À procura de carne de rã

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Por Marina Moura

A princípio pensei que fosse banda punk ou coletivo feminista. Andando pelas ruas do Rio, o olhar que não consegue ficar sem catar letras nas paredes para decifrar, eis que vejo pelo menos pela 36ª vez o tal do anúncio de “carne de rã”, seguido de um número de telefone.

Embora pudesse me esconder atrás de prerrogativas jornalísticas, registrando informações “isentamente”, “narrando apenas pelo registro”, achei perigoso falar, de cara, sobre algo cuja origem desconhecia. Em tempos de cólera, melhor se precaver.

Afinal, a rendição. Perguntei pro Google o que poderiam ser aqueles atípicos anúncios de carne de rã. Deparei-me com curiosa matéria a respeito. Embora não esclarecesse definitivamente a origem do anúncio, a jornalista relata sua busca de três dias pela matriz de toda coisa, quando ela finalmente conseguiu falar com uma mulher que dizia ser de um ranário do interior que vendia rãs a R$ 60 o quilo, com entrega na Lapa.

Apesar de não saber o local do ranário, o que levanta suspeitas sobre sua existência, a mulher assumiu à jornalista que as vendas aumentaram substancialmente depois do surgimento dos anúncios de carne de rã pelas ruas do Rio.

Inconclusas conclusões

– Continuo achando que o Carne de Rã possa ser coletivo feminista ou serviço delivery de substâncias ilícitas – irônica, ousada e deslavada forma de anunciar venda de tóxicos nos muros, calçamentos e tetos nas proximidades das instituições governamentais da rua Primeiro de Março;

– A carne da rã está cara. Para quem acredita que a de frango é igual à da rã, sugiro continuar com a de frango, quem sabe até com os pés. Dizem que são nutritivos;

– Se quem produziu os anúncios de fato é criador e vendedor de carne de rã, a empresa devia estar no topo do ranking das melhores ações de marketing do ano;

– A matéria da jornalista, alertou uma amiga, é de 2014. Mas o anúncio é tão bom, literalmente “chiclete”, que perdura até este 2018, justificando meu olhar para as demais rãs da cidade e as observações que moveram esta croniqueta.

O girassol é sempre doce quando bate n’água

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Por Marina Moura

A escrita de repente ficou muda, mas deve ser porque há tanto grito dentro de mim.
A língua não sabe falar objetivamente o que toca nas cordas invisíveis dessa pele sensível que gostamos de chamar de alma.
Música desesperada. Música aflita ou muito calma. 
Cabem em mim todas as melodias desde que estremeçam, causando rupturas e dilacerações controláveis.
O meu exagero é uma espécie de muitos gerúndios:
Ando tendo fazendo tresloucando.
E ainda assim me invade violenta fúria.

( O que me move? )
( Remove )
( Lo (u) co )
( Move )
( Co move? )

Os parênteses que cortam minha história do começo ao fim
São incontáveis como as partículas de cor
Que formam os arcos
Que invadem as íris

Sou um grande trocadilho de mim.

Penso que os poetas são arquitetos secretos da linguagem, da vida e das coisas de esferas profundas e absolutas.

Provocam males secretos. Furtos secretos. Gozos secretos.

E todo mundo queria viver a vida do poeta sem viver sua aflição.

A tendência das pessoas normais é secar as lágrimas com lenços de seda.

O poeta as seca com areia, deixa o vento bater e leva a mão à face.
Acompanha o esfarelamento do choro, traz a água porosa à boca, mistura com a saliva e engole, pensando em naufragar no mar enquanto tocam os batuques e entoam-se cantos pra ela, Yemanjá, tornar doce o caldo da vida do poeta.

Ilustração: Pixabay

Não julgai os que botam a mão na massa

oleiroPor Marina Moura*

À exceção dos que colocam a mão numa massa chamada “dinheiro alheio”, não julgai os erros daqueles que são da ação, que fazem. Quem lava pratos um dia os quebra, quem usa carro um dia o bate ou o tem batido, quem manuseia afiadas lâminas um dia se corta. O destino do poeta é, um dia, ser chantageado pelas próprias palavras. Quem trabalha, quem faz, erra. E não errar é inumano, sentença inversamente proporcional ao dito.

