A “Liga” de Lima Barreto

1930 – Primeira Copa do Mundo foi realizada no Uruguai

1930 – Primeira Copa do Mundo foi realizada no Uruguai (Foto: Divulgação)

Depois da partida entre Brasil e Croácia, e do grotesco espetáculo de xingamento da presidente Dilma em coro que partiu da área VIP na Arena Corinthians, usei a energia da decepção com o público que estava nos estádio para ler um pouco de Lima Barreto (1881-1922).

O cronista carioca era crítico ácido do futebol. Em vários momentos, sua obra é permeada pela resistência ao esporte, mas desde os primórdios no País o futebol contaminou o noticiário e as conversas em eventos sociais, tornando-se verdadeiro entretenimento popular.

Encontrei no livro Marginália (disponível para cópia no site Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br) crônicas divulgadas em periódicos do Rio de Janeiro no início dos anos 1920. Em um artigo intitulado “Como resposta”, publicado na então revista Careta, Lima Barreto fala dos motivos que o levaram a fundar a “Liga Brasileira Contra o Futebol”, iniciativa que fracassou pelo seu aspecto quixotesco e pela falta de recursos em um momento em que o esporte já contava com apoio unânime da população, das elites e de “incentivos” de governantes.

O que causa surpresa no texto de Lima Barreto é a sua atualidade, principalmente quanto aos vícios do futebol, como a atitude preconceituosa dentro dos estádios, que ele já observava naquela época e que persiste hoje, mais vivo do que nunca.

Quando fala dos motivos que o levaram a criar a tal Liga, o escritor afirma: “O que me moveu, a mim e ao falecido Dr. Mário Valverde, a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade, de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade”, afirma, em referência ao Rio de Janeiro.

Hoje seria insano combater o futebol com a mesma veemência de Lima Barreto, mas a atitude do torcedor no Itaquerão não deixa dúvida de que, em parte, o escritor continua tendo razão. A Copa poderia ser um espetáculo de integração, convivência com diferenças e tolerância. Mas, em vez disso, torna-se palco para expressar a ira um governo eleito democraticamente.

Lima Barreto com certeza poderia pensar em refundar a Liga, acaso estivesse vivo hoje; aliás, a Liga existe sim, como uma página perdida no Facebook, com meros 28 curtidores e escasso conteúdo. “Concebida por Lima Barreto, a Liga anunciava-se finda em 1922. Noventa anos após, levanta-se ressurrecta, animada pelo espírito crítico de seu fundador”, avisa o organizador da página, na qual destaca também o texto “O nosso esporte”, em que Lima Barreto ataca as subvenções ao esporte, tão presentes naquele tempo quanto hoje. Tais críticas permitem notar que, sob alguns aspectos, o futebol permanece parado no tempo.

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País dos Bruzundangas

Lima Barreto – Crítica ácida aos valores da República Velha (foto: divulgação)

Lima Barreto – Crítica ácida aos valores da República Velha (foto: divulgação)

Mestre em sátiras, o escritor Lima Barreto (1881-1922) apresenta na coletânea de crônicas ‘Os Bruzundangas’ uma crítica ácida e ferina à sociedade do início do século 20, período politicamente conhecido como República Velha.

O livro, que pode ser copiado sem custo no site Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br), descreve a cultura, costumes e valores de um lugar fictício, os Estados Unidos da Bruzundanga, que sem dificuldade o leitor descobre tratar-se do Brasil. “O país, no dizer de todos, é rico, tem todos os minerais, todos os vegetais úteis, todas as condições de riqueza, mas vive na miséria”, afirma Lima Barreto no quarto capítulo, quando trata da política e dos políticos do país fictício.

Como visitante que descreve uma terra estrangeira, Lima Barreto organizou o livro de acordo com os aspectos que regem a vida da aparentemente hipotética sociedade: literatura, economia, política, educação, diplomacia, eleições, religião e heróis, entre outros, formam os ângulos sob os quais o cronista observa o tal país em cada narrativa, trazendo à tona seus valores, contradições e personagens emblemáticos.

