Largue tudo e leia um livro

Carola Saavedra é autora do romance ‘Paisagem com dromedário’

Escrevendo toda semana sobre literatura, tenho de fazer por hábito um esforço, às vezes descomunal, para deitar no sofá e abrir um livro. A questão é encontrar tempo. Para que a leitura possa fluir, sou obrigado a desligar a atenção das coisas do mundo real e isso nem sempre é fácil. Notícias, novelas, facebook, fofocas, olimpíadas, futebol e tantas coisas banais querem ocupar TODO o nosso tempo.

Mas para a literatura é preciso sintonia, conexão, suspensão do tempo compartilhado socialmente e mergulho em outro tempo, que poderíamos chamar de tempo lógico do livro, ou da obra. Quem se habilita a largar as tarefas mais comezinhas para ler um livro?

Outro dia assisti no You Tube a uma entrevista da escritora Carola Saavedra, autora do romance ‘Paisagem com dromedário’ (Companhia das Letras), em que ela falava da alegria de participar da Flip, a Festa Literária de Paraty, afinal, a impressão que se tem fora do panteão é de que ninguém quer saber de literatura.

E essa não é uma opinião isolada. O jornalista André Barcinski escreveu em seu blog que “… no mundo real, este que se passa fora das telas dos computadores, quase ninguém se importa com literatura brasileira. Especialmente com a NOVA literatura brasileira”, ao comentar sobre uma polêmica na internet entre escritores quanto à coletânea da Granta, uma revista inglesa de literatura, que traz textos dos 20 “melhores” escritores jovens brasileiros do momento.

A gente cultua aquilo que não conhece, e por isso a literatura parece ser coisa do outro mundo. De fato, literatura é coisa de doidos, de fantasmagorias, de obsessões, enfim, mas nenhum livro resiste a uma boa leitura. É preciso ler para matar o livro, para tirar o texto do culto e colocá-lo em seu devido lugar, que é a experiência do leitor.

Mas quando o critério é a dedicação à leitura parece que o Brasil não mudou muito desde os tempos do Império. Hoje, como naquela época, o escritor precisa falar em público, precisa difundir a obra com a própria saliva e consequentes perdigotos, sob pena de ficar no ostracismo, comprimido pela lógica do mercado editorial, que busca os lucros, enquanto os escritores, mesmo alguns dos mais famosos, nem sequer vivem de literatura.

Eu, particularmente, aprecio escritores que não fazem concessões para o tal mercado e que se impõe por aquilo que escrevem. Cito dois exemplos, sendo injusto com muitos, mas apenas para ilustrar a ideia: Dalton Trevisan, que é avesso até mesmo a entrevistas e está sempre na contramão das celebridades, e Marcelo Mirisola, que escreve sem compaixão com o leitor.

Quem lê, investe em si mesmo, lustra a própria inteligência, esta mesma que dorme e se recobre de poeira enquanto as trivialidades sufocam o nosso tempo.

(Foto: Divulgação)

O lado B da história de Cesare Battisti

Brandão e Calligaris na Flip: apoio ao boicote de Antonio Tabucchi

“Foram aplaudidos com moderação”. Essa frase foi o que me chamou a atenção no texto publicado no site da 9ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty – http://www.flip.org.br) sobre a forma como o público acolheu os escritores Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris quando manifestaram apoio ao escritor italiano Antonio Tabucchi, que cancelou sua participação na Flip em protesto à decisão do ex-presidente Lula de não extraditar o italiano Cesare Battisti.

A acolhida morna da plateia pode significar muitas coisas, mas uma delas é que o tema ‘Cesare Battisti’ não tem um consenso, uma opinião dominante e determinada, como gostariam os que defendem sua extradição. Esse é um caso em que falta mais esclarecimento para o público, e talvez a Flip pudesse convidar Battisti no próximo ano, já que ele é autor de pelo menos 15 livros, e reconhecidamente voltado para os romances policiais.

