o delírio como se estivessem resgatando o material inconsciente de seus personagens, aqueles pensamentos que preferimos esquecer para não ter de lidar com o nosso lado insuportável. É assim no conto ‘Escoando’, em que entre o sonho e a alucinação a personagem se descobre seduzida por um cadáver, ou na história ‘Bom dia’, quando a personagem acorda de uma bebedeira sem saber com quem transou e onde está.

Hoje em dia, há quem acredite que a literatura deve ser tão cor-de-rosa quanto o facebook (o azul predominante na tela é só uma aparência), mas a literatura que leva o leitor para fora do sentido predominante e que toca em tabus é algo comum às obras clássicas e contemporâneas. Escrever continua sendo um ato de coragem. “Sempre que se escreve, ou desempenha qualquer outra atividade intelectual de forma sincera, aquela mensagem vai sair por aí e um belo dia começa a tocar outros seres que estão vibrando na mesma onda. E aí se faz a comunicação”, afirma Fabio.

O livro é vendido no formato eletrônico (e-book) com preço acessível (R$ 4,99) e somente pode ser encontrado no site da editora. O título é um exemplo da revolução que o formato eletrônico pode representar, colocando à disposição do leitor obras que dificilmente teriam o mesmo alcance em papel, com os caros serviços de impressão e distribuição.

Fabio da Silva Barbosa - capa2Escritos malditos de uma realidade insana,

Fabio da Silva Barbosa, editora Lamparina Luminosa, S. Bernardo do Campo, 2013, 105 págs.

Onde encontrar: www.lamparinaluminosa.com

Foto: Divulgação