Os que apenas mandam ou coordenam e depois julgam com ferocidade o desvio do operador, que não compreendeu seus desejos, não merecem o reino dos céus. Folgados, bufões. Valem-se da execução do outro e empacam tal mulas em sua preguiça mandona. Se bem-feito, bem, obra e louros do mandante. Se não saiu como o esperado: cortem a cabeça! Do operador, é claro.

Mas não generalizemos. O bom chefe, ao contrário do explorador, é aquele que, se agora não faz, já fez, e por isso sabe demandar. “Assina” as ações junto do operador de sua ideia, é coautor. Este sim, verdadeiro professor, passa conhecimento adiante e merece reconhecimento – que sua existência seja perpetuada e prolifere!

Massa: todos poderiam botar as mãos nela. O processo do fazer, talvez, seja mais admirável e prazeroso do que a realização, que é a coisa pronta, sem revelação de seu interior e da artesania que levou à materialização.

Age quod agis

O dicionário explica que esta expressão é utilizada para designar “alguém que se deixa distrair por algo estranho à sua ocupação”, quando deveria prestar mais atenção ao que faz.

Mas ora, se a distração é a alegria do viver, como e por que pouparmo-nos? Deixar de olhar os hábitos das pessoas, as cores e os cheiros da cidade, porque o dever é, num processo automático cotidiano, dirigir-se disciplinadamente ao trabalho com a gola da camisa perfeitamente ensolarada, fisiológico desafiando o sol que alcança os 30ºC logo pela manhã?

Inexpressão das criaturas perfeitas

Outro dia pasmei. Estava no banco o qual carinhosamente chamo de Brades-cão quando ao meu lado para uma criatura perfeita. Era alta, escultural-proporcional, tinha as unhas 100% esmaltadas de roxo vivaz, nem um canto esgarçadinho. Cheirosa, frutosa, voz de veludo e sincronia ao piscar os cílios envoltos em rímel perfeitamente pincelados.

Que saco! Que visão comum, que obviedade para o olhar que procura rasuras, marcas de vida, um abraço mais apertado dado num amigo no meio do caminho, um andar meio torto causado pela pressa, fones de ouvido caindo bolsa afora, o zíper meio aberto da miúda bolsa desnudando pedaços de intimidade em frestas. Tive medo daquela criatura lindamente alienígena. Toda hermética, conduzia-se pelo espaço com passos de lady. Bela como uma replicante do Blade Runner ou como uma boneca inflável.

Sem moralismos, trata-se de preferência de um lugar pro olhar olhar. Os meus olhos ficam vidrados quando conduzem-se ao não esperado, captam sorrisos repentinos ou gritos de dor de quem não pode evitá-los.

E por fim: vivenciemos as experiências em sua totalidade. Deixar-se sujar, borrar, ferrar, lascar, encrencar, perder, ferir – errar! –, é como provar da liberdade de ser, de forma mais integral, dentro das oportunidades disponíveis. Acertar é apenas uma das possibilidades. E tudo isso é humano, talvez demasiadamente humano. E belo.

(imagem: reprodução You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=VYw-HKti2OU)
Marina Moura2*Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário. Facebook: www.facebook.com/marina.moura.98478
 

Metáfora do casamento blindado ou pósludio do dia dos namorados

casamento

Por Marina Moura

Deparei-me com o livro “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio” pela primeira quando zanzava pela livraria FNAC da avenida Paulista. Outros encontros viriam, em outras livrarias. Fiquei quase chocada com a capa. Sem querer ou precisar folhear o livro, porque o tempo de vida é muito raro para gastarmos assim, comecei a pensar apenas sobre a capa do produto. Como se fosse possível blindar algo, surge nas estantes das livrarias esta obra que considerei obscena e que certamente tem como objetivo, travestido de boas intenções, apenas a blindagem do bolso dos autores – quem nem precisariam empreender tal esforço, pois trata-se da filha do riquíssimo bispo Edir Macedo e seu par.