“Defendo tão-somente um processo imparcial, desapaixonado, conforme aos princípios do direito europeu e do bom senso – defendo, e este é o sentido deste prefácio, que se assegure a Cesare Battisti o direito de confrontar, pessoalmente, o seu passado e o seu destino”, afirma o jornalista e filósofo francês Bernard-Henri Lévy, no prefácio do livro ‘Minha fuga sem fim’, de 2007, em que Battisti narra sua trajetória desde a participação, nos anos 70, no grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Esse livro é o primeiro de uma tríade em que Battisti resgata sua biografia. ‘Ser bambu’, de 2010, é o segundo título e o terceiro deve sair em breve, todos eles pela editora Martins Fontes.

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1993, sob acusação de quatro assassinatos – pelo menos um deles, o de Antonio Santoro, comandante de prisão, foi reivindicado pelo PAC. O problema da condenação de Battisti é que sua base foi exclusivamente o depoimento do ex-ativista Pietro Mutti, também participante do grupo rebelde e que, segundo Lévy, poderia ter tentado comprar sua própria salvação ao incriminar o ex-companheiro. Pesa também sobre a condenação de Batistti o ‘regime da contumácia’, em vigor na Itália, que o impediria de ter novo julgamento caso fosse extraditado.

Na fuga, Battisti se refugiou na França, onde depois foi beneficiado por um ato do governo de François Mitterrand, de acolher todos os ex-adeptos da guerra revolucionária italiana, desde que assinassem a deposição de armas. Esse acordo foi respeitado por nove governos sucessivos até que Battisti sofresse um novo revés jurídico e acabasse no Brasil.

Battisti foi libertado em junho por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que por seis votos a três confirmou a decisão do governo Lula de negar a extradição, acatando a questão como relativa à soberania do País.  “Entendo que o presidente da República praticou um ato político, um ato de governo, que se caracteriza pela mais ampla discricionariedade [algo amplo, ilimitado]”, afirmou o ministro Ricardo Lewandowski ao declarar seu voto.

 

Minha fuga sem fim,

Cesare Battisti, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2007, 283 págs.

Foto: Divulgação

Palavras como tiros de metralhadora sobre os valores vigentes

O roqueiro Iggy Pop e o escritor Michel Houellebecq, que virá ao País em julho

O lado polêmico e provocador do escritor francês Michel Houellebecq pode ser conhecido no romance ‘Plataforma’, que conta a tragédia de um ataque terrorista na Tailândia. O escritor compõe uma história permeada por ideias politicamente incorretas e coroa esse espírito com o ódio ao Islã. Para o leitor, não há como gostar de Houellebecq.

Nas páginas de ‘Plataforma’, o escritor transforma a literatura em uma espécie de metralhadora que atinge tudo aquilo que parecia verdadeiro na sociedade ocidental e acaba por montar um retrato realista e estarrecedor do nosso tempo. O romance foi lançado em 2001, antes do atentado de 11 de setembro contra as torres gêmeas em Nova York.

O eixo do livro é a história de Michel, o narrador, um funcionário público que trabalha com contabilidade de exposições de arte. Seu pai morre de forma banal, e ele recebe uma herança, tornando-se rico. Segue então em viagem para a Tailândia, em busca de sexo, e conhece Valérie, uma executiva da indústria do turismo, que se transforma em predadora capitalista na maior rede francesa de hotéis e industrializa o turismo sexual em países tropicais, tendo como clientes principais alemães e italianos.

Quando o livro foi lançado, Houellebecq foi acusado de ultraconservador. Nas páginas de romance, ele se define como de esquerda. A história é rica em pornografia, um homem faz sexo com uma menina de 15 anos, enfim, tudo que é valor desaba e pouco a pouco vai ficando evidente para o leitor que Michel, tanto o narrador quanto o escritor, fala na verdade da miséria afetiva do mundo do consumo e do lucro, da solidão e abandono como condição humana, e da morte.

O escritor é dono de uma percepção aguçada e de uma fluência que faz o leitor devorar as páginas. Para a crítica literária Michele Levy, “Houellebecq é uma espécie de profeta, dotado da capacidade rara de perceber o mundo com um grau de sensibilidade ímpar”. O livro é considerado também um exercício de luto e remete o leitor à biografia do escritor, que foi abandonado pelos pais aos seis anos, e passou a viver com a avó paterna, que se definia como comunista.

