Peça da Cia. Artehúmus aborda individualismo e isolamento

Foto: Bob Souza
Foto: Bob Souza

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

maurofmello@yahoo.com.br

 

O pesquisador teatral Alexandre Mate comenta o texto O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário no nº 2 (março de 2014) da Ateliê Compartilhado, publicação da Cia. Artehúmus. A peça, segundo Mate, “apresenta-se prenhe de significados, provoca diversas interpretações: trata-se de um título-metáfora”. “Apesar de o título ser absolutamente provocante e instigante, a obra, dentre outras questões, denuncia o reificado (como coisificação) das comunicações e relações humanas”, conclui. A montagem reestreou nesta terça-feira (11/11), no Teatro do Incêndio, em São Paulo.

Uma das questões que O Desvio do Peixe aborda é a solidão relacionada ao individualismo exagerado, em um processo que engloba movimentos de isolamento e tentativas de aproximação. “A peça fala das ausências de nossos dias, das negligências com nós mesmos. Somos engolidos diariamente por necessidades ditadas por um sistema e não percebemos nossas esquizofrenias, nossas pequenas loucuras invisíveis para realizar o que o sistema dita”, sintetiza Evill Rebouças, responsável por dramaturgia e direção.

Cristiano Sales, Daniel Ortega, Edu Silva, Natália Guimarães e Solange Moreno compõem o elenco. Cinco personagens convivem em um condomínio. Um porteiro precisou ler o filósofo Michel Foucault para ser admitido no emprego. Um pai procura o significado da palavra “ausência” para um trabalho acadêmico. Uma mãe tenta ser ecologicamente correta. Uma jovem espera pelo namorado que viajou. E um garoto anuncia, logo no início do espetáculo, que está morto.

O Projeto Teatro de Condomínio – Cartografia Pública e Privada, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, deu origem à montagem. Um ano de pesquisa de campo, conta Rebouças. “Em albergues, todos estão juntos, mas pouco espaço existe para falarem de suas aflições mais íntimas. Nos cdhus, ocorre o contrário: geralmente, cada um socorre o outro diante das aflições diárias. Nos condomínios de luxo, os moradores nem se conhecem direito, já que possuem elevadores privados. Foi desse painel de relações que construímos a ficção de O Desvio do Peixe.”

Trata-se de espetáculo delicado e pungente. “A delicadeza impressa na cena foi uma necessidade em relação ao tema, pois se há isolamentos entre as figuras da ficção, o mesmo não ocorre entre essas figuras e o espectador. Para atingir esse estado de aproximação e cumplicidade, tivemos de jogar fora praticamente todo o repertório teatral convencional que trata o espectador como sujeito que especta apenas. Por outro lado, são figuras que se mostram doces, mas ao mesmo tempo, parecem querer explodir. Esse trabalho de retenção é talvez o que há de mais cruel na encenação”, explica.

Os atores narram cenas e conversam com o público, entre outros recursos que negam o ramerrão teatral. “O enredo é descortinado para que o espectador não desvie seu olhar para aquilo que ainda precisa ser descoberto”, assinala Rebouças. “Por meio desse tipo de estrutura, conseguimos potencializar o olhar do espectador para a reflexão dos assuntos discutidos e ainda tratá-lo como confidente das personagens. Em busca da autonomia do espectador em relação à história, desenhamos trajetórias fragmentadas, de modo que ele monte o trajeto de cada um.”

 

SERVIÇO

O DESVIO DO PEIXE NO FLUXO CONTÍNUO DO AQUÁRIO. Dramaturgia e direção de Evill Rebouças. Com a Cia. Artehúmus. No Teatro do Incêndio. Rua da Consolação, 1.219, São Paulo, SP. Fone (11) 2609-8561. Terças e quartas, às 20h (em novembro), e terças a quintas, às 20h (em dezembro). R$ 30. Até 17/12.

Espetáculo infantojuvenil de dança narra a experiência da descoberta do corpo

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

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Artistas da Cia. de Danças de Diadema simulam ‘mãozinha’ que explora as partes do corpo: construção de identidade (foto: Silvia Machado)
Artistas da Cia. de Danças de Diadema simulam ‘mãozinha’ que explora o corpo (foto: Silvia Machado)

A experiência da descoberta do próprio corpo, o reconhecimento de diferenças e a busca da identidade. É o que Carolini Piovani, Daniele Santos, Dayana Brito, Jean Valber, Rafael Abreu, Samira Marana, Thaís Lima, Ton Carbones e Zezinho Alves – o elenco da Cia. de Danças de Diadema – mostram a partir de amanhã (dia 25). A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) estreia no Sesc Anchieta, em São Paulo – Michael Bugdahn e Denise Nomura assinam concepção e coreografia. Ana Bottosso responde pela direção geral. O espetáculo é voltado ao público infantojuvenil.