Um homem dentro de um carro blindado está seguro, mas não foi para isso que os homens foram construídos”, parafraseando o autor William Shedd, que diz que “um navio ancorado no porto está seguro, mas não foi para isso que os navios foram construídos”.

Um homem dentro de um carro blindado está protegido, mas em algum momento terá de sair do veículo. Quando um casamento é blindado, colete a prova de balas, vidros escuros e todas as outras armaduras do amor, certamente o impulso de liberdade de algum dos que ocupam o opressivo veículo quererá saltar fora.

O que sobra fica sozinho e trancafiado – seu coração também fica blindado. Uma das principais prisões do amor é a falta de liberdade.

Veja o casal da capa do livro tentando transmitir a imagem de uma relação segura. Mas uma coisa é fato, meu amigo: há que se considerar a volatilidade dos sentimentos humanos. Não somos coisas inertes, ainda bem.

Casamento_BlindadoAdmitir a palavra blindagem aplicada a uma relação dita amorosa é desconsiderar a possibilidade da contradição, ou seja, do ser atingido, o que neste caso se traduziria na insegurança do casamento.

Prefiro viver a realidade ao idolatrar a imagem do ideal. Mas, se for eleger uma imagem para retratar um relacionamento, prefiro pensar em cena que remeta ao amor livre, leve e solto – não falo aqui de relacionamentos abertos, aos quais tenho muita consideração e respeito, mas faço um recorte.

Minha visão é a do amor: livre no sentido de poder escolher a quem amar; leve simplesmente porque creio que o amor tem que ser constituído de matéria alegre e boa; solto porque não se pode ambicionar querer prender nem aquele a quem se ama e nem o próprio sentimento.

Assim, talvez meu retrato amoroso seja composto por um casal não que fica com olhos cruéis bem abertos um sobre o outro, mas sim que fecha os olhos para melhor sentir os suspiros de com ele estar, e, de mãos trançadas, saem voando sobre planícies abertas e não desvendadas, cultivando sonhos acima da maldade pequenina e desejos vãos.

Símbolos trocados ou a dificuldade de gostar da coisa em si

Woman Practicing Yoga by the Sea

Por Marina Moura

Quando comecei a fazer yoga, várias pessoas não pouparam suas linguinhas e pensamentos afiados e logo deram um jeitinho de me dizer quão bom era eu estar fazendo algo para desestressar. Se fossem pessoas chegadas eu poderia fazer menção de preocupação. Aquele “Oh! Serei eu criatura estressada? Será que dei uma patada recente ou antiga naquele que me avisa e quem avisa amigo é?”.

Fato é que tais pessoas quase nada sabiam a respeito de minha vida. Tinham em comum serem para mim apenas criaturas com quem me relaciono muito esporadicamente e apenas para resolver questões de trabalho. Tinham em comum o hábito de dizerem que responderiam um importante e-mail dali a alguns instantes e respondiam em três dias, quando respondiam, o que para mim é tremenda falta de educação, mas não causa de estresse. Como acredito que a comunicação virtual é apenas mais um meio de se comunicar, não significando ser natural que o outro responda apenas o que e quando achar conveniente, como tenho essas malditas considerações na minha cabeça, eu delicadamente pedia respostas e era a chata estressada, o que justificaria meu yoga.

Por que é tão recorrente entre alguns o hábito de atrelar uma ação, coisa ou símbolo a um motivo ou meta, geralmente os mais banais e fáceis que vêm na cabeça dos afirmadores de plantão? Chega a parecer até arrogância, como se “soubessem para você” o que “é melhor para você”.

Lembro de um professor de filosofia que falou da bobagem de se embriagar por algum motivo. O melhor, dizia, era o vinho em si. Tal pensamento transformou-se de fato em filosofia para mim e alastrou-se além-vinho, vida afora.

Um dia decidi alargar o prato da salada. No mesmo dia, coincidentemente, não queria refrigerante até mais da metade do copo. Está querendo emagrecer, Marina? Foi a primeira sentença que escutei. Sorte que não foi da minha mãe. Como disse, as bobagens que já escutei vieram de quase estranhos. Minha mãe ao menos mantém suas convicções e acredita que eu decididamente me alimento mal, independentemente da minha saudabilidade e várias refeições diárias que incluem igualitariamente bobagens e saladas, mas ela vê apenas o colorido das jujubas.