Mas nada escapa à hipocrisia, ao oportunismo, ao nepotismo ou ao desejo de perpetuar privilégios dos Bruzundangas. A riqueza literária da sátira de Lima Barreto está não apenas em formar com distanciamento um retrato ácido e irônico de uma determinada época da sociedade, mas em desafiar o próprio gênero literário da crônica.

Os dicionários definem crônica como uma narrativa ligada ao tempo presente, algo que é publicado em jornais e rapidamente fica velho, desatualizado. Mas não a crônica de Lima Barreto, que em muitos momentos se mostra como se ainda estivesse espelhando o Brasil, como neste trecho em que o autor espeta os candidatos em eleições: “Os seus eleitores não sabem quem ele é, quais são os seus talentos, as suas idéias políticas, as suas vistas sociais, o grau de interesse que ele pode ter pela causa pública; é um puro nome sem nada atrás ou dentro dele”.

Esse pequeno retrato parece que ainda hoje se presta ao que acontece, sobretudo em eleições legislativas, em que os candidatos são meras imagens, impressas em santinhos ou de fala rápida na TV, sem conteúdo detalhado, apelando pelo voto com sua beleza, carisma ou frases prontas e nada mais.

Nos últimos anos, desde a eleição de Lula, o Brasil começou a mudar em relação a suas raízes históricas, principalmente porque hoje existe um pouco de distribuição de renda frente à miséria que era mantida por governos autoritários e conservadores. Isso, no entanto, não alterou parte das nossas vocações com raízes históricas, como a vocação para a falsa nobreza, ou a nobreza de aparência, que hoje é tão cara às classes que ainda se pautam por privilégios e preconceitos.

Moradia versus burocracia

Lima Barreto explorou a psicologia do funcionário público

Lima Barreto explorou a psicologia do funcionário público

Bianca leu a notícia no site da Agência Brasil: “Estado e prefeitura de SP lançam programa para criar 20 mil moradias no centro da cidade”. Dizia a notícia: “Os beneficiados deverão ser trabalhadores do centro da capital paulista, que não têm imóveis em seu nome.”

“Opa, tá pra mim”, pensou Bianca, técnica em segurança do trabalho, que mora de aluguel em Interlagos e trabalha em Santa Cecília. Em dias normais, o que quer dizer “com trânsito pesado”, ela gasta três horas para ir e voltar. Tem dia em que ela vai com seu carrinho, que comprou financiado, mas chega a demorar mais do que a opção de trem da CPTM com baldeação para metrô linha amarela e depois vermelha.

Bianca já tinha cadastro na Cohab, a companhia habitacional da prefeitura. Ligou para o número 156 para perguntar do tal programa, anunciado pelo prefeito e pelo governador. Mas disseram que era bom ela fazer cadastro na CDHU, a companhia habitacional do Estado. Agora Bianca se confunde com as siglas e diz para a vizinha, dona Rosária, que já tem cadastro na CDHU, a companhia habitacional da prefeitura.

Bianca visitou o portal da prefeitura e mandou um e-mail para o setor de comunicação, que mandou um e-mail para a Secretaria de Habitação, a Sehab, e mais uma sigla entrou em sua vida. O setor de comunicação dizia: “Segue e-mail do munícipe para análise e demais providências que acharem necessárias”.

Bianca esperou. A Sehab nada disse; com certeza, achou que não era necessário tomar qualquer providência. Bianca então ligou de novo para o serviço 156. Mas a moça que atendeu desta vez nem se mexeu: “Sinto muito, senhora, mas não possuo informações sobre esse assunto” e sugeriu que encaminhasse um e-mail para procentro@prefeitura.sp.gov.br, ou ligasse para 3241-2440 ou 3241-4359 para “talvez” obter informações.

Bianca então pensou na burocracia no poder público. Buscou o assunto na internet e descobriu raízes profundas. No site Brasilianas, da USP, que mantém um arquivo digital com cerca de 3 mil obras de importância histórica, encontrou ‘Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá’, romance de Lima Barreto, de 1919, que relata a amizade de dois funcionários públicos e revela a maneira de ser dos burocratas do povo, que adotam posturas patrimonialistas, pois acham que são proprietários de feudos dentro dos órgãos públicos, e gostam de manter relações de favor.

Bianca começou a ler o romance, mas não desistiu do sonho de moradia. Mandou o tal do e-mail para ‘procentro arroba…’, esperou e recebeu cópia de um e-mail dirigido à Sehab, falando de novo nas tais providências. Bianca espera agora encontrar nova alternativa, pois já não tem para onde correr nessa história em que, aliás, qualquer semelhança entre nomes e fatos não é mera coincidência.

Lima Barreto - capa gonzagaVida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá,
Lima Barreto, Edição da Revista do Brasil, SP, 1919, 213 págs.

Onde Encontrar: www.brasiliana.usp.br

Foto: Divulgação

O ideário vivo do Major Quaresma

Os dez anos de cotas raciais nas universidades e os estudantes já formados, trabalhando como médicos, advogados e tantas outras profissões, são uma chama que mantém vivo o espírito do Major Quaresma, protagonista do mais famoso romance de Lima Barreto (1881-1922), presença obrigatória nas aulas de literatura e em vestibulares.

A conexão entre política de cotas e o romance ‘O Triste Fim de Policarpo Quaresma’ é inevitável porque o Major é alguém que dedica sua vida ao exercício de um amor à pátria, sonhando com um país solidário, que seria inclusivo e receptivo às diferenças, como mostram querer os governos do Brasil e de outros países da América do Sul atualmente.

O romance está disponível para cópia, sem custo, no site Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação. Aliás, toda a bibliografia de Lima Barreto pode ser acessada nessa página, que reúne 31 títulos, entre eles, ícones da produção do escritor pré-modernista, como ‘O Cemitério dos Vivos’, ‘Os Bruzundangas’ e ‘Numa e Ninfa’.

Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)

Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)

A utopia de Quaresma, de buscar um país socialmente justo e com identidade nacional, é algo que no romance se mostra inviável. Em seu afã ufanista, Quaresma vai ao parlamento pedir que o Brasil adote o tupi como língua oficial, e a partir daí segue uma saga patética e quixotesca, que pouco a pouco o leva ao isolamento. O romance é de 1911, e seu contexto histórico se situa no segundo governo republicano, de Floriano Peixoto, que presidiu o País de 1891 a 1894.

Praticamente todo o esforço de Quaresma consistia em viver de um modo brasileiro, em um país que tentava se modernizar com valores importados, e era conduzido com mão de ferro, apesar da mudança política.

Do ponto de vista da literatura, a abordagem da identidade nacional desenhada por Barreto soa como resposta à identidade forjada e idealizada pelos escritores do período romântico, como José de Alencar (1829-1877), que sustentavam o mito da convivência pacífica na formação da nossa sociedade.

Quaresma, ao contrário, vislumbrava a construção de uma identidade nacional ao lado dos excluídos e marginalizados, o que significava remar contra a maré, contra os interesses das oligarquias que dominavam o País e sufocavam o desejo de distribuição de riqueza.

Depois de ler o romance, vale também ver no You Tube o filme ‘Policarpo Quaresma, Herói do Brasil’, de 1998, dirigido por Paulo Thiago, com base no romance de Lima Barreto. Uma cena que marca o filme é um diálogo entre Quaresma e Floriano, no qual o herói defende a educação como um caminho para a construção do País, algo que o presidente mostra não fazer sentido naquele momento.  Hoje, no entanto, essa retórica de Quaresma se revela um tanto quanto atual.

O Triste Fim de Policarpo Quaresma,

Lima Barreto, Fundação Biblioteca Nacional, RJ, 104 págs.

Onde encontrar: http://www.dominiopublico.gov.br

Um desafio literário com a bola no pé

Mauro Rosso é escritor e pesquisador de literatura brasileira

O futebol é amplamente identificado com a cultura brasileira, mas isso nem sempre foi assim. Nos primeiros tempos do esporte bretão, no início do século passado, havia uma intensa polêmica contra e a favor à sua prática, que mobilizava escritores e intelectuais.

Dois expoentes dessa discussão foram o carioca Lima Barreto (1881-1922) e o maranhense Coelho Neto (1864-1934), cada um em uma extremidade da briga no cenário do Rio de Janeiro.

A história desse relacionamento pouco amigável pode ser conferida no livro ‘Lima Barreto versus Coelho Neto, um Fla-Flu literário’, do escritor, pesquisador e professor de literatura Mauro Rosso, que reúne textos dos autores entremeados por seus comentários.

Enquanto Barreto atacava com ironia o esporte, denunciando sua prática elitista, vedada aos negros e pobres, Coelho Neto tornou-se porta-voz do futebol, desempenhando papel de entusiasta entre os cartolas do Fluminense, um dos primeiros clubes do País.

Mas não é só futebol que está em questão, visto que os desafiantes pertencem a correntes literárias diferentes. Enquanto Barreto exerce uma literatura social, recheada de ironia, crítica e de características pré-modernistas, como as expressões da linguagem popular em seu texto, Coelho Neto é parnasiano – um prolixo e enfadonho escritor, mais preocupado com o efeito sonoro das palavras do que em espelhar na linguagem a angústia, a realidade humanas, enfim, temas próximos dos escritores.

O livro de Rosso, originalmente uma dissertação na universidade, é assim um delicioso embate literário e futebolístico que contempla o leitor que também tem interesse em história da crônica e do jornalismo.

Lima Barreto esgrimia sua pena em revistas e jornais, sobretudo nos que estavam identificados com a imprensa alternativa. Um dos alvos prediletos de Barreto era a violência no campo e com as torcidas, algo pouco diferente do que é hoje.

Já Coelho Neto gozava de reputação social com a grande imprensa. O aspecto curioso, do ponto de vista do julgamento da história, é que Barreto, apesar de equivocado quanto ao futebol, está eternizado em sua obra, enquanto o outro ficou esquecido.

O futebol no Brasil foi divulgado graças aos ingleses que moravam no Rio de Janeiro e em São Paulo. As correntes predominantes de pensamento na época passavam pela eugenia, ou seja, acreditava-se que era possível produzir uma ‘raça pura’, saudável, que pudesse colocar sob esquecimento nossas raízes oriundas dos conflitos sociais desde a colonização.

O início do século 20 assistiu assim a um boom de clubes e de culto ao esporte, que os governos prontamente instrumentalizaram. As partidas importantes eram custeadas com dinheiro público, segundo as suspeitas de Lima Barreto, enquanto Coelho Neto defendia o futebol como uma prática cívica, e usava seu discurso para revestir as ações da então elite esportiva.

Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla-Flu literário,

Mauro Rosso, editora Difel, Rio de Janeiro, 2010, 239 págs.

Foto: Divulgação

Leitor prefere autores que discutem a alma brasileira

A coluna e o blog Livros & Ideias completam um ano amanhã, 12 de abril. Nesse período, foram publicados no Metrô News, na Folha Metropolitana e na internet 56 artigos, com o compromisso sempre de indicar ao leitor um bom livro, não importando se o título é lançamento ou não, já que atualmente com os sebos virtuais e com o livro eletrônico, o e-book, é possível encontrar praticamente qualquer obra editada.

Gilberto Freyre é o mais lido do blog em um ano

Dos artigos publicados, 60% são de autores brasileiros e o restante, de estrangeiros. Essa divisão não chegou a ser planejada, mas procura espelhar a tendência do leitor, que prefere as obras da literatura brasileira e, mais do que isso, aprecia o trabalho de escritores que investigam e discutem a questão das identidades culturais, ou da alma do brasileiro.

‘O que é ser brasileiro?’, portanto, é uma pergunta que chama a atenção do leitor atualmente, ainda que essa questão seja pouco discutida fora do circuito da mídia alternativa, do cinema e da literatura. Os escritores Gilberto Freyre, Lima Barreto, Câmara Cascudo, João Antônio e Frederico Pernambucano de Mello concentram 22% das leituras do blog em um ano. São autores que, cada um a seu modo, tentam desvendar a identidade, a maneira de ser de um povo que tem múltiplas faces e máscaras na cultura.

No topo da preferência do leitor, com 7% das consultas no ano, Gilberto Freyre mostra com ‘Casa Grande & Senzala’ (Global Editora, 727 págs.) que sua obra ocupa cabeceiras, vai e volta ao interesse do leitor porque é um livro feito de muitos livros – as páginas sobre a culinária, por exemplo, são um inventário sobre as nossas tradições mais arraigadas. “Na tapioca de coco, chamada molhada, estendida em folha de bananeira africana, polvilhada de canela, temperada com sal, sente-se o amálgama verdadeiramente brasileiro das tradições culinárias…”, escreve.

Para ler Gilberto Freyre, é importante perceber que ele conta a história da colonização do ponto de vista do engenho, do senhor do engenho. Outro viés conservador está no mito da democracia racial, que encobre a violência e os conflitos que marcaram a nossa história. Esse mito, no entanto, é ao mesmo tempo um resgate do orgulho de ser brasileiro e essa ambigüidade entre as coisas acaba proporcionando uma riqueza de significações à obra.

Lima Barreto é o mais lido em 30 dias

Já nas estatísticas do blog nos últimos 30 dias, desponta o escritor Lima Barreto como o mais lido, com 15% das consultas. No mercado, Lima Barreto passa por um momento de revalorização graças ao relançamento de duas de suas obras – ‘Diário do Hospício’ e ‘Cemitério dos vivos’ – e também de livros de comentaristas. A obra do escritor, em formato digital, pode ser consultada no site Domínio Público, do Ministério da Educação: http://www.dominiopublico.gov.br/.

Foto: Divulgação

Com a pena de Lima Barreto, conversa de boteco ganha peso literário

Lima Barreto foi crítico sagaz da sociedade carioca

Quem acha que conversa de bar não pode ser literatura está redondamente enganado. Um dos contos clássicos da literatura brasileira – ‘O homem que sabia javanês’, de Lima Barreto (1881-1922) – é justamente um conversa em uma confeitaria, no início do século 20 no Rio de Janeiro, que se desenrola a base de cerveja.

É claro que há infinitos exemplos de conversa de boteco nas letras, mas esse conto é tributário da filosofia da malandragem nas artes. Com ele, o escritor e jornalista, que era crítico sagaz da sociedade carioca, esgrima com seu talento no gênero ‘picaresco’: histórias de malandragem, cujas raízes culturais remontam ao Renascimento e que no Brasil criaram um rico caldo de cultura.

Em um texto chamado ‘Dialética da Malandragem’, o crítico Antonio Candido observa que a história picaresca, em geral, é contada em primeira pessoa para que a realidade seja observada do ponto de vista do malandro-narrador. Outro aspecto é que esse personagem tem origem humilde e segue a vida ao sabor dos fatos, aprendendo com eles, mas sem se amarrar a conteúdos psicológicos.

No conto de Lima Barreto, o narrador inventa que sabe a língua malaio-polinésia para se passar por professor de um barão rico e pão duro que tem um livro em javanês, herança de seu avô, e quer cumprir um juramento de família, aprendendo o seu conteúdo. A investida do falso professor ganha assim o contorno de uma mentira em defesa da sobrevivência, como tantas vezes acontece na vida cotidiana.

Escritores recriam o malandro

O leitor encontrará inúmeras edições desse conto, antigas e recentes. Mas uma delas chama a atenção e só pode ser adquirida em sebos ou sob encomenda. Trata-se da edição da Editora Atual, que faz parte da coleção ‘Outras Palavras’. O livro traz contos de outros escritores, feitos a partir de ‘O homem que sabia javanês’. Esse exercício mostra quantas boas histórias podem ser feitas a partir de uma mesma ideia.

Os companheiros de Lima Barreto são Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio. Todas são histórias primorosas, e uma delas é hilária. O conto do mineiro Antonio Barreto é uma conversa de amigos no bar que explora a significação das palavras – como a diferença entre ‘conde’ e ‘visconde’, por exemplo – evidenciando os momentos de celebração, em que as palavras são puro artifício de prazer.

O homem que sabia javanês,

Lima Barreto, Lourenço Cazarré, Antonio Barreto, Elias José e João Antônio, Editora Atual, Coleção Outras Palavras, SP, 1995, 76 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br.