A protagonista da montagem, de acordo com Ana, é “uma ‘mãozinha’ muito curiosa, que não é nem a direita nem a esquerda, mas a Mão do Meio”. “O espetáculo mostra a trajetória dessa ‘mãozinha’ que acaba de nascer e sai em busca de conhecer outras partes do corpo e de colecionar muitos gestos.” Há uma narrativa por meio da dança? “Sim, pela dança dos gestos dessa mãozinha e das partes do corpo e também por intermédio de um texto, em off, que transita por toda a obra.”

A cenografia, conta a diretora, foi elaborada por Bugdahn e Denise para atender a narrativa da peça. “Há em cena um miniteatro de bonecos. O cenário ainda leva cubos de cores diversas, que se contrapõem ao figurino, todo preto. Essa base em preto também tem a função de gerar neutralidade, para que outros acessórios, na cor branca, se somem ao longo da peça, valorizem o momento da história vivido pela ‘mãozinha’ e enfatizem as partes do corpo que atuam com a protagonista.”

No final da obra, explica Ana, “as partes do corpo e os objetos tomam vida de forma mágica”. Essa magia, observa, não significa que A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) se escora no ilusionismo, no espetaculoso, em detrimento do conteúdo. “Quanto aos efeitos do teatro negro – a utilização de luzes negras a destacar elementos que adquirem fluorescência –, eles aparecem nos minutos finais da obra, e estão lá a serviço do que aquele conteúdo quer transmitir. O trabalho aposta na simplicidade da comunicação que pode vir, sim, carregada de expressividade e sentimento.”

O que diferencia, esteticamente, uma produção vinculada ao público adulto de uma dirigida para o infantojuvenil? “Pode haver inúmeras diferenças inseridas no figurino, no cenário, na trilha, na movimentação, entre outros elementos que compõem a cena”, responde a diretora. “Há uma paleta infinita de cores, formas, objetos, mas o mais importante é o compromisso com o universo infantil, com a magia, com a permanência da crença na capacidade de sonhar e criar que a criança tem por natureza.”

A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) é a segunda montagem da companhia voltada para o público infantojuvenil. Trata-se de um bom filão mercadológico? “Quando pensamos e decidimos por uma criação, tentamos ouvir nossos anseios, no que diz respeito mais aos aspectos artísticos, estéticos e desafiadores do que à tendência do mercado”, afirma Ana. “O sucesso de uma obra se deve mais à verdadeira entrega em que todos estão mergulhados, à real dedicação que se deposita na obra e, obviamente, à capacidade expressiva de quem a concebe e quem a executa.”

SERVIÇO

A MÃO DO MEIO (SINFONIA LÚDICA). Concepção e coreografia de Michael Bugdahn e Denise Namura. Ideia original, texto e dramaturgia de Michael Bugdahn. Direção geral de Ana Botosso. Com a Cia. de Danças de Diadema. No Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Sábados, às 11h. Até 15/11. R$ 1,60 a R$ 8. Recomendação: 6 anos.

 

Espectadores doam memórias em jogo teatral com a CiaSenhas

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

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Esquecimentos e lembranças coletivos em um espetáculo-instalação. A CiaSenhas, de Curitiba, estreia Homem Piano – Uma Instalação para a Memória em São Paulo nesta sexta-feira (dia 26), no Sesc Ipiranga. A temporada se encerra no domingo (dia 28). Sueli Araujo assina dramaturgia e direção. Em cena: Luiz Bertazzo. A peça propõe a confecção de memórias entre ator e público em um ambiente cênico alternativo, no qual ficção e realidade se mesclam – e joga luz sobre o tema da construção da identidade.

O espetáculo tem como ponto de partida “uma notícia de um jovem encontrado sem memória em na cidade portuária de Kent, na Inglaterra”, conta Bertazzo. “Sem saber nada sobre sua existência, um dia desenhou em um papel um piano. Ao ser ler levado para o instrumento, o jovem tocou por horas e impecavelmente.”