Não há como não polemizar e ao mesmo tempo concordar com Houellebecq. Em julho, ele virá ao País participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O tom cínico de seu romance se reproduz também em outras obras, como ‘Extensão do domínio da luta’ e ‘Partículas Elementares’.

Neste trecho, o narrador ataca a cultura da Europa:

“No Ocidente, a vida é cara e faz frio; a prostituição é de péssima qualidade. Além do mais, é complicado fumar em lugares públicos e quase impossível comprar remédios e drogas; trabalha-se muito, há muitos carros e barulho, e a segurança nos lugares públicos é péssima”.

Plataforma,

Michel Houellebecq, tradução de Ari Roitman e Paulina Watch, Editora Record, RJ, 2002, 383 págs.

Foto: Paris Review

Leia também: Houellebecq cancela participação na Flip 

Enigmas do amor e da morte nos contos de Julio Cortázar

O escritor era mestre na arte do conto

Qual a relação entre ‘amor’ e ‘morte’? Quando a conversa é sobre um desses termos, ou ambos, parece que falta alguma coisa para preencher o sentido das palavras. No amor, são tantas as possibilidades de significações que nos momentos de crise o sujeito se vê diante do abismo do nada. Na morte, o sentido nunca poderá ser apreendido, a não ser pela certeza de que chegaremos ao seu destino.

Essa conversa enigmática é o combustível de ‘Todos os fogos o fogo’, do mestre argentino Julio Cortázar (1914-1984), que agora chega a uma nova edição de bolso e fica mais acessível ao leitor. O livro reúne oito contos, cada um deles uma pequena obra de arte. O lançamento original é de 1966. Cortázar é um dos grandes nomes da literatura moderna, autor de ‘O jogo de amarelinha’ e ‘Histórias de cronópios e de famas’.

O conto que dá título ao livro faz uma fusão de duas histórias sobre paixões amorosas, uma no tempo presente e outra no período do império romano. Em ambas, estão em questão triângulos amorosos, sem que o escritor estabeleça limites entre a realidade e o imaginário dos sentimentos envolvidos. Cortázar evoca o passado dos gladiadores, leva o leitor para uma arena de combate, onde as personagens enfrentam os desígnios do amor e a da morte, como na história do presente.

Para ler esse livro é preciso estar longe de querer dominar o sentido das coisas e explicar tudo. Os contos começam naturalmente enigmáticos, causam estranhamento e aos poucos vão se abrindo à compreensão do leitor.

Na história inicial ‘A autoestrada do sul’ o leitor se vê em meio a um monstruoso congestionamento nos arredores de Paris, que começa em um domingo à tarde e se arrasta por toda a semana. É como se Cortázar pegasse um detalhe da vida cotidiana e o amplificasse ao extremo para ver o que acontece. No caso do congestionamento, as pessoas interagem solidariamente, o engenheiro protagonista se apaixonada pela moça de um ‘Dauphine’ até que aquela situação limite se mostra palco de um gozo perdido, como tantos que marcam a nossa memória.

A forma do texto é essencial em Cortázar, e também por meio dela o leitor é levado a um estranhamento inicial. No conto ‘ Senhorita Cora’, que trata de uma paixão entre um jovem doente e sua enfermeira, o papel do narrador desliza entre as personagens, ora é a mãe quem conta a história, ora é o garoto, ora a enfermeira. Cortázar mostra os mesmos fatos na perspectiva de diferentes personagens e assim implode a linearidade da história, que volta no tempo quando um personagem reconta algo já contado.

Vale também destacar os contos ‘A saúde dos doentes’ e ‘Reunião’. No primeiro, o escritor explora a dificuldade que a cultura ocidental tem em lidar com o tema da morte, e desenvolve uma comédia trágica em que a mãe doente é poupada de toda a má notícia. No outro, o escritor retrata a chegada dos revolucionários a Cuba, colocando Ernesto Guevara, o Che, como narrador.

Todos os fogos o fogo,

Julio Cortázar, tradução de Gloria Rodrigues, Edições BestBolso, RJ, 2011, 160 págs., R$ 12,90.