Recordo de um dia ter visto um quadro que mostrava um quadrado branco no meio de um quadrado branco. Era visível aos olhos apenas porque um dos quadrados era um pouquinho mais claro ou mais escuro, sei lá eu, do que o outro. Aquela composição não me remetia a nada, não me causava nenhuma lembrança nem permitia associações. Fiquei arrepiada e quase chorei porque passava por uma fase de intenso fluxo de ideias, de ações e de sentimentos que forçavam conexões entre si, embolando-se até causar em mim um caos tremendo. Então aquele silêncio do quadro significou nada mais do que conforto.

Nossa espécie parece viver demasiadamente de compensações, apresentando séria dificuldade de admirar, olhar, fazer a coisa por si mesma. Beber pelo gosto do vinho e não porque a vida é difícil. Comer menos porque está com vontade de menos, não por estar se achando gordo. Ler porque pinçou instintivamente um livro qualquer na estante, não para se tornar o intelectual do ano. Dar um beijo no parceiro porque beijo é bom, não porque ama-o mais naquele momento ou está fazendo algum tipo de jogo.

O perigo nesta história toda é começarmos a agir motivados por esse tanto de lugares-comuns que norteiam as escolhas que os outros fazem por nós. Só em pensar na questão, quando estou fazendo algo por fazer, fico com preguiça de algumas pessoas ou até com medo, pois estarão possuindo a condução que escolhi para mim e talvez até me possuindo sem que eu dê permissão.

(foto: divulgação)

As horas que sobram

Por Marina Moura

Eu sei, sei que o tempo é curto, que no cômputo cotidiano as horas que sobram são menores do que as gastas. Mas realmente sinto falta de pessoas com interesses interessantes.

Um de meus escritores favoritos, o jornalista João Antônio, além de fazer textos fenomenais, costumava fazer alguns cálculos. Humanos gastam: oito horas diárias trabalhando, três horas se locomovendo, duas horas se alimentando, duas horas com as necessidades básicas, mais oito horas dormindo (duvido!) e por aí vai.

horas que sobram

Olha que ele não calculou o tempo gasto com idas ao banco, com ligações para atendentes de telemarketing e com o tal do Netflix. Não tenho certeza das atividades que compunham os cálculos do João, mas sempre que faço os meus próprios, com direito a reajustes de acordo com nossas novas tarefas do século 21, sobram umas 4 horinhas livres só.

Expus estes cálculos na cozinha de uma das empresas onde trabalhei e um funcionário que estava lá me questionou, perplexo: “ué, e 4 horas não está bom demais?!”. Está aí, certamente é uma pessoa com interesses desinteressantes, para espremer a própria vida assim, em espaço tão curto de tempo.

Porque quando largo o trabalho desejo ler um bocado de páginas de um bocado de livros, fazer alguma das várias danças que gosto, treinar alguma das línguas estrangeiras que um dia hei de aprender, cantar alguns sons dos anos 20 aos 2015 e (claaaaro!) beber algum álcool ao lado de amigos que têm interesses interessantes.

De preferência fazer uma poesia antes de dormir e, quem sabe, até uma oração? Entre as preces certamente constará o desejo que norteou as palavras todas desse texto: “Meu senhorzinho do céu, por favor. Esticai as horas que sobram. Aproximai-me das atividades e amigos que amo. Livrai-me daqueles que têm interesses desinteressantes. Amém”.

A simbologia das cidades

Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)
Projeto Já é! Arte no Beco leva cores e novos significados para o Beco Santa Inês, no aglomerado Santa Lúcia, na região Centro Sul de Belo Horizonte (foto: Henrique Chendes/Imprensa MG)

Tédio urbano, sufoco cotidiano. Ando pelas ruas da cidade de Belo Horizonte distraída para o movimento típico da rotina de qualquer capital e muito atenta a detalhes que aos olhos apressados de quem quer ganhar o dia são irrelevantes. Estas pessoas tropeçam em mim, me dizem murmúrios que prefiro não traduzir. Não ligo. Continuo olhando as fachadas de caquéticos prédios que passaram dos 50 anos sem ninguém para lhes assistir, construções desconstruídas pelos descuidados do tempo e pela pressa, sempre ela.

