Jung para desvendar a simbologia dos sonhos

Jung concluiu ‘O Homem e seus Símbolos’ dez dias antes de morrer (Foto: Divulgação)

Os sonhos são fontes de enigmas e mistérios. Temos uma tendência a acreditar que eles podem antecipar acontecimentos, mas sobre isso há controvérsias. O fato é que os sonhos são como uma tela que projeta imagens relacionadas aos desejos e medos ocultos, guardados no lado inconsciente da mente humana.

Esse interesse pelo tema surgiu quando assisti ao filme ‘Um método perigoso’, de David Cronenberg, que traz a história do relacionamento e ruptura entre Sigmund Freud e o suíço Carl Gustav Jung, no começo do século 20, quando Freud criava a psicanálise. A relação é entremeada pela estudante russa Sabina Spielrein, que de amante e paciente de Jung se torna brilhante discípula de Freud. Há um momento no filme, quando Freud e Jung estão viajando para os Estados Unidos, em que eles interpretam um sonho de Freud, revelando seu caráter simbólico.

Depois do cinema encontrei em um sebo, com preço acessível, um livro que, digamos, dá asas ao universo dos sonhos. ‘O Homem e Seus Símbolos’, de Jung, é uma obra que procura desvendar a importância dos símbolos e para isso busca sua conexão com os sonhos, mostrando como as imagens e impressões noturnas estão ligadas ao inconsciente, marcado pelos símbolos da cultura, como os ícones da religião e as próprias palavras.

O livro não é um relato técnico de psicologia, mas uma composição em que Jung quis aproximar esse conhecimento do leitor leigo. A edição, com mais de 500 ilustrações, surgiu depois de uma entrevista de Jung para a emissora britânica BBC, em 1959, que obteve considerável sucesso. Além de Jung, o livro traz textos de seus discípulos, procurando analisar também a repercussão dos símbolos nos mitos e na vida moderna, nas artes, no indivíduo e no tratamento psicoterápico.

O livro é também uma oportunidade para conhecer os princípios da abordagem de Jung, que tem, por exemplo, os conceitos de inconsciente coletivo e de arquétipos, ou seja, os modelos universais que residem na imaginação, como na atividade dos sonhos, que cria situações e personagens inusitados.

Jung terminou o livro dez dias antes de sua morte, em junho de 1961. A publicação original é de 1964. Inicialmente, o autor recusava a proposta do jornalista John Freeman para a obra, mas aceitou o convite depois que teve um sonho em que se viu explicando sua ciência para uma multidão de leigos.

Um dos pontos fundamentais do livro é o entendimento de que o símbolo se define por ter algo de inconsciente em seus significados. Na religião, por exemplo, há muitas referências às paixões “demoníacas” ocultas no ser humano, o que é uma forma simbólica de se referir ao inconsciente humano.

O Homem e seus Símbolos,

Carl Gustav Jung, tradução de Maria Lúcia Pinho, editora Nova Fronteira, RJ, 2005, 320 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.

Contos fantásticos do século 19

As fronteiras entre a literatura e as ciências que estudam a mente humana, como a psicologia e a psicanálise, são frágeis e difíceis de definir. Isso acontece por várias razões, mas uma delas é que essas áreas do conhecimento têm em comum seu objeto de estudo, que é a expressão do ser humano, principalmente de sua subjetividade, ditada pelos pensamentos mais proibidos e por outras manifestações que escapam da racionalidade da consciência e do padrão social de comportamento.

Calvino: histórias sobre os fantasmas do mundo interior

Assim, tanto no discurso da literatura quanto no da psicanálise encontramos uma disposição para tocar a natureza desumana do homem e investigar sua alma escondida. Essa ideia, por exemplo, moveu os escritores do século 19 a criarem as histórias fantásticas do movimento romântico, nas quais percepção e imaginação se fundem, permitindo vislumbrar fatos sobrenaturais que estão na realidade interior de cada um, como os fantasmas alimentados pelo medo.

Um panorama dessas histórias pode ser encontrado no livro ‘Contos fantásticos do século 19 – O fantástico visionário e o visionário cotidiano’, organizado pelo escritor Ítalo Calvino (1923-1985), que traz histórias de 26 escritores do período, entre eles, Honoré de Balzac, E.T.A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Théophile Gautier.

Além dos contos, o livro traz uma interessante introdução de Calvino, na qual ele aborda o conceito de conto fantástico. Cada história também apresenta uma nota introdutória do organizador sobre sua importância no contexto do Romantismo. Entre todos os contos, Calvino considera ‘O Homem de Areia’, de Hoffmann, o mais importante, que influenciou os demais escritores. “A descoberta do inconsciente ocorre precisamente aqui, na literatura romântica fantástica, quase cem anos antes que lhe seja dada uma definição teórica”, diz Calvino, referindo-se ao conceito de inconsciente, criado por Sigmund Freud na psicanálise, na virada para o século 20.

‘O Homem de Areia’ retrata as visões de Natanael, seu personagem central, que identifica no mundo real os elementos de sua imaginação, personificando o Homem de Areia em um advogado chamado Coppelius, que frequentava a casa de seus pais. O Homem de Areia é um personagem-mito da cultura europeia no século 19, que habitava histórias orais infantis e que foi uma matriz para outros personagens que assustavam as crianças. Os pais diziam que o tal homem arrancava os olhos de quem se recusasse a ir para a cama.

Imagens de terror invadem a mente

Neste trecho do conto ‘O Homem de Areia’ não há diferença entre o que é sonho e o que é realidade:

“Que venham os olhos, que venham os olhos!”, trovejou Coppelius com voz sepulcral. Não pude senão deixar escapar um grito de pavor e, saindo do esconderijo, caí no chão. Ele logo me agarrou. “Bestinha! Bestinha!”, rosnou, rilhando os dentes. E, erguendo-me, aproximou-me tanto do fogareiro que a chama começou a me chamuscar o cabelo: “Agora, sim, nós temos olhos, olhos, um belo par de olhos de menino”, sussurrou, e, pondo as mãos no fogo, pegou um punhado de brasas para jogá-lo em meus olhos.

 

Contos fantásticos do século 19 – O fantástico visionário e o visionário cotidiano,

Organização de Ítalo Calvino, Companhia das Letras, 2004, SP, 520 págs.

Foto: Jerry Bauer/Divulgação