Foto: Divulgação

Ouça trecho do conto ‘Reunião’, em que o narrador é Ernesto Che Guevara recriado por Cortázar.

 

Flip termina com saldo de 147 autores e 20 mil visitantes

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

Com um saldo de 147 autores – 21 estrangeiros – e um público de 20 mil pessoas terminou ontem a oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A participação dos cartunistas Robert Crumb e Gilbert Shelton foi o destaque da programação do fim de semana.

Autor de Gênesis (2009), versão em quadrinhos do mais antigo livro da Bíblia, o lendário Crumb, símbolo da contracultura nos Estados Unidos nos anos 60 e um dos principais destaques internacionais da Flip, disse ao público que só veio ao evento por insistência de sua mulher, Aline Kominksky-Crumb, mas que gostou de saber que o Brasil “é o país das bundas grandes; e apesar de ser inverno tem muita coisa fora dos panos”, brincou.

Crumb e Shelton: humor dos quadrinhos para o palco na conversa com o público

Crumb disse que não teve dificuldade em transpor o universo bíblico para a linguagem dos quadrinhos. “O Gênesis é cheio de coisas loucas, como o pai que transa com a filha e isso é bom para a criação”, afirmou.  Ele também disse que decidiu levar a história para os quadrinhos porque ficou fascinado por ela, mas admitiu que foi criticado por seus fãs, “que acharam que eu tinha virado cristão e me vendido, e também por líderes religiosos”.

Crumb se apresentou ao lado de Gilbert Shelton, outro lendário cartunista. Shelton é criador de Freak Brothers, quadrinhos da época da contracultura que abordavam a tríade sexo, drogas e rock’n’roll. “A história, o texto, é o elemento principal nos quadrinhos. O desenho pode até ser ruim”, afirmou Shelton em conversa com a imprensa na sexta-feira, revelando um dos segredos dessa arte. Depois da palestra, ambos foram assediados pelo público, que formou longas filas para coletar autógrafos.

Saramago

A programação de sábado terminou com uma apresentação de 40 minutos com cenas inéditas do filme José & Pilar, que será lançado em novembro, sobre a vida do escritor José Saramago ao lado de sua esposa, Pilar Del Rio. O filme é do diretor-português Miguel Gonçalves Mendes, com co-produção do brasileiro Fernando Meirelles, que dirigiu Cidade de Deus (2002).

Mendes disse ao público que não está fazendo um filme sobre a obra de Saramago, mas sobre sua vida ao lado da esposa. Nas imagens mostradas, foi interessante notar como Saramago toma a decisão de abraçar a profissão de escritor aos 60 anos, depois de se ver sem perspectivas profissionais – ele havia trabalhado como funcionário público e também nos jornais portugueses. O livro Memorial do Convento, de 1984, foi a obra que definitivamente consagrou o escritor perante o público e os editores.

Rushdie trata do amor entre pais e filhos em novo livro

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

Rushdie: 'criar um mundo no qual o leitor queira viver’

O escritor indiano-britânico Salman Rushdie disse hoje que o amor entre pais e filhos é a questão central de seu novo livro, Luka e o fogo da vida, que está sendo lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina neste domingo. “O sentimento de criança é a nossa salvação. Por esse caminho, o livro trata da natureza do mistério e da imaginação de todos nós, criaturas imaginativas”, afirmou.

O novo título é uma fábula para jovens que segue a linhagem de Haroun e o mar de histórias, de 1998. Rushdie, que se celebrizou com Versos Satânicos, de 1989, na época censurado em vários países muçulmanos, disse que não há mensagens políticas em Luka e o fogo da vida. “É preciso distinguir o que é ficção do que não é. O interesse da ficção é envolver o leitor, é preciso criar um mundo no qual ele queira viver”.

Por conta desse interesse pela imaginação, que Rushdie chama de “mundo mágico”, o livro começa com a tradicional expressão “era uma vez”, recurso que para ele já indica um caminho a seguir.  Rushdie considera que o maior desafio de um escritor é como contar uma história e não o que contar.

