Cangaceiros em defesa de sua missão ética

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Lampião (à esq.) e Esperança são fotografados com indumentária e mosquetões em Juazeiro

Na época do cangaço no Nordeste, no começo do século passado, roubar gado era crime mais grave do que matar uma pessoa. Por volta dos anos 20, esse era um valor vigente no sertão porque a pecuária era a única riqueza naquelas terras, marcadas pela seca e pelo isolamento econômico e cultural.

Assim como os valores, outros traços e características se encontraram no homem do sertão a ponto de ser difícil afirmar que o cangaceiro se define exclusivamente por um fator, entre o desejo de vingança, a vocação para a “profissão”, ou a possibilidade de fugir ou se proteger da Justiça ante um crime praticado.

A investigação do universo do cangaceiro, em profundidade histórica, social, econômica e cultural, está nas páginas de ‘Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil’, do historiador Frederico Pernambucano de Mello, que conta com nova reedição. A obra original é de 1984 e o prefácio à primeira edição é assinado por Gilberto Freyre (1900-1987), com quem Mello trabalhou.

Com pesquisa de caráter multidisciplinar, Mello vai além de teses ortodoxas ou ideológicas sobre o tema, como a definição de que o cangaceiro era resposta à exploração dos trabalhadores pelos latifundiários. Não só há outras realidades que se mostram, como existe uma dinâmica na linguagem que o cangaceiro usa para justificar seus atos e se inscrever no universo social do sertão com uma imagem lendária e sedutora.

O historiador chama essa forma de representar do cangaceiro de “escudo ético”, uma espécie de moral da vingança para restabelecer a honra: “A necessidade de justificar-se aos próprios olhos e aos de terceiros levava o cangaceiro a assoalhar seu desejo de vingança, a sua missão pretensamente ética, a verdadeira obrigação de fazer correr o sangue dos seus ofensores”, afirma.

Essa fala comum, no entanto, muitas vezes não se traduz em violência, como conta o historiador sobre Lampião, que não só não vingou a morte do pai e questões sobre gado, como propôs um acordo de paz com um de seus desafetos. Mello esmiúça assim as contradições do cangaço: o que está em jogo nessa linguagem é a vaidade do cangaceiro, alguém que Mello compreende como “individualista, sobranceiro, autônomo, desacostumado a prestar contas de seus atos, influenciado pelos exemplos de bravura dos cavaleiros medievais”.

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Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil,

Frederico Pernambucano de Mello, editora A Girafa, SP, 2011, SP, 519 págs.

Foto: Lauro Cabral de Oliveira

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Leitor prefere autores que discutem a alma brasileira

A coluna e o blog Livros & Ideias completam um ano amanhã, 12 de abril. Nesse período, foram publicados no Metrô News, na Folha Metropolitana e na internet 56 artigos, com o compromisso sempre de indicar ao leitor um bom livro, não importando se o título é lançamento ou não, já que atualmente com os sebos virtuais e com o livro eletrônico, o e-book, é possível encontrar praticamente qualquer obra editada.

Gilberto Freyre é o mais lido do blog em um ano

Dos artigos publicados, 60% são de autores brasileiros e o restante, de estrangeiros. Essa divisão não chegou a ser planejada, mas procura espelhar a tendência do leitor, que prefere as obras da literatura brasileira e, mais do que isso, aprecia o trabalho de escritores que investigam e discutem a questão das identidades culturais, ou da alma do brasileiro.

‘O que é ser brasileiro?’, portanto, é uma pergunta que chama a atenção do leitor atualmente, ainda que essa questão seja pouco discutida fora do circuito da mídia alternativa, do cinema e da literatura. Os escritores Gilberto Freyre, Lima Barreto, Câmara Cascudo, João Antônio e Frederico Pernambucano de Mello concentram 22% das leituras do blog em um ano. São autores que, cada um a seu modo, tentam desvendar a identidade, a maneira de ser de um povo que tem múltiplas faces e máscaras na cultura.

No topo da preferência do leitor, com 7% das consultas no ano, Gilberto Freyre mostra com ‘Casa Grande & Senzala’ (Global Editora, 727 págs.) que sua obra ocupa cabeceiras, vai e volta ao interesse do leitor porque é um livro feito de muitos livros – as páginas sobre a culinária, por exemplo, são um inventário sobre as nossas tradições mais arraigadas. “Na tapioca de coco, chamada molhada, estendida em folha de bananeira africana, polvilhada de canela, temperada com sal, sente-se o amálgama verdadeiramente brasileiro das tradições culinárias…”, escreve.

