Uvas Verdes

Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

— Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

— Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, Teleco levantou a dúvida:

— Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Meritocracia

Naquela manhã de sábado, no bar e mercearia do Carneiro, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, era a própria candura. Também pudera. Deolinda – a “Fabulosa”, único símbolo sexual digno do nome da Vila Invernada – sentou-se à sua mesa, aceitou um copo de cerveja e começou a prosear, sem se preocupar em esconder o que o decote avantajado e o sutiã três números menor insistiam em exibir:

— Passei um susto danado, esta semana. Meu chefe me chamou e foi direto ao ponto: “Você não tem se saído bem como secretária. Alguns clientes reclamam que você nem sempre anota os recados, fica impaciente quando a conversa se estende etc. Assim, fica difícil”.

— E então? – quis saber o Velho Marinheiro.

— Quase surtei, dependo do meu trabalho, o senhor sabe. Custei tanto a arrumar um emprego de secretária! Estava com medo, mas lhe perguntei: “O senhor vai me demitir?”. Para minha surpresa, ele me disse: “Não. Vou promovê-la.” Quase cai da cadeira. E ele concluiu assim: “Seu corpo roliço na medida certa, suas nádegas e seus seios fartos botam esse coração velho afogueado, são verdadeiro colírio para minhas vistas fatigadas.” O que o senhor, Velho Marinheiro, acha disso?

— Seu chefe é homem de bom senso. Logo se vê. Sabe que é impossível agradar a todos e que clientes são chatos, acham que têm sempre razão. Parabéns pela promoção merecida. Vamos comemorar: “Carneiro: traga mais uma cerveja e uma porção de croquetes. Dona Deolinda precisa se alimentar, para manter essa forma exuberante.”

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Luz e sombra

— Cara: fui muito mal? Seja sincero, por favor, me fale a verdade. Comecei o trabalho ontem, não deu nem tempo de esquentar a cadeira e me vejo ao lado do deputado e da cúpula do partido tendo que dar opinião sobre isso e aquilo. Quase surtei. Não gosto de falar em reuniões, prefiro escrever. Sou tímido, falo muito em boteco, depois da terceira. Entende?

— Você foi bem demais, Ananias. Bem demais.

— Jura?

— Por que mentiria para você?

— Que bom! Fernandinho: fico feliz.

— Não deveria.

— Como assim?

— Luz projeta sombra. Dois assessores do deputado, Ananias, já querem vê-lo pelas costas. Um deles sou eu.

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Uma selfie com o Velho Marinheiro

Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos a câmara digital nova que acabara de comprar, das mais modernas. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:

— Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo…

— Fazer o quê?

— Uma sel-fi-e.

— Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.

— Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?

— Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.

Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:

— Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.

— Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!

— Todo mundo faz – tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.

— Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.

E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.

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Um fardo a menos

Nem ele sabia por que corria tanto, desassossego sem fim.

Anos e anos de terapia – sejamos francos – não lhe serviram para nada, como quase sempre acontece com todo mundo. Gastou fortuna, as frustrações ganharam corpo.

Alfredo continua o mesmo: inseguro, ansioso, certo de que o mundo acabará amanhã, ou a qualquer momento, como sempre dizia sua mãe. Obsessão de vida inteira: amanhã não haverá mais mundo.

Daí, a necessidade de querer fazer já, para ontem, tudo, não importa o quê.

Anos e anos de sofrimento e despesas. À toa.

Um dia, muito tempo depois, de bolsa cheia, a terapeuta abriu o jogo:

— Alfredo: se você acha que o mundo vai acabar a qualquer momento – e não há quem tire essa bobagem de sua cabeça –, por que correr tanto, para que fazer isso ou aquilo, se amanhã aquilo e isso não terão sentido algum, já que não haverá mais mundo?

Caiu a ficha.

— Por que a senhora levou tanto tempo para me dizer o óbvio?

— Você não estava preparado para ouvir a verdade.

Alfredo pensou em muitas coisas: exigir o dinheiro (de anos, pequena fortuna) de volta, matar a terapeuta e família, exumar o corpo da mãe e queimar seus ossos…

Achou melhor continuar correndo, sempre apressado, sem saber para onde nem por quê. Só que agora sem ter que pagar a conta da terapeuta.

 

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Revelações

Parque Shangai em 1958 (foto: divulgação)

Parque Shangai em 1958 (foto: divulgação)

Sabiá, menina de tudo, ia ao Parque Shangai; eu também ia. Íamos quando o dinheiro dos pais dava para nos levar. Íamos pouco. Muito aquém de nossos desejos. Quase sempre não dava para ir. Além do ingresso, sempre havia uma despesinha extra. Sabem como é? Crianças são gulosas, ainda mais se forem gorduchas (sempre fomos, Sabiá e eu), acham que orçamento apertado dos pais é maldição do FMI, coisa medonha de neoliberais. Não é. É falta de grana mesmo.

Nunca encontrei Sabiá no Shangai.  Azar meu. Sorte dela?

Ela era chique. Ia, com Mami, Papi e seus irmãos de Rural Willis. Papi, temerário ao volante, era um querido – embora janista, era adepto da tese “fé em Deus e pé na tábua”, do Adhemar de Barros, rival ferrenho do homem da vassoura. Grande sogro, do tamanho da força e coração da Mami.

Eu ia com mãe, pai e irmã – de ônibus –, no começo. Depois melhorou muito.

O pai, esforçado que só, a mãe economizando até não mais poder, nós melhoramos de vida, compraram geladeira, batedeira e automóvel: Aero Willis branco, de banco bordô. Quando havia ovos e farinha, era bolo todo sábado. Bolo de cenoura virou moda na família. Não tenho dúvidas de que, à época, a cenoura estava sendo vendida na bacia das almas. Além do bolo, era tudo feito com cenoura: patês, purês, croquetes. Odeio, até hoje, cenoura.

Nunca nos encontramos por lá, Sabiá e eu, no Shangai. Nem na afamada Pirani, loja de grande sucesso, entre pobres e remediados da zona Leste de São Paulo, no século III A.C. Mas foi ali que o amor teceu suas teias. Fotos comprovam que estivemos por lá, posando para o lambe-lambe: tocando sanfona, dois sanfoneiros, Sabiá e eu.

Faz tempo.

Até hoje, décadas depois, dançamos um miudinho. É tão bom.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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Tempo de despertar

Já fui muito festeiro, não sou mais. Se houvesse uma enquete para definir o mês mais chato do ano, cravaria sem pestanejar: dezembro. É um porre de bebida ordinária. É pior que cuecas e sapatos apertados.  Não chega a aleijar, mas incomoda.

Os preços disparam e raramente se encontra nas lojas o que se procura. O trânsito consegue ficar infinitamente pior do que já é. O telefone não para: de asilos a creches, todos querem uma doação extra. Os funcionários do prédio esperam uma “caixinha gorda”, os balconistas da padaria também. O ajudante do açougueiro, o carteiro e os medidores de água, luz e gás não fogem à regra. Esta gente não recebe o 13º salário?

Pior que isso, só o tal de “amigo oculto”. Perde-se muito tempo e dinheiro com essa bobagem. Em geral, você dá ao “amigo” o que ele abomina, e recebe algo que para nada lhe serve. É a lei da vida: aqui se faz e aqui se paga. Isso quando não ocorre de você dar um panetone para a tia e receber da tia um panetone, da mesma marca e tamanho. É patético.

Não sei o que é pior: as festas de Natal ou as comemorações do dia 31. Todo mundo de olho no relógio. Afinal, meia-noite é a hora de abraçar com entusiasmo aquele parente que você paga para não ver ao longo do ano. Aquela felicidade forçada é de arrebentar corações pouco valentes, como o meu.

Ah, temos os foguetórios, anunciando a chegada do novo ano. Todo mundo de boca aberta, olhando para o céu e dizendo em uníssono: “Que lindo!” Francamente. Que dizer, então, das simpatias? Calcinhas brancas para ter paz; amarelas para ter dinheiro. E por aí vai. Suponho que as devassas, por coerentes e pragmáticas, não usem calcinha alguma.

Ainda bem que não há mal que sempre dure. Janeiro logo chega. É tempo de pôr em marcha tudo aquilo que, há duas décadas, em marcha prometemos pôr. Em vão. Tempo de recomeçar a contar os dias que faltam para dezembro próximo.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

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