O escritor diz também que assuntos complicados, como o tema do amor, devem ser tratados com linguagem simples. “As ideias complicadas podem ser ditas de uma forma saborosa”, afirmou. O escritor considera que obras para crianças e jovens são mais difíceis de serem feitas. “Tenho que voltar no tempo e escrever o livro que eu gostaria de ler nessa época”.

Rushdie arriscou um balanço dos 21 anos de publicação de Versos Satânicos. Disse que tem muitos leitores nos países muçulmanos e que as críticas à sua obra não vieram da sociedade muçulmana, mas do poder político. “Foi um ataque de cima para baixo”, afirmou. O escritor, que por causa de Versos Satânicos foi condenado à sentença de morte pelo então aiatolá Khomeini, lamentou o caso da iraniana Sakineh Ashtiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, condenada à morte por adultério. “Seria bom evitar que essa pobre mulher fosse executada”. Ele não quis opinar sobre a política do governo Lula para o Irã, que ofereceu asilo a Sakineh.

Quadrinhos

Crumb e Shelton: histórias ‘loucas’ para alimentar os quadrinhos

Autor de Gênesis (2009), versão em quadrinhos do mais antigo livro da Bíblia, o lendário Robert Crumb, símbolo da contracultura nos Estados Unidos nos anos 60 e um dos principais destaques internacionais da Flip, disse que não teve dificuldade em transpor o universo bíblico para a linguagem dos quadrinhos. “O Gênesis é cheio de coisas loucas, como o pai que transa com a filha e isso é bom para os quadrinhos”, afirmou.

Crumb falou com a imprensa ao lado de Gilbert Shelton, outro lendário cartunista. Shelton é criador de Freak Brothers, quadrinhos da época da contracultura que abordavam a tríade sexo, drogas e rock’n’roll. “A história, o texto, é o elemento principal nos quadrinhos. O desenho pode até ser ruim”, afirmou Shelton, revelando um dos segredos dessa arte. Soou bastante interessante essa afirmação, já que a cultura contemporânea costuma valorizar as imagens.

Isabel Allende conta na Flip como fez seu novo romance

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

A escritora Isabel Allende afirmou hoje na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que a ideia da abordagem da escravidão em seu novo livro, A ilha sob o mar, surgiu por acaso durante a pesquisa que fez ao longo de quatro anos para ambientar sua novela em New Orleans, Estados Unidos. Isabel narra a trajetória de Zarifé, uma negra que emigra do Haiti para a cidade americana. O título está sendo lançado na Flip.

“O tema da escravidão é importante para nos colocar diante da questão do poder absoluto”, afirmou a escritora. Isabel, que é peruana naturalizada chilena, disse que se interessa por escrever sobre o abuso de poder desde 1973, quando foi efetivado o golpe no Chile, que colocou Augusto Pinochet no poder. “Eu não seria escritora sem a revolta militar que me obrigou a sair do país”.

Sobre o seu estilo de escrever, identificado como ‘realismo mágico’ – uma aproximação entre a investigação da realidade e a ficção –, ela afirmou que adota essa fórmula porque acredita “que não existe explicação para tudo; o mundo tem muitos aspectos misteriosos”.  Como exemplo dessa perspectiva, ela disse que a revolta de escravos no Haiti só se realizou com base na força espiritual dos gurus.

O historiador inglês Peter Burke, professor emérito da Universidade de Cambridge e especialista em Idade Moderna, veio à Flip para abordar junto com o colega de profissão Robert Darnton o tema do futuro do livro face ao desenvolvimento do livro eletrônico, o chamado ebook. Burke disse não acreditar que o livro de papel venha a sucumbir com a nova tecnologia. “Ambas deverão conviver”, disse. Burke, no entanto, afirmou que os textos editados em livros serão menores no futuro. “O livro vai ficar menor, atualmente já é difícil editar obras grandes”.

A escritora cubana Wendy Guerra, que veio à Flip para lançar seu novo livro Nunca fui primeira-dama, fez críticas ao governo de Cuba em entrevista aos jornalistas. Ela disse que o socialismo cubano não funciona “porque ninguém é responsável por nada; é preciso encontrar um ponto de equilíbrio”.  As críticas da escritora a Cuba se justificam: seus livros já foram publicados em oito países, mas ela permanece inédita em seu país. Wendy vai falar no domingo para o público da Flip, com o tema ‘Cartas, diários e outras subversões’.

