Largue tudo e leia um livro

Carola Saavedra é autora do romance ‘Paisagem com dromedário’

Escrevendo toda semana sobre literatura, tenho de fazer por hábito um esforço, às vezes descomunal, para deitar no sofá e abrir um livro. A questão é encontrar tempo. Para que a leitura possa fluir, sou obrigado a desligar a atenção das coisas do mundo real e isso nem sempre é fácil. Notícias, novelas, facebook, fofocas, olimpíadas, futebol e tantas coisas banais querem ocupar TODO o nosso tempo.

Mas para a literatura é preciso sintonia, conexão, suspensão do tempo compartilhado socialmente e mergulho em outro tempo, que poderíamos chamar de tempo lógico do livro, ou da obra. Quem se habilita a largar as tarefas mais comezinhas para ler um livro?

Outro dia assisti no You Tube a uma entrevista da escritora Carola Saavedra, autora do romance ‘Paisagem com dromedário’ (Companhia das Letras), em que ela falava da alegria de participar da Flip, a Festa Literária de Paraty, afinal, a impressão que se tem fora do panteão é de que ninguém quer saber de literatura.

E essa não é uma opinião isolada. O jornalista André Barcinski escreveu em seu blog que “… no mundo real, este que se passa fora das telas dos computadores, quase ninguém se importa com literatura brasileira. Especialmente com a NOVA literatura brasileira”, ao comentar sobre uma polêmica na internet entre escritores quanto à coletânea da Granta, uma revista inglesa de literatura, que traz textos dos 20 “melhores” escritores jovens brasileiros do momento.

A gente cultua aquilo que não conhece, e por isso a literatura parece ser coisa do outro mundo. De fato, literatura é coisa de doidos, de fantasmagorias, de obsessões, enfim, mas nenhum livro resiste a uma boa leitura. É preciso ler para matar o livro, para tirar o texto do culto e colocá-lo em seu devido lugar, que é a experiência do leitor.

Mas quando o critério é a dedicação à leitura parece que o Brasil não mudou muito desde os tempos do Império. Hoje, como naquela época, o escritor precisa falar em público, precisa difundir a obra com a própria saliva e consequentes perdigotos, sob pena de ficar no ostracismo, comprimido pela lógica do mercado editorial, que busca os lucros, enquanto os escritores, mesmo alguns dos mais famosos, nem sequer vivem de literatura.

Eu, particularmente, aprecio escritores que não fazem concessões para o tal mercado e que se impõe por aquilo que escrevem. Cito dois exemplos, sendo injusto com muitos, mas apenas para ilustrar a ideia: Dalton Trevisan, que é avesso até mesmo a entrevistas e está sempre na contramão das celebridades, e Marcelo Mirisola, que escreve sem compaixão com o leitor.

Quem lê, investe em si mesmo, lustra a própria inteligência, esta mesma que dorme e se recobre de poeira enquanto as trivialidades sufocam o nosso tempo.

(Foto: Divulgação)
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O lado B da história de Cesare Battisti

Brandão e Calligaris na Flip: apoio ao boicote de Antonio Tabucchi

“Foram aplaudidos com moderação”. Essa frase foi o que me chamou a atenção no texto publicado no site da 9ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty – http://www.flip.org.br) sobre a forma como o público acolheu os escritores Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris quando manifestaram apoio ao escritor italiano Antonio Tabucchi, que cancelou sua participação na Flip em protesto à decisão do ex-presidente Lula de não extraditar o italiano Cesare Battisti.

A acolhida morna da plateia pode significar muitas coisas, mas uma delas é que o tema ‘Cesare Battisti’ não tem um consenso, uma opinião dominante e determinada, como gostariam os que defendem sua extradição. Esse é um caso em que falta mais esclarecimento para o público, e talvez a Flip pudesse convidar Battisti no próximo ano, já que ele é autor de pelo menos 15 livros, e reconhecidamente voltado para os romances policiais.