Homem-piano: construção de sentido e aproximação de linguagens (foto: Elenize Dezgeniski)
Homem-piano: construção de sentido e aproximação de linguagens (foto: Elenize Dezgeniski)

O subtítulo da peça sugere uma aproximação com outras linguagens artísticas. “O espetáculo ocupa três espaços em que o conceito de instalação está presente. Neles, o público é convidado a triturar suas lembranças, a apagá-las ou resetá-las conforme sua necessidade e por último doá-las ao personagem que implora por memórias”, explica.

O espectador integra o jogo teatral. “O espetáculo é um convite para que o público vasculhe suas próprias memórias a fim de selecionar aquelas que gostaria de doar para o personagem, que clama por elas. Essa experiência de retomar suas lembranças é compartilhada, mesmo que discretamente, por todo o público. A limitação de 20 pessoas por apresentação ajuda a dar essa força de romper a impessoalidade, numa tentativa de transformar o público em um coletivo”, afirma.

O percurso cênico é delineado, do ponto de vista da dramaturgia, por ferramentas diferentes que buscam um encontro. “O espetáculo usa de recursos da poesia e da narrativa para trilhar essa trajetória do personagem que busca por memórias alheias. O ator assume uma função de condutor da narrativa.”

SERVIÇO

HOMEM PIANO – UMA INSTALAÇÃO PARA A MEMÓRIA. Dramaturgia e direção de Sueli Araujo. Com Luiz Bertazzo. No Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, São Paulo, SP. Fone (11) 3340-2000. Sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 18h. R$ 2,40 a R$ 12.

Poesia é protagonista em peça sobre Sylvia Plath

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

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A dramaturga Gabriela Mellão se debruçou sobre a obra e a vida da poeta estadunidense Sylvia Plath (1932-1963). “Acho Sylvia uma mulher infinita e muito próxima de todos nós. Sua escrita extremamente autobiográfica expõe potências e fragilidades comuns a todo ser humano de alma inquieta, em busca de um entendimento mais profundo de si e da vida. Ela demonstra plena consciência de que não utiliza plenamente toda sua capacidade. Não se contenta, quer sempre mais, caminhar, avançar, desenvolver-se”, conta a dramaturga. Desse mergulho nasceu a peça Ilhada em Mim – Sylvia Plath, que estreia no Sesc Pinheiros, na capital paulista, na quinta-feira (dia 18).

“Minha intenção foi revelar a complexidade do universo interior de Sylvia Plath, a potência de sua loucura e ao mesmo tempo de sua sensibilidade e extrema consciência”, explica. E esse universo embaralha obra e vida da poeta, que “evidencia seu compromisso de alma com uma arte vanguardista e verdadeiramente revolucionária, sua obsessão pelo esvair do tempo, seu desejo profundo e nunca plenamente atingido de ser mulher, amante, artista, filha e mãe”.

Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)
Sylvia Plath (Djin Sganzerla) e a água, elemento que liberta e asfixia (foto: Kleyton Guilherme)

Dirigido por André Guerreiro Lopes, o espetáculo ainda investiga a conexão entre Sylvia e o poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), com quem foi casada. “A tentativa foi revelar a relação de um amor intenso, tão vital como desestabilizador e destrutivo. Expor uma Sylvia movida pela paixão por Ted que definiu sua vida e obra, uma paixão que representa redenção e condenação na mesma medida, ou seja, vida e morte. A intenção foi revelar as emoções descontroladas da personagem, sua infinita capacidade de amar e sofrer, de entregar-se ao melhor e ao pior de sua paixão”, relata Gabriela. Djin Sganzerla interpreta Sylvia e Lopes, Hughes.

Inexiste a preocupação de fazer com que a narrativa transcorra de maneira linear, observa a dramaturga. “A peça não busca retratar a vida de Sylvia de forma didática, contar sua história. A intenção foi alcançar sua essência, jogar no palco as forças que se digladiavam dentro dela, que elevaram-na como mulher e artista e que também destruíram-na. Busquei o cheiro de Sylvia, seu odor mais perfumado e fétido. O texto é um vômito de amor, de sofrer, loucura, lirismo, vida, morte.”

