O consultor

Andava sempre impecavelmente vestido. Era admirado pelas mulheres; invejado pelos homens. Além de charmoso, primava pela extrema cordialidade. Cumprimentava os funcionários, dos porteiros aos membros da diretoria, sempre com um sorriso. Por isso, muitos deles – e delas, principalmente – aguardavam ansiosos suas visitas semanais à empresa, da qual era consultor jurídico. Não havia também quem não admirasse seus conhecimentos. Como pode um homem ter tanto conhecimento? Era o que muitos se perguntavam, entre admirados e impotentes.

Doutor Hélio era um encantador de serpentes. Cobrava caro pelos seus serviços, mas isso não incomodava nenhum um pouco os sócios da metalúrgica – três irmãos, gente de origem humilde, meio bronca, quase analfabeta, mas vencedora. Doutor Hélio lhes dava prestígio. Contar com sua assessoria – e de sua equipe – não era café pequeno, coisa para qualquer empresa de médio porte.

Nas reuniões semanais, nosso consultor, ante qualquer indagação sobre isso ou aquilo, deitava falação, citava leis e mais leis, artigos e mais artigos, incisos, alíneas e tudo o mais que fosse preciso. De chofre. E sem consultar nenhum código, nenhuma colinha. Era um sábio, sem dúvida. Um Rui Barbosa contemporâneo. Muitos lhe perguntavam por que ainda não fora nomeado ministro da Justiça. Limitava-se a sorrir: “O tempo é o senhor da razão.”

Ninguém entendia por que o gerente Geraldo Galdino, o GG, nutria tamanha aversão por doutor Hélio. Um dia, o funcionário resolveu procurar um dos sócios, solicitar uma reunião particular e rasgar o verbo:

— Há mais de ano, venho fazendo anotações. Toda lei que doutor Hélio cita de cabeça, sem consultar livro algum, anoto disfarçadamente. Em casa, pesquiso para saber se aquilo existe mesmo. Para minha surpresa, na esmagadora maioria dos casos, as leis não existem. Quando existem, tratam de assuntos diferentes dos que foram abordados na reunião. O homem é uma farsa.

O sócio nada disse a GG, além de um “vou pensar no caso”. Dias depois, Galdino foi demitido, sem nenhuma explicação. Quando soube da demissão e, principalmente, das razões que a motivaram, doutor Hélio manteve a fleuma:

— Nunca quis dizer nada a vocês. Mas Galdino sempre me pareceu um desagregador. Que pena. Inveja mata.

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Tomara que (não) caia

Orla. Sol forte. Brisa oportuna. Delícia.

O Velho Marinheiro de regata azul. Mafalda vestidinha como convém a uma senhora recatada, mulher de um Lobo do Mar. Coisa para poucas.

Quase paz.

Lá vinha ela toda faceira, com seus quase 7.0, 120 Kg, varizes a dar com pau, mil e duas tatuagens coloridas (por recentes), cabelos vermelhos, biquíni branco cobrindo as partes baixas (as de cima, em queda mais que livre, contavam com a proteção de um tomara-que-caia, nada mais).

Virou atenção do calçadão, com o perdão da rima involuntária e vagabunda. Impossível passar batida, mas não passava batida pelos piores motivos. Homens lhe dirigiam olhares sem gula. Mulheres meneavam as cabeças, em sinal de reprovação. Um travesti, saído ninguém sabe de onde, bradava: “É isso aí, vovó. É preciso escandalizar os moralistas!”

— Pela primeira vez na vida, Mafalda, minha velha, amor de uma vida inteira, peço aos céus para que um tomara-que-caia não caia. Ninguém merece. Nem mesmo esse velho Lobo do Mar, pecador por pensamentos e ações, mas sempre por boa causa: T.

E o Velho Marinheiro mais não disse. Entornou o aperitivo e o chope. Pediu mais uma rodada e um cascão com três bolas para Mafalda. Agradecido aos santos, que os pouparam de quadro dantesco: o tomara-que-caia não caiu. Ao menos na frente deles.

Mas Mafalda não deixou por menos:

— Você é um canalha. Vá catar seu bicho de pé, esclerosado.

O Velho Marinheiro deu de ombros. Pediu uma porção de porquinho. E mais um cascão, agora de uma bola só, para Mafalda, amor de uma vida inteira etc.

Ganhou um selinho.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Assessor sofre

— Excelência: eu sei que o senhor e seu grupo são chegados a negócios escusos e em recursos não-contabilizados. Sei também que querem sair bem na imprensa, como os paladinos da ética e moralidade. Só que ninguém é besta; as informações correm. Um dia a casa cai. Não dá para ter – e ser – tudo ao mesmo tempo. Não dá pra fazer mágica. Sejam corretos, trabalhem com seriedade.