“Defendo tão-somente um processo imparcial, desapaixonado, conforme aos princípios do direito europeu e do bom senso – defendo, e este é o sentido deste prefácio, que se assegure a Cesare Battisti o direito de confrontar, pessoalmente, o seu passado e o seu destino”, afirma o jornalista e filósofo francês Bernard-Henri Lévy, no prefácio do livro ‘Minha fuga sem fim’, de 2007, em que Battisti narra sua trajetória desde a participação, nos anos 70, no grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Esse livro é o primeiro de uma tríade em que Battisti resgata sua biografia. ‘Ser bambu’, de 2010, é o segundo título e o terceiro deve sair em breve, todos eles pela editora Martins Fontes.

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1993, sob acusação de quatro assassinatos – pelo menos um deles, o de Antonio Santoro, comandante de prisão, foi reivindicado pelo PAC. O problema da condenação de Battisti é que sua base foi exclusivamente o depoimento do ex-ativista Pietro Mutti, também participante do grupo rebelde e que, segundo Lévy, poderia ter tentado comprar sua própria salvação ao incriminar o ex-companheiro. Pesa também sobre a condenação de Batistti o ‘regime da contumácia’, em vigor na Itália, que o impediria de ter novo julgamento caso fosse extraditado.

Na fuga, Battisti se refugiou na França, onde depois foi beneficiado por um ato do governo de François Mitterrand, de acolher todos os ex-adeptos da guerra revolucionária italiana, desde que assinassem a deposição de armas. Esse acordo foi respeitado por nove governos sucessivos até que Battisti sofresse um novo revés jurídico e acabasse no Brasil.

Battisti foi libertado em junho por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que por seis votos a três confirmou a decisão do governo Lula de negar a extradição, acatando a questão como relativa à soberania do País.  “Entendo que o presidente da República praticou um ato político, um ato de governo, que se caracteriza pela mais ampla discricionariedade [algo amplo, ilimitado]”, afirmou o ministro Ricardo Lewandowski ao declarar seu voto.

 

Minha fuga sem fim,

Cesare Battisti, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2007, 283 págs.

Foto: Divulgação

Palavras como tiros de metralhadora sobre os valores vigentes

O roqueiro Iggy Pop e o escritor Michel Houellebecq, que virá ao País em julho

O lado polêmico e provocador do escritor francês Michel Houellebecq pode ser conhecido no romance ‘Plataforma’, que conta a tragédia de um ataque terrorista na Tailândia. O escritor compõe uma história permeada por ideias politicamente incorretas e coroa esse espírito com o ódio ao Islã. Para o leitor, não há como gostar de Houellebecq.

Nas páginas de ‘Plataforma’, o escritor transforma a literatura em uma espécie de metralhadora que atinge tudo aquilo que parecia verdadeiro na sociedade ocidental e acaba por montar um retrato realista e estarrecedor do nosso tempo. O romance foi lançado em 2001, antes do atentado de 11 de setembro contra as torres gêmeas em Nova York.

O eixo do livro é a história de Michel, o narrador, um funcionário público que trabalha com contabilidade de exposições de arte. Seu pai morre de forma banal, e ele recebe uma herança, tornando-se rico. Segue então em viagem para a Tailândia, em busca de sexo, e conhece Valérie, uma executiva da indústria do turismo, que se transforma em predadora capitalista na maior rede francesa de hotéis e industrializa o turismo sexual em países tropicais, tendo como clientes principais alemães e italianos.

Quando o livro foi lançado, Houellebecq foi acusado de ultraconservador. Nas páginas de romance, ele se define como de esquerda. A história é rica em pornografia, um homem faz sexo com uma menina de 15 anos, enfim, tudo que é valor desaba e pouco a pouco vai ficando evidente para o leitor que Michel, tanto o narrador quanto o escritor, fala na verdade da miséria afetiva do mundo do consumo e do lucro, da solidão e abandono como condição humana, e da morte.

O escritor é dono de uma percepção aguçada e de uma fluência que faz o leitor devorar as páginas. Para a crítica literária Michele Levy, “Houellebecq é uma espécie de profeta, dotado da capacidade rara de perceber o mundo com um grau de sensibilidade ímpar”. O livro é considerado também um exercício de luto e remete o leitor à biografia do escritor, que foi abandonado pelos pais aos seis anos, e passou a viver com a avó paterna, que se definia como comunista.