Estes prédios geralmente são os que servem, junto aos muros de imóveis comerciais vazios ou com cara de vazios, a desabafos que gritam coloridos por meio do grafite e do “pixo”, como escrevem os autênticos pichadores, expondo uma questão de ‘x’ ou ‘ch’ para lá da gramática. A voz das ruas ecoando vozes abafadas dentro de nós ou vozes desconhecidas, que só sabemos nos possuir quando são expelidas por uivo desesperado ou que fazemos sair diluídas por antidepressivos, o docinho compensatório do brasileiro moderno que passa mais de metade do dia pensando para os outros. E depois há os que falam mal das prostitutas.

“Tédio urbano, sufoco cotidiano” é a inscrição feita em letras coloridas e de tipografia quase animada num muro meio sem graça da avenida Professor Morais, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus, ao lado de um pub que une rock e futebol. Embora a mensagem seja triste, é um suspiro feito de forma alegre, em tons azul celeste contrastando com o muro laranja queimado sob o qual foi inscrita, como se fosse reinterpretação do avacalhado e conformado clichê que busca o riso a partir da percepção cruel: “a gente se fode mais se diverte”; porque a gente faz arte, porque ao menos tornamos nossos dias menos sufocantes pintando muros alegres por aí – poderia ser o complemento.

Diferente e mais grave é a inscrição feita nas alturas do bairro Funcionários. Na Getúlio Vargas com Gonçalves Dias há um prédio comercial com janelas pequeniníssimas, abafadas mesmo, envolvidas por grades cinzas-chumbo. Servem para proteger? São grades às quais devemos nos prender sob pena de ficarmos soltos demais. O recado pichado em uma das laterais do edifício não poderia ser mais elucidativo: “Suicídio cotidiano”.

Os prédios grandes da cidade, com suas vidraças espelhadas, leem as mensagens com desdém. Os edifícios Piazza Navona, no bairro nobre Belvedere ou o Cinecittà, na Serra, nada têm a ver com mensagens de tédio. Pregam a vida que o mortal pediu a Deus com suas promessas de felicidade familiar representadas por piscinas trilométricas e saunas mais suadérrimas e mias eucaliptadas do que as comuns saunas mais populares. Estes prédios não ouvem gritos arrebatados escritos pelos corpos cansados da estirpe proletária. Os ecos das mensagens não alcançam seus habitantes. Não conseguem ultrapassar calçadas ladrilhadas, jardins de todas as estações, amplas portarias e subir pelos elevadores. Alguém da sacada poderia ver alguns rabiscos no muro. O que seria? Mais algum político insistindo em pintar seus slogans premonitórios sobre o que pode fazer pelo Brasil seguidos pelos números de seu bilhete lotérico? Mas assim, tão fora dos tempos de eleições? Preferirá ficar a bater panelas, cozinhando o futuro do Brasil.

A vantagem da formiga pequenina, que vive no chão, comendo fuligem e carregando objetos bem maiores que seu próprio tamanho, é poder subir as paredes e ver as coisas bem de perto e com vista panorâmica e multifacetada. Só quem está na calçada pode olhar no muro a mensagem de tédio e atribuir-lhe sentido, conjugando o lido a reflexões sobre momentos montanhosos e labirínticos de que a vida de qualquer um se compõe. Porque notar momentos de sufoco e tédio e (con)viver com estes sentimentos é encarar de frente a realidade, ou seja, mirar a própria existência, ao invés de isolar-se numa torre de marfim e depois, apenas muito depois, perceber que as nuances são puras sedas ou cetim. Belos e completamente frágeis.