Isabel: 'Eu não seria escritora sem a revolta que me obrigou a sair do país'

Depravação na cultura vem de Portugal, diz FHC

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

O ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso disse há pouco na abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que a depravação na história da cultura brasileira tem origem na cultura portuguesa. FHC falou para o público sobre o livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, obra que é homenageada pela edição da Flip deste ano.

Ao falar sobre depravação cultural na obra de Freyre, FHC relacionou traços da época da colonização do país, como a poligamia, que era permitida para que o território fosse povoado, e a violência contra os escravos. “A depravação não vem da cultura negra”, disse o ex-presidente, contrapondo-se ao pensamento preconceituoso de autores no passado, principalmente na época em que o livro de Freyre foi editado, como o escritor Oliveira Vianna.

Ao comentar a obra de Freyre, o ex-presidente atribuiu esse legado à influência da cultura mourisca em Portugal, já mesmo antes da colonização do país. Essa cultura era a que nos tempos pré-coloniais tinha origem nos países muçulmanos e que favorecia a mistura da cultura portuguesa com outras.

A conferência de FHC começou depois de um protesto de alguns moradores da cidade contra a sua presença na Flip. “Por que um sujeito que nos mandou esquecer tudo o que escreveu está aqui em Paraty, abrindo oficialmente a festa literária?”, dizia o panfleto distribuído ao público. Segundo os manifestantes, a organização da Flip não deveria ter convidado alguém que tem sua imagem atrelada a um partido político por se tratar de ano eleitoral.

FHC disse que a obra de Freyre é importante para que se compreenda o caráter da mestiçagem na cultura brasileira. Afirmou também que o livro Casa Grande & Senzala situa-se no contexto de outras duas obras importantes, também produzidas nos anos 30 e 40, como o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior.

Durante a palestra, o mediador Luiz Felipe de Alencastro tentou comparar Freyre com o trabalho do escritor e político Joaquim Nabuco, que estudou a escravidão no país, mas FHC destacou que o escritor Sérgio Buarque de Holanda é o principal contraponto ao sociólogo. “Holanda foi contemporâneo de Freyre, enquanto Nabuco o antecedeu”, afirmou.

Depois da palestra de FHC, foi realizado show de abertura, com Edu Lobo e o Quarteto de Cordas da Academia da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). A Flip segue até o dia 8 de agosto, com a apresentação de escritores como Moacyr Scliar, Isabel Allende e o lendário cartunista Robert Crumb, que se apresentará no sábado, dia 7.

FHC: análise das origens do legado cultural do país, segundo Gilberto Freyre

Moradores realizam protesto contra a presença de FHC na Flip deste ano

Gilberto Freyre e o mito da democracia racial no Brasil

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será realizada de 4 a 8 de agosto, vai render este ano homenagens ao livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). A obra será debatida na conferência de abertura e em mais três encontros, reunindo seus estudiosos, como o cientista político e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a encara como perene, duradoura.

O aspecto central do livro está em sua contribuição para a investigação da identidade brasileira, afinal, ainda hoje é difícil dizer quem é o brasileiro. A primeira edição foi lançada em 1933. Desde então, mais de 50 edições foram publicadas. A obra é apreciada nos círculos acadêmicos, como objeto de teses e dissertações.

Muitas dessas produções versam sobre seu caráter dualista: de um lado, Freyre revela como pensava e agia o colonizador a partir de 1532, quando efetivamente começou o processo de ocupação do país; de outro, mistifica o desenvolvimento da sociedade, colocando o negro em uma posição de superioridade cultural em relação ao índio naqueles tempos.

Neste trecho, Freyre mostra seu lado mitológico: “As populações de origem negra, na Bahia por exemplo, não têm aquele ar sorumbático dos populares sertanejos do Nordeste, quando de origem principalmente indígena. Na Bahia, tem-se a impressão de que todo dia é dia de festa”.  Por essa linha, o escritor sustenta que o negro foi “o maior auxiliador do branco” na empreitada colonizadora do país, chegando a ver o Brasil como uma democracia racial.