— Você está me dizendo que sou como eles – os canalhas que critico?

— Não, não. Sei que uns são piores que os outros. O senhor (tome isso como elogio) está no volume morto.

— Meu caro, então saiba: antes que a casa caia, quero encher os bolsos. Se você não tem competência para trabalhar minha imagem da forma que mereço – a melhor, pois mereço a melhor imagem, lutei contra a ditadura etc. –, arrume outra ocupação. Está demitido. Uma despesa a menos para o gabinete. A economia terá boa destinação.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Adolfo & Guiomar

Ele pediu uca, cerveja estupidamente gelada, porção de torresmo e dois pãezinhos; ela, o de sempre: cascão com três bolas de sabores distintos e coberturas variadas. Antes que o pedido chegasse à mesa, Guiomar disparou:

— Você está gordo que só, não pára de beber e comer. Vai explodir. Seu fim será triste.

Adolfo devolveu de “prima”:

— Você não terá final menos glorioso, acalme-se.

Mesa posta, entre goles, mastigares e lambidas, Adolfo e Guiomar observavam com especial atenção o vai-vem dos banhistas. Nada escapava aos olhos míopes do casal, em especial as barrigas medonhas, peitos caídos, varizes e celulites que desfilavam pela orla.

Antes de dar fim ao cascão gigantesco, Guiomar não deixou por menos:

— Já notou como o povo está gordo, imenso mesmo? Que absurdo!

Adolfo balançou a cabeça afirmativamente. Pensou em dizer a Guiomar: “Não estamos melhor que eles”. Preferiu pedir nova rodada. Comprar briga para quê?

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

 

 

Conversa de ônibus: uma história de amor

Impossível não ouvir, que bom ouvir!

Quase duas horas de viagem, eles não paravam de conversar conversa deliciosa, nos bancos de trás. Eles comentavam a paisagem, as notícias do dia, falavam – lúcidos, serenos, apaixonados – sobre tudo. Tinham, salvo engano desse contador de boteco, 190 anos de amor.

Melhor tirar os óculos para perto, fechar o livro: hora de aprender.

Lá pelas tantas, ele disse:

— Acordei duas e meia, pensei em chamar você, resolvi não incomodá-la.

E ela lhe disse, feliz da silva:

— Bobagem. Você nunca incomoda.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

Inventário

A velha se foi.

Deixou saudade miúda. Ninguém ameaçou cortar os pulsos. Sempre foi chata. Esse demérito ninguém lhe tira.

Missa de sétimo dia rezada, hora do acerto: como dividir o “espólio” entre os quatro filhos?

A velha se casara uma vez só; o velho, duas. Problema. Do primeiro casamento, o velho trouxe dois filhos. Que casaram e produziram filha única cada um. Na ponta do lápis, o que se tinha eram quatro netas e dois netos. E quatro joias ordinárias: dois pares de brincos, duas correntes de feira.

A irmã mais nova, já com seus 50 e tantos anos, tentou argumentar:

— A mãe tinha quatro netas. Justo dar uma lembrança pra cada uma das meninas.

— Você é louca? – rosnou a mais velha. Eles são irmãos só por parte de pai. Logo, as meninas deles não são tão netas como nossas filhas. E tem mais: a panela de pressão que a mãe deixou é minha.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

 

Os gemidos de Nélson Rodrigues

O criador do moderno teatro brasileiro, o polêmico e genial Nélson Rodrigues, foi ele próprio um grande personagem. Sua vida pessoal foi marcada por inúmeros percalços: teve o irmão, também jornalista, assassinado; o pai, por conta da morte do irmão, logo se foi; a tuberculose o mandou diversas vezes para sanatórios; a úlcera não lhe deu tréguas… Mesmo assim, Nélson Rodrigues trabalhou feito mouro, escreveu inúmeras peças de teatro, crônicas e tudo o mais que fosse preciso escrever para garantir a subsistência da família.

Sua trajetória, em detalhes, está descrita em “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro. Um livro que deve – mais que lido – ser degustado, pela riqueza de informações e pela qualidade do texto. É dele que retiro a historinha que segue.

Durante três meses, Nélson ficou “internado” na sala de sua casa, já que se recusava a voltar para o hospital onde fora operado da vesícula e para o qual fora levado outra vez por conta de complicações do pós-operatório. Vivia cercado de gente: familiares, vizinhos e parentes. “Durante o dia, o ‘quarto’ de Nélson tinha uma plateia de FLA-FLU”, escreve Ruy Castro.

Nas raras vezes em que ele ficava só (tinha medo de morrer sozinho), narra Castro, Nélson apelava em tom dramático para a sogra:

— Dona Concetta, fique comigo. Venha me ouvir gemer.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/