Não há como não polemizar e ao mesmo tempo concordar com Houellebecq. Em julho, ele virá ao País participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O tom cínico de seu romance se reproduz também em outras obras, como ‘Extensão do domínio da luta’ e ‘Partículas Elementares’.

Neste trecho, o narrador ataca a cultura da Europa:

“No Ocidente, a vida é cara e faz frio; a prostituição é de péssima qualidade. Além do mais, é complicado fumar em lugares públicos e quase impossível comprar remédios e drogas; trabalha-se muito, há muitos carros e barulho, e a segurança nos lugares públicos é péssima”.

Plataforma,

Michel Houellebecq, tradução de Ari Roitman e Paulina Watch, Editora Record, RJ, 2002, 383 págs.

Foto: Paris Review

Leia também: Houellebecq cancela participação na Flip 

Enigmas do amor e da morte nos contos de Julio Cortázar

O escritor era mestre na arte do conto

Qual a relação entre ‘amor’ e ‘morte’? Quando a conversa é sobre um desses termos, ou ambos, parece que falta alguma coisa para preencher o sentido das palavras. No amor, são tantas as possibilidades de significações que nos momentos de crise o sujeito se vê diante do abismo do nada. Na morte, o sentido nunca poderá ser apreendido, a não ser pela certeza de que chegaremos ao seu destino.

Essa conversa enigmática é o combustível de ‘Todos os fogos o fogo’, do mestre argentino Julio Cortázar (1914-1984), que agora chega a uma nova edição de bolso e fica mais acessível ao leitor. O livro reúne oito contos, cada um deles uma pequena obra de arte. O lançamento original é de 1966. Cortázar é um dos grandes nomes da literatura moderna, autor de ‘O jogo de amarelinha’ e ‘Histórias de cronópios e de famas’.

O conto que dá título ao livro faz uma fusão de duas histórias sobre paixões amorosas, uma no tempo presente e outra no período do império romano. Em ambas, estão em questão triângulos amorosos, sem que o escritor estabeleça limites entre a realidade e o imaginário dos sentimentos envolvidos. Cortázar evoca o passado dos gladiadores, leva o leitor para uma arena de combate, onde as personagens enfrentam os desígnios do amor e a da morte, como na história do presente.

Para ler esse livro é preciso estar longe de querer dominar o sentido das coisas e explicar tudo. Os contos começam naturalmente enigmáticos, causam estranhamento e aos poucos vão se abrindo à compreensão do leitor.

Na história inicial ‘A autoestrada do sul’ o leitor se vê em meio a um monstruoso congestionamento nos arredores de Paris, que começa em um domingo à tarde e se arrasta por toda a semana. É como se Cortázar pegasse um detalhe da vida cotidiana e o amplificasse ao extremo para ver o que acontece. No caso do congestionamento, as pessoas interagem solidariamente, o engenheiro protagonista se apaixonada pela moça de um ‘Dauphine’ até que aquela situação limite se mostra palco de um gozo perdido, como tantos que marcam a nossa memória.

A forma do texto é essencial em Cortázar, e também por meio dela o leitor é levado a um estranhamento inicial. No conto ‘ Senhorita Cora’, que trata de uma paixão entre um jovem doente e sua enfermeira, o papel do narrador desliza entre as personagens, ora é a mãe quem conta a história, ora é o garoto, ora a enfermeira. Cortázar mostra os mesmos fatos na perspectiva de diferentes personagens e assim implode a linearidade da história, que volta no tempo quando um personagem reconta algo já contado.

Vale também destacar os contos ‘A saúde dos doentes’ e ‘Reunião’. No primeiro, o escritor explora a dificuldade que a cultura ocidental tem em lidar com o tema da morte, e desenvolve uma comédia trágica em que a mãe doente é poupada de toda a má notícia. No outro, o escritor retrata a chegada dos revolucionários a Cuba, colocando Ernesto Guevara, o Che, como narrador.

Todos os fogos o fogo,

Julio Cortázar, tradução de Gloria Rodrigues, Edições BestBolso, RJ, 2011, 160 págs., R$ 12,90.

Foto: Divulgação

Ouça trecho do conto ‘Reunião’, em que o narrador é Ernesto Che Guevara recriado por Cortázar.