Para ler Gilberto Freyre, é importante perceber que ele conta a história da colonização do ponto de vista do engenho, do senhor do engenho. Outro viés conservador está no mito da democracia racial, que encobre a violência e os conflitos que marcaram a nossa história. Esse mito, no entanto, é ao mesmo tempo um resgate do orgulho de ser brasileiro e essa ambigüidade entre as coisas acaba proporcionando uma riqueza de significações à obra.

Lima Barreto é o mais lido em 30 dias

Já nas estatísticas do blog nos últimos 30 dias, desponta o escritor Lima Barreto como o mais lido, com 15% das consultas. No mercado, Lima Barreto passa por um momento de revalorização graças ao relançamento de duas de suas obras – ‘Diário do Hospício’ e ‘Cemitério dos vivos’ – e também de livros de comentaristas. A obra do escritor, em formato digital, pode ser consultada no site Domínio Público, do Ministério da Educação: http://www.dominiopublico.gov.br/.

Foto: Divulgação

A Proposição 19 e a opinião de escritores sobre a maconha

Uma lei que será votada no dia 2 de novembro na Califórnia (EUA), conhecida como Proposição 19, poderá mudar o debate e as políticas de combate às drogas. Se a maconha for descriminalizada, os californianos poderão portar até 31 gramas da erva para consumo próprio e cultivar a planta em área de até 2,3 metros quadrados. Atualmente, o uso medicinal da maconha é permitido em 14 estados americanos.

A Proposição 19 também prevê que as cidades autorizem o cultivo e a venda. Segundo o jornal Los Angeles Times, Oakland é um dos municípios que já se mostra favorável a adotar a lei, caso aprovada. A cidade também sinalizou que pode aprovar o projeto de uma ‘fábrica’ de maconha, que teria 5,5 mil metros quadrados para abrigar 30 mil plantas, com receita de 50 milhões de dólares por ano.

O ‘business’ é um argumento que costuma convencer os norte-americanos. Eles estimam que essa lei possa alavancar a arrecadação de 1,4 bilhão de dólares para demandas do setor público. Mas, no caso da maconha, o dinheiro não é tudo. Pesquisas de opinião mostram a população dividida. Outro fator que causa expectativa é que especialistas na questão das drogas não sabem prever os efeitos da eventual aprovação da lei no tráfico e na criminalidade, sobretudo na fronteira com o México.

Enquanto a lei não é votada, vale conferir o que três escritores dizem sobre a maconha, em épocas diferentes:

Gilberto Freyre, em ‘Casa Grande & Senzala’ (1933) – “Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música ainda nos ouvidos… Alguns consumidores da planta, hoje cultivada em várias partes do Brasil, atribuem-lhe virtudes místicas; fuma-se ou ‘queima-se a planta’ com certas intenções, boas ou más. Segundo Querino, o Dr. J.R. da Costa Dória atribui-lhe também qualidade afrodisíaca. Entre barcaceiros e pescadores de Alagoas e Pernambuco verificamos que é grande ainda o uso da maconha”.

João Antônio Ferreira Filho, em ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’ (1963) – “Jogava que jogava Caloi. Osso duro de roer. Deu trabalho a muitos tacos, era um artista, era um cérebro, um atirador. Mas deu também para mulheres e sua mão começava a tremer no instante das tacadas. Foi indo, indo, tropicando. Quando deu fé parecia um galo cego que perdeu o tino. Deu, então, para a maconha e uma feita ficou célebre – vez que um pixote lhe tomou quinze contos num dia de carnaval lá na Rua Barão de Paranapiacaba. Aquilo o encabulou, arruinou o seu juízo de jogador. A maconha desfez o homem, lhe apodreceu o cérebro e Caloi acabou falando sozinho, feito tan-tan de muita zonzeira lá num pavilhão do Juquerí”.

Maria Rita Kehl, em ‘O tempo e o cão’ (2009) – “De todas as experiências subjetivas que a história deixou para trás, talvez a mais perdida, para o sujeito contemporâneo, seja a do abandono da mente à lenta passagem das horas: tempo do devaneio, do ócio prazeroso, dedicado a contar e rememorar histórias. Uma experiência que os jovens buscam recuperar através do uso de certas drogas não-excitantes como a maconha, que fumam sozinhos ou em grupos – nesse caso, a troca de experiência ajuda a atenuar a angústia ante o retorno da temporalidade recalcada”.