A montagem foge da concepção realista, aponta. “A ideia do texto e da encenação foi se aproximar do lírico e do simbólico. No texto, a palavra poética é protagonista, busquei ultrapassar o discurso lógico criando imagens e estados que despertassem nos espectadores viagens sensoriais, além de mentais. O diretor traduz o texto em cena usando a água como metáfora para expor a inquietude sufocante de Sylvia, sua busca incessante por ar e paz interior. Os sinais do seu desajuste interior são conotados por uma simbologia visual que usa a água como signo de afogamento. Seu universo se esvai em cena, debaixo de água, elemento libertário tanto quanto asfixiante.”

É lícito entender, na peça, que a literatura é uma linguagem que sintetiza a própria arte. “Em Sylvia, literatura e poesia transformam cotidiano em arte. Seus sentimentos e questionamentos partem do cotidiano da existência humana, mas se afastam do pequeno revelando um entendimento das grandes questões da vida.” Ilhada em Mim – Sylvia Plath é mais uma expedição de Gabriela pelo universo da criação artística. Ela está em cartaz, como autora e codiretora (ao lado de João Paulo Lorenzon), no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o espetáculo Nijinski – Minha Loucura É o Amor da Humanidade até o dia 21, com ingressos esgotados.

 

Serviço

ILHADA EM MIM – SYLVIA PLATH. Dramaturgia de Gabriela Mellão. Direção de André Guerreiro Lopes. Com Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes. No Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, São Paulo, SP. Fone (11) 3095-9400. Quinta a sábado, às 20h30. Sessões extras nos dias 10, 17 e 24/10, às 17h. Até 1º/11. R$ 5 a R$ 25. Recomendação: 14 anos.

Lampiões urbanos lutam contra a injustiça

Por Mauro Fernando

(Do Rotunda)

maurofmello@yahoo.com.br

 

Personagens como um desempregado que sonha ver sua carteira de trabalho assinada, uma mulher cujo filho foi assassinado por policiais, um sambista que teve uma música roubada. Produção da Cia. do Miolo e da Cia. Pauliceia, a peça Relampião parte da mito de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, para iluminar a briga pela vida na urbanidade contemporânea. “São pessoas que vivem uma condição de abandono no circuito de trabalho convencional, estão à margem (da sociedade)”, explica o diretor Alexandre Kavanji.

Atriz representa personagens do abandono (foto: divulgação)
Atores representam personagens do abandono (foto: divulgação)

As circunstâncias sociais nas grandes cidades estão em foco. “A intenção é dar voz a esses personagens que têm uma carga de frustração, que têm sonhos interrompidos. É descobrir onde estariam os lampiões urbanos cuja característica é a luta contra a injustiça”, diz Kavanji. O ator Dudu Oliveira parafraseia Euclides da Cunha (1866-1909), autor de Os Sertões, para aproximar o universo do cangaço das primeiras décadas do século XX ao do urbano atual. “O brasileiro é, antes de tudo, um forte. Sobrevive mesmo na caatinga de concreto. Troca de pele, adapta-se para sobreviver”, compara.

O espetáculo de rua volta a São Paulo nesta quinta-feira (dia 31) – a apresentação está agendada para o Largo do Rosário, em Penha de França. “É uma peça bem urbana, que funciona bem em locais de efervescência, como a Praça do Patriarca e o Largo Treze de Maio, em São Paulo, e a Praça José de Alencar, em Fortaleza. Acabamos encontrando os próprios personagens (no público)”, afirma Kavanji. Oliveira destaca também três apresentações em Havana (Cuba). “Houve conexão (entre elenco e público) o tempo todo, apesar das línguas diferentes”, diz.

O diretor contabiliza cerca de 70 apresentações – a montagem estreou em setembro de 2012. Os atores Aysha Nascimento, Antonia Mattos, Dudu Oliveira, Edi Cardoso, Flávio Rodrigues, Francisco Gaspar e Harley Nóbrega compõem o elenco ao lado dos músicos Daniel Zacharias e Glauber Coimbra. Solange Dias assina a dramaturgia de Relampião. O texto aponta para uma perspectiva de transformação social? “Acredito que a peça proporciona uma reflexão. Percebemos uma identificação na rua, há uma sensibilização. Mas o quanto isso reverbera em mudanças não consigo saber. Embora seja um texto político, a preocupação é não sermos panfletários”, relata o diretor.