 

Flip termina com saldo de 147 autores e 20 mil visitantes

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

Com um saldo de 147 autores – 21 estrangeiros – e um público de 20 mil pessoas terminou ontem a oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A participação dos cartunistas Robert Crumb e Gilbert Shelton foi o destaque da programação do fim de semana.

Autor de Gênesis (2009), versão em quadrinhos do mais antigo livro da Bíblia, o lendário Crumb, símbolo da contracultura nos Estados Unidos nos anos 60 e um dos principais destaques internacionais da Flip, disse ao público que só veio ao evento por insistência de sua mulher, Aline Kominksky-Crumb, mas que gostou de saber que o Brasil “é o país das bundas grandes; e apesar de ser inverno tem muita coisa fora dos panos”, brincou.

Crumb e Shelton: humor dos quadrinhos para o palco na conversa com o público

Crumb disse que não teve dificuldade em transpor o universo bíblico para a linguagem dos quadrinhos. “O Gênesis é cheio de coisas loucas, como o pai que transa com a filha e isso é bom para a criação”, afirmou.  Ele também disse que decidiu levar a história para os quadrinhos porque ficou fascinado por ela, mas admitiu que foi criticado por seus fãs, “que acharam que eu tinha virado cristão e me vendido, e também por líderes religiosos”.

Crumb se apresentou ao lado de Gilbert Shelton, outro lendário cartunista. Shelton é criador de Freak Brothers, quadrinhos da época da contracultura que abordavam a tríade sexo, drogas e rock’n’roll. “A história, o texto, é o elemento principal nos quadrinhos. O desenho pode até ser ruim”, afirmou Shelton em conversa com a imprensa na sexta-feira, revelando um dos segredos dessa arte. Depois da palestra, ambos foram assediados pelo público, que formou longas filas para coletar autógrafos.

Saramago

A programação de sábado terminou com uma apresentação de 40 minutos com cenas inéditas do filme José & Pilar, que será lançado em novembro, sobre a vida do escritor José Saramago ao lado de sua esposa, Pilar Del Rio. O filme é do diretor-português Miguel Gonçalves Mendes, com co-produção do brasileiro Fernando Meirelles, que dirigiu Cidade de Deus (2002).

Mendes disse ao público que não está fazendo um filme sobre a obra de Saramago, mas sobre sua vida ao lado da esposa. Nas imagens mostradas, foi interessante notar como Saramago toma a decisão de abraçar a profissão de escritor aos 60 anos, depois de se ver sem perspectivas profissionais – ele havia trabalhado como funcionário público e também nos jornais portugueses. O livro Memorial do Convento, de 1984, foi a obra que definitivamente consagrou o escritor perante o público e os editores.

Rushdie trata do amor entre pais e filhos em novo livro

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

Rushdie: 'criar um mundo no qual o leitor queira viver’

O escritor indiano-britânico Salman Rushdie disse hoje que o amor entre pais e filhos é a questão central de seu novo livro, Luka e o fogo da vida, que está sendo lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina neste domingo. “O sentimento de criança é a nossa salvação. Por esse caminho, o livro trata da natureza do mistério e da imaginação de todos nós, criaturas imaginativas”, afirmou.

O novo título é uma fábula para jovens que segue a linhagem de Haroun e o mar de histórias, de 1998. Rushdie, que se celebrizou com Versos Satânicos, de 1989, na época censurado em vários países muçulmanos, disse que não há mensagens políticas em Luka e o fogo da vida. “É preciso distinguir o que é ficção do que não é. O interesse da ficção é envolver o leitor, é preciso criar um mundo no qual ele queira viver”.

Por conta desse interesse pela imaginação, que Rushdie chama de “mundo mágico”, o livro começa com a tradicional expressão “era uma vez”, recurso que para ele já indica um caminho a seguir.  Rushdie considera que o maior desafio de um escritor é como contar uma história e não o que contar.

O escritor diz também que assuntos complicados, como o tema do amor, devem ser tratados com linguagem simples. “As ideias complicadas podem ser ditas de uma forma saborosa”, afirmou. O escritor considera que obras para crianças e jovens são mais difíceis de serem feitas. “Tenho que voltar no tempo e escrever o livro que eu gostaria de ler nessa época”.

