Nascimento da poesia moderna

‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret, pertenceu a Mário de Andrade

‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret, pertenceu a Mário de Andrade

Os registros de memória em São Paulo são frágeis e se perdem ou mudam de uma geração para outra. A cultura predominante na cidade, desde seus tempos mais remotos, até hoje se mantém: construir, destruir e reconstruir, num ciclo incansável que apaga a história e nos deixa surpresos diante da novidade.

Esse é um traço da cidade para o bem e para o mal. Se de um ponto de vista o espírito cosmopolita se renova, de outro a constante mudança provoca angústia, oprime os mais desfavorecidos, tantas vezes expulsos de suas humildes moradias, e desafia poetas e artistas.

Esse foi o aspecto que me chamou a atenção ao percorrer o texto e as fotografias antigas da cidade no livro ilustrado do escritor e professor de literatura Aleilton Fonseca, ‘O Arlequim da Pauliceia: imagens de São Paulo na poesia de Mário de Andrade’, que com um texto objetivo e despretensioso parte de um passeio em aspectos históricos, econômicos e sociais da cidade no século 20 para mergulhar na poética urbana do escritor paulistano, que foi um dos precursores do movimento modernista no País.

A prosa de Fonseca se debruça sobre dois títulos emblemáticos da influência da cidade na obra de Mário de Andrade: ‘Pauliceia desvairada’ e ‘Lira Paulistana’. Esses livros são extremos da produção do poeta e escritor.

O primeiro título foi escrito no começo dos anos 20 e apresentado na Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal. ‘Pauliceia desvairada’ é obra inaugural da poesia urbana moderna, livre da métrica e das tradições que já não expressavam mais a transformação do País, que no plano político se preparava para derrubar a República Velha com a Revolução de 30. Já o outro título é de 1945, portanto, da fase de maturidade do escritor, publicado no ano de sua morte.

Fonseca destaca que as duas obras representam dois estilos que convivem no poeta: “São balizas que marcam os pontos extremos de uma trajetória que vai gradativamente do desvario, predominante no primeiro livro, à observação metódica mais rigorosa, predominante no segundo”.

O livro também aborda episódios da vida familiar de Mário de Andrade e do “preço” que ele tinha de pagar por ser da vanguarda artística, como foi o caso da desaprovação que ele recebeu da família ao adquirir a escultura ‘Cabeça de Cristo’, de Victor Brecheret.

O texto é referenciado em notas, valendo-se de um conhecimento que torna a leitura ainda mais interessante. Numa dessas notas, Fonseca cita o historiador Nicolau Sevcenko, que no livro ‘Orfeu extático na metrópole’ (Companhia das Letras) considera o surgimento da cidade como “subproduto imprevisto e até inoportuno” da monocultura do café, cujo preço no mercado internacional enfrentava quedas crônicas naquela época, lançando crises que culminam com a dispensa da mão de obra de imigrantes, que buscam na capital uma alternativa de sobrevivência.

 

Aleilton Fonseca - O Arlequim da Pauliceia - capaO Arlequim da Pauliceia: imagens de São Paulo na poesia de Mário de Andrade,

Aleilton Fonseca, Geração Editorial, SP, 2012, 296 págs.

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Cartas desvendam os segredos inusitados da arte de escrever

A mistura de mitos e lendas que Mário de Andrade faz para compor as histórias de Macanaíma, abandonando as referências geográficas, é um dos temperos da arte do Modernismo revelados no livro Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo.

Cartas desvendam os segredos inusitados da arte de escrever Existe um gênero literário, chamado ‘epistolar’, que esconde tesouros sobre a arte de escrever. O termo refere-se a ‘epístolas’, ou ‘cartas’, nas quais os escritores revelam seus segredos, às vezes até sem querer. Alguns se notabilizaram pela densa produção, como os franceses Gustave Flaubert (1821-1880) e Marcel Proust (1871-1922), este último com suas missivas condensadas em 21 volumes. No Brasil, um dos expoentes do gênero é o paul … Read More

via Blog Livros & Ideias

Cartas desvendam os segredos inusitados da arte de escrever

Helder Lima

Existe um gênero literário, chamado ‘epistolar’, que esconde tesouros sobre a arte de escrever. O termo refere-se a ‘epístolas’, ou ‘cartas’, nas quais os escritores revelam seus segredos, às vezes até sem querer. Alguns se notabilizaram pela densa produção, como os franceses Gustave Flaubert (1821-1880) e Marcel Proust (1871-1922), este último com suas missivas condensadas em 21 volumes.

No Brasil, um dos expoentes do gênero é o paulistano Mário de Andrade (1893-1945), ‘conspirador’ da Semana de Arte Moderna de 1922 que, segundo a professora da Universidade de São Paulo (USP) Walnice Nogueira Galvão, escreveu dez mil cartas ao longo da vida e recebeu oito mil, todas catalogadas pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), ligado à USP. “Não é todo o país que tem um correspondente literário desse porte”, afirma em entrevista à edição de março da revista SESCSP.

Algumas compilações podem ser encontradas nas livrarias, mas há preciosidades que estão esgotadas e só podem ser adquiridas nos sebos. É o caso de Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo, edição autorizada pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras em 1989. Até então, as missivas estavam em poder de d. Dhália Freire Cascudo, viúva do escritor que foi representante do modernismo no Nordeste.

Mário e Cascudo trocaram cartas entre 1924 e 1943. O livro traz 56 epístolas e dois bilhetes de Mário, conjunto que dá uma ideia de como um influenciou o trabalho do outro. “Gostei de saber que você (você tu) está folclorizando”, diz o escritor ao motivar o amigo de Natal (RN) a encarar os temas brasileiros, da cultura popular. “Você tem a riqueza folclórica aí passando na rua a qualquer hora”. Ainda hoje, Cascudo é a maior referência em investigação folclórica no país, tendo deixado uma obra com mais de 100 títulos.

Em 1927, Mário anuncia ao amigo o livro Macunaíma, talvez a sua maior contribuição à literatura brasileira, que ele próprio classifica de “romance ou coisa que o valha”.  O escritor explica que aproveitou lendas e tradições brasileiras, mas desprezou as referências geográficas para não ser tachado de regionalista. “Só uma descrição de macumba carioca, uma carta escrita por Macunaíma e uns dois ou três passos do livro são de invenção minha, o resto tudo são lendas relatados tais como são ou adaptadas ao momento do livro com pequenos desvios de intenção”.

‘Remandiola’

A seção de ‘Anexos’ reúne a correspondência em torno do bangalô em Natal doado pelo então ‘presidente’ do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, ao escritor paulistano. A ideia do político era vincular a imagem de Mário ao Nordeste. Mas veio a Revolução de 30, motivada pela absoluta corrupção que assolava o país, e o tal Faria caiu com a República Velha, cedendo lugar à ordem imposta por Getúlio Vargas.  Cascudo, que chama o episódio de ‘remandiola’, cuida para que o registro do imóvel na praia de Areia Preta seja anulado, livrando o paulistano ilustre de “ser incluído entre os cúmplices e aproveitadores dos Carcomidos’.

Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo,

Mário de Andrade, ed. Villa Rica, MG, 1991, 170 págs.,

Onde Encontrar: Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br).