RELAMPIÃO. Dramaturgia de Solange Dias. Direção de Alexandre Kavanji. Direção de atores de Renata Lemes. Com a Cia. do Miolo e a Cia. Pauliceia. No Largo do Rosário, São Paulo, SP. Quinta-feira (dia 31), às 16h. Grátis.

 

Coletivo aborda a solidão

Por Mauro Fernando

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O ator e diretor Wallyson Mota trabalhou com o diretor e dramaturgo argentino Ariel Farace em 2012. “Ele estava em São Paulo para montar Luísa se Choca Contra sua Casa e me chamou para a assistência de direção. Ele me apresentou Sem Título nessa época”, conta Mota. “Quando, no ano passado, surgiu em mim um desejo de dirigir, lembrei-me desse texto. O que me chamou atenção à primeira vista é a peça não ter título, o que me pareceu uma provocação.” Dirigido por Mota, o Coletivo Labirinto colocou Sem Título em cartaz dia 3 no Sesc Consolação, na capital paulista.

São três personagens: Ana (Carol Vidotti), Laura (Paula Zaneti) e Ulisses (Abel Xavier). Três jovens que moram sozinhos, três universos solitários que se cruzam em determinado momento do espetáculo. “Os três vivem na mesma rua e não se conhecem”, assinala Mota. Aparecem nesses encontros sentimentos como amor e medo do retorno à solidão, temperados com assuntos como a proximidade da morte. Além da dicotomia encanto/desencanto. “Há uma metáfora da trajetória dos planetas, que se alinham e se desalinham, da força da natureza”, afirma.

Três personagens em rota de colisão (foto: Renan Lima)
Três personagens em rota de colisão (foto: Renan Lima)

Essa solidão escancarada é sintoma de uma sociedade enferma? “A peça é um retrato contundente do mundo contemporâneo, principalmente das grandes cidades. As pessoas estão cada vez mais isoladas dentro de suas casas, mantendo relações virtuais pela internet. O texto aponta para esse retrato da desolação e do enclausuramento com uma certa melancolia”, diz.

Mota indica ainda que Farace reserva para seus personagens uma luz no fim do túnel. “Embora as pessoas sejam tristes, há beleza e poesia na vida delas. Não está tudo acabado. Há saídas para os personagens e para a sociedade. A possibilidade da frustração afetiva não invalida a vontade de relacionar-se. O texto aponta que a grande dificuldade e a saída estão no contato com o outro”, afirma.

Três placas de acrílico transparentes, grafadas com as plantas baixas dos imóveis onde vivem os personagens, formam a cenografia. “São uma síntese de cada um e do universo que os rodeia. As placas se deslocam, não é um cenário estático”, explica Mota. A trilha sonora foi composta especialmente para a montagem. “Rafael Zanorini criou a música a partir de referências do rock dos anos 1990, como (a banda) Radiohead, refletindo a mecanização do mundo contemporâneo”, observa.

 

SERVIÇO

SEM TÍTULO. De Ariel Farace. Direção de Wallyson Mota. Com o Coletivo Labirinto. No Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Quintas e sextas, às 20h. Até o dia 25. R$ 2 a R$ 10. Recomendação: 12 anos.

Velha Companhia conta histórias de três gerações

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

O Barco conta diversas histórias à Poita. Narra fatos relativos a três gerações de uma família, observados de um ponto privilegiado. A Velha Cia. recoloca em cartaz Cais ou Da Indiferença das Embarcações, peça escrita e dirigida por Kiko Marques, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, com entrada franca.

“Faz 40 anos que vou à Ilha Grande (no município de Angra dos Reis, RJ), sempre de férias. Vi muita coisa nessas idas sazonais, como desativarem um presídio e fecharem uma fábrica. Com o olhar de quem ia e voltava, vi a Ilha se transformar em um polo turístico forte. E tive vontade de transformar isso em um espetáculo”, explica o autor e diretor.

Paixões trágicas são assunto do espetáculo (foto: Ligia Jardim)
Paixões trágicas são assunto do espetáculo (foto: Ligia Jardim)

“O barco é real, tem cerca de 100 anos. É velho e obsoleto, mas as pessoas têm um carinho enorme por ele, que mora no inconsciente do povo. Há algo de mitológico nele. Todas as histórias que o Barco conta terminam no Réveillon, que é um momento de fazer promessas, de dizer ‘serei melhor’”, afirma. “O cais é um lugar de interseção. Um lugar entre o que um homem gostaria de ser, o que projeta quando parte ou chega, e o que de fato consegue realizar.”