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa, onde hoje vive, intercalando morada com conexões belo-horizontinas. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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Como somos diplomáticos

Manifestação reacionária na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)
Manifestação na Paulista em 15 de março, contra o governo: paredão? (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

As questões sociais do presente parecem dividir as pessoas em conservadoras e pacientes, desconsiderando as nuances. Quando não tenho coragem ou paciência para ir contra a opinião daqueles que consideram a melhor saída para o país metralhar jovens infratores “pivetes delinquentes”, pessoas em situação de rua, “filhas da puta craqueiros”, gays, “veados”, então eu me sinto, sinto muito, parte do grupo dos diplomáticos.

Estou falando de conivência, que segundo um verbete de dicionário significa “acordo pecaminoso entre superior e inferior em prejuízo alheio”. Para sermos diplomáticos é necessário muitas vezes sermos coniventes.

Se o seu vizinho sempre diz que a solução para o avanço do Brasil é botar meio mundo no paredão e descer bala e você faz que sim com a cabeça, como se ele estivesse te dando bom dia, então você está sendo conivente. Se na tentativa de cessar uma briga você não reprova aquele familiar que exaltado fala sobre a extinção dos gays, então você é, você é, você é pateticamente é uma diplomática criatura conivente e está reforçando o coro dos arrogantes e preconceituosos que abafam seu silêncio com o peso grosseiro de suas vozes.

Hoje amanheci pesarosa tentando refletir sobre estes dois grupos, o dos que falam bobagens e o dos que não contestam as bobagens, deixando que elas contaminem outros por aí. Durante o dia juntaram-se ao meu pesar várias outras mensagens que mostram a proliferação do discurso conservador-violento.

Na maioria dos casos a pessoa que cospe seu preconceito faz questão de antes anunciar: “eu não sou preconceituoso”. Vou perguntar ao psicanalista mais próximo sobre a necessidade de tal negativa antes da afirmativa. É como se assumir-se preconceituoso não pegasse bem, mas ter um discurso preconceituoso fosse aceitável, quase “cool” pela moda “família, saúde, direita etc.”; quase imponente e imperativo porque provavelmente não será discutido mesmo por quem reconhece o grau desrespeitoso daquela esbravejação e dela discorda.

Propaganda do Boticário: Uma sujeita “não preconceituosa” entrou no site Reclame Aqui dizendo que ela, cristã, não queria que seus filhos vissem a propaganda de dia dos namorados da loja, que mostra casais héteros e gays arrumando-se para comemorar a data.

Carta do leitor do Zero Hora: O jornal publicou a opinião de um leitor que “não é racista”, mas não conseguia entender como certo colunista do jornal pode aprovar a vinda de haitianos, senegaleses e “similares”, pois teriam comprovada “tendência natural de caírem para o lado do crime”.

O vizinho: Em um belo fim de tarde queixei-me ao vizinho do cheiro de urina na escada ao lado do nosso prédio. Veio o arrependimento. Tive que ouvir do sujeito que “a solução é botar tudo os mendigo num paredão e metralhar” [sic]. Inclusive, cansei da expressão clichê “metralhar no paredão”, que hoje parece mais apropriada a letras de funk do que a uma proposta séria para resolução de nossos problemas sociais.

Sem mais, um dia antes de ser devastada por essa série de desinformações, assisti “Outra história americana”, filme cujo personagem principal é preso e desiste de ser nazista quando é estuprado… Por outro nazista.

A questão: até onde é saudável sermos diplomáticos, pacientes, coniventes…?

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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Humor abaixo de zero

Nossa grande sociedade satírica casa com o politicamente correto e juntos geram uma filha chamada intolerância. Na casa deles, o humor não entra, se janta patê de ética e limpa-se a boca com a moral

Nos causa enorme confusão mental vivermos em uma época em que muitos veículos de comunicação, principalmente os televisivos, são movidos por um fazer-humor fajuto, sem-graça e este sim preconceituoso. Numa parada do ônibus que ia a Belo Horizonte, tive três minutos para assistir Faustão — a não ser que você esteja na casa de alguém que deixa o Faustão falando sozinho enquanto a família se reúne em torno da TV para falar de qualquer outro assunto, alguém ainda se presta a assistir este programa bisonho?