Atualmente, a crítica à obra tende a reconhecer uma interação entre os aspectos críticos e míticos do livro, que são vistos como elementos formadores de uma política da memória para um país que se mostra carente de história. “Tal política visaria fazer um ajuste de contas com o trauma da escravidão”, afirma Alfredo César Melo, professor-assistente de literatura lusófona na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, em artigo sobre o livro. Para Melo, esse movimento reflete a característica da cultura brasileira de equilibrar antagonismos.

O livro vale também pelos registros históricos de hábitos e comportamentos do brasileiro, que revelam a origem de coisas que nos rodeiam hoje. Esse é o caso da tapioca e outras iguarias da culinária brasileira. “Não é só em relação ao beiju (tapioca), mas a tudo quanto é comida indígena, a Amazônia é a área da cultura brasileira mais impregnada de influência cabocla: o que aí se come tem ainda gosto de mato”.

Casa Grande & Senzala,

Gilberto Freyre, Global Editora, 2006, SP, 726 págs.

Leia o artigo do prof. Alfredo César Melo:

http://migre.me/Vyr2



Flip discutirá identidades culturais no Brasil e no mundo

Capa do Cheap Thrills, de 1968, foi desenhada por Crumb

Começam a ser vendidos na segunda-feira, dia 5, os ingressos para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2010), que será realizada de 4 a 8 de agosto e terá, em sua oitava edição, uma oportunidade para o público refletir sobre as identidades culturais no Brasil e no mundo.

Enquanto a homenagem do evento será legada ao livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, obra que é referência das ciências sociais no país e até hoje um polêmico espelho da alma do brasileiro, as estrelas da festa serão dois ícones da contracultura nos EUA – o cartunista Robert Crumb e o cantor e compositor roqueiro Lou Reed, que vão falar de suas experiências no dia 7.

A palestra de Crumb, chamada ‘A Origem do Universo’, será dividida com o lendário colega de profissão Gilbert Shelton, criador de Freak Brothers, e mediada pelo cartunista Angeli.

Crumb é considerado o pai dos quadrinhos underground e um dos desenhistas mais importantes do século 20, criador de personagens como Mr. Natural e Fritz, The Cat. Nos anos 60, ele desenhou a capa do disco Cheap Thrills, da banda Big Brother & The Holding Company, que revelou a cantora Janis Joplin.

Veja o que Crumb disse à revista Paris Review sobre sua primeira experiência com LSD: “Meus colegas perguntavam: Crumb, o que está acontecendo, o que deu em você? Isso porque eu ficava olhando as coisas como se fosse pela primeira vez. E isso mudou toda a direção do meu trabalho artístico. As pessoas que já tinham tomado LSD entenderam tudo na hora, mas os outros, não.”

Na exposição ‘O Som e o Sentido’, o público poderá prestigiar Lou Reed, papa da música alternativa, que no fim dos anos 60 liderou a banda Velvet Underground. Muitas de suas canções retratam o submundo das pessoas marginalizadas, um caminho que o poeta do rock encontrou para tecer sua crítica ácida à cultura voltada aos bens de consumo.

Com um orçamento de R$ 6,3 milhões e um público aguardado de 20 mil pessoas, a Flip deste ano terá 35 autores, de 14 países, em 19 sessões literárias, as chamadas ‘mesas’, mais a conferência de abertura. O cardápio de temas inclui também política, colonização do país, fábulas e romances policiais. O show de abertura terá apresentações de Edu Lobo, Renata Rosa, Marcelo Jeneci e Quarteto de Cordas da Academia da Osesp.

As mesas e o show de abertura custam R$ 40. Mas há uma opção mais em conta, que é acompanhar a transmissão ao vivo por um telão, com ingresso a R$ 10.

Informações: http://www.flip.org.br

Confira o show de Luiz Melodia, na abertura da Flip 2008, interpretando a canção A Voz do Morro, de Zé Kéti: