Mês dos livros

Monteiro Lobato – Dedicação às produções infantis  (foto: divulgação)

Lobato – Dedicação às produções infantis (foto: divulgação)

Abril é um mês em que os livros ganham destaque no mundo da cultura. O dia 2 foi marcado pelo ‘Dia Internacional do Livro Infantil’, mas no Brasil a data também é comemorada no dia 18, em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato (1882-1948), que foi um dos primeiros escritores brasileiros a produzir obras para crianças.

Lobato escreveu as famosas histórias da coleção ‘Sítio do Picapau Amarelo’, como ‘Reinações de Narizinho’ e ‘Caçadas de Pedrinho’, entre outras, e também traduziu e adaptou obras de renome internacional, como ‘Alice no País das Maravilhas’, de Lewis Carroll, e contos infantis de Hans Christian Andersen, entre os quais ainda hoje fazem bastante sucesso ‘O patinho feio’, ‘O soldadinho de chumbo’ e ‘A pequena sereia’.

Mas apesar do trabalho de Lobato ter influenciado a produção cultural da primeira metade do século 20, seu legado até hoje não se faz cumprir, já que as crianças ainda não estão dedicadas à leitura como deveriam e poderiam. Os pais precisam acordar para o fato de que ler uma história para uma criança é um ato que pode contribuir para formar um leitor habitual e crítico, um adulto com mais consciência dos problemas do mundo, de si próprio e do outro.

As crianças não aprendem pela teoria, mas pelo exemplo e por isso gostam de imitar os pais e outras pessoas que as cercam. Quem acha que mandar uma criança para a escola, apenas, é suficiente para seu desenvolvimento não percebe que o ambiente familiar é um campo privilegiado de aprendizagem, um campo que infelizmente fica, em muitos casos, à mercê da televisão e de sua pobre ideologia, conduzindo as crianças para um mundo de consumo e valores materiais.

Outra data importante para os leitores será 23 de abril, quando é comemorado o ‘Dia Mundial do Livro’, instituído desde 1995 pela Unesco. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), que tem sede em Pinheiros (rua Cristiano Viana, 91 – na internet: cbl.org.br) vai homenagear a data com palestra matinal, acompanhada de café da manhã, da professora de pós-graduaçao da PUC-SP Lúcia Santaella, especialista em semiótica (ciência que estuda as significações dos símbolos) e pesquisadora do CNPq.

Com ingressos de R$ 90 a R$ 180, Lúcia vai falar ao público sobre o papel do livro na sociedade contemporânea, esmiuçando as relações dos leitores com os textos para destacar tipos contemplativos, moventes, ubíquos (que estão em toda parte) e imersivos. Essas diferenças de atitude acontecem porque um texto só ganha existência no mundo interior de cada um, frente às suas experiências. Por isso, um mesmo livro pode significar a transformação para um determinado leitor e nada para outro.

Este artigo no Metrô News:

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Na Folha Metropolitana:

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O suposto racismo de Monteiro Lobato

A ação contra a presença da obra ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato (1882-1948), em escolas públicas, que se arrasta desde 2010 e na semana passada teve mais uma rodada de conciliação no Supremo Tribunal Federal, coloca em questão o racismo e o papel da educação hoje, mas a literatura de qualquer modo fica arranhada.

A narrativa faz referência à personagem Tia Nastácia como “macaca de carvão” e essa expressão motivou o Conselho Nacional de Educação a recomendar a retirada do título do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Lobato publicou ‘Caçadas de Pedrinho’ em 1933

Desde então, a ação movida pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), do Rio, e pelo técnico Antonio Costa Neto defende que os professores recebam treinamento para lidar com questões raciais, enquanto o Ministério da Educação propõe a impressão de um nota explicativa, com o contexto histórico da obra.

Hoje ninguém em sã consciência pode ser a favor do racismo e admitir a expressão de Lobato, mas a questão da literatura é menor nessa discussão, que tem motivações políticas.  Entre as opiniões que repercutiram a polêmica, achei duas as mais interessantes: a ação chegou a ser chamada de patrulhamento ideológico e de exagero da postura politicamente correta.

“Toda manifestação artística deve ser analisada à luz do momento histórico em que foi criada: não existe obra desvinculada de seu contexto”, afirma a escritora Karla Lima, autora do romance ‘Minha Vida de Brinquedo’, que trata da condição social dos idosos na sociedade hoje. “Mas a edição ou supressão do termo seria uma violência ainda maior”, afirma, lembrando o caso da obra ‘As aventuras de Huckleberry Finn’, de Mark Twain (1835-1910), em que a editora americana NewSouth Books substituiu a palavra ‘negro’ por ‘escravo’ em uma nova edição.

E há outros casos de literatura provocando confusão. Em 2011, o Tribunal de Justiça de São Paulo vetou nas escolas o livro ‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’ por conta de seu conteúdo sexual. O livro ‘Violetas e Pavões’, de Dalton Trevisan, também teve de ser banido da lista de vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Esses fatos são de arrepiar os escritores, que são como que antenas do tempo, captando o que o humano tem de absurdo, agressivo e impensado. Não existe uma literatura “boa”, em que os personagens sejam somente movidos por ideais éticos. A literatura é um campo de conflitos de ideias e emoções. Sexo, perversões e fantasias absurdas expressam mais sobre o espírito humano do que qualquer vã filosofia. Talvez por isso o escritor Ziraldo tenha dito à Folha de S.Paulo que leu toda a obra de Lobato e não percebeu nenhuma ideia racista.

Saia justa para o ‘politicamente correto’

Twain pesquisou dialetos dos negros para escrever seu romance

A principal obra do escritor e humorista norte-americano Mark Twain (1835-1910), o romance ‘As aventuras de Huckleberry Finn’, ficou mais acessível ao leitor brasileiro com duas edições, pela BestBolso e pela L& PM Editores, que trazem novas traduções, pretendendo-se mais fiéis ao texto original em inglês do que as publicações anteriores, com base na tradução de Monteiro Lobato (1882-1948).

O texto de Twain, publicado em 1884, é considerado inaugural da literatura moderna nos Estados Unidos e foi fundamental, por exemplo, entre as influências do escritor Ernest Hemingway (1899-1961). A história de Twain narra a trajetória de dois garotos em fuga, navegando sobre as águas do rio Mississipi na época em que o país via sua identidade nascer entre quase 1 milhão de mortes da Guerra da Secessão, quando os estados do Sul e do Norte se enfrentaram por conta de suas diferenças econômicas e culturais.

Para escrever, Twain se transfigurou em Huckleberry Finn, um garoto semi-alfabetizado que narra suas aventuras ao lado de Jim, um escravo fugido pelo qual sua proprietária oferece 300 dólares de recompensa. Huck Finn e Jim seguem o curso do rio em sua jangada, descansando em bancos de areia e construindo uma relação de amizade que coloca pelo avesso o mundinho aristocrático dos americanos.

Isso, no entanto, não é feito sem uma grande dose de polêmica. Twain, ao mesmo tempo, é acusado de racista, de usar deliberadamente a palavra ‘negro’, que aparece mais de 200 vezes no livro. A linguagem de Twain é controversa ainda hoje – no início deste ano, a editora americana NewSouth Books substituiu a palavra ‘negro’ por ‘escravo’ em uma nova edição da obra.

Para o blogueiro Milton Ribeiro, que escreve sobre literatura, música e cinema, a acusação de racista é uma “inverdade ficcional”, já que quem usa a palavra é Huck, o narrador, e não Twain propriamente. “O que os moralistas não notaram é que Huck ama Jim, quer vê-lo livre e faz tudo para isso”, afirma Ribeiro em seu blog (http://miltonribeiro.opsblog.org/).

No capítulo 32 do livro, há um trecho especialmente emblemático da polêmica, em que o narrador responde sobre um acidente em um barco. “Alguém se feriu”, pergunta tia Sally. “Não senhora, matou um negro”, responde Huck Finn, ao que a outra retruca: “Bem, que sorte, porque às vezes pessoas ficam feridas”.

No contexto do livro, o leitor percebe que Twain reinventa a linguagem, como depois foi tão comum entre os modernistas, para construir a realidade de cada personagem e ao mesmo tempo desbravar novos caminhos para a literatura. Huck e Jim se constituem pela linguagem falada, que reflete as diferenças sociais entre brancos e negros naquele momento histórico.

Twain coloca uma nota explicativa no início em que afirma que as expressões coloquiais de linguagem não são obra de sua imaginação, mas resultado de incansável pesquisa dos dialetos dos negros do Missouri e de outras regiões.

 

Foto: Divulgação