Bem, voltemos ao conteúdo assistido na parada do ônibus. Um cara peludo vestido de Iemanjá ridicularizava as prendas de fim de ano recebidas por ela, entidade, falando que iria filtrar as entregas vagabundas daquelas que interessavam — ficaria apenas com os artigos “de rico”. A interpretação era sem graça, o personagem sem consistência e a maneira de dizer tudo isso, ridicularizando no palco religião e pobres, era para lá de chula.

Comparei o pseudo-humor do programa de domingo a um fato ocorrido há algum tempo com a Loja Pernambucana, que teve que cessar a venda de camisetas masculinas que mostravam uma menina numa forca e embaixo a palavra “gi_lfri_n_”, coisa assim.

Ora, daqui a pouco vamos ser obrigados a formular eufemismos para usarmos todas as vezes em que proferirmos uma expressão exagerada. No lugar de “eu quero mataaaar minha mãe quando ela fala no Facebook que eu sou sua florzinha”, vamos ter que usar “eu fico deveras chateada com mamãe quando ela, blabla, mas eu a perdoo, blabla”.

Consequências

Sabe o que a falta de tolerância ao humor unida ao politicamente correto gera? Gera linchamentos — a torcedora gremista que chama o jogador Aranha de macaco no calor de um jogo de futebol, quanto animalismo, é cercada pela imprensa e por pessoas que a lincham por meses. Gera preconceitos que vão além, muito além, daquele que parece ter sido usado na piada do negro, do feio, do gay, do português etc. — o senhorzinho que contava piadas no bar deixa de ser engraçado aos olhos dos amigos; o tio que conta uma piada sobre loucos é olhado com desconfiança pelos sobrinhos. E gera até as mortes dos cartunistas parisienses do jornal satírico Charlie Hebdo, mortos na última quarta-feira (7) por terroristas que entraram na redação disparando 50 tiros. O motivo seriam as “provocações a Alá” feitas pelos jornalistas via cartoons. O último trabalho realizado pelo diretor da publicação, conhecido como Charb, mostra um personagem fardado dizendo “Ainda não houve atentados em França. Esperem. Temos até o fim de janeiro para nossos desejos [de Ano Novo]”.

Profeticamente, a charge deu em morte. E não precisamos ser profetas para saber que, se continuarmos assim, presos aos pilares religiosos – some-se agora a eles à religião do politicamente correto –, estaremos rumando ao obscurantismo, tão contrário aos ideais que foram da Revolução Francesa, mas que deveriam ser universalmente desejados: liberté, egalité, fraternité; liberdade, igualdade e fraternidade.

charlie

Este atentado não é apenas um atentado contra a humanidade, contra os 12 inocentes atingidos. É um atentado contra a liberdade de expressão, é uma mensagem mórbida emitida por pessoas tão covardes que tiram do caminho com bala, e não com argumentos, aqueles com quem não concorda. Tão arrogantes que se acham certas a ponto de calar quem pensa diferente delas. Uma mensagem que indica um ano-novo sem tréguas para a paz, a liberdade de expressão, oh, passando longe. É assim que vamos ficar? Calados e amedrontados? Reformulo aqui minha resolução de fim de ano, que tem ares de utopia: quero uma reação mundial, um grito, em uníssono, pela vinda do bom-senso e da paz.

 

Marina Moura2Marina Moura é poeta e jornalista. Nasceu em Sampa e hoje vive em Belo Horizonte. Gosta de se espantar, de extrair o bonito da realidade e de descrever minuciosamente sensações diferentes. Gosta quando seu gato Francis Bacon sobe em seu colo enquanto digita seus textos. É formada em Comunicação Social, faz pós em Projetos Editoriais e Multimídia e é amante do jornalismo literário.
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Eles que se linchem

Em sua época mais reflexiva, menos produzida e mais contundente, há cerca de duas décadas, o cantor Caetano Veloso disse na música ‘O cu do mundo’ que a mais triste nação, na época mais podre, compõe-se de possíveis grupos de linchadores. O cantor compôs a música quando alguns poucos casos de linchamento chocaram a Bahia.