São 11 atores, além de Marques: Walter Portella (convidado da companhia), Alejandra Sampaio, Marcelo Diaz, Marcelo Laham, Marcelo Marotti, Marco Aurélio Campos, Maurício de Barros, Patrícia Gordo, Rose de Oliveira, Tatiana de Marca e Virgínia Buckowski. “O avô comete uma falha trágica, da qual são vítimas três gerações. O texto gira em torno da questão da paixão. Um caso de amor não resolvido se torna algo profundamente negativo”, revela. Marques interpreta o avô; Portella, o Barco; Rose, a Poita.

Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento, responde pelos bonecos que há em cena. “Os bonecos ajudam a contar as histórias. E são ainda uma metáfora do que fala o texto, a ideia de algo manipulando, insuflando vida nos bonecos, a questão trágica entre destino e livre arbítrio”, relata Marques. A encenação tende ao realismo, esclarece, e inexiste um tom fabular na montagem. “O Barco é um ser humano, conversa com a Poita sobre coisas que viu. Nada nele lembra um barco, a não ser o nome.” Chris Aizner assina cenário e figurino. A simplicidade dá o tom. “Não há ostentação”, diz Marques.

SERVIÇO
CAIS OU DA INDIFERENÇA DAS EMBARCAÇÕES. Texto e direção de Kiko Marques. Com a Velha Cia. e Walter Portella. Na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363, São Paulo, SP. Fone (11) 3221-5558. Sextas, sábados, segundas e terças, às 19h. De 27/6 a 11/8. Entrada franca. Recomendação: 14 anos.

Adriana Grechi investiga o desejo

Núcleo Artérias expõe olhar crítico sobre a sociedade (Foto: Edson Kumasaka)
Núcleo Artérias expõe olhar crítico sobre a sociedade (Foto: Edson Kumasaka)

 

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

Investigar artisticamente o desejo na sociedade de consumo. É o que o Núcleo Artérias, dirigido pela coreógrafa Adriana Grechi, se dispõe a fazer em Escuro Visível, que estreou ontem,19, e cumpre temporada na Galeria Olido, em São Paulo, até domingo (dia 22), com entrada franca. Trata-se do nono espetáculo do Núcleo Artérias, ex-Cia. 2 Nova Dança, criado em 2003.

Três intérpretes-criadoras (Carolina Minozzi, Lívia Seixas e Nina Giovelli) traduzem para a linguagem da dança questões como o conflito ideológico entre individualismo e ação coletiva e a confusão entre desejo e necessidade, fomentada pela publicidade. “O desejo é utilizado como propulsor da sociedade de consumo”, justifica Adriana.

O desejo individual – simbolizado no “funk ostentação, por exemplo” – em oposição a ideais coletivos é o assunto da montagem, mas a coreógrafa revela que também interessa à companhia outra indagação, que interage com o tema central: “Pensar como as conexões se dão na coletividade”. Ou seja, como as pessoas se influenciam mutuamente, já que o ser humano é gregário, sociável.

Outra questão que Carolina, Lívia e Nina buscam esquadrinhar em seus corpos é a transformação – “o fio condutor do trabalho”, conforme Adriana. É possível imaginar, então, “uma pequena utopia: uma sociedade em transformação a partir dos desejos de cada um, com uma grande conexão de afetos”.

Cabe, pois, refletir sobre “uma utopia da coletividade”. Não, porém, uma sociedade “em que todos fazem as mesmas coisas”, esclarece a coreógrafa, não uma coletividade padronizada, mas uma “de indivíduos diferentes”: “Uma sociedade que abriga uma diversidade de interesses e que mantém suas conexões vivas”. Em outras palavras: “O desejo de cada um inserido no coletivo”.

Adriana confirma haver em Escuro Visível “uma busca por uma alternativa ao consumismo, por um tipo de resistência”. E também “um olhar sobre um desejo mais vital”, no qual está embutido “algo primitivo, básico, necessário para a existência”. “Um depende do outro no sistema coletivo”, lembra.

O afeto constitui outro eixo de discussão no espetáculo. “O afeto é o que conecta as pessoas”, diz Adriana. Como trabalha-se com o “corpo poroso, permeável”, as intérpretes-criadoras deixam-se “contaminar pelos afetos” e permitem “transformar-se a partir da percepção do outro”.

 

SERVIÇO

ESCURO VISÍVEL. Concepção e direção de Adriana Grechi. Com o Núcleo Artérias. Na Galeria Olido. Avenida São João, 473, São Paulo, SP. Fone (11) 3331-8399. Hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Entrada franca. Recomendação: 12 anos.

Bortolotto retoma personagens marginais

Bandidos sem grandes aspirações, mas dispostos a muita coisa (Foto: Hudson Motta)
Bandidos sem grandes aspirações, mas dispostos a muita coisa (Foto: Hudson Motta)

Por Mauro Fernando

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O ator, diretor, dramaturgo e escritor Mário Bortolotto revela que Killer Joe, peça do estadunidense Tracy Letts, chegou às mãos dele por meio do ator Carcarah. “O projeto é do Carcarah. Ele leu o texto e me chamou para dirigir. Gostei da peça, há uma ligação com Sam Shepard (dramaturgo estadunidense, coautor do roteiro de Paris, Texas), tem a ver com meu estilo. Tenho intimidade para trabalhar com esses personagens”, conta Bortolotto. A montagem estreou dia 13, sexta-feira, no Teatro Cemitério de Automóveis, na capital paulista.

Killer Joe traz cinco personagens. Uma família desajustada vive em um trailer, à margem da sociedade, em confronto com o sistema. O jovem Chris (Gabriel Pinheiro), filho de Ansel (Fernão Lacerda) e irmão de Dottie (Ana Hartmann) – Charlene (Aline Abovsky) é a madrasta –, deve dinheiro ao tráfico. Elabora um plano com os familiares para se livrar do problema e contrata o matador Killer Joe (Carcarah).

“São pequenos marginais; não bandidões, exceto Killer Joe”, afirma o diretor. “Chris contrata um cara para matar a própria mãe e ficar com o dinheiro do seguro de vida, e todos concordam. Estão dispostos a tudo para somar pequenos ganhos.” Inexiste integridade de gesto nessa turma, tampouco grandeza no sentido material. “São medíocres, mesquinhos, pequenos. Não conseguem sequer almejar algo grande, não têm uma grande ambição.”

Os personagens e a trama representam um sintoma de uma sociedade doente? “Não diria tanto”, responde Bortolotto. “Na verdade, é uma história de um microcosmo familiar que eu ajudo a contar. Deixo para as outras pessoas julgarem. Não tenho a intenção de transformar essa peça em algo grandioso.” Existe niilismo nessa história? “Há, sim, no autor. Mas os personagens nem sabem o que é isso.”

Desagregação familiar resultante (ou resultado) de carências múltiplas e de sonhos desfeitos em um ambiente de esfacelamento do tecido social – um universo que não é estranho à obra de Bortolotto, autor de peças como Medusa de Rayban e Nossa Vida não Vale um Chevrolet. Universo que se encontra também na literatura por ele convertida em teatro – Mulheres (de Charles Bukowski), O Herói Devolvido (de Marcelo Mirisola) – e em peças de outros dramaturgos por ele dirigidas, como Garotas da Quadra (de Rebecca Prichard) e Tape (de Stephen Belber).

KILLER JOE. De Tracy Letss. Direção de Mário Bortolotto. Com Aline Abovsky, Ana Hartmann, Carcarah, Fernão Lacerda e Gabriel Pinheiro. No Teatro Cemitério de Automóveis. Rua Frei Caneca, 384, São Paulo, SP. Fone (11) 2371-5744. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 20h30. R$ 20. Recomendação: 16 anos.

Trajetória de Maria Padilha sob estética cômico-popular

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

A Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes utiliza seu palco itinerante para estrear a comédia épico-musical A Gira da Pomba no domingo (dia 8), no Parque da Luz, na capital paulista – e, como teatro de rua, sem cobrança de ingresso. A peça investiga a trajetória mítica de Maria Padilha, de amante de um monarca de Castela no século XIV à atual Pomba-Gira da umbanda. Ednaldo Freire assina a direção. Luiz Oliveira Santos e Alex Moletta respondem pela dramaturgia. A trupe tem 12 apresentações confirmadas em parques paulistanos, sempre aos domingos.