Rushdie arriscou um balanço dos 21 anos de publicação de Versos Satânicos. Disse que tem muitos leitores nos países muçulmanos e que as críticas à sua obra não vieram da sociedade muçulmana, mas do poder político. “Foi um ataque de cima para baixo”, afirmou. O escritor, que por causa de Versos Satânicos foi condenado à sentença de morte pelo então aiatolá Khomeini, lamentou o caso da iraniana Sakineh Ashtiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, condenada à morte por adultério. “Seria bom evitar que essa pobre mulher fosse executada”. Ele não quis opinar sobre a política do governo Lula para o Irã, que ofereceu asilo a Sakineh.

Quadrinhos

Crumb e Shelton: histórias ‘loucas’ para alimentar os quadrinhos

Autor de Gênesis (2009), versão em quadrinhos do mais antigo livro da Bíblia, o lendário Robert Crumb, símbolo da contracultura nos Estados Unidos nos anos 60 e um dos principais destaques internacionais da Flip, disse que não teve dificuldade em transpor o universo bíblico para a linguagem dos quadrinhos. “O Gênesis é cheio de coisas loucas, como o pai que transa com a filha e isso é bom para os quadrinhos”, afirmou.

Crumb falou com a imprensa ao lado de Gilbert Shelton, outro lendário cartunista. Shelton é criador de Freak Brothers, quadrinhos da época da contracultura que abordavam a tríade sexo, drogas e rock’n’roll. “A história, o texto, é o elemento principal nos quadrinhos. O desenho pode até ser ruim”, afirmou Shelton, revelando um dos segredos dessa arte. Soou bastante interessante essa afirmação, já que a cultura contemporânea costuma valorizar as imagens.

Isabel Allende conta na Flip como fez seu novo romance

Helder Lima, de Paraty (RJ)

Fotos: Thila Pedrozo

A escritora Isabel Allende afirmou hoje na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que a ideia da abordagem da escravidão em seu novo livro, A ilha sob o mar, surgiu por acaso durante a pesquisa que fez ao longo de quatro anos para ambientar sua novela em New Orleans, Estados Unidos. Isabel narra a trajetória de Zarifé, uma negra que emigra do Haiti para a cidade americana. O título está sendo lançado na Flip.

“O tema da escravidão é importante para nos colocar diante da questão do poder absoluto”, afirmou a escritora. Isabel, que é peruana naturalizada chilena, disse que se interessa por escrever sobre o abuso de poder desde 1973, quando foi efetivado o golpe no Chile, que colocou Augusto Pinochet no poder. “Eu não seria escritora sem a revolta militar que me obrigou a sair do país”.

Sobre o seu estilo de escrever, identificado como ‘realismo mágico’ – uma aproximação entre a investigação da realidade e a ficção –, ela afirmou que adota essa fórmula porque acredita “que não existe explicação para tudo; o mundo tem muitos aspectos misteriosos”.  Como exemplo dessa perspectiva, ela disse que a revolta de escravos no Haiti só se realizou com base na força espiritual dos gurus.

O historiador inglês Peter Burke, professor emérito da Universidade de Cambridge e especialista em Idade Moderna, veio à Flip para abordar junto com o colega de profissão Robert Darnton o tema do futuro do livro face ao desenvolvimento do livro eletrônico, o chamado ebook. Burke disse não acreditar que o livro de papel venha a sucumbir com a nova tecnologia. “Ambas deverão conviver”, disse. Burke, no entanto, afirmou que os textos editados em livros serão menores no futuro. “O livro vai ficar menor, atualmente já é difícil editar obras grandes”.

A escritora cubana Wendy Guerra, que veio à Flip para lançar seu novo livro Nunca fui primeira-dama, fez críticas ao governo de Cuba em entrevista aos jornalistas. Ela disse que o socialismo cubano não funciona “porque ninguém é responsável por nada; é preciso encontrar um ponto de equilíbrio”.  As críticas da escritora a Cuba se justificam: seus livros já foram publicados em oito países, mas ela permanece inédita em seu país. Wendy vai falar no domingo para o público da Flip, com o tema ‘Cartas, diários e outras subversões’.

Isabel: 'Eu não seria escritora sem a revolta que me obrigou a sair do país'