Hoje perdemos a conta dos casos de linchamento que enchem páginas de jornais e sites, além de serem exaustivamente repetidos na TV, unindo-se ao conteúdo das pessoas comuns que sacam seus celulares, fotografam, escrevem ou filmam em tempo real. Somos ou estaríamos caminhando para ser a mais triste nação vivendo na época mais podre?

Mesmo quando já existiam celulares conectados à internet e o afã no uso das redes sociais, o número de casos de linchamentos não se mostrava relevante a ponto de pautar a imprensa ou discussões acaloradas em almoços de famílias ou mesas de bar. Uma sequência de fatos parece ter desencadeado na população, sobretudo na de classe média, o gosto pelo comportamento justiceiro.

Quando uma pessoa é amarrada a um poste e apanha até sangrar com os aplausos de quem assiste – senão com suas porradas –, é sinal de que há algo podre no reino Tupiniquim. No início deste mês (3/5), a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, mãe de duas meninas, foi linchada por moradores do bairro de Morrinhos, no Guarujá, por ser confundida com uma mulher que supostamente sequestrava crianças para praticar “magia negra”.

Fabiane não foi a primeira e nem será a última vítima dos linchamentos que têm se tornado comportamento cada vez mais comum na sociedade. Antes dela, meninos foram acorrentados, estapeados e chutados em diversos locais do Brasil. Os motivos ou suspeitas de seus crimes chegariam a tornar a notícia engraçada não fosse a desgraça que vai por detrás e que geralmente relaciona-se com a desigualdade: xampus, passando por IPhones e desejados tênis Nikes, e até galinhas, são produtos de necessidade ou consumo que lhes rendem as surras e exposição midiática.

É interessante pensarmos sobre o direito a julgamento destes que estão sendo linchados e sobre onde esse rompimento da lei pode nos levar (ao cu do mundo, talvez). Se depender da impulsividade agressiva e tendência ao ódio de alguns, o país transforma-se numa grande fortaleza dividida por dois muros, dois mundos, ambos extremamente altos e hermeticamente fechados, incomunicáveis: a prisão dos pobres e a prisão de luxo dos ricos. “E se ela (Fabiane) fosse culpada?”, questiona-se Eliane Brum em artigo sobre o tema publicado no site do El País na segunda-feira (12/5).

A autora mostra como a valorização da inocência de Fabiane, que atingiu as pessoas como espécie de mea-tigela-culpa, mas apenas depois da moça ter morrido, pode ser um comportamento no fundo extremamente cruel. Se Fabiane fosse culpada, caberia o linchamento em lugar de um julgamento? “É a exacerbação da inocência que mostra o quanto nós – mesmo os que não lincham pessoas na rua – somos perigosos”, completa a jornalista.

No caso Fabiane há ainda um agravante. A imprensa noticiou que traficantes de Morrinhos, onde aconteceu o crime, executaram suspeitos de terem matado a mulher. É o linchamento dentro do linchamento. Se verdadeira, a notícia mostra quão cíclico é este novo comportamento assumido em diversas esferas da sociedade. A polícia que não protege, o Estado que não defende “o cidadão de bem”. Estas são as falácias da classe média que acredita na justiça pelas próprias mãos.

O que essas pessoas pensam das estatísticas que mostram que a maioria das pessoas vitimadas pela violência são moços negros e pobres? Se o Estado defende a classe média tão mal quanto defende os moços negros pobres, a saída está em tornarmo-nos todos justiceiros? E com que parâmetros? A justiça para mim não é a mesma justiça para você. Por mais que as imposições de um comportamento consumista colaborem com homogeneidade do pensamento, as pessoas ainda se diferenciam por seu repertório cultural, influências sociais e outros inúmeros fatores. Ainda bem. Há que se pensar sobre o alastramento dos linchamentos.

Se tomarmos como parâmetro ‘O cu do mundo’, música de Caetano, somos, com certeza, uma triste nação na época mais podre. Parece que está tudo bem? O parecer é sempre um estado ilusório, uma assemelhação. É tão fake como os programas de segurança do Governo feitos para aumentar a sensação de segurança da população; é como se dissessem: “fizemos o que pudemos, agora eles que se linchem”. Somos todos linchadores, mas não gostaríamos de ser.

Marina Moura2Marina Moura

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