Historiador revela ‘a fala’ dos objetos dos cangaceiros

Em busca dos significados do discurso silencioso dos objetos – roupas, armas e utensílios – que pertenceram aos cangaceiros do Nordeste nos anos 20 e 30, o historiador Frederico Pernambucano de Mello, que atuou na equipe do sociólogo Gilberto Freyre, na Fundação Joaquim Nabuco, começou em 1997 uma pesquisa que culminou no livro Estrelas de couro – a estética do cangaço (editora Escrituras), lançado na última quinta-feira em Recife (PE).

Subgrupo do cangaceiro Pancada na rendição à volante, em 1938: cada peça do vestuário tinha desenho exclusivo

O livro completa uma trilogia sobre o cangaço ao lado dos títulos Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil (1985) e Quem foi Lampião (1993), esta uma biografia do líder maior dos insurgentes do sertão, Virgulino Ferreira.

Com mais de 300 fotos históricas e de objetos, o livro é um trabalho de pesquisa interdisciplinar que busca desvendar a simbologia do imaginário do cangaceiro, que desde os anos 20 passou a compor um universo heróico popular no Brasil. Até hoje, as histórias inspiram escritores, diretores de cinema e produções de TV.

O autor possui o maior acervo de pertences pessoais dos cangaceiros, com 160 peças. A produção do livro também recebeu contribuições de imagens de diversas instituições de pesquisa. A primeira mostra da coleção que resultou no livro foi feita na Bienal de Arte de São Paulo, de 2000.

No prefácio, o escritor Ariano Suassuna assinala que o cangaço é uma expressão social e cultural que começou a ser compreendida com mais profundidade em 1973, quando um escritor pernambucano chamado Maximiano de Campos publicou o romance Sem lei nem rei. Esse título remete o cangaço às origens da história do país, quando os colonizadores destacavam seu encantamento com a possibilidade de viver em “estado de natureza”, como os índios que aqui encontraram.

Esse estado, no entanto, logo se revela como espírito de insurgência, de rebeldia, frente à sanha do colonizador de mercantilizar tudo o que havia nas terras sem poupar da violência o ser humano e a natureza. Foi assim que muitos índios e escravos se rebelaram, fundando estados paralelos, como as nações quilombolas e a revolta de Canudos, na Bahia. A tradição dessa rebeldia se coloca atualmente na violência urbana, sobretudo nas vertentes do crime organizado.

Bornais eram confeccionados à mão: cangaceiros lutavam e costuravam

O trabalho de pesquisa de Mello contribui para que se compreenda o caráter duplo da psicologia do personagem épico do cangaceiro, que é expressa ao mesmo tempo por um ‘orgulho de si mesmo’ e um ‘escudo ético’, que o faz ser leal ao seu grupo de modo exagerado. Para Suassuna, a teoria de Mello “foi a única que explicou a mim próprio os sentimentos contraditórios de admiração e repulsa que sinto diante dos cangaceiros”.

Blindagem mística e anseio estético

Os trajes e equipamentos dos cangaceiros têm uma estética afetada por um sistema de significados que busca dar proteção ante a morte, já que ela é tão evidente em seu dia a dia. “Por conta da natureza mágica de muitos desses signos e da profusão de seu emprego disseminado por todos os ângulos da vestimenta, pode-se ter como comprovadas as palavras de velhos cangaceiros ao expressar, de modo compreensivelmente difuso – não há exatidão de confissões do tipo – alguma coisa que traduziríamos como blindagem mística, a dividir atenção com o puro anseio estético”, afirma Mello.

Um dos objetos que expressa bem essa procura de blindagem é o ‘caborje’, um saquinho com uma oração escrita, amuleto ou patuá que o cangaceiro mantém no lenço encardido amarrado ao pescoço.

Os objetos básicos dos cangaceiros são chapéu, bornal, cartucheira, talabarte (cinturão), coldre, perneira, luva, cantil, alpercata e as armas. Essa vestimenta compõe o que Mello chama de “imagem síntese”, celebrando a duplicidade de que fala Suassuna, um espírito que é voltado para o religioso e o profano ao mesmo tempo.

As roupas e objetos dos cangaceiros são expressão de arte no corpo. A linguagem dessa vestimenta tem claras ligações com a história. No período da colonização, os escravos também usavam o corpo como suporte para suas criações – a capoeira, entre elas – já que o corpo era seu único instrumento de defesa perante a violência do colonizador.

Estrelas de couro – a estética do cangaço,

Frederico Pernambucano de Mello, editora Escrituras, SP, 2010, 253 págs.