Comédia reflete sobre a condição feminina (foto: Bob Sousa)
Comédia reflete sobre a condição feminina (foto: Bob Sousa)

Freire conta que Santos sugeriu o tema ao grupo, que começou a trabalhar nele a partir da dissertação Maria Padilha e Toda a sua Quadrilha: de Amante de um Rei de Espanha à Pomba-Gira de Umbanda, de Marlyse Meyer. “O que mais nos interessou é a circularidade oral dessa personagem, que existe desde 1350 na Europa e foi incorporada à nossa cultura popular por meio do candomblé”, informa o diretor. “Mas não há na montagem um envolvimento místico-religioso no assunto”, esclarece.

O grupo trabalha com o conceito de processo colaborativo – dramaturgia e encenação são erguidas com o elenco. Trocas de ideias e de impressões, sugestões e pesquisas que enriquecem uma peça. Os atores Aiman Hammoud, Carlos Mira, Daniela Theller, Fabio Takeo, Mariana Rosa, Mirtes Nogueira e Roberto Barbosa também se debruçaram sobre obras como O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro.

Isso desencadeou “um mergulho fundo na representação cênica”, afirma o diretor. “Fomos ao estúdio de Valdeck de Garanhuns, especialista em teatro de mamulengos, a fim de conhecer essa técnica e introduzi-la no espetáculo, para que ele não fique histórico, chato. A linguagem de bonecos e a de HQ oferecem várias possibilidades cênicas para (apresentações em) praça pública.”

A Gira da Pomba é uma comédia épica porque o recurso da narrativa está presente. E uma comédia musical porque “a música ocupa um papel preponderante”, diz. “Mas ela evita a reconstituição de rituais do candomblé. O caráter é profano, o objetivo é não misturar religião e teatro. O tom é de fabulação leiga”, destaca. A música original é de Lincoln Antonio.

A peça propõe, ainda, uma reflexão sobre a condição feminina. “Maria Padilha consegue desenvolver uma afronta à sociedade patriarcal. Tida como a rainha da sensualidade, conquistou o rei, que fez o diabo para ficar com ela”, afirma Freire. Trata-se de tema polêmico, reconhece. “Trabalhamos uma personagem que foi histórica, virou mito e tornou-se entidade do candomblé. É reverenciada do ponto de vista popular.”

Amante de Pedro, o Cruel, Maria Padilha foi coroada rainha depois de morta – assim como Inês de Castro (por Pedro, o Cru, de Portugal). “Ela começou a cair na boca do povo, no diz que diz, nas invenções populares. Começou a virar mito já na Europa por causa dessas histórias. Colocamos em cena algumas delas. O mito veio para o Brasil com os colonizadores e se propagou. É a trajetória de uma personagem marginal construída pela imaginação popular. E vira universal porque a cultura popular não tem pátria”, sintetiza.

A Fraternal surgiu em 1993 e inaugurou seu tablado itinerante – uma carreta que conta com palco de 56 m² e oferece cobertura para cem pessoas sentadas – em 2011. Vem apresentando em espaços públicos, como parques e praças, montagens concebidas para sala de teatro, como Auto da Paixão e da Alegria, Borandá e Sacra Folia. “É teatro na rua (por conta do palco), não necessariamente teatro de rua”, nota o diretor. “E aquela eterna nostalgia, a volta à origem do teatro.”

O que mudou para a companhia? “O interesse do público muda. Quem vai ao teatro já está predisposto a ver um espetáculo, e o público de rua é espontâneo. Há interferências, como o motor de um caminhão passando, uma intempérie. O ator está sempre sob risco, mas aumentam a capacidade de foco e a preocupação em não fazer um espetáculo longo demais e em fisgar o público e fazer com que ele não perca o interesse”, relata Freire.

A GIRA DA POMBA. Dramaturgia de Luiz Oliveira Santos e Alex Moletta. Direção de Ednaldo Freire. Com a Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes. Em 8/6: Parque da Luz. Em 15/6: Parque do Carmo. Em 22/6: Parque Anhanguera. Em 29/6: Lions Club Tucuruvi. Em 6/7: Parque Raposo Tavares. Em 20/7: Parque da Aclimação. Em 27/7: Parque Shangrilá. Em 3/8: Parque Jardim Felicidade. Em 10/8: Parque Independência. Em 17/8: Parque Ibirapuera. Em 24/8: Parque Rodrigo Gásperi. Em 31/8: Parque Vila Guilherme. Sempre às 11h. Grátis